Não São Vampiros - Capítulo Único


Não São Vampiros


Avançávamos em solavanco estrada afora, jogados de um lado para o outro na caçamba da caminhonete sucateada, veículo já havia sido bastante bonito um dia… Como todo o resto do mundo.

Suspirei, olhando para uma torre barroca inclinada, frente a uma praça inundada. Apenas uma ruína de muitas, lentamente reclamada pela natureza.

Sim, o mundo havia “acabado” há quatorze anos.

“Você é tão inteligente, chefão, você estava correto sobre o mapa!” Heitor, o segundo em comando de nosso grupo de recicladores, cobria o chefão de elogios, como sempre. “Estamos quase lá, cambada!”, avisou do assento do passageiro dianteiro.

Checamos nossos equipamentos uma última vez: Davi, trajado como gaúcho estereotípico, desembainhou seu sabre, e garantiu que este mantinha-se afiado; Mirela, de cabelo laranja, e vestindo todas as cores do arco-íris, ascendeu seu cachimbo, e soprou sua fumaça em todos nós, reforçando magicamente nossas defesas; e eu, quem gostava de fingir ser ainda um cientista e usava um surrado jaleco de laboratório, coloquei a corda no meu arco. Nos protegíamos com peças de armadura improvisadas a partir de pneus, placas de trânsito.

Os responsáveis por aquele segundo apocalipse eram os altos-elfos do outro lado do oceano. Haviam se mostrando bastante pacíficos nos últimos setecentos anos, e muitos duvidavam que eles representavam qualquer ameaça, alguns até haviam se esquecido da primeira vez que os matadores de dragões assolaram o mundo com sua magia antiga e poderosa, mas, uma vez que estes últimos perceberam uma distinta falta de tesouro em seus bancos, não demoraram a retomarem aos seus “hábitos ruins”: invocaram Behemot, uma besta colossal de ameaça mundial bem no meio da capital da Confederação Quelônia, nossa antiga nação. Não apenas o monstro assolou a capital do país, como também sua mera presença atirou os níveis de magia do ambiente aos ares, revivendo perigos que o continente não via a milhares de anos.

O que os altos-elfos não esperavam era que, dessa vez, o mundo tinha poder o suficiente para retribuir. Não ficamos a merce da boa vontade dos estrangeiros, e nos permitimos sermos saqueados novamente: o país de Yamato conjurou os Kaiju de seu oceano, Zhongguo seus dragões celestes, Songhai, Tuʻi Tonga, todos retribuíram, incluindo nós, quando fizemos as Estrelas Mortas descerem à terra; numa guerra mundial de proporções nunca antes vistas.

“Chegamos!”, o segundo em comando anunciou.

“Escutem bem, povo!”, o chefão finalmente deu as caras… metaforicamente, uma vez que nunca tirava sua super-armadura, proteção na forma de um leão estilizado, de metal e magia, mesmo cada um dos seus menores parafusos sendo encantado, um item Mítico. “Nós viemos até aqui adquirir itens que serão de grande benefício para a colônia”, o chefão, António, disse, com as mãos na cintura. “Então se eu pegar vocês surrupiando um clipe de papel sequer, vou esmagar o crânio de vocês com minhas próprias mãos. Entendido?”

“Sim, senhor!”, nós cinco respondemos em uníssono.

“…Pois bem. O objeto que viemos buscar dessa vez está em algum lugar nessa faculdade… Então, o que estão esperando? Vão lá busca-lo!”

*

Infelizmente, o objeto que viemos reciclar daquela vez parecia não se encontrar nas salas e corredores da bonita faculdade, que misturava a arquitetura barroca e tribal em intrincados padrões cravados em cor de jade e dourado.

“Chefe, achei uma escada para o subterrâneo!”, o segundo em comando apressou-se para avisar António, ansioso por elogios como um animal de estimação.

“Mas… fui eu que achei a escada, chê…”, Davi, nosso espadachim e meu amigo de longa data, suspirou, sabendo bem que seria melhor não comprar briga com o segundo em comando, mesmo que ele tivesse sido aquele que notou o padrão estranho debaixo do atril de um dos estrados enquanto lia os papéis deixados para trás a mais de uma década, e esforçou-se para abrir a porta secreta.

