Quando pensamos em casas mal assombradas, a primeira coisa
que vem a nossa mente, muitas vezes, são mansões de séculos passados,
construídas com muito suor, lágrimas e, principalmente, sangue. Mas será mesmo
que espíritos e assombrações se importam com coisas tão mundanas como o tamanho
dessas construções ou sua idade?
Esse é um relato sobrenatural verdadeiro, contado a mim pelo meu vizinho.
Essa é uma história de apenas 20 anos atrás, mais ou menos.
Meu atual vizinho ainda era uma criança na época, e havia acabado de se mudar
para uma simples casa alugada devido ao trabalho do pai, um lenhador; uma
operação rotineira para sua família, e justamente por isso, escolheram uma
habitação de aluguel barato. Não demorou muito, porém, para que logo
entendessem o porque do preço abaixa da média...
O primeiro incidente foi relativamente inofensivo. A criança
estava em casa, dividindo o quarto com o primo numa noite, e a porta de seu
quarto via-se entreaberta. Ambos conversavam casualmente, e os dois viram um
vulto, uma figura caminhando frente a porta do quarto, quando deveriam estar
sozinhos.
É claro, porém, a imaginação de crianças assustadas pode ser
especialmente eficaz em conjurar todo tipo de fenômeno, e essa história por si
só, não seria interessante o suficiente para ser recontada se isso fosse tudo o
que aconteceu nessa casa. Não, pois pouco tempo depois, o vulto se fez perceber
de novo, mas então em frente a todos os hóspedes da casa, que viram uma sombra
em forma de gente rapidamente mover-se até a cozinha.
A tia da criança, muito nobremente, não apenas fez o menino
investigar o acontecimento, como quando um barulho se fez ouvir de dentro de um
dos armários, insistiu para que meu vizinho, com cerca de dez anos, abrisse o
compartimento. E assim que ele o fez, panelas, potes e formas foram arremessados
violentamente do armário, como se o móvel contivesse, na verdade, uma
tempestade, um desastre particular daquela família, daquela casa... mas não
havia nada atrás daquelas portinhas, afinal, e depois que o menino reorganizou
a bagunça, os dias seguiram como quaisquer outros. Até a eventual gota d’água.
Eventualmente, como o esperado, o menino teve de ficar em
casa, sozinho. E o pior, os vultos, barulhos e movimentos misteriosos mostravam-se
mais e mais frequentes e violentos. Ele via-se tentado a esperar pelos adultos
em frente a casa, a não arriscar a atravessar a soleira da entrada, mas a
natureza o chamava: ele precisava urgentemente usar o banheiro.
Prometendo para si mesmo que seria rápido, o garoto correu
da entrada de sua casa até o banheiro, e lá trancou-se.
Já escurecia, as paredes de madeira da casa todas grunhiam
devido a expansão térmica, como se a própria estrutura lamentasse por algo, e
as velhas lâmpadas amareladas ao teto zumbiam desconfortavelmente antinaturais.
O garoto tentava ignorar o frio na barriga, e prometia a si
mesmo que seria rápido, que logo estaria de volta na rua e a espera dos
adultos. Mas afinal, ele não havia sido rápido o suficiente. Uma sombra
destacava-se frente a porta do banheiro.
Quase que instintivamente, o menino prendeu a respiração e
levantou os pés para cima do vaso sanitário. Mas o que quer que estivesse
frente a porta não parecia tão facilmente convencido de que não havia ninguém
ali: a maçaneta da porta começou a girar.
Felizmente, o garoto tinha feito questão de trancar a porta.
Por outro lado, aquilo pareceu convencer a sombra frente ao banheiro de que ela
não estava sozinha em casa, afinal, e seus esforços para entrar no cômodo foram
redobrados; pancadas ressoaram contra as tábuas pregadas juntas que faziam a
porta improvisada “bam, BAM, BAM!”
Lágrimas já corriam bochechas abaixo da criança que chorava
em silêncio. O garoto fechou os olhos, e mentalmente rezou a Deus, e implorou
para que sua família retornasse logo. Mas quando abriu os olhos de novo, não
foi salvação ou um rosto familiar o que viu, e sim um homem muito alto, magro,
pálido, e enrugado arrastando-se para dentro do banheiro por baixo do vão de um
palmo e meio entre a porta improvisada e o chão.
Finalmente, a criança não pode mais conter o pavor com as
mãos, e em meio a gritos, soluços e incoerências inteligíveis, o menino
esperneou contra o idoso que não poderia ter menos que um século de vida, se é
que alguém tão pálido e murcho poderia mesmo estar vivo, e forçou a figura de
volta para fora do banheiro.
Meu atual vizinho não continuou a esperar por resgate, e assim que a figura pareceu afastar-se do banheiro, ele correu para fora de casa, e não pôs os pés lá dentro sozinho nunca mais. Eventualmente, sua família mudou-se novamente, seguindo o emprego do patriarca, e quaisquer assombrações que possam ter enfrentando, ficaram para trás. Mas não as memórias e experiências que os cicatrizaram para toda a vida...
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