A visual novel Tsukihime (a original, de 2000), tem aproximadamente 500.000 palavras, segundo o site JPDB; equivalente a, aproximadamente, os dois primeiros livros de Mistborn, combinados.
E há tanto o que se discutir sobre esse jogo, que eu poderia muito bem escrever um número de palavras similar a esse só para essa review, mas eu vou tentar ser breve, e manter isso livre de spoilers.
Dito isso, vamos direto à resenha, começando pelo...
Enredo:
A história gira ao redor de Shiki Tohno, um estudante colegial... nem tão normal assim. Já logo no início do jogo, ele confessa que depois de sofrer um acidente na infância que o deixou entre a vida e a morte, ele passou a ver “linhas estranhas” na superfície de qualquer objeto, vivo ou não-vivo, e descobriu que podia cortar qualquer coisa com extrema facilidade ao seguir essas linhas; tecido, madeira e até metal e concreto, não havia nada que ele não pudesse cortar. E, é claro, isso incluía também pessoas. Pouco depois de descobrir seus poderes, porém, Shiki conhece uma maga, que lhe presenteia com óculos especiais que suprimem seus poderes, e lhe explica que o que ele vê é, na verdade, a morte de todas as coisas, e também o instrui a nunca usar seu poder para algo que ele não acredita ser certo.
Parece até a história de origem de um super-herói, não? Pois é, exceto que depois desse encontro mágico em sua infância, Shiki viveu uma vida super normal. Até sua adolescência, quando, sem nenhum motivo aparente, ele persegue, mata e esquarteja uma mulher aleatória.
Cheio de culpa, nem mesmo Shiki sabe o porquê dele ter feito isso. Mas, mais do que culpa, ele fica boquiaberto ao ver a mulher que ele matou está mais uma vez de pé a sua frente, e proclamando-se uma vampira imortal que está em sua cidade à caça de um certo assassino em série.
Já logo de cara, eu dou crédito para essa VN porque ela não desperdiça seu tempo antes de te apresentar a “parte legal”.
Sabe, eu tenho interesse há alguns anos já de entrar mais a fundo no universo de visual novels, mas duas coisas sempre ficam no meu caminho.
A primeira dessas complicações é simplesmente a inacessibilidade do gênero. VNs vendidas nas grandes plataformas, como Steam, sempre acabam passando por forte censura, e muitas vezes são removidas dessas plataformas sem aviso prévio mesmo assim. Além disso, eu não vou mentir, eu não me sinto lá empolgado para pagar mais de 200 reais em qualquer videogame, e a pirataria de visual novels é super chata, cheia de malware, e frequentemente envolve baixar múltiplos outros programas para poder rodar o jogo.
E a segunda dessas complicações é... bem, as VNs em si. Eu sei que o gênero tem muito potencial e obras que genuinamente são tão interessantes e influentes quanto qualquer outra obra de qualquer outro gênero, mas isso não significa que ele não tenha seu cânone de tropos e clichês que me incomodam. E dentre essas expectativas de jogadores E desenvolvedores, aquela que mais me frustra, é que o padrão de narrativas previsto é um onde você tipicamente joga por, tipo, 60 horas antes de chegar na “parte boa” do jogo; você lê o equivalente a romances inteiros de nada além de cotidiano colegial extremamente genérico, com uns draminhas extremamente genéricos, antes de finalmente passar a interagir com a parte sobrenatural ou investigativa do jogo ou sei lá.
Felizmente, nenhum desses criticismos pode ser aplicado à Tsukihime! Bem, mais ou menos.
Veja bem, enquanto o jogo é definitivamente acessível, isso não é necessariamente por design. Essa VN é, na verdade, abandonware, é praticamente impossível compra-la hoje em dia; e enquanto ela recebeu sim um remake em 2021, ele é exclusivo de consoles, e conta apenas metade da história original.
Sim, o remake conta apenas metade da história original, e isso tem a ver também com Tsukihime ser apenas mais ou menos um ponto fora da curva. Mas para tocar nesse assunto, temos de falar das...