“O que estão esperando, então? Desçam ela de uma vez!”, o chefão ordenou, e assim o fizemos.

A escadaria descia em espiral para uma galeria subterrânea, onde a decoração, que mal podíamos ver com a pouca luz que trazíamos, era muito mais branda, reduzida a apenas alguns simples padrões pintados em vermelho e preto nos túneis perfeitamente retos de concreto, e ocasionais setas e números pintados no chão, e os canos e ventiladores nas paredes. É claro, os ventiladores não mais giravam, e os canos haviam estourado a tempos, parcialmente inundando as instalações, e o único som que então ouvíamos era o de nossos próprios passos movendo a água na altura dos tornozelos.

“Bah, eu não consigo ver nada, chê…!”, Davi reclamou da frente.

“Desculpa, cara, enquanto mantenho o fortalecimento que coloquei em vocês, essa luz é o melhor que posso fazer…”, Mirela desculpou-se, segurando alto o cachimbo que emitia uma constante chama, quase qual de uma vela, nossa única luz ali… com uma exceção.

“Se alguém tem que se desculpar, são aqueles dois atrás de nós…”, resmungue, com uma flecha no arco. “A super-armadura do cara tem a merda de uma lanterna, ele deveria estar aqui na frente junto de seu puxa-saco. Heitor é literalmente um runista formado em faculdade, afinal…”, olhei de soslaio para o segundo em comando, quem erguia seu machado coberto de runas, uma delas emitindo luz.

“B- Bem, olhando pelo lado bom, ele é uma inspiração para muita gente de volta no abrigo, de como podemos crescer na vida!”, nossa pajé de cabelo lajara apontou.

“Aqueles que o veem como uma esperança deveriam ter vergonha também”, disse, dando de ombros em resposta.

“…Você é um cara bastante cínico, não?”, Mirela visivelmente forçava-se a sorrir para mim, desconfortável.

“Mas, bah! Chê é do circo sim!”, Davi riu alto, e Mirela o acompanhou, mais acanhada.

“Ela disse ‘cínico’, não ‘circo’-”, eu retrucava, quando um estouro bem atrás de mim me interrompeu:

“PLASHT!”, água esparramou-se por todos os lados, e bem no centro dos espirros, uma criatura humanoide de pele cinzenta, olhos vermelhos e enorme asas de morcego.

“MERD-!”, eu pulei para longe do monstro, retesando a corda do meu arco e atirando.

A flecha, porém, não alcançou o peito da criatura como eu planejava, uma vez que o monstro colocou uma de suas asas no caminho do projétil, parando-o com o próprio membro. E, em seguida, demonstrando alguma inteligência, o monstro avançou contra Mirela, nossa suporte, estendendo as garras na direção de seu pescoço.

“RAH!”, Davi protegeu a mulher com seu sabre, rebatendo as garras resistentes do monstro uma, duas vezes, mas um poderoso chute da criatura contra seu peito o arremessou uns três metros para trás.

Eu já atirava outra flecha contra o monstro, mas este não esperava por nós parado, já atacava novamente. E dessa vez não havia ninguém para impedi-lo de abrir um buraco no peito de Mirela.

“Gaarh…!?”, a mulher gorgolejou no próprio sangue, que jorrava sem parar de sua boca. Conforme a cor deixava seu rosto, Mirela caiu de joelhos, seus olhos viraram para trás… e seu corpo sem vida deitou-se na água rasa do corredor.

O monstro, porém, não tinha saído ileso da investida, com minha flecha atravessando seu pescoço de um lado ao outro, sangue negro escorrendo descontrolado do ferimento. Seu cadáver também estava para cair, quando:

“Biz, biz, biz, biz, biz!”, uma saraivada de projéteis mágicos explosivos destroçaram o cadáver da criatura, picando-o num milhão de pedacinhos. Da nossa retaguarda, António segurava uma daquelas preciosas varinhas mágicas, que valia mais que um ano de salário nosso (e mais que nossas vidas, para António), e atirava sem restrição na direção do monstro já morto.

