Mas quais as bases para esse argumento? Ele possui exemplos? Quais os contrapontos para essa visão de mundo? E não menos importante, o que podemos aprender com tudo isso?
Bases da crítica:
Para que essa discussão sequer faça sentido, eu preciso deixar algumas coisa claras; eu não vou usar um argumento espantalho aqui, como por exemplo aceitar uma “crítica” que põe a existência em si de minorias em histórias de ficção como uma falha inerente; então pontos racistas, homofóbicos, xenofóbicos, e similares não vão ser levantados, pois não apenas eles são falácias lógicas, como eu também acho imoral tratar essa visão de mundo como algo sequer discutível, legítima. Em outras palavras, eu vou tentar realmente levar a sério a ideia de que ficção mais igualitária é pior do que seu oposto, e vou usar os melhores pontos levantados nessa discussão.
Dito isso, alguns dos pontos que parecem ser mais repetidos em críticas a essas obras de ficção são: revisionismo histórico, quebra de imersão, exibição de superioridade moral, personagens difíceis de se simpatizar, senso estético “brega”, e narrativa com um “ar corporativo”.
Exemplos populares:
l Qualquer série ou filme que troque a raça de figuras históricas reais (Bridgerton, Rainha Charlotte, etc.);
l O videogame Concord;
l E o filme Matrix Revolutions.
Síntese da crítica
Certo, mas o que isso tudo sequer quer dizer?
A meu ver, parece que os críticos mais sensatos de narrativas mais heterogêneas as desprezam, em essência, devido a limitações autoimpostas (por parte dos autores) de contexto; isso se torna especialmente evidente quando você passa a notar o uso abusivo da palavra “agenda” nessas dissertações. Ou seja, eles veem essas histórias como sermões em primeiro lugar, e narrativas em segundo.
Contrapontos
Permitam-me, por favor, citar o trecho de uma obra com envolvimento de um artista muito focado em causas sociais, com até mestrado em “História Social”:
Eu 'tava com meus mano' lá na minha quebrada
Chegou o Wanderley e veio dar ideia errada
Ele virou pra mim e fez a proposição
Orgia de traveco com scat de montão
-Banda UDR
Eu realmente espero que essas quatro linhas tenham explicitado o fato de que não é inerentemente necessário que algo seja super politicamente correto para passar uma mensagem de liberdade e igualdade. Mas só para caso isso ainda não tenha ficado claro o suficiente, seguem mais alguns outros exemplos de trabalhos muito famosos e muito cheios de garra feito por artistas de visão de mundo similar:
l As Crônicas de Gelo e Fogo (Game of Thrones), por George R.R. Martin;
l O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final, por James Cameron;
l Dororo, por Osamu Tezuka.
Certo, mas mesmo que isso seja entendido, resta a pergunta: por que, então, alguns autores insistem em cirar “Steven Universe” em vez de “Eles Vivem”?
E a respostas para isso são, primeiro: porque esses autores são indivíduos, e enquanto eles podem ter interseções entre seus ideais e visão estética, não necessariamente eles compartilham estas coisas em sua totalidade.
E segundo: por conta do conceito de “público alvo”. Nem tudo é criado para atender os meus gostos, ou os seus gostos, algumas coisas são criadas pensando em outras pessoas, simplesmente. E isso não significa que esse público em questão tenha um gosto inerentemente pior ou melhor que o de qualquer outra pessoa, e não gostar dessas obras também não significa necessariamente discordar da filosofia por trás delas.
Por exemplo, não é preciso ativamente ler histórias yaoi m-preg omegaverse pesadonas para não ser homofóbico. Mas essas obras não são necessariamente ruins só porque apelam para um público específico. Pensa assim: você é fã de bolos de chocolate, e na padaria você encontra um bolo de canela. Significa que esse bolo foi mal assado só porque ele não é do seu sabor favorito? Não, né. E não só isso, mas você acha que o confeiteiro que assou esse bolo quer a extinção dos bolos de chocolate? Também não, eu acredito. Ele só está atendendo a demanda de pessoas que amam canela e não ligam para chocolate. Às vezes sequer existe uma interseção entre gostos aí, às vezes sequer existe conflito... Ao menos, na maioria das vezes.
