segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Família Addams E A Contracultura

Família Adams tem uma franquia de filmes extremamente divertidos, de visual criativo, personagens cativantes, e de bônus uma comédia que mesmo através de décadas e culturas distintas continua hilária. E enquanto há muito o que se dizer sobre as histórias protagonizadas por essa família, para mim, o segundo filme, de 1993, é a representação perfeita da relação entre cultura e contracultura.

Eu recomendo muito que você vá assistir ao filme antes de ler esse post, mas se você já o fez, eu gostaria de compartilhar alguns pensamentos que esse filme me provocou, e quem sabe ouvir o que você pensa também :)

O filme (meio que) segue três arcos narrativos distintos, mas todos eles abordam (meio que) o mesmo tópico, mas de ângulos diferentes, e este seria: aceitação.

Por um lado, temos o tio Fester, uma pessoa romanticamente inexperiente que se apaixona por uma mulher que diz gostar dele, mas não sente isso de verdade, e por isso ela isola ele de seus iguais, e faz ele mudar seu visual, comportamento, e ambiente para que ela possa “amá-lo”.

Por outro lado, temos a Wednesday Addams sendo mandada para um acampamento de verão cheio de mauricinhos e mauricinhas, onde ela é repetidamente importunada e punida por todos por não se encaixar naquele lugar, onde as autoridades locais tentam “corrigir” a forma como ela vê o mundo e se diverte.

E por fim, temos o mais novo integrante da família Addams, “Pubert Addams”, literalmente um bebê, mas que sofre uma possessão demoníaca devido à instabilidade na família Addams provocada pela deixa do Tio Fester... e por isso ele se torna um bebezinho de cachos loiros, olhos azuis, e que gosta de coisas fofas; o completo oposto dos demais Addams.

Individualmente, nenhuma dessas histórias é especialmente única; temas de aceitação ou found family/família do coração são bastante comuns até em obras para o público geral, como qualquer filme da Disney, por exemplo, e o próprio Família Addams 2 brinca com isso, fazendo referências à gigante das animações. Onde esse filme se destaca realmente é simplesmente no quão genuíno ele é. Genuíno consigo mesmo, e genuíno com o tema abordado.

Nessa história, os “esquisitos” não têm a opção de simplesmente aceitarem a si mesmos e aprenderem a navegar a sociedade “normie”. Os esquisitos aqui aceitaram a si mesmos, eles estão perfeitamente confortáveis com sua existência, mas independente de se eles respeitosamente se afastam do que desgostam, a cultura dominante os obriga a se aproximar e se adaptar ou sofrer as consequências... Não só isso, mesmo essa “oferta de salvação” vinda da cultura dominante é muitas vezes uma armadilha e em si uma punição.

Vemos isso quando Fester é quase morto por essa força que o faz a mudar mais e mais, mas nunca está realmente satisfeita com suas mudanças, e vemos isso de forma ainda mais interessante e sutil, na minha opinião, com o que acontece com a Wednesday Adams: ela não realmente atacou a cultura do acampamento de verão, apenas se recusou a participar dela, mas isso foi o suficiente para incutir reprimendas severas, até que ela “aceitasse” essa cultura... ao que ela foi incumbida o papel de Pocahontas, aos olhos da cultura dominante, um papel considerado inferior pelos adultos do lugar por representar uma pessoa indígena. E nesse ponto vale a pena notar também que as crianças que formam uma aliança verdadeira com Wednesday nesse filme geralmente são minorias raciais, ou deficientes, ou acima do peso, ou membros de ainda outras subculturas, e isso definitivamente não é apenas coincidência. O próprio patriarca da família Adams se chama “Gomez”, e a Mortícia é literalmente uma buxa, né.

E o mais engraçado é que os próprios Adams, que veem os “normies” como loucos, cores pasteis como horrorosas, e adjetivos como “fofo” como ofensas... quando eles veem os seus parentes se aproximando da cultura dominante, eles os recebem de braços abertos: Mortícia Adams reforma o quarto do filho, e até lê para ele histórias de bebês tradicionais, por mais que isso seja odioso para ela; e a família inteira estava perfeitamente disposta a aceitar a esposa do Tio Fester, se ela apenas deixasse que eles vissem uns aos outros, e de certa forma, eles até admiravam ela.

E nisso voltamos ao tema desse filme: aceitação. Mas não aquela aceitação de filme da Disney, que assimila a tudo e todos, aquela que faz lembrar de soldados americanos que lutavam no Vietnã com capacetes com símbolos de paz e amor, e sim uma muito mais conflituosa, cheia de nuances, e eu acredito que muito mais relevante aos dias de hoje, onde volta à tona o tópico de “posers” ou “larpers”.

Em “A Contracultura”, publicado em 1968 por Theodore Roszak (por mais que não seja um livro perfeito), o autor propõe que a contracultura é inerentemente “tão radicalmente dissociada dos pressupostos básicos de nossa sociedade que muitas pessoas nem sequer a consideram uma cultura, e sim uma invasão bárbara de aspecto alarmante,” ou seja, pode-se ler que sua mera existência é vista como um ataque por muita gente. Não só isso, Roszak propõe que a atenção indevida dos grandes meios de comunicação acaba “sufocando” as contraculturas, reduzindo-as a apenas estéticas para serem comercializadas como qualquer outro produto numa sociedade capitalista, despindo-as de seu valor de desafio à cultura dominante.

É claro, eu quero deixar registrado também que não é só porque algo vem de um movimento de contracultura que é inerentemente bom: os próprios Adams enterram um gato vivo, matam uma stripper, e fazem muitas outras coisas não tão legais assim no filme. Enfim.

Conclusão: forçar-se a ser quem você não é vai te matar (pelo menos metaforicamente), e algumas pessoas podem ver sua própria existência como um desafio, um no qual sua recusa em participar não é uma opção.

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