Guerra A Ruína - Prefácio + Prólogo

Prefácio


Esse livro (mediano, na melhor das hipóteses) marca o início de minha carreira como escritor e é muito especial para mim. Foi o primeiro romance que cuja escrita eu concluí, foi minha primeira publicação profissional, foi o que me abriu as portas para o mundo da escrita criativa.

Foi o que me permitiu passar a trabalhar com o que eu amo.

Desde então, e como um profissional da área, escrevi muitas mais histórias de ficção, trabalhei com a criação de todo o tipo de conteúdo. Mudei, como tudo muda. Minha arte mudou, como tudo muda. Mas olho para trás, para a sequência de cento e oitenta e três mil palavras aqui escritas, e vejo o meu eu mais jovem, suas inspirações claras como o dia, suas ambições amplas além do horizonte, e o que leio é minha própria biografia, as primeiras palavras que me trouxeram até aqui, hoje. Meu prólogo.

Este que começa com as seguintes palavras...


Prólogo

Drake


Checando pela décima vez seu alforje, conferindo a presença de roupas, ferramentas, utensílios, comidas e outras tantas quinquilharias, o rapaz suava frio, tanto pelo inacreditável fato de finalmente estar prestes a embarcar numa épica aventura, que o levaria a terras nunca antes exploradas sob a promessa de fama, glória e riquezas nunca antes vistas...! Quanto pelo fato de estar extremamente atrasado. O navio, sua passagem para uma vida cheia de ação, peripécias e regozijos, naquele momento estava prestes a zarpar.

Terminando (mais uma vez) sua tarefa, ao disparar à porta do aposento, o rapaz deixou-se vislumbrar por uma última vez aquele seu pequeno, desarrumado e tão cheio de boas memórias quarto.

— Adeus. — Disse baixinho, quase como se estivesse se despedindo de, na verdade, sua inocente juventude.

Logo em seguida, descendo as escadas, chegou à sala de estar, onde deparou-se com uma cena que vinha se repetindo há dias: a senhora sua mãe, deixando seus olhos encherem-se d'água ao ver o filho, que agora partiria, enquanto o senhor seu pai, exibindo um meio sorriso orgulhoso apenas meneava a cabeça, assentindo em positivo.

— Pegou tudo?  Perguntou a mulher chorosa.  Está levando todas as peças de roupa, direitinho? E uma bússola? Não vá se deixar levar por esses homens, marinheiros, e tornar-se um degenerado, meu filho! Tome cuidado!

— Sim, sim e sim mãe. Além disso, eles não são degenerados, e mesmo que fossem, eu não sou tão tolo a ponto de "me deixar influenciar"! Adeus!  Despediu-se o rapaz, abraçando e beijando seus pais. — Adeus! — Repetiu, abrindo a porta e trespassando-a à rua, pondo-se a correr a toda a velocidade, deixando dessa vez sua mãe aos soluços, nos braços de seu pai, que o observava partir, orgulhoso.

Levantando nuvens de poeira a cada passo apressado, atravessando a cidade, Drake corria em direção ao porto, sem conseguir conter o sorriso, mesmo atrasado. O rapaz, Drake Endor, tinha apenas dezoito anos embora tivesse um corpo bastante avantajado, sendo alto e robusto, com músculos ganhos com horas de trabalho nas diversas tarefas da navegação, arte ensinada por seu pai, de seus olhos e cabelos eram castanhos e sua pele clara.

Passando em frente a padaria na qual vinha todos os dias quando menor, contra sua vontade, a pedido da mãe, para comprar os pães que seriam servidos no café da tarde de cada dia; ao cabeleireiro, cujo o qual o rapaz guardava pouca afeição, pois certa vez, o barbeiro após alguns bons drinks, fizera um desastre em sua cabeleira; a taverna, que passara a frequentar só recentemente, porém sabia que sentiria mais falta deste do que todos os demais edifícios que fizeram parte de sua vida ali; e outros inúmeros prédios de madeira ladeando a rua, Drake vendo-se então assaltado por uma série de memórias e pensamentos nostálgicos, revivendo aqueles momentos que lhe marcaram a vida, sentiu um aperto em seu coração num ínfimo momento de hesitação.

Finalmente chegando ao píer no qual a embarcação estava atracada, um grande navio a vapor com três altas chaminés e três altos mastros onde as velas estavam enroladas, com um poderoso bulbo feito para quebrar gelo, quase uma hora depois do


combinado, Drake viu o capitão do navio tirando os olhos dos marinheiros, que carregavam o último caixote à embarcação, pondo-se a fitar, exaltado, o rapaz, gritando-lhe:

— Aí está o vagabundo preguiçoso! Dormiu bem?!

