segunda-feira, 29 de junho de 2026

Bancando O Advogado do Diabo: Obras Controversas = Ruins?

Eu protesto!

Meritíssimo, todas as pessoas têm o direito inato de desgostar de qualquer coisa por qualquer motivo. Porém, não é qualquer motivo que pode-se considerar um criticismo válido.

Da mesma forma como qualquer pessoa pode esquentar uma marmita num micro-ondas, o que seria uma refeição tão válida quanto qualquer outra, sem que isso as torne chefs de cozinha.

Eu mesmo, como qualquer outro ser humano, já nutri opiniões não muito profissionais; por exemplo, eu acho o cartoon “Steven Universe” uma animação extremamente feia e de músicas desagradáveis, que simplesmente me causa uma reação visceral de aversão, mas reconheço que não tenho uma base sólida, lógica e justa para avaliar tal obra.

Agora, não acredito que seja necessário detalhar todas as minúcias do que torna uma crítica válida ou não, poderíamos passar o dia inteiro aqui fazendo isso, mas afirmo, confiante, de que o requisito mínimo para tal é de que tal crítica não seja uma falácia lógica.

E, infelizmente, muitas vezes elas são; principalmente quando dirigidas à obras mais provocantes ou controversas.

Tomemos por exemplo a seguinte animação:

 

Exemplo 1:

“Goblin Slayer”, lançada em 2018. Eu lembro de um YouTuber relativamente grande, que chegou até a trabalhar na indústria otaku, criticando esse anime porque os vilões dessa história eram estupradores, quando eles poderiam não ser.

Agora, não por covardia, mas para deixar claro que minha intenção é meramente analítica aqui: eu não gostei de Goblin Slayer. Eu entendi a mensagem, mas achei a história repetitiva, e consequentemente entediante, o design de personagens e cenário não era muito criativo, e a animação em si era meio torta e bastante estática.

Dito isso: o argumento desse YouTuber, de que coisas poderiam ser diferentes, é completamente irrelevante e irracional. Afinal, se algo é ruim porque poderia ser diferente, tudo o que existe, já existiu, ou vai existir é ruim, porque todas as coisas poderiam ser diferentes.

Isso não significa que a retratação da violência sexual dessa animação é um ponto impossível de se criticar, mas sua existência em si é.

 

Continuando, independente dos sentimentos provocados na audiência, alguns outros termos comuns usados para avaliar negativamente obras que todas as pessoas deveriam estar cientes, são: problemático, desnecessário, cliche, edgy, ou podia ser melhor. Todos termos que frequentemente agem como uma “falácia da salada de palavras”, ou em outras palavras, situações onde “muito é falado, mas nada é dito”.

E como eu não quero me encaixar na categoria de gente que fala muito e não diz nada, essa é minha tentativa de elaborar o porquê de eu desprezar esses criticismos, e porquê Vossa Excelência deveria fazê-lo também:

 

Primeiro ponto: Definição

O que exatamente torna algo “desnecessário” ou “problemático”? Mesmo se assumirmos que o significado dessas palavras em uma análise é o mesmo daquele de seu uso cotidiano (como definido, por exemplo, em Dicio.com: Desnecessário: que se pode dispensar, deixar de lado), o que exatamente isso nos diz sobre o tópico em questão?

Para começo de conversa, se tratando de “necessidade,” o que é necessário? Pessoas podem muito bem viver suas vidas inteiras sem assistir a um único filme, e muitas inclusive o fazem, então pode-se dizer que todos os filmes são desnecessários, não?

Claro, para isso pode-se dizer, também, que esse é um argumento em má-fé, que é “óbvio” que a palavra “desnecessário” implica “desnecessário ao avanço da história.” Mas, de novo, se o que não é necessário para o avanço da história é imediatamente ruim, então dizer que várias outras coisas, como trilha sonora ou iluminação, por exemplo, também são pontos negativos, uma vez que é perfeitamente possível removê-las de uma história contada por mídia audiovisual, sem que tal história se torne completamente incoerente.

E o mesmo se aplica à “problemático”, o que é problemático? Uma história que retrata ou desafia tabus? Dungeons And Dragons, As Crônicas de Gelo e Fogo, Old Boy, e tantos outros gigantes do mundo do storytelling, e até da mitologia do mundo inteiro, seriam abominações segundo essa definição.

