“World building” ou “construção de mundo”, segundo a Wikipédia, é “o processo de construção de um mundo imaginário, muitas vezes associado a todo um universo fictício.” Para o público consumidor, o termo também é frequentemente usado alternadamente com “lore” ou a “história do mundo”. Se você tem o menor interesse em contar histórias, você provavelmente já ouviu o termo antes.
E se esse é o caso, você provavelmente também já se deparou com vários canais do YouTube, Subreddits, artigos, e até cursos inteiros e muito mais sobre o tópico; conteúdo com títulos parecidos com “como nomear seus países,” ou “como criar línguas imaginárias,” ou “geografia para world building,” ou ainda coisas muito mais nichadas como “porquê reptilianos DEVEM/NÃO DEVEM ter peitos.”
E tudo isso é muito bacana e divertido é claro, tanto para os fãs da obra quanto para seus autores, mas...
Worldbuilding não vai salvar sua história.
Calma, calma, eu não estou rejeitando os ensinamentos do seu escritor ou roteirista favorito, nem esnobando o esforço de ninguém, tá bom? Então, antes de deixar um comentário falacioso nesse post, me escuta: worldbuilding não vai salvar sua história, porque worldbuilding não é enredo.
Vamos voltar às definições. Enredo, de novo segundo a Wikipédia, é: “a cadeia de eventos onde cada acontecimento afeta o próximo através do princípio de causa e efeito.”
Em outras palavras, pode-se dizer que, numa história, enredo são as ações que o consumidor acompanha; os diálogos, pensamentos, e ações de personagens e coisas.
Então, quando Personagem A esbarra em Personagem B, e ambos se apaixonam na conversa consequente, isso é enredo. Agora, quando é narrado que a cidade onde isso aconteceu é famosa por ser muito inclinada devido a um terremoto que repentinamente ergueu a região, isso é world building; foi criado um lugar fictício com sua própria geografia e eventos os quais o consumidor não acompanhou.
E numa história funcional, ambos esses elementos narrativos compartilham o mesmo texto em harmonia.
Para usar o mesmo exemplo de antes, Personagem A, depois de esbarrar em Personagem B, poderia dizer: “Eu sinto muito por isso. Eu ouvi dizer que essas ruas seriam inclinadas, mas não esperei que seriam tão inclinadas;” para o que Personagem B poderia responder: “Não é culpa sua, a cada novo terremoto, a cidade fica um pouco mais torta.” Dessa forma, uma ação leva a reação que, nesse caso, é a explicação do passado dessa cidade; é enredo e worldbuilding ao mesmo tempo.
Mas não vamos ficar tão presos em definições ou na miríade de elementos narrativos e como eles podem ou devem interagir. Não, eu dei todas essas voltas para que o seguinte fique claro: com a exceção de conteúdo do gênero de enciclopédias fictícias, cenários para RPGs, e horror de baixa qualidade para crianças, a grande maioria esmagadora de consumidores não consome histórias devido ao seu worldbuilding, mas ao seu enredo.
Alguns dos exemplos favoritos de criadores que se focam quase exclusivamente em worldbuilding são: Senhor Dos Anéis, e As Crônicas de Gelo e Fogo, The Elder Scrolls e Fallout, o nasuverse e One Piece... Mas eles parecem se esquecer de que todos esses trabalhos possuem, também, enredos maravilhosos!
Inclusive, o autor d’As Crônicas de Gelo e Fogo, que possui um livro inteiro que fala exclusivamente da história desse mundo, já disse em entrevista que ele sequer havia pensado em boa parte dessa lore antes de escrever sua enciclopédia fantástica; uma parte significativamente grande do worldbuilding de George Martin é encheção de linguiça que ele inventou porque uma ilustração do mapa do seu mundo estava vazia demais.
Um dos autores e criadores de mundo mais geniais de sua geração, como pode Geroge Martin não ter considerado cada país, cultura, e ponto geográfico do seu mundo? Porque não era necessário ao enredo: nenhuma interação ao longo da crônica precisava que essas coisas existissem.
E o mesmo se aplica a tantas outras grandes histórias. Agora, é claro que há exceções, exemplos de histórias bem-sucedidas cujos criadores primeiro pensaram num mundo extremamente vasto, e depois em enredos para explorá-lo, mas elas não passam disso, exceções. E é assim pelo mesmo motivo pelo qual você, provavelmente, nunca leu sobre a história do Suriname, ou do Djibuti, ou do Vanuatu, ou se leu foi devido a algum evento acontecendo lá... porque é preciso, primeiro, se importar com um lugar para depois querer explorá-lo.
Em outras palavras: se você não tem um enredo interessante, ninguém vai querer aprender sobre o mundo que você criou, não importa o quão complexo ou vasto ele seja.
...Vale a pena frisar, porém, que gêneros como enciclopédias fantásticas existem. É perfeitamente possível fazer apenas a criação do seu mundo e nada mais, se é apenas isso que você gosta de fazer. E honestamente? Isso é muito melhor do que seu típico épico genérico, publicado aos milhares na Amazon todos os dias.
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