Recentemente, um caso envolvendo um certo cosplayer em um certo evento de livros gerou muita polêmica devido ao comportamento de alguns dos envolvidos e, consequentemente, levantou (mais uma vez) a atenção do público geral em relação principalmente a leitoras e escritoras de livros com conteúdo de natureza erótica.
Agora, se você pensa que eu estou aqui para criticar essas mulheres, você não poderia estar mais enganado. Não, na verdade, eu acredito que é perfeitamente normal e saudável engajar com esse tipo de literatura. E sim, esses livros são literatura também, independentemente das cenas de sexo explícito que eles contêm.
Começando pelo óbvio, muita gente critica esse nicho dizendo que ler livros com lobisomens bilionários pauzudos vai derreter seu cérebro e vai alterar sua percepção da realidade... E de forma engraçada, essas mesmas pessoas vão defender que é perfeitamente seguro jogar games violentos, ou assistir a filmes sobre criminosos porque elas conseguem distinguir a ficção da realidade, aparentemente incapazes de perceber a ironia na contradição dos seus argumentos.
Agora, eu não vou negar que a ficção influencia sim seus consumidores, isso é um fato muito bem conhecido do qual organizações como o exército dos Estados Unidos da América tiram proveito; para usar este mesmo grupo de exemplo, eles financiam fortemente a franquia de jogos Call of Duty. Porém, se um desses exemplos é perdoável porque é dever de todos manter seu senso crítico apurado e tomar as próprias decisões sobre o que é certo ou errado, por que o outro exemplo, os livros com conteúdo erótico, deve ser perseguido?
Na verdade, quando consideramos que histórias como aquelas contadas por Call of Duty servem para convencer pessoas do excepcionalismo americano e levar homens a se alistarem no exército (muitas vezes até diretamente mentindo para seus consumidores, como por exemplo sobre a história da “rodovia da morte”, onde na vida real os Estados Unidos bombardearam milhares de civis e executaram 350 soldados que haviam se rendido, no jogos Call of Duty, são os Russos que fazem isso). Por outro lado, na absoluta pior das hipóteses esses livros de romance podem levar algumas mulheres a A) serem solteironas a vida toda, ou B) entrarem num relacionamento merda.
Para mim, pelo menos, é claro qual é menos nocivo.
Ainda outro “argumento” usado para criticar essas autoras e leitoras é que esse conteúdo não é “literatura de verdade”.
Esse é um comentário tão débil que é até triste que ele tenha de ser abordado em primeiro lugar, mas para quem não sabe: não existe consenso científico sobre o que é “literatura de verdade”. Não apenas isso, muitas das histórias que as pessoas que dizem isso idolatram sofreram o mesmo criticismo (apesar de que, provavelmente, essas pessoas nunca leram essas histórias):
- “Senhor dos Anéis” foi taxado como a “morte da literatura” pelo New York Times em sua época;
- “Moby Dicky” foi muito mal resenhado em seu lançamento, e a revista “New York United States Magazine and Democratic Review” chegou a sugerir que seu autor poderia ou deveria abandonar a literatura de vez;
- TODAS as histórias originadas em formato de ficção de polpa eram menosprezadas como uma subcategoria que não era “literatura de verdade”, e os autores dessas histórias incluem H.P Lovecraft, Isaac Asimov, Robert E. Howard, e muitos outros aclamados como gigantes da literatura hoje em dia.
E eu posso ir muito além ainda:
- “Medea”, o clássico grego antigo, quando foi exibido ao público pela primeira vez numa competição no ano de 431 antes de Cristo, ficou em último lugar.
Então eu afirmo aqui algo muito pouco controverso para qualquer pessoa realmente envolvida no mundo da ficção e que não é tão cheia de si que acredita ser o CEO dos livros: ninguém tem a autoridade para dizer o que é ou não “literatura de verdade”.
E por fim, o último dos ataques feitos à cultura dos livros adultos é que eles são simplesmente estranhos. Coisa de gente esquisita.
E o que eu posso dizer quanto a isso? Para mim é esquisito que as pessoas se importem tanto com futebol que matem e morram por isso. Para mim é esquisito que tenha gente que pague 10X mais dinheiro numa roupa ou acessório genérico só porque ele é de marca. Absolutamente todo passatempo ou obsessão vai ser estranho para alguém, isso não é desculpa para ficar perseguindo qualquer pessoa.
Dito isso tudo, é claro que existem pessoas com uma falta crítica de bom senso em qualquer comunidade, incluindo aquela dos livros adultos. Mas eu cresci numa época em que ser otaku ou nerd ou membro de qualquer subcultura genuinamente acarretaria uma vida infernal para você, pelo menos na cidade onde eu cresci.
Por exemplo, eu lembro de uma vez em que eu ouvi alguém falando de anime aos cochichos no ensino fundamental, e por mais que eu tenha passado dias tentando encontrar essa pessoa para fazer uma amizade, nenhum de nós nunca se encontrou porque essas coisas eram segredo de Estado: ser descoberto como um “esquisito” era uma sentença de morte social na minha cidadezinha.
Por esse tipo de coisa (e admitidamente algum interesse no gênero), eu sinto bastante simpatia por essa comunidade, e só me incomoda um pouco como as pessoas fazem chacota de qualquer público cujos interesses não se limitam a carros, futebol e churrasco.
Fontes:
https://www.newsweek.com/call-duty-modern-warfare-highway-death-russia-gulf-war-1468207
https://bookmarks.reviews/the-original-1851-reviews-of-moby-dick/
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