“Porra! A menina morreu por causa de vocês! Já é a segunda vez que vocês perdem um membro da equipe, caralho, se continuar assim, eu vou expulsar vocês da porra do abrigo!”, o chefão gritou, atirando a caríssima varinha capaz de arrombar muralhas na cabeça decapitada do monstro, uma vez que toda a magia desta foi gasta, e tirando outra de um compartimento no antebraço da armadura, mesmo que a primeira varinha só precisasse de uns minutos para recarregar sua potência.

“Isso, isso! O chefão tá certo!”, o segundo em comando concordou, pulando de um lado para o outro.

 Foi preciso enorme autocontrole para não retrucar a António, mas respondê-lo com:

“…Sim, senhor”, pondo a mão livre no bolso, eu fechei meu punho até as unhas cravarem-se na minha palma, e sangue escorrer.

“Bah, essa doeu…”, Davi apareceu novamente, massageando o abdômen. “Se não fosse pela proteção que a menina tinha colocado em mim, eu estaria morto agora, chê!”, notando o cadáver de Mirela, adicionou, pesaroso: “…Mas, bah, parece que não vamos ter mais nenhuma segunda chance…”

“Espera um pouco” eu disse, correndo até a cabeça da criatura.

“O que você está fazendo ai?”, António perguntou.

“Quero saber que tipo de monstro esse é”, respondi.

“Porra, não é óbvio? É um vampiro! Eu sei tudo sobre vampiros! Coloca alguma coisa no peito deles, e eles morrem: fim da história! Agora volta logo para sua posição, e continue a avançar!”

“Isso, isso! O chefão é tão esperto!”, Heitor concordou de novo, aplaudindo aquele que vestia a super-armadura.

“…Sm, senhor. Obrigado, senhor”, respondi, baixando a cabeça, e voltando para perto de Davi enquanto o chefão reclamava que fazia de tudo pelo povão mas a gente não ajudava, enquanto seu puxa-saco pulava de um lado para o outro, aplaudindo.

“…Então? Que monstro era, chê?”, Davi perguntou.

“Kube-nyep. Diferentemente de vampiros, não podem assumir formas de animais, mas também não tem problemas com alho, cruzes, e outras fraquezas típicas. Mas eles têm asas, e o mais importante… vivem em grandes comunidades.”

*

Depois de horas percorrendo os corredores labirínticos do subterrâneo, finalmente nos encontrávamos encarando o que parecia ser uma enorme área de testes, tão grande que não conseguíamos ver o teto, ou o final da sala para a esquerda, ou para a direita. Mas conseguíamos ver, claramente, além dos muitos bonecos de teste, alvos, e crateras espalhadas pelo lugar, um par de grandes portas duplas de metal do lado oposto ao nosso da sala.

“O que estão esperando? Não têm mais vampiros!”, O chefão, como sempre, nos incitou a prosseguir da retaguarda… Ele tinha dito exatamente a mesma coisa quando matamos o segundo, terceiro, quarto, quinto, e sexto kube-nyep, insistindo que um harém de vampiro jamais tinha mais que meia dúzia de indivíduos.

“Perdão, a corda do meu arco arrebentou, tenho que trocá-la rapidinho!”, respondi, me agachando, e fingindo mexer na minha arma.

“Então, chê? O que tu achas?”, Davi cruzou os braços, também fingindo me esperar impaciente.

“É uma armadilha. 100% de certeza”, respondi. “Nos corredores, eles não podiam usar muito bem a vantagem de seus maiores números, nem de sua habilidade de voar. Mas nessa sala, eles podem. E eles podem ter enlouquecido por conta de toda a magia no ar desde o apocalipse, mas a espécie deles é sapiente, e parecem ainda ser bastante inteligentes.”

“…Desculpa, chê. Eu só sou útil para cortar as coisas, e nem sou muito bom nisso. Vou ter que deixar o plano para você de novo”, Davi respondeu, franzindo as sobrancelhas, visivelmente desapontado consigo mesmo.

