Gravei o processo todo, desde o momento em que selecionei um gênero aleatório, e quando montei o outline/escaleta (normalmente não faço isso para contos, mas a ideia era mostrar meu processo criativo de forma divertida), até quando terminei de escrever o conto.
Esse foi o outline/escaleta:
1. B pergunta se A esteve bebendo de novo. B avisa A para ser respeitoso com a mata, A jogando lixo na mata durante uma acampamento, logo antes de sair. A diz que vai voltar logo e pede para ter comida pronta quando chegar em casa.
2. A voltado para sua caminhonete, quando percebe uma bifurcação na trilha. Não se lembra de existir aquilo ali, e a segue por um instante, até ter um mau pressentimento e dar a volta. Quando ele volta, percebe que a trilha sumiu. Felizmente, ele acha o caminho de volta, não estando muito longe da trilha original
3. De volta à caminhonete, percebe que há 2 carros, mas um deles é estranho, a grade frontal não é furada, o farol parece molhado... ele entra no próprio carro e vaza.
4. A rua adiante se divide em várias e várias outras ruas, que seguem em direções nada a ver. A se cagando todo, tnetando se lembrar qual é a entrada certa.
5. A ve uns prédios lá adiante, e volta à cidade. Ele direge pelo centrinho, depois em direção a zona residencial, e até a própria casa.
6. A chega em casa, se senta a mesa, nervoso. B pergunta se A esteve bebndo de novo. A grita com ela, e pede a comida. B vem a mesa com um prato cheio de nojeiras. Repete a primeira fala. A olha para B e vê o rosto dela como se fose desenhado no próprio rosto? Tudo pega fogo
7. Noticiario de A morto afogado no acampamento suspeita de que estava pescando bebado?
Sim, eu não nomeio os personagens antes de escrever a história. E nesse caso em particular, eu não os nomeei nem na história.
Eu também não me importo em corrigir qualquer erro de portugues no outline, e me permito bastante flexibilidade para divergir desse plano.
E o resultado, depois de umas correções, foi o seguinte:
Caminhos
— E então, homem, vai trazer quantos peixes para casa? Posso ir comprar os temperos para o ensopado? — Ela perguntou do outro lado da linha telefônica.
— Que mané ensopado o que, mulher! Os peixes que eu pesquei, eu já comi. Você pode muito bem é ir comprar um bife, que agora eu quero é carne de verdade.
— ...Homem, você esteve bebendo de novo? Você prometeu que iria parar.
— Eu não bebi foi nada, mas conversar com você me dá mesmo vontade de encher a cara — ele respondeu, encarando o recipiente de isopor que deveria conter os peixes para o almoço cheio apenas de latinhas de alumínio amassadas. Concluiu por entre dentes trincados: — Tô voltando agora, e é bom que a comida esteja pronta quando eu chegar aí.
— T-Tá bom. Mas pelo menos tenha certeza de tomar cuidado no caminho de volta, e não deixar sujeira para trás em.
Antes que sua esposa pudesse continuar a dizer-lhe o que fazer, o homem encerrou a ligação, revirando os olhos.
Mesmo no tempo que levou para dobrar o banco portátil, e desmontar a vara de pesca, sua cólera não suavizou-se numa fração sequer, porém.
— Diacho! — Chutou o isopor, arremessando estilhaços de plástico e latinhas de cerveja contra a correnteza que não lhe serviu um único fisgado.
Bufando e carrancudo, seguiu de volta à trilha que o trouxe ali. Sua caminhonete não estava muito longe, e se tivesse a sorte de não pegar trânsito, poderia chegar em casa a tempo do noticiário, quando teria um almoço quentinho à sua espera.
— Mas ué? — se perguntou, percebendo uma nova bifurcação na trilha que já havia feito tantas vezes antes. — Será um ponto de pesca novo? Não percebi enquanto vinha para cá.
Curioso e com esperanças de recuperar parte de seu orgulho ferido se conseguisse pescar alguma coisa num ponto diferente, o homem seguiu a nova trilha.
Ou alguns passos dela, ao menos.
— Bah, se eu perder mais um minuto sequer aqui, não vou conseguir evitar o trânsito — disse.
Quando deu meia volta e se viu isolado no meio da mata densa.