Rotas:
O jogo possui 5 rotas: Arcuid, Ciel, Akiha, Hisui, e Kohaku. As duas primeiras rotas, juntas, são a primeira metade do jogo e formam o que é chamado de “lado próximo da lua,” enquanto as três últimas são a segunda metade do jogo e formam o “lado distante da lua,” e acredite em mim, essas duas metades são extremamente distintas. E é aí que eu tive meu maior problema com a VN.
Metade do jogo é uma história de fantasia sombria urbana, cheia de ação, criaturas sobrenaturais, facções rivais, magia, ação, e mistério. E a outra metade é drama familiar, e... e só mesmo. O lado distante da lua são histórias que poderiam se encontrar em qualquer outra visual novel, e mesmo os pontos de conflito dessas rotas são bastante frustrantes.
Por que esses pontos de conflito são frustrantes? Porque antes mesmo de começar a jogar essas rotas, você já sabe as respostas para esses conflitos! Você é obrigado a completar o jogo pelo menos 1 vez (eu acho) antes de começar a segunda metade do game, então você vê os mesmos suspeitos sendo sendo investigados e inocentados ou culpados múltiplas vezes, você vê os mesmos personagens sendo enganados pelas mesmas mentiras múltiplas vezes. E não é só isso!
Essas rotas são tão encheção de linguiça, que enquanto nas rotas do lado próximo da lua você toma escolhas todos os dias, com exceção de um dia, na segunda metade do jogo, você passa até 4 dias sem tomar escolha alguma (e eu tô me segurando muito para não comentar sobre o que acontece não só nesses 4 dias, se não por mais outros).
Os dois únicos elementos que eu gostei da segunda metade do jogo foram que a última cena da penúltima rota tem uma reviravolta interessante (a propósito, eu estava quase droppando o jogo nesse ponto, e essa reviravolta foi o que me fez continuar a jogar), e na última rota, um dos vilões que foi deixado um pouco de lado nas outras rotas tem uma conversa de boa com o protagonista, o que me surpreendeu.
Então, se você já checou as minhas listas de jogos jogados, livros lidos, e animes assistidos, e tem um gosto parecido com o meu: esteja avisado de que enquanto a primeira metade do jogo é absolutamente incrível, a segunda metade é igualmente decepcionante. Se você não quer perder nem um pouquinho da lore do jogo nem nada, mas não quer ter de ler umas 200.000 palavras de histórias de amor trágicas mas não muito interessantes, eu recomendo o mangá; pelo que lembro, ele meio que mescla todas as rotas, e faz isso de forma excepcional.
Agora o último ponto a ser tocado antes da conclusão...
Cenas H
Tsukihime é um “eroge”, ou seja, um jogo com cenas explícitas de sexo. E já que isso é uma review, por que não avalia-as também, né?
As cenas eróticas de Tsukihime não adicionam nada à história e podem ser puladas sem receio, mas para aqueles que querem lê-las, elas são todas estáticas, bem como o jogo inteiro, são bastante vanilla, com os genitais censurados, e repetem aquelas convenções de gênero onde as meninas estão sempre chorando, e onde o pênis é sempre descrito como uma coisa horrivelmente feia. Existem entre uma e três dessas cenas para cada rota, elas são relativamente longas, e abordam, eu diria, uns 8 ângulos mais ou menos (mas eu não contei, me desculpem).
Vale a pena notar, também, que o consenso é de que o roteirista do jogo originalmente nem planejava escrever essas cenas, mas o fez por uma questão de negócios; e o remake não tem essas cenas.
Conclusão:
E eu vou deixar por isso: eu amei as duas primeiras rotas, me senti indiferente quanto as três últimas rotas, e no geral Tsukihime tem uma lore interessante.
Se vocês têm interesse no jogo, eu vou deixar linkado nesse post, um site no qual vocês podem baixar o game de graça.
Agora, antes que façam isso sem pensar duas vezes e venham me xingar pelo conteúdo do game, eu quero fazer alguns avisos: essa é uma história muito sombria que toca em todos os tipos de assuntos desprezíveis que você pode imaginar (tortura, pedofilia, canibalismo, estupro, e muito mais). Se você é alguém que não lida muito bem com ficção que aborda esse tipo de conteúdo, eu não recomendo jogar essa VN.
Enfim, se gostou, deixa um comentário, compartilha e tudo o mais. Adeus!
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