“Não peça desculpas. Seus talentos não se encontram no campo de batalha, mas sim na sala de aula, ou num escritório. Seus talentos poderiam ajudar o mundo grandemente agora, mas estão sendo desperdiçados aqui”, respondi a meu amigo.

Da mesma forma como eu era um monstrólogo, e não um verdadeiro guerreiro, Davi era, na verdade, formado em letras. António havia colocado todos aqueles cujas profissões antes do fim do mundo ele julgou como “inúteis” no campo de batalha, ou nas plantações. É claro, os verdadeiros soldados ele mantinha como guardas pessoais no abrigo, só não os trazia para as missões de reciclagem porque acreditava que isso feriria sua imagem de guerreiro glorioso.

“Brigado, chê”, Davi respondeu, sorrindo. “Então? Qual o plano?”

“…Simples”, respondi baixinho, tomando um isqueiro de meu bolso enquanto António aproximava-se, já nos ameaçando impaciente. “Eu mostro para o chefão que ainda existem muitos ‘vampiros’ por aqui”, tocando a pedra vermelha do isqueiro na flecha, e ativando suas chamas mágicas, eu incendiei uma seta, retesei-a na corda do arco, e apontei. “Assim, fazemos ele reconhecer que é inútil nos fazer avançar, sob ameaças ou não, e então…”, finalmente atirando a flecha em chamas, concluí: “Corremos.”

Mais palavras não foram necessárias, pois bem quando o chefão estendia sua mão enluvada em metal mágico na direção de minha cabeça, minha flecha iluminou o teto distante da sala de testes e as centenas de criaturas que empoleirava-se, de cabeça para baixo, neste. E reveladas, não havia mais razão para nos esperarem numa emboscada.

“GYAAAH!”, António gritou, dando meia-volta e correndo para longe dos monstros, de volta túnel adentro.

Nós não esperamos ordens para segui-lo.

“MAS, BAAAAH, CHÊ!”, Davi urrou, correndo desesperadamente do meu lado. “QUE PLANO BOSTA FOI ESSE?!”

De fato, um plano arriscado: com centenas de criaturas inundando os corredores bem atrás de nós, rastejando pelas paredes, teto e chão numa mortal massa cinzenta de dentes e garras. Se Davi e eu não tivéssemos já temperado nossos corpos missão após missão, já teríamos ficado para trás, e virado jantar de Kube-nyep a tempos. Sim, nós dois havíamos passado por inúmeras situações de vida ou morte durante as missões de reciclagem, diferentemente de certas pessoas.

“Chef- Chefão! Chefão…!”, Heitor gritou, sem fôlego, ficando rapidamente para trás, mesmo que ele tenha começado a corrida em primeiro lugar. “Não me deixa para tráááás!”, quando António ultrapassava-o, sua velocidade aumentada por conta da armadura, o segundo em comando atirou-se sobre o chefão, agarrando-o aos prantos, exausto.

“Me larga, seu pé-de-chinelo!”, António respondeu, agarrando Heitor pela nuca, e tirando-o de suas costas. “Agora, cumpra sua única função, e me salve!”, concluiu, agarrando, e torcendo as canelas do seu subordinado em posições não-naturais, e atirando o segundo em comando por cima do próprio ombro.

“Cacete…!”, eu praguejei, parando por um instante ao lado de Heitor e tomando seu machado andtes de saltar por sobre seu corpo em agonia pelas pernas quebradas; eu não tinha realmente dó pelo segundo em comando, mas nunca me acostumava com a desumanidade de António. Em poucos segundos, porém, os gritos de Heitor pararam de vir de nossas costas, substituídos por grotescos barulhos de borbulhares, e estalos que davam calafrios na espinha. Não era hora para ficar distraído, porém: “Davi, se lembra a última vez que o chefão disse que esmagaria nossas cabeças se surrupiássemos algo?”

“F- Foi quando estávamos reciclando aquele carregamento de varinhas mágicas, né?”

I-Isso”, conversar enquanto corríamos de um exército de monstros ensandecidos era dez vezes mais difícil que o normal, ou era impressão minha? “Elas não têm realmente chances contra um usuário de super-armadura, mas elas conseguem colocar um rombo numa muralha fácil”, continuei.