O capitão do navio chamava-se Flint, era um amigo de longa data do pai de Drake, e era um homem baixinho, barrigudo e extremamente hirsuto, e não apenas pelos longos bigodes ou a barbicha presa por anéis de latão ou mesmo pelos braços cobertos de pelos, mas por todo seu corpo, pois Flint era um ratomem, um membro de uma das muitas espécies de seres sapientes que habitavam o mundo de Asatna. Apesar do rosto alongado, um corpo coberto de pelos e um longo e escamoso rabo, possuindo assim uma aparência um tanto assustadora, Flint era, no fundo, uma boa pessoa, e fora ele quem convidara Drake a viagem que faria ao extremo norte do planeta, ao Continente sem Nome (um apelido que, curiosamente, tornou-se o nome do lugar), como um membro de sua tripulação.

— Me desculpe!  Desculpou-se Drake, ofegante, apoiando suas mãos em seus joelhos, finalmente descansando da correria. — Quando eu estava saindo, percebi que não trazia comigo minha bússola...  continuou, fazendo uma pausa para respirar  aí eu tirei tudo, revisei o que trazia comigo e percebi que na verdade eu estava com a bússola o tempo todo! Mas quando eu arrumei meu alforje novamente, colocando tudo dentro, vi que dessa vez tinha deixado um par de meias para fora! E como não tinha espaço para simplesmente enfiá-las ali, eu...

— Tá bom, tá bom, eu entendi! — Disse o ratomem, interrompendo-o.  Mas que isso não se repita de novo! Agora suba de uma vez, que não há tempo para conversa, já vamos zarpar!

— Certo!

Então, da polida amurada de madeira do navio, sob os gritos de ordens do capitão, os passos apressados dos marujos e o assovio do vapor ao escapulir até impelir a roda d'água na traseira da embarcação, Drake vislumbrava a paisagem tornar-se cada vez mais distante, pequena aos seus olhos. Por uma última vez em sabe-se lá quanto tempo, observava sua terra natal numa despedida silênciosa: o movimentado porto, repleto de píeres e abarrotados de pequenas e grandes embarcações, navios pesqueiros e comerciais, a muralha de madeira de quatro metros de altura que circundava a cidade sobre a qual dezenas de guardas faziam, tranquilos, suas rondas, e possuía altas torres em intervalos regulares pontilhando-a a todas as direções, e as casas e lojas que o cercaram desde seu nascimento, que agora mostravam-se apenas como centenas e centenas de telhados coroados por um tantas outras chaminés.

Passaram-se uma dúzia de dias em alto mar, e, durante todo este tempo, Drake limpou o chão, amarrou caixas, barris, caixotes, e todos os outros tipos de coisas com todos os tipos de nós, e atiçou as caldeiras um incontável número de vezes. Uma experiência totalmente diferente do que esperara de sua épica aventura, com exceção do frio, este que mostrou-se ainda mais intenso do que o rapaz esperara, uma vez que a maior parte do território de Horac era subtropical, temperaturas realmente baixas sendo encontradas apenas na fronteira com Thirlundia, ao norte.

Jogando-se numa cadeira à mesa, na sala onde eram feitas as refeições, desgastado tanto pelo tédio, quanto pelo trabalho, decepcionado, Drake pôs-se a beber, despreocupadamente, um canecão de cerveja preta.


Fazendo o mesmo que o rapaz, Flint entrou na sala, encheu um canecão com cerveja e sentou-se a mesa, ao mesmo tempo em que puxava conversa, amigavelmente, perguntando:

— E então, o que está achando da viagem?

— Tranquila. — Respondeu Drake, não necessariamente como um elogio, fazendo assim as gargalhadas brotarem a boca do capitão.

— Ora, que bom! — Comentou, uma vez que se acalmou, o ratomem — Mas está gostando dela?

Diante da nova pergunta, Drake viu-se obrigado a tomar um longo gole da cerveja a fim de ganhar tempo para pensar numa resposta que não ofenderia o amigo de seu pai.

— Bem... em parte.  Respondeu por fim.

— Eu entendo, garoto, eu entendo, não precisa se envergonhar. Todos decepcionam-se na primeira viagem.  Apesar de ter se sentido um tanto ofendido por ter sido chamado de "garoto", Drake permaneceu em silêncio e ouvindo atentamente, deixando que o capitão continuasse:  Mesmo eu, quando mais jovem, imaginava a vida como marinheiro como grandiosa! Embarquei no navio de meu pai, numa curta viagem de negócios, até um porto de Namória, quando o país ainda não tinha um terço do tamanho que tem hoje. Eu esperava encontrar tesouros, ganhar todas as mulheres e me tornar famoso, mas, em menos de dois meses, eu já estava de volta em casa, sendo que minha única conquista foi ter aprendido meia centena de novos nós.