— M-mas o quê?! A trilha, a trilha nova estava bem aqui, só há um segundo atrás?! — O homem girou sobre os próprios calcanhares, procurando qualquer sinal da terra batida que o trouxe até ali, mas encontrando apenas folhas mortas, galhos podres e pedras cobertas de musgo.
Sentindo um calafrio na espinha, firmou os pés no chão e prestou bem atenção nos seus arredores até achar seus próprios rastros, e seu caminho de volta à trilha original.
— Diacho... Eu prometo mesmo que não vou mais beber — o homem comentou, limpando suor da própria testa enquanto seguindo de volta ao seu carro.
Não demorou para alcançar o veículo, mas demorou-se para subir ao assento do motorista. Afinal, havia duas caminhonetes idênticas onde deveria haver uma só estacionada.
Não, não eram idênticas.
— Mas o que é isso...? — O homem analisou os faróis de um dos carros, mas estes eram úmidos, analisou suas rodas, mas estas pareciam blocos sólidos e sem partes móveis. — Cré em Deus pai todo poderoso...! — Começou a rezar, recuando até o carro, o qual estava certo que era seu.
Não preocupou-se em pôr o sinto ou ligar os faróis: simplesmente acelerou, querendo deixar aquela mata assim que possível. A mesma mata a qual já havia visitado tantas vezes antes, imaculada, sempre lhe pareceu como um pedaço do paraíso, mas então...
— É escuro. É muito escuro, é muito barulhento, é muito quente! — Listou tudo o que lhe parecia de repente hostil. — Esses malditos mosquitos, desgraçados! — encobriu seu pavor com raiva enquanto dezenas, centenas de insetos se espatifavam contra seu para-brisa à medida que acelerava mais e mais.
Eventualmente foi forçado a parar, porém.
— Era... Era aqui minha entrada? — perguntou-se. — Sempre foi aqui? — Encarou bem a estrada de terra batida que cortava a mata densa, cada vez mais densa, como se lentamente fechando ao redor do homem. — Diacho! — Tornou a acelerar.
Passou por mais uma e mais outra e ainda mais outra e outra e tantas outras bifurcações, encruzilhadas e desvios, mas nunca parou de acelerar. Algumas daquelas estradas afundavam em túneis repentinos, outras levavam para debaixo do rio, e ainda outras aumentavam e diminuíam de largura enlouquecidamente, como se tivessem sido desenhadas no chão por uma criança.
Mas ele não parou de acelerar. Sabia que elas não eram reais, que elas não poderiam ser reais.
— Então qual? Qual?! — Se perguntou, analisando cada uma das dezenas, centenas de possíveis estradas que se desviavam daquela que ele seguia.
Seu coração batia forte e seus olhos já enxiam-se de lágrimas quando o homem finalmente viu um sinal no qual podia confiar: prédios brotando à distância, por cima das copas das árvores.
Seguiu o caminho que levava à civilização sem pensar duas vezes.
Dirigiu pela BR, pela geral, e depois pelo centro comercial desimpedido. Chegou em casa exausto, mas aliviado.
— Homem, você esteve bebendo de novo? Você prometeu que iria parar — sua esposa comentou quando ele passou por ela e atirou-se no sofá.
— Vá para a merda com essa conversinha, viu! Só me traz logo o almoço, mulher — o homem reclamou, alcançando o controle da TV, e tentando encontrar algum canal que não fosse só estática.
— E então, homem, vai trazer quantos peixes para casa?
— O quê? Você tá vendo algum peixe, por acaso?
— Posso ir comprar os temperos para o ensopado? — Lá veio a mulher, carregando um prato.
— Eu já te disse! — O homem tornou-se para a esposa e o prato pútrido de peixes em decomposição que ela lhe oferecia. — Eu já te... disse... — Lentamente subiu os olhos até seu rosto.
E viu um nariz sem narinas, uma boca sem garganta, dentes que eram como uma única placa sólida, olhos que não exatamente o encaravam, mas apenas olhavam para frente.
O homem tentou gritar. Mas já era tarde. A água do rio enchia seus pulmões.
*
Como sempre, o conto vai estar disponível na minha página de "DOWNLOAD".

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