“Fala logo onde você quer chegar, chê!”, Davi reclamou enquanto deslizávamos por sob um pedaço do teto que cedeu, nos encharcando de água e tornando nossas roupas pesadas.

“Isso”, eu respondi, tirando a varinha que surripiei quando tinha examinado a cabeça do Kube-nyep.

Inteligente como Davi era, não precisei explicar anda mais:

“Não! Não mesmo! Essa varinha já deve ser o suficiente!”, Davi rejeitou minha lógica, baseada na ideia de que, se o chefão estava nos ameaçando tão veementemente daquela vez também, o objeto que viemos coletar era, no mínimo, tão valioso quanto o carregamento de varinhas de antes.

“Suficiente por quanto tempo, Davi?! A gente foge, vende ela, e em uns seis meses temos de voltar a fazer essa merda! Quanto tempo mais vamos sobreviver, hein?! Porra, eu estudo monstros, não mato eles! E a única arma como a qual você interagiu antes desse apocalipse foi o Machado de Assis!”

Davi franziu o cenho, por um instante dividido, mas finalmente cedeu, desembainhando seu sabre:

“Baaaah! Tá bom, tá bom, para onde?!”

“Para esquerda!”

De repente, deixamos o corredor que vinhamos seguindo até então, e atirei o machado rúnico de Heitor para meu amigo, e imediatamente preparei uma flecha. Davi não precisou de mais instruções, assim que nos deparamos com outra bifurcação, tornamos mais uma vez para a esquerda, assim fazendo uma completa meia-volta: corríamos na direção da sala de testes.

“Lá!”, Davi apontou o machado luminoso na direção de um trio de monstros que avançava em nossa direção. Como o esperado, alguns dos kube-nyeps haviam desviado do grupo principal.

Rapidamente retesei a corda do arco, mas não atirei imediatamente. Invés disso, esperei que as criaturas se cobrissem com suas asas para então reajustar minha mira e causar algum dano real: atirei três flechas, duas das quais atingiram seus alvos, os pés dos monstros. E uma vez que eles moveram suas asas para proteger mais a parte inferior do corpo, Davi fatiou o topo da cabeça de uma das criaturas fora com seu sabre, matando-a na hora.

Aquela que não havia sido ferida por nenhum de nós foi a primeira a reagir ao ataque, a atirou-se sobre o espadachim, que estava prestes a empalar o segundo monstro espetado por minha flecha, mas eu a parei quando atirei um projétil em sua larga orelha de morcego, a ponta metálica da seta saindo do outro lado da cabeça ainda, com pedaços de cérebro ainda nela.

 Davi rapidamente finalizou o terceiro monstro, mas havíamos tomado tempo demais mesmo assim: já ouvíamos a balbúrdia da massa de monstros vindo atrás de nós. Voltamos a correr imediatamente.

Sem encontrar muito mais resistência no caminho, porém, logo alcançamos a sala de testes novamente.

“É melhor aquela varinha sua abrir essa porta rápido, chê!”, Davi parou no meio do caminho, pronto para o combate, enquanto eu tirava o item mágico do bolso, e apontava na direção das portas duplas de metal.

“Elas conseguem derrubar muralhas, então com certeza…!”, respondi, mais prometendo para mim mesmo que aquele não era um plano suicida.

Tocando as centenas de encantamentos no interior da arma com minha própria energia, não demorei a ativá-la, e comecei a disparar:

“BIZ!”, o primeiro projétil atingiu em cheio as portas metálicas duplas e explodiu numa bola de fogo. A porta, porém, mostrava pouca mais que alguns amassados.

“Merda…!”, praguejei e continuei disparando, duas, três, quatro vezes, cada disparo danificando apenas um pouco mais as pesadas portas duplas metálicas. E atrás de mim, Davi já começava o embate contra os monstros na dianteira:

“CAUÃ, CHÊ! NÃO VOU SEGURAR ESSES BICHOS POR MUITO MAIS TEMPO!”

“Quase lá!”, respondi, disparando as últimas reservas de energia contidas na varinha contra a porta.

