segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Por Que "Fantasia Medieval" É Tão Popular?


Por que o gênero ou cenário de “fantasia medieval” é tão popular assim? Por que não fantasia neolítica? Ou fantasia colonial sul-americana? Se essa pergunta te deixa curioso, eu tenho muita groselha e achismos para compartilhar com você!

Para deixar esse post já repleto de opiniões pessoais o mais conciso possível, eu o separei em X partes bem definidas. Começando por:

 

1. Pessoalidade e plausabilidade: esse é um dos pontos mais levantados nessa discussão, mas acredito que é entendido que o período medieval oferecia um balanço ideal entre sociedades suficientemente complexas, capazes de levantar grandes exércitos e construir impressionante infraestrutura, com uma realidade em que uma única pessoa “comum” ainda poderia exercer enorme influência através de todas as camadas sociais, desimpedida por de burocracia opressiva. Por exemplo, em teoria um soldado comum poderia matar o rei do exército inimigo e mudar a vida de milhões de pessoas imediatamente, e ainda a história de nações para sempre; algo difícil de imaginar a partir de eras imediatamente posteriores, onde líderes nacionais ficavam o mais longe possível das linhas de frente. Não só isso, o próprio combate em si seria literalmente muito mais pessoal, cara a cara. Também é um período imediatamente anterior ao advento da ciência, em que não seria estranho acreditar que criaturas fantásticas genuinamente existiam “logo ali”.

2. Familiaridade: as pessoas gostam do que elas já estão acostumadas, e isso é um fato. E há séculos ou milênios, as pessoas no ocidente vêm se acostumando com contos de fadas, mitos arturianos, e ficção pré e pós-Tolkien (e sim, existiam histórias de fantasia pré-Tolkien e elas já eram bastante eurocentricas)... Mas isso toca num ponto interessante. Afinal, ignorando o continente europeu que obviamente se beneficiaria ao ter uma indústria massiva girando ao redor de sua história e cultura, as Américas se orgulham grandemente de ser multiétnicas, e multiculturais. E os povos indígenas, e africanos, e realmente todas as outras culturas humanas também têm uma longa tradição de contar histórias cheias de magia e heroísmo. Então, de novo, por que fantasia medieval?  Entramos no ponto...

3. Colonialismo: cerca de quinhentos anos atrás, os poderes europeus dominaram o mundo, e sobre as antigas nações derrubadas foram instaladas novas sociedades imediatamente sob controle ou sob extrema forte influência de pessoas europeias. Naturalmente, a cultura europeia, associada às mais altas classes então do mundo inteiro, se tornou a dominante, a refinada, a especial, enquanto as demais ficaram associadas a tropos como o de “ordas bárbaras”, o de “selvagens não-humanos”, ou da “África, o continente mais sombrio”.

a) E aqui eu tenho que fazer uma pausa para esclarecer uma coisa. Eu não estou de forma alguma clamando por uma “limpeza cultural”, um banimento em qualquer história com elementos tradicionalmente europeus ou de origens controversas; na verdade, eu acredito que explorar temas difíceis é uma das funções mais úteis e fascinantes da ficção. Eu mesmo sou um grande fanboy do mundo de gelo e fogo, e esse cenário gira inteiro ao redor disso. Porém, eu acho que é importante estar ciente dessas origens mesmo assim.

4. Ficção medieval é mais ficção do que medieval: a versão do “cenário medieval” que existe em universos de ficção, tipicamente, é uma que, na verdade, nunca existiu. Não existiu no tempo imaginado, na escala imaginada, na cultura imaterial imaginada, nem na cultura material imaginada. O “cenário medieval” usado de estética para tantas histórias é uma amálgama de diferentes épocas, lugares, e culturas que no imaginário popular “combinam”, apenas; um gênero altamente artificial, testado e construído. Quer alguns exemplos?

l Tempo romantizado: a armadura completa de placas, tão comum em qualquer universo de ficção genérico, primeiramente, é uma tecnologia do final do período medieval, de quando já existia uma boa variedade e empregabilidade de armas de fogo, a prensa de Gutenberg, relógios mecânicos e uma variedade de outras coisas não tão comuns assim em cenários medievais, ou seja, dentro de seus próprios universos de ficção, tipicamente elas não existem num período histórico condizente com aquele em surgiram no mundo real; e de bônus, segundamente, uma dessas te custaria mais ou menos 261.220 reais por conjunto (no vídeo eu disse 200.000, mas eu esqueci de calcular a inflação de 2019 até 2026) convertendo para o dinheiro de hoje em dia, então aquelas imagens de exércitos de dezenas ou centenas de milhares de soldados vestindo armaduras de placas são simplesmente absurdas.

l Sociedades romantizadas: é inacreditável que isso tenha de ser dito em pleno século 21, mas não importa se você colocou o “rei bom” numa posição de poder absoluto, não tem como saber se o próximo monarca, ou o seguinte, ou algum outro sucessor vai ser um bosta ou não, ou ainda se o próprio “rei bom” vai sofrer alguma doença e virar um “rei louco”. Essa narrativa é inerentemente falha porque ela é sobre a manutenção de um sistema inerentemente falho!

l Cultura material romantizada: é super comum ver no mesmo país medieval fictício casinhas de arquitetura alemã enxaimel, e naus portuguesas, e soldados usando arcos longos ingleses... é super comum que culturas bastante diferentes de inúmeros países sejam todas mescladas num só monólito de “cultura europeia”.

n Talvez depois de tudo isso, eu esteja parecendo o inimigo número 1 de cenários medievais, mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Eu amo o cenário! Mesmo. Espadas, armaduras, castelos, costumes, é realmente uma estética e tradição simplesmente encantadora.  Mas, de novo, eu acho importante estar ciente dessas coisas, de que o cenário não é exclusivo e inerentemente especial.

 

Conclusão? O cenário medieval europeu é tão popular atualmente, pois ele tem raízes muito fortes na Europa, e a Europa tem uma história que impactou muito fortemente o mundo todo. Agregando a esse argumento, eu poderia apontar também, a recente acenção do gênero/cenário de cultivo ou “progression fantasy” ou “xianxia” ou “wuxia”, o qual eu não acho ser uma coincidência ter raízes na China, uma super-potência bastante disruptiva para o mundo moderno; alguns chamam até de “fantasia chinesa”. Então eu não acredito que o cenário de “fantasia colonial sul-americana” é inerentemente mais fraco que o de “fantasia medieval”, mas um deles exerce muito mais força do que o outro porque é atrelado a culturas muito mais econômica, militar, e tecnologicamente influentes que as outras.

 

Fontes:

https://armstreet.com/news/the-cost-of-plate-armor-in-modern-money

https://www.cfr.org/education/learn/reading/what-colonialism-and-how-did-it-arise

 

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