Quando falamos de “propaganda política”, já logo nos vêm a mente velhos cartazes de guerra ou filmes que separam muito rigorosamente os mocinhos dos vilões, o país X do país Y, mas a verdade é que essa é uma forma muito reducionista de se compreender essa industria. Para começo de conversa, ela não entra em períodos de hibernação em tempos de paz, e volta a ativa em tempos de guerra. E o mais importante para esse post, ela não apenas gira em torno de conflitos armados internacionais.
Por exemplo, você sabia que a França, país líder em turismo, investe cerca de 18.7 bilhões de euros (cerca de 109,9 bilhões de reais no presente) nessa área anualmente? Ou que esse país conseguiu cravar uma imagem tão marcante no imaginário mundial, que existe até um fenômeno categorizado pela decepção extrema que alguns turistas sentem ao explorar o país pela primeira vez e perceberem que ele é só um Estado normal?
E é claro, às vezes, a propaganda pode não ser tão inocente quanto simplesmente fazer todo mundo pensar que um país é o mais bonito do mundo. Às vezes, ela serve também para fazer você pensar que seu pais é o mais feio do mundo.
Nessa postagem, eu vou abordar algumas dessas propagandas que já se tornaram “conhecimento comum”, e espero esclarecer o porquê delas não fazerem realmente muito sentido.
Começando por:
1) Países colonizados não têm cultura própria:
Esse argumento utilizado para diminuir a significância cultural de antigas colônias é geralmente baseado na ideia de que nem a cultura do país colonizador, nem a cultura de outros imigrantes, pertencem à antiga colônia em questão. Então, por exemplo, não existe “arquitetura colonial brasileira”, existe “arquitetura portuguesa,” ou então, não existem "gêneros musicais brasileiros," já que esses por sua vez, têm raízes em outros países e culturas. Porém, essa lógica faz uma suposição falha.
Ela ignora os fatos de que conhecimento humano é cumulativo e nada surge num vácuo; é a partir do contato entre diferentes realidades que nasce o novo, e não espontaneamente e do nada. Então, se um país com histórico imperial, como a França, por exemplo, pode orgulhosamente clamar o Champagne como símbolo cultural nacional, apesar de ele ser um tipo de vinho, bebida inventada na atual Geórgia, ou ainda a Itália se auto-declarar autoridade suprema em tudo relacionado à pizzas, apesar do molho de tomate ser originalmente ameríndio, por que que não poderia o Brasil reivindicar o “xis”, ou o podrão, ou também a pizza, ou ainda qualquer outra coisa que acabou nesse lado do mundo como cultura nacional? Isso não seria, afinal, historicamente falando, mais ou menos arbitrário do que tantos outros símbolos nacionais estrangeiros.
2) Países X são jovens demais
Enquanto parcialmente verdadeira, já que como os Estados como conhecemos hoje em dia, muitos países são de fato bastante “jovens”, essa é uma afirmação especialmente cínica, ainda mais quando acompanhada por informações extra, como “no meu bairro tem um bar mais velho que seu país inteiro” ou coisas do tipo. E eu digo isso porque ela é geralmente feita por pessoas do continente europeu, e de novo geralmente direcionada às antigas colônias... que ficavam em territórios que foram destruídos e tiveram suas populações massacradas por poderes imperiais desse mesmo continente.
Então, sim, um espanhol pode falar que tem um prostíbulo em sua rua mais velho que os Estados Unidos, mas também é verdade que o assentamento indígena de Oraibi é continuamente ocupado pela cultura nativa desde antes da reconquista, há mais de 900 anos. A verdade é que o único motivo pelo qual muitos países hoje em dia são tão novos, é porque invasores exterminaram cerca de 90% de suas populações originais e transformaram seus territórios e populações de forma irrecuperável.
Resumindo: se você pode incendiar a casa de uma família que mora ali há 500 gerações humanas, e os novos ocupantes do terreno têm de erguer uma nova moradia, então não é impensável que sua casa é mais velha, mas é definitivamente uma inverdade que ela tem “mais história ou cultura.”
3) Países X contribuíram mais científica e culturalmente do que países Y.
A empresa francesa Michelin concede que a França tem o maior número de restaurantes de três estrelas Michelin, logo o país tem a melhor culinária do mundo. O Estado monárquico constitucional inglês é especialmente orgulhoso de seu passado cavalheiresco, como aparente em tantas obras de ficção, logo, sua fantasia medieval nacional é a mais interessante do mundo. E os gumbunianos de Forbs-14 se orgulham de respirar dióxido de carbono puro, que lhes fortalece os órgãos xulorg-frontais, logo eles têm a melhor atmosfera do universo... Não, espera aí. Tem algo de errado com essa lógica, não?
Ah, é mesmo. Não faz sentido avaliar o valor de uma cultura baseando-se nos ideais de uma outra cultura completamente diferente. De fato, uma casa brasileira seria terrível na Sibéria, mas nós não precisamos que nossas casas sejam ideais para aquele clima, não é? Então por que fazer esse tipo de comparação em tantos outros ramos da produção humana e cultural nacional?
Dito isso tudo, eu quero deixar claro que não é minha intenção ofender nenhum estrangeiro, e por mais que eu tenha focado esse conteúdo em coisas adjacentes à visão europeia, eu sei bem que os países do velho mundo são lindos, têm uma ótima culinária e são tão cheios de boas pessoas quanto qualquer outro lugar do mundo.
De verdade, eu espero apenas ter trazido à tona algumas inverdades depreciativas ou autodepreciativas que são muito comuns de se ver, mas que realmente não fazem sentido. E como um cidadão brasileiro, é claro que estou bem ciente dos mil e um defeitos do meu próprio país e cultura também; porém, eu não acho que estes nascem de orgulho em excesso, logo, escrevi essa postagem.
Se gostaram, deixem um comentário, compartilhem, e chequem o resto do meu conteúdo! Tem muuuuito mais aqui no blog, posts sérios e não-sérios.
Fontes:
https://www.atout-france.fr/en/tourism-frances-economy
https://en.wikipedia.org/wiki/Paris_syndrome
https://www.notesfromthefrontier.com/post/america-s-earliest-cities-were-native-american-spanish
Nenhum comentário:
Postar um comentário