Tudo é propaganda, a internet está concentrada nas mãos de apenas uma dúzia de sites, e mais da metade de todo tráfego online atualmente é feito por robôs. E talvez essas sejam as melhores notícias dos últimos tempos em relação à World Wide Web.
Primeiramente, é claro que eu não apoio nada em relação a inteligências artificias generativas, eu acredito que nada do que elas produzem pode ser considerado cultura, e além disso, a centralização da internet nas mãos da Alphabet, da Meta, da Amazon, do Reddit, do “X” (antigo Twitter), e outros, bem como a ascenção dos sistemas algorítmicos que regem essas plataformas, é uma coisa que me entristece grandemente. Dito isso, eu acho quase poético que esses grandes impérios digitais, em sua cobiça infinita por dados pessoais e pela retenção de tempo, tenham produzido ambientes tão altamente porcos, desleixados, tóxicos, que é quase impossível se sentir bem os usando.
Digo, a prática do cultivo de ódio, nojo, e outras emoções negativas é uma estratégia viável e muito bem documentada nesses espaços, e existem exércitos inteiros de pessoas e robôs cujo único propósito é espalhar desinformação através dessas redes.
Não só isso, uma cultura de constante perseguição de tendencias e de consumismo desenfreado satura qualquer ambiente digital e o reduz a pior versão de si mesmo; neles, as únicas obras de arte que valem a pena ser apreciadas são as mais populares do momento (que também, provavelmente, são as que mais investiram dinheiro em propagandas); neles todo mundo edita seus vídeos da mesma forma, escreve seus roteiros da mesma forma, e repete as mesmas opiniões. Isso se é que dão qualquer opinião sobre o produto patrocinador em primeiro lugar, e não fazem apenas uma descrição longuíssima do produto em questão.
Recentemente, o YouTube só me serve para assistir aqueles velhos canais que acompanho a tempos, canais de creepypastas, de interpretações de capítulos novos de Berserk (384, 385, 386 foram incríveis 🔥), e podcasts de ciências (vira e meche recebo alguma recomendação interessante, como o vídeo “A bizarra e encantadora jornada de Black Souls” do “Otaku Sem Limite”, mas é muito raro); e só uso redes sociais ainda para manter contato com meus amigos, porque é tudo propaganda ou brigas desimportantes.
Em outras palavras, a internet convencional me parece estar alcançando um ponto crítico, onde é muito mais difícil, para mim e muitos outros, encontrar memes, artigos, vídeos, qualquer conteúdo de qualidade.
Na internet convencional, isso é.
Porque existe uma outra internet; e eu não falo de uma darknet para comprar crack online não. Falo da “indie web”, ou “small web”, a contracultura online cujo foco são sites pessoais possuídos por indivíduos em vez de corporações... você sabe. Os blogs.
O valor de entretenimento, de reflexão, e artístico contido em cada um desses blogs não pode ser subestimado, cada um com sua própria estética, gosto, língua e visão de mundo diferente.
Só para destacar algumas das experiências incríveis que tive nesse lado da internet recentemente:
l “Fuck Artists!”, do site “n0thanky0u”, compara a ideia do copyright e da “propriedade intelectual” com a da propriedade privada, compara o artista com o senhorio, e faz previsões de possíveis implicações dessa relação no mundo real, e realmente me fez pensar e pesquisar bastante sobre o assunto.
l “Contra-cultura analógica”, do blog “A Grande Onda”, foi um post tão bom sobre outra possível via de escape da internet convencional, que literalmente me levou a baixar o livro “A Contracultura” de “Theodore Roszak” (e a propósito, estou gostando bastante da leitura, mas estou muito no comecinho ainda).
l “O fim do TV Time e a necessidade de ter um local próprio com nossas memórias”, do blog “Margem Viva” discute as desvantagens de usar de sites terceiros para registrar suas experiências com mídias consumidas, e sugere o uso de sites pessoais para fazer isso, e eu concordo completamente; não apenas faço a mesma coisa (LISTA DE JOGOS, ANIMES, MANGÁS, LIVROS), como também gostaria de adicionar que o “Skoob” (que já era ruim), de uns anos para cá ficou uma bosta só, e é muito melhor listar seus livros lidos num blog mesmo.
E é claro, nem todo esse conteúdo precisa ser “sério” (eu mesmo tenho uma regra pessoal de não me esforçar muito aqui a fim de não me cansar desse hobby).
l O blog “Ah Negão!” é focado em humor, e eu o acompanho há vários e vários anos, e nunca houve uma única vez sequer que eu abri esse site e passei raiva.
l “Caderninho” é um blog no estilo diário, bastante despretencioso e que eu visito porque acho o ambiente bonito e aconchegante.
Enfim, eu acredito que, dado tudo isso, o ressurgimento de movimentos de bloggagem, de resgate de mídias físicas e até dos próprios visuais do “futuro que nos foi prometido” (por mais que a autenticidade e relevancia desses “movimentos estéticos” sejam discutível) não é impossível imaginar que a internet esteja se reorganizando e solidificando em duas partes, entre o convencional (composto por essa meia dúzia de grandes plataformas, porque eu não acho que as big techs vão simplesmente acabar), e uma contra-cultura mais pessoal, desacelerada, e (eu espero) menos preocupada com monetização.
...Ou ao menos, eu espero que as coisas se desenvolvam assim, eu desejo isso. Interagir com a internet dessa forma é muito mais recompensador do que muita gente imagina, tanto para quem produz esse conteúdo, quanto para quem o consome.
Você assistiu um filme antigo e gostaria de falar sobre, mas ele não é favorecido pelos algoritimos da internet convencional? Pois você tem espaço para discuti-lo no seu blog!
Tem uma opinião impopular sobre alguma coisa, mas sente não ter espaço para expô-la? Pois você tem no seu blog!
Então, crie um blog. AGORA.
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E se você já tem um, sinta-se livre para deixar o nome nos comentários! :)
Fontes (tá mais para "inspiração", mas fds):
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