Simpatizando com a história de Flint, já mais tranquilo quanto aos seus sentimentos, Drake comentou, finalmente admitindo suas expectativas:

— Bem, então você não precisa me perguntar como estou me sentindo agora. Eu esperava ação! Glória! Riquezas! Digo, estamos indo para um novo continente, não é? Um continente nunca antes pisado por pessoas, não é? É de se esperar por uma aventura!

— De fato, essa não é apenas uma curta viagem de negócios, você realmente tem motivos para pensar assim. Na verdade, mesmo eu, e acho que boa parte do resto da tripulação também, estou muito empolgado com tudo isso, mas ainda nem mesmo chegamos ao fim do continente, garoto. A verdadeira viagem ainda está para começar, e ela se dará início quando entrarmos nos Mares não Nomeados. Embora eu não garanta que irá se tornar mais agitada por conta disso. Mas, se conseguirmos ir até o fim, definitivamente será um feito a ser lembrado. Até lá, tente conversar com um dos marujos, todos são muito experientes e já estiveram em uma centena de viagens, e cada um tem um tem pelo menos duzentas histórias a se contar!

— São cem histórias a mais do que a quantidade de viagens que eles já fizeram.

— Apontou Drake, com um meio sorriso.

— Marinheiros.  Respondeu Flint, dando de ombros.  Mas, pelo menos, eu garanto que as histórias são emocionantes.

— Imagino que sejam, afinal, na verdade, eu já tentei puxar assunto com os outros homens, mas cada um deles fala uma língua diferente, apenas uns três ou quatro falam horaciano e o fazem de forma realmente rústica.  Após um longo suspiro, Drake continuou: — Se a aventura ainda está para começar, quero que ela chegue logo. Me imagino lutando contra krakens e leviatãs...  Comentava o rapaz, até ser interrompido por Flint, que agora mostrava-se com uma expressão séria pela primeira vez durante a conversa:


— Não diga isso, nem de brincadeira, garoto. Deparar-se com um kraken ou qualquer outro monstro marinho enquanto em alto mar... é praticamente morte certa.

Sem jeito com a repentina censura, Drake calou-se, refletindo e percebendo a idiotice que falara num momento de empolgação. O rapaz estava prestes a pedir desculpas quando um terceiro entrou na sala, falando qualquer coisa coisa em thiriano, aparentemente avisando ao capitão de algo.

— Ótimo. — Retrucou Flint, no bom e velho horaciano, assentindo com a cabeça. Quando o ratomem já ia se levantando, como se percebesse uma possibilidade única, completou: — Ah! Egmyr, ei! Quando atracarmos, você e Sigddryg farão o reestoque dos suprimentos. E levem o Drake aqui com vocês.

— Entendido, capitão. — Respondeu Egmyr, com um sotaque tão forte que tornava a frase quase incompreensível, antes de sair da sala, voltando ao o que quer que estivesse fazendo.

— Chegamos a Qhur, o porto e cidade mais ao norte neste continente. — Explicava Flint ao rapaz.  Estamos em Thir. Embora aqui não seja exatamente como Éter, uma terra cheia de coisas inimagináveis, com certeza é um lugar magnífico, você verá. — Disse, referindo-se à ilha que já fora o antigo centro do mundo mágico e científico de todo o mundo, de toda Asatna.

Não demorou mais que uma hora para atracarem a embarcação e, uma vez isto feito, Drake, Egmyr e Sigddryg, desembarcaram e foram às compras, para repor os estoques uma última vez antes de seguirem adiante na jornada. Estes dois homens, ambos gigantes (espécie predominante ao norte deste continente, o Continente de Gal), o rapaz descobriu, eram nativos da região, assim, falando fluentemente o thiriniano e já conhecendo todas as lojas e caminhos que a elas levavam, os dois então ficando incumbidos de cuidarem de toda a negociação.

Os gigantes (ao menos aqueles nativos do Continente de Gal) eram pessoas de aparência quase idêntica a um humano comum, porém de pele e cabelos brancos como a neve, que constantemente ali caía dos céus, olhos muito claros, a cor somente variando entre o azul e o verde, e tendo de três a quatro metros de altura.