Então, vamos para outro exemplo, a fim de solidificar esse argumento; entra em cena:

 

Exemplo 2:

“The Coffin of Andy and Leyley”, um jogo de RPGmaker, de novo extremamente controverso, que é frequentemente criticado em relação aos seus temas de incesto, canibalismo e mais, por termos como: desnecessário, problemático, e “edgy porque sim” (“Edgy for the sake of being Edgy”).

Enfatizo, de novo, que é perfeitamente aceitável desgostar do jogo, e tenho certeza de que existe um milhão de razões para criticá-lo, mas essas não são uma delas.

Como discutido antes, jogos em si não precisam existir (talvez nada precise), e mesmo o argumento de avanço da narrativa (que já é essencialmente falho) perde o sentido quando a narrativa em si é uma celebração do mórbido e asqueroso; o que por si só já é quase uma tradição no cenário de RPGMaker, onde jogos como Mogeko Castle, e Mad Father sempre foram famosos.

Mas eu quero dar atenção especial ao último ponto dessas críticas, o “edgy porque sim”. E quero fazê-lo porque essa frase quase nem é coerente, e na melhor das hipóteses indica apenas que o artista tomou uma escolha estilística, o que, de novo, não é indicador de qualidade, já que não é necessário ter um motivo para isso. Na verdade isso tanto um “não-criticismo,” que game design em si já foi definido como “o ato de decidir como um jogo deve ser” (The Art of Game Design: A Book of Lenses, página 24).

Palavras como “edgy” ou “cliche” são transformadas em armas por esse tipo de criticismo vago e falho, sendo que, em realidade, não passam de associações com com gêneros e escolhas estilísticas. O que nos levam ao...

 

Segundo Ponto: Razão

Por que essa coisa em questão é ruim?

Por que uma história ser sombria é ruim? Por que o vilão ser derrotado no final é ruim?

Essas coisas, por si sós, não implicam qualidade positiva ou negativa, e é trabalho do crítico elaborar sobre esses problemas (se eles sequer forem mesmo problemas).

Para fixar isso, eu gostaria de dar um último exemplo, e discutir sobre as avaliações dadas a um dos meus filmes favoritos:

 

Exemplo 3:

Piratas do Caribe: No Fim do Mundo

Enquanto esse filme é bastante positivamente avaliado no site “Adoro Cinema”, Vossa Excelência está ciente de que em sites de avaliação de filmes estrangeiros, ele sofre de péssimas análises? Pois é verdade. Não é raro encontrar reviews em inglês que criticam fortemente esse filme, e em grandes quantidades.

Alguns criticismos comuns ao filme apontam sua complexidade crescente, sua sexualidade à flor da pele, seu humor bobo, e muito mais.

E tudo o que eu posso dizer é: sim, Piratas do Caribe tem tudo isso. É uma trilogia exatamente sobre isso, como seus criadores pretendiam fazer. E por que isso é ruim?

O fato de que os filmes lentamente introduzem conceitos cada vez mais complexos me parece um positivo, na verdade, nos apresenta um mundo em constante expansão, como parece ser também para os personagens Will e Elizabeth. E falando nela, essa história inteira começa porque ela vai ser forçada a casar com alguém que não ama,  o fato de que ela aprende mais sobre romance é diretamente conectado ao seu arco de personagem.

 

Conclusão

Os mitos de Cthulhu, as aventuras de Conan: O Bárbaro, e tantas outras grandes histórias já passaram por julgamentos desfavoráveis por serem consideradas essencialmente apelativas. Em retrospectiva, sabe-se que essas foram histórias muito mais significativas do que alguns de seus contemporâneos jamais poderiam imaginar.

Mesmo em épocas muito mais recentes, coisas que eram consideradas extremamente cafonas e embaraçosas há apenas vinte ou trinta anos, hoje recebem uma segunda vida, graças a movimentos que revisitam essas peças sob um olhar tranquilizado pelo tempo.

Claro, nem sempre acontece tal mudança de opiniões, algumas coisas são consideradas ruins independente da época ou visão, é simplesmente a natureza da produção de arte.

Dito isso, enquanto não cabe à mim, meritíssimo, dar o julgamento final sobre trabalhos contemporâneos quase universalmente condenados, eu apelo: será mesmo que todos esses criticismos de presente vão se manter igualmente relevantes daqui a cinco ou dez ou vinte anos? Será mesmo que nesse meio tempo, não vai ainda surgir uma inteira nova leva de multidões que afirmam, na verdade, terem “sempre amado” esses trabalhos?

Bem, dar essa resposta cabe apenas à vossa excelência, nos comentários, e nos botões de like e se inscrever.

Obrigado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário