Intro:
Bárbaros cruéis e sanguinolentos sem apreço pela vida humana, pagãos idólatras da morte e do sofrimento que viviam na idade da pedra, tão burros que sequer haviam ainda descoberto a roda. Ainda que seres humanos, geneticamente falando, sua cultura, se é que podia ser chamada assim, era tão indescritivelmente bestial, que em espírito eles não eram melhores que animais. Esses eram os astecas...
Bem, os astecas segundo o que é tradicionalmente ensinado em escolas, alguns cursos de faculdade, e no YouTube (inclusive por historiadores bastante respeitados). Mas eu gostaria de desafiar um pouco esse ponto de vista, e se possível, e você, espectador, mantiver uma boa-fé enquanto lendo esse post e julgar os argumentos que vou apresentar racionalmente e sem preconceitos, eu espero também poder mudar pelo menos algumas opiniões quanto a esse povo.
Entendendo os desafios:
Pois bem, sem mais delongas, vamos direto ao assunto.
Eu acredito que os argumentos contra o valor do povo asteca se baseiam principalmente nos seguintes pontos: 1) sua raça é inerentemente inferior as demais de alguma forma, 2) eles praticavam sacrifícios humanos/canibalismo, 3) eles eram tecnologicamente atrasados, 4) seus vizinhos os odiavam.
Vamos, então, analisar cada um desses pontos e determinar se eles têm mesmo relevância científica, lógica e objetiva.
Raça:
Eu vou ser breve nesse ponto porque eu acredito que somente os maiores boçais deste planeta propositalmente escolhem fechar os olhos para montanhas de evidências científicas que provam que, geneticamente falando, não existe diferença maior entre dois seres humanos de “raças” diferentes além do fenotipo favorecido pelo ambiente em que vivem, do que existiria entre indivíduos da mesma “raça” de regiões diferentes.
Dito isso, racismo, infelizmente, não é um fator que pode ser desprezado mesmo hoje em dia, e vale a pena relembrar que não existe diferença inata de potencial criativo, espiritual, físico, cultural, ou de intelecto entre qualquer população de homo sapiens sapiens.
Sacrifícios humanos e canibalismo
A inegável que os astecas praticavam sacrifícios humanos e canibalismo. Tanto quanto é inegável que os habitantes da Grã Bretanha faziam no passado. Ou mesmo que a elite europeia, como um todo, chegou a possivelmente consumir mais carne humana proveniente de múmias, do que todos os indígenas das Américas juntos, e continuaram a vender e consumir carne humana abertamente até, pelo menos, a primeira década do século 20, apenas 100 anos atrás e muitos séculos depois que os “bárbaros astecas” já haviam parado de fazê-lo.
A verdade é a antropofagia foi praticada em quase todos os territórios já habitados por seres humanos em algum ponto da história, e se outros povos são tratados com simpatia e a justificativa de que eles eram ignorantes às concepções morais de do presente, os astecas não deveriam ser tratados de forma diferente, ou isso seria uma falácia lógica, logo um argumento inválido.
Certo, mas um crítico da cultura ainda poderia dizer “mesmo que antropofagismo tenha sido praticado no velho mundo também, sacrifícios humanos, e especialmente em tamanha escala, não eram.” Mas será que tal afirmação é correta?
Vamos analisar o argumento: ele afirma que os astecas foram desprezíveis por fazerem muitos sacrifícios humanos. O que é exatamente desprezível nesse ato? Fazer sacrifícios religiosos, como queimar papel (como os astecas também faziam)? Eu acredito que não é disso que o crítico fala. Então, seria a parte de tirar uma vida humana por motivos religiosos? Provavelmente, eu assumo. E nesse caso, eu posso apontar o fato de que a religião cristã queimou mais de quarenta mil pessoas vivas pelo mesmo motivo, tirou a vida de cerca de três a nove milhões de pessoas em guerras santas (e a propósito, os cruzados também canibalizaram os corpos de suas vítimas em larga escala em ao menos uma ocasião), e é claro, justificou a escravidão, tortura e morte de inúmeros milhões africanos a fim de “purificar sua alma”. Em essência, tais práticas não são diferentes daquelas dos astecas, se não por minúcias ritualísticas de uma religião diferente.
Portanto, usar o ponto de canibalismo ou sacrifícios humanos como base para justificativa da demonificação da cultura asteca implica ou na falácia lógica do padrão-duplo, ou também no fato de que praticamente todas as outras grandes culturas do mundo são igualmente desprezíveis.
Tecnologia:
Outro dos argumentos mais fortes sobre a pequeneza dos astecas é aquele que ataca seu desenvolvimento tecnológico e cultural. E enquanto ele pode parecer justo à primeira vista, ele rapidamente perde sua validez quando questionamos coisas como: como exatamente você mede o desenvolvimento tecnológico de uma civilização? Ou, o quão seria um desenvolvimento tecnológico digno da mesma admiração que outras culturas contemporâneas do velho mundo recebem?
Poderíamos medir desenvolvimento tecnológico baseando-nos nas tecnologias e descobertas astecas que são usadas até hoje? Milho é a segunda planta mais cultivada no planeta inteiro atualmente, e o corante asteca vermelho carmine é um dos mais populares até hoje, especialmente considerando os riscos para saúde que as alternativas sintéticas oferecem. E isso sem falar de outros desenvolvimentos como pipoca, chocolate, saúde pública, pontes levadiças, escolas, zoológicos, mobilidades social, sem falar que a capital, Tenochtitlan, foi uma das maiores cidades do mundo em sua época tão grande quanto a contemporânea Londres.
Se isso não é o suficiente... então, o que é? O quanto seria desenvolvimento tecnológico “o bastante”? Pólvora? A prensa? Dinheiro em papel? Bem, todas essas são invenções chinesas adotadas pelo resto do mundo. Se os astecas são estúpidos por não terem inventado a prensa, então também são todo o resto do planeta pelo mesmo motivo.
Logo, chegamos na mesma conclusão que a anterior: tal ataque só pode ser feito por um sofista ou alguém completamente ignorante.
Além disso, sim, os astecas conheciam a roda.
Relações internacionais:
Sim, os astecas, bem como qualquer outra nação que já existiu na história humana, tiveram vizinhos que não gostavam deles. Bem como o Japão hoje em dia, ou os Estados Unidos, ou a Ucrânia, ou a Índia, ou o Chile, ou tantos outros... Ser desgostado por seus vizinhos não significa muita coisa, honestamente. Por exemplo, a Dinamarca tem uma rivalidade histórica com a Suécia a ponto de haver conflitos armados entre os países desde o século 6 até o século 19. Isso significa que um ou outro é objetivamente maligno? Eu acredito que não.
E isso é sem sequer considerar que os indígenas não eram estúpidos e podiam muito bem ver a vantagem estratégica dos invasores, e um número deles podia muito bem estar apenas garantindo uma fatia do bolo asteca que seria inevitavelmente repartido.
Conclusão:
Não existe base lógica para julgar os astecas como uma raça ou cultura inferior a qualquer outra, que não condena, também, muitas outras “raças” ou culturas comumente tidas como modelo ideal, e aqueles que afirmam o contrário, geralmente, chegam a essa conclusão aplicando a falácia lógica do padrão duplo; onde se um requisito ou um grupo de requisitos é atendido pelo alvo do argumento, sua conclusão é valida, mas se outra entidade que não o alvo do argumento também cumpre tais requisitos, arbitrariamente, o argumentador afirma que tal entidade não pode chegar à mesma conclusão.
Agradecimentos:
Obrigado por ler esse post até aqui, e se tem qualquer coisa relevante ao text que queira falar sobre, a seção de comentários tá aí para isso. Esse é um "quadro novo" por aqui (geralmente meus posts são de muito baixo esforço kkk), então sinta-se livre para fazer dicas ou dar sugestões também.
Pósfacio:
...Agora, para os poucos que ficaram até esse ponto do vídeo, e eu imagino que esses são os mais atentos: sim, meus argumentos têm uma falha grave e muito comum. A fim de normalizar a cultura asteca, repetidamente eu a comparei com culturas europeias, como se assumindo que essas estão no ápice do desenvolvimento cultural humano. Quero deixar registrado que não é isso que penso, mas acredito que, como uma ex-colônia europeia, a nação brasileira é fundada sobre essa ideia, que persiste consciente ou inconscientemente em muitos campos até hoje, logo acredito que tais comparações são necessárias para um bom entendimento do assunto pelo público geral.
Além disso, a última coisa que quero, é dar a impressão de que eu penso que matar pessoas por motivos religiosos é uma prática aceitável: não é e não deveria ser. Eu condeno a prática de sacrifícios humanos tanto quanto eu condeno, por exemplo, a caça às bruxas. Apenas me incomoda a forma como duas práticas diferentes apenas em minúcia podem ser tratadas de forma tão diferente. Se alguém pode desculpar a santa inquisição como um erro trágico e embaraçoso do passado cristão, ao mesmo tempo que reconhece que essas mesmas tradições cristãs acrescentaram tanto à experiência humana com arte, espiritualidade e ciência, esse alguém deveria ser capaz, também, de estender a mesma empatia a outras nações.
Fontes:
https://asiasociety.org/education/chinese-inventions
https://scienceandsociety.duke.edu/does-race-exist/
https://www.bristol.ac.uk/news/2001/cannibal.html
https://www.smithsonianmag.com/history/europes-hypocritical-history-of-cannibalism-42642371/
https://www.historyextra.com/period/medieval/crusades-causes-history-when-how-many-were-there-death-toll/
https://www.visualcapitalist.com/worlds-most-harvested-crops/
https://www.totalingredientes.com.br/en/post/carmine-dye-all-about-the-natural-cochineal-dye-and-its-uses
https://www.britannica.com/place/London/Tudor-London
https://www.bigredhair.com/blog/tenochtitlan
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