E bem quando não restava nem mais uma gota de poder dentro da varinha, um disparo finalmente atravessou as grossas portas duplas de metal, arrancando-as de sua posição junto com grandes pedaços de concreto.

“Davi, consegu-!”, me tornei, eufórico, para avisar meu amigo, quando senti uma mão me empurrando para dentro da sala selada cujas portas eu arrombei.

Davi, sorrindo mesmo coberto de ferimentos, me empurrava para longe de garras cruéis… que  fatiaram seus dedos, mãos, braços, pescoço, e cabeça.

Minha visão imediatamente começou a embaçar-se, conforme lágrimas empoçavam em meus olhos. Mas mesmo através da turbidez, eu conseguia ainda ver muito bem as inúmeras criaturas sedentas por meu sangue avançando.

Então, finalmente parei de cair, minhas costas batendo em algo firme, que esteve selado dentro daquelas instalações pelos últimos quatorze anos.

*

Depois que eu quebrei as pernas do pé-de-chinelo e o joguei por sobre meu ombro, parei de ouvir também os dois empregados cujos nomes não me lembro. O corpo do pé-de-chinelo deve ter atingido eles, e os três foram devorados pelos vampiros…

“MERDA!”, xinguei, chutando a parede do corredor da faculdade, e derrubando toda uma sessão desta com o poder da super-armadura. “Essa expedição foi um enorme fracasso! Eu gastei seis litros de combustível para vir até aqui, e sabe-se lá quantos recursos investi naqueles babacas, com comida e equipamento, para que eles só fossem e morressem assim! Nem para ser úteis em suas mortes…”, suspirei. “Bem, pelo menos agora já sei que temos uma… colônia de vampiros, ou alguma merda dessas aqui. Da próxima vez, só preciso trazer mais pessoas”, decidi, e me coloquei a caminhar através dos corredores da antiga faculdade, voltando para meu carro.

Olhando ao redor, para as salas, corredores e bibliotecas, não conseguia parar de pensar… que desperdício! Aquele lugar era grande o suficiente para se criar uns dez mil cockatrices, ou plantar alguns belíssimos hectares de raiz de mandrágora!

“Além do mais, esse fim de mundo não apenas nunca vai ser como Alfheim, como qualquer esforço para tentar ser diferente de capital dos altos-elfos também é errado. Humhp! Esses caipiras pensam que os altos-elfos estão na mesma situação que a gente nesse momento, mas isso é ridículo! Meus ancestrais são sem falha”, cruzando meus braços, eu me aprofundava em verdadeira filosofia para pessoas com mega-mentes como eu… quando um barulho as minhas costas me fez congelar. “Hu?”, lentamente me virei para o túnel subterrâneo do qual eu ascendi.

V-Vampiros não deveriam ser capazes darem as caras durante a luz do dia, e ainda era apenas crepúsculo! Então, por que eu ouvia bater de asas vindo do túnel…?!

Recuando lentamente, confuso, eu vi uma dúzia de vampiros deixarem os túneis, mas estranhamente eles não davam atenção a mim. Invés disso, eles chiavam e encaravam outra coisa que subia os túneis: coberto de sangue da cabeça aos pés, e carregando o cadáver de um vampiro pela perna, um enorme homem-gavião ascendeu dos túneis, ignorando os muitos monstros que atacavam-no inutilmente, sem sequer por um arranhão em sua superfície.

Não, aquilo não era um homem-gavião, era…!

“A super-armadura!”, finalmente entendi. “Oooh! Bom trabalho, uh… meu func- digo, colaborador!”, ainda que um tanto receoso quanto aos muitos vampiros que cercavam o empregado de nome desconhecido, eu me aproximei de braços abertos. Finalmente algo estava dando certo naquela merda de missão! “Agora, vamos logo para o carro, para que você possa tirar a minha segunda super-armadura, certo?”, apressei o homem a me seguir. E este o fez, lentamente aproximando-se, pois o populacho era não apenas lento na cabeça, aparentemente, mas também em seus movimentos. Será que ele sabia que eu não estava pagando ele por hora?