E é aí que a gente finalmente toca no assunto mais cabeludo, quando uma falta de contexto gera de fato conflitos.
O que podemos aprender?
Para usar de exemplo o meu mundo de fantasia favorito de todos, no mundo de The Elder Scrolls, no continente Tamriel, algumas das figuras mais famosas e amadas desse mundo são LGBT+; no caso o deus vivo e um dos líderes supremos da nação de elfos negros, Vivec, é intersexo e chega até a narrar com orgulho como ele dormiu com um príncipe demônio (simplificando) entre outras coisas; e também temos Pelenial Whitestrake, um guerreiro crusado, ciborgue homossexual do futuro. Não só isso, a fundadora do império que unificou o continente era uma mulher e escrava, então é um mundo de fantasia com um elenco de personagens bastante diferenciado e vibrante, certo?
Pois bem, um MMORPG foi feito se passando nesse mundo, escrito e desenvolvido por um estúdio não relacionado aos principais jogos da franquia. E como um grande fã de TES, eu joguei o game e... fui pego de surpresa quando, uma das primeiras missões que eu fiz foi uma em que o jogador resolve a disputa entre um pai e uma filha iniciada porque ela é lésbica. Tipo, desde quando ser gay é um problema nesse mundo, sabe? Literalmente, alguns dos DEUSES criadores desse mundo trocam de gênero como bem entendem, e figuras queer têm assumido posições das mais altas na sociedade desde sempre.
Eu não vou dizer que é impossível criar essa narrativa no mundo de The Elder Scrolls, pois se tratando de ficção, nada é impossível, mas o designer de narrativa dessa missão não se deu ao trabalho de criar esse contexto.
É aquela velha, veeeelha história do aventureiro cadeirante de novo, uma discussão que existe desde que eu me lembro por gente: “faz sentido que alguém jogue uma campanha de RPG como um cadeirante?” Pessoalmente, eu acho essa uma pergunta de má-fé, pois ela é estruturada a fim de fazer o questionado parecer uma pessoa ignorante independentemente da resposta. Como eu disse antes, se tratando de ficção, nada é impossível. Mas contexto é necessário sempre, e não só para questões de inclusão, mas é uma regra básica de narrativa. Digo, essa não é uma pergunta diferente de: “faz sentido jogar como uma sereia?” Depende, mano!
Ainda usando o exemplo do cadeirante: num cenário onde o vilão também é cadeirante, e por isso seu quartel-general é projetado com acessibilidade em mente, faz todo o sentido. Num cenário onde o player está preso dentro do mundo 2D de Super Mario Bros e tem que saltar as plataformas, não. E mesmo nesses exemplos é possível pensar num milhão de exceções para qualquer lado.
Então eu repito pela terceira vez: se tratando de ficção, nada é impossível. Mas contexto é necessário sempre.
Conclusão
“Woke”, “inclusão”, “diversidade” ou como quer que você classifique um elenco de personagens bastante heterogêneros, ou as filosofias que os autores que escrevem essas histórias carregam não são venenos narrativos, nem nunca foram. Na maioria das vezes, há apenas uma falta de entendimento por parte dos consumidores do conceito de público-alvo. E mesmo quando há de fato conflito com o público alvo, não é uma questão ideológica a responsável, mas sim uma questão de má implementação de técnicas narrativas universais (então, sim, você vai encontrar várias pessoas que avidamente defendem liberdades individuais de sexualidade, religião e mais também criticando produções como Concord).
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Ou ao menos, é isso que eu penso. Se você concorda comigo, discorda de mim ou só gostaria de deixar algo registrado mesmo, ou ainda tem uma sugestão de assunto para se discutir, sinta-se livre para usar a sessão de comentários. Tenho muito mais conteúdo bacana no blog também, se você gostou do post e quer ler mais do meu conteúdo.
Obrigado por ter lido até aqui, até a próxima. Tchau!
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