“Puta vid-”, eu resmungava só para mim mesmo, e começava a dar as costas para o homem, quando, de repente, faíscas voaram, o chão desapareceu debaixo de meus pés, e eu senti dor pela primeira vez em uns 80 anos. “GAARH?!”, o filho da puta tinha me socado!

“BUUUUM!”, meu pesado corpo finalmente parou de voar para longe de meu agressor, quando toquei o chão, e deixei uma profunda e longa cratera no corredor da velha faculdade.

“O QUE VOCÊ PENS-?!”, comecei a questionar, mas antes que pudesse sequer terminar a frase, o funcionário rebelde já estava bem sobre mim, atirando outro soco contra meu elmo.

“PLIIIINK!”, quando o punho da super-armadura moldada como um homem-falcão tocou meu capacete, os milhares de encantamentos de ambos os equipamentos também se chocaram; dúzias de círculos mágicos e símbolos rúnicos e imagens xamânicas e tribais surgiram e desapareceram num instante, praticamente anulando uns aos outros. Como resultado, o punho de meu agressor arrancou milhares de faíscas de meu capacete, amassou-o, e tirou sangue de minha face debaixo deste.

Sangue…?

Sangue! Eu não sentia o gosto do meu próprio sangue havia um século!

“GYAAAH! NÃO, NÃO, NÃO! ME DEIXAAA!”, dei as costas ao louco agressor, e disparei a toda velocidade na direção do carro.

*

“Não sei porque ainda fico surpreso…”, comentei, observando o ‘chefão’ fugir com o rabo entre as pernas. Bem, ele tentava fugir.

O homem vinha de uma antiga família de coronéis, e consequentemente descendia dos altos-elfos que viviam por tanto tempo. António já passava dos 120 anos de idade, mas era evidente que tal longevidade e o dinheiro e poder que sua família acumulou ao longo de milênios (a super-armadura sendo apenas uma parte destes), eram as únicas boas qualidades dele.

Ativando os milhares de intrincados fortalecimentos mágicos em minhas grevas, disparei em velocidade sobre-humana na direção de meu alvo; tínhamos aceleração parecida, mas, invés de virar no fim do corredor, eu me atirei contra a parede, e a atravessei com meu corpo blindado, alcançando António.

Agarrando o elmo enfeitado de meu oponente, puxei-o para trás, derrubando meu antigo chefão em suas costas. Sem dar tempo para António se recuperar, imediatamente levantei meu pé sobre o corpo do inimigo, e o baixei, pisando no meio do peitoral metálico com tamanha força, que o chão, as paredes, e o teto ao nosso redor racharam-se, o piso cedeu e nós dois caímos para dentro dos túneis escuros e inundados mais uma vez.

Logo me recuperei da queda, e reassumi posição de combate. António fez o mesmo, mas antes, parece ter sentido necessidade de discursar:

“JÁ CHEGA! Eu sabia que trazer o populacho para as expedições de reciclagem era um erro. É como arqueologia, coloca ideias tolas em suas cabeças… RECONHEÇA SUA INSIGNIFICÂNCIA, E DEVOLVA MINHA SUPER-ARMADURA! …E eu vou lhe recompensar com o privilégio de me servir.”

“Se mata”, respondi.

“Seu tolo! Seu tagarelar me deu tempo de pegar minha varinha!”, gritou o inimigo, apontando uma varinha mágica em minha direção e disparando uma saraivada de projéteis mágicos. “AHAHAHA!”, gargalhou por trás da cortina de fumaça criada pelos disparos… Sem perceber que os projéteis explodiram contra meus próprios disparos, da varinha que eu havia surrupiado, e tive tempo de equipar novamente só porque meu inimigo não parava de falar. “O QUE?!”, surpreendeu-se António quando me viu surgindo através da cortina de fumaça, com o joelho indo direto contra sua face.

A joelhada arremessou o oponente para longe, através de uma, duas paredes e para uma sessão da instalação subterrânea que não havíamos explorado ainda, uma que encontrava-se totalmente inundada. Eu persegui meu oponente mesmo debaixo d’água, porém, ligando a lanterna embutida em minha armadura e atirando uma parada de socos contra António; o impacto de meus punhos contra a super-armadura rival evaporavam a água ao nosso redor, e quando finalmente alcançamos o fundo da sala inundada, meu oponente tentou novamente escapar, atirando com suas varinhas contra o chão, e criando um dreno que carregou nos dois, com toda a água da sala.

Por vários momentos, temi parar no fundo do oceano, ou na boca de algum dragão, pois até aqueles itens de Nível: Mítico que vestíamos tinham seus limites, mas enfim a torrente de água perdeu velocidade quando o céu surgiu mais uma vez sobre nossas cabeças, então todo estrelado, mais do que eu jamais o vi antes do fim do mundo. Havíamos descido algum sistema de esgoto e parado na praça inundada que eu havia visto no caminho para a faculdade.

Me levantando, a água alcançando meus joelhos, fiquei mais uma vez cara a cara com António, cuja super-armadura estava coberta de amassados, trincados e arranhões.

“Ragh!” António correu em minha direção e finalmente atirou um soco em alguém do seu tamanho. E eu me desviei do golpe com facilidade, agarrando o braço do atacante com igual tranquilidade, girando sobre um pé de pivô, e atirando-o com toda a força que minha super-armadura permitia usar, ao ponto que vários pop-ups surgiram na tela high-tech que cobria minha visão cheia de parâmetros e medidores que eu não entendia direito.

O inimigo blindado cruzou os céus, assoviando, e voou direto contra a torre inclinada que eu também havia percebido durante a viagem de carro.

“BUUUM!”, impactou-se António contra a torre, braços e pernas bem abertos, cavando um buraco que tomava a forma perfeita de seu contorno até o centro da torre.

“A visão que essa armadura proporciona é impressionante…”, comentei, surpreso com o zoom que o elmo me dava. “Mas meu braço foi moído…!”, reclamei, soando frio com a dor latejante que dilacerava meu braço direito. Nota tomada: nunca permitir que aqueles pop-ups surgissem de novo, eu deveria tomar cuidado com aquela armadura!

Felizmente, parecia que eu não iria precisar continuar a luta.

“Oh…”, a super-armadura de António, aparentemente danificada demais, abriu-se, e ejetou seu usuário, que caiu de bruços no chão.

E pela primeira vez, vi meu chefão sem sua blindagem: vestindo apenas uma fralda geriátrica, ele era um homenzinho muito pequeno e velho, de olhos fundos, sem nenhum pelo no corpo, e tão enrugado e curvado que parecia uma fruta seca. Todos no abrigo, incluindo eu, pensavam que ele havia sobrevivido por tantos anos por causa de seu sangue élfico, mas as muitas máquinas de suporte a vida embutidas em seu corpo deixavam evidente que esse não era o caso. De fato, se não fosse pelo zoom impressionante de minha super-armadura, eu sequer perceberia as orelhas que eram apenas um tantinho insignificante pontudas.

“Tão perto…!”, suspirou o velho homenzinho, cambaleando para frente. “Logo os altos-elfos retornariam…”, continuou, deixando o buraco na torre, e esticando a mão para os céus. “E então eles me reconheceriam como um dos seus…! Seria…!”, Por sob os estalos das rachaduras que se espalhavam por toda a estrutura inclinada, eu quase não pude ouvir as últimas palavras de António: “Seria glorioso”, concluiu, e a estrutura, por demais danificada para continuar a suportar o próprio peso, finalmente cedeu, engolindo o velho homenzinho e cobrindo toda a região numa espessa camada de poeira.

“…Bem”, eu disse, suspirando. “Melhor começar a cavar, então”, nem a pau que eu deixaria a armadura de António enterrada lá, quebrada ou não.

Enquanto eu removia blocos de pedra dos escombros, encontrei tempo para ficar de luto pela morte de meu amigo, meus companheiros e também para pensar em quem seriam os melhores integrantes para participar do conselho que eu planejava montar para liderar o abrigo, e como poderíamos melhorar a situação por lá…

Era uma pena que a super-armadura não aumentava minha capacidade de raciocínio. Eu ainda tinha muito trabalho a fazer, não?

“Primeiro, vamos colocar aqueles como Davi no lugar que deveriam estar desde o começo”, prometi.

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