Drake esperava deparar-se com uma terra desolada, apenas um punhado de barracas de peixe congelado e um ou dois barcos pesqueiros atracados apesar do que falara Flint, mas, mesmo antes de descer a rampa do navio, já vislumbrava uma incrível e surpreendentemente viva paisagem: um extenso porto de pedra, repleto de enormes navios comerciais vindos de todos os cantos do mundo, buscando uma rápida travessia entre o ocidente e oriente, centenas de barracas, bancadas, lojas e edifícios formando um grande labirinto completo no porto, com estradas, becos e praças, onde vendedores ambulantes anunciavam seus produtos aos berros, e quase cinquenta metros para trás do cais, uma cinzenta e enorme muralha de quarenta metros de rocha, repleta de patrulheiros e torres de vigia, estas que tinham pelo menos dez metros a mais que a muralha, cercava e protegia aquela cidade, a capital de Thir, Qhur. Drake quase não conseguia manter a boca fechada, distraído com a grandiosidade, a prosperidade e beleza do lugar.

— Vamos, rapaz, temos uma tarefa a cumprir.  Chamou Egmyr, o gigante que exibia uma longa trança nos cabelos, sorrindo ao perceber a admiração de Drake.  Você ainda não viu nada, mesmo.

E o gigante tinha razão. Em minutos de caminhada, ao passar pelos enormes


portões dourados da cidade, Drake não conseguiu conter o espanto e viu-se obrigado a indicar, aos gritos:

— Urso!

As gargalhadas, Egmyr e Sigdryg trocaram algumas palavras, antes de Egmyr voltar-se a Drake:

— São "ursos de cornos". É muito difícil de se criar bisões aqui, como fazem no seu país, eles comem muita grama, e aqui não tem muita disso, afinal. Mas, em compensação, tem peixe. — Explicava o gigante cabeludo, com seu gutural sotaque, descrevendo o animal usado como montaria a tão poucos metros de onde estavam: um grande urso branco com um longo par de chifres curvados.

Passado o choque da esquisita montaria, Drake passou a reparar mais nos edifícios escuros que o cercavam: feitos de tijolos escuros e uma madeira quase negra, chegando a ter quatro andares e todos estes muito altos uma vez que a maior parte da população era constituída de gigantes, tinham poucas janelas e as telhas... não estavam visíveis, pois estavam cobertas por neve, esta que também se aglomerava no canto das ruas.

Momentos depois de entrar na cidade de fato, ao virar em algumas esquinas, cruzar uma ponte coberta e entrar num beco, os três chegaram a um armazém lotado de caixotes, onde Egmyr cuidou das negociações em sua língua incompreensível a Drake. Embora o rapaz tenha se empolgado com a exótica beleza da cidade, sentiu-se realmente incomodado com o tamanho dos sacos de aninhagem, caixas e barris daquele lugar, voltando o resto do caminho praguejando silenciosamente o peso de sua carga.

Com a respiração condensando numa nuvem a sua frente, Drake fitava a imensidão do Mares Não Nomeados. Já fazia mais de um mês desde que partira de sua cidade natal e também mais de um mês que não fazia a barba, ficando com a face coberta por uma rala pelugem.

— Admirando o mar? — Perguntou Egmyr, que, desde as compras em Qhur, tornara-se bastante próximo a Drake.

— Você acha que tem alguma vida daqui para frente? — Retrucou o rapaz, curioso.  Digo, o gelo já cobre quase toda a água por aqui e mais adiante vai ficar ainda mais frio, não é?

— Eu Acho. — Respondeu o gigante cabeludo. — Não é tão raro baleeiros caçarem próximos aos Mares não Nomeados, e, se o problema é o frio, podem ter, simplesmente, animais peludos lá, não é?

— ...É, acho que sim. É que, ultimamente, eu venho me perguntando, apesar dessa viagem ser algo a ser escrito nos livros de história e tal: isso tudo tem alguma utilidade? E se tudo o que encontrarmos lá for mais neve e só?

— Nesse caso, ainda receberíamos nosso salário e de bônus estaríamos nos próximos livros de história, oras! — Disse Egmyr, como se sua resposta fosse a mais natural possível.

Sem conseguir conter as risadas, que vieram de repente a sua boca, Drake concordou em meio a gargalhadas que compartilhara com o amigo, secando as lágrimas antes que elas congelassem em sua face, dando meia volta, dirigindo-se à escada que o levaria ao interior quente do navio:

— É, é claro! Você tem razão, Egmyr!

Cruzando o convés à sua frente, que agora estava sempre coberto de neve e gelo,


independentemente do quanto Flint obriga Drake a limpá-lo, já quase descendo as escadas, visando beber algo quente e assim espantar um pouco do frio, o rapaz viu-se obrigado a apoiar-se na amurada do navio, sentindo um impacto que chacoalhou toda a embarcação, ouvindo logo em seguida o capitão gritar, da cabine de controle da embarcação:

— Merda, de novo não!

Logo entendeu Drake, desanimando-se de repente, que haviam ficado presos novamente no gelo. "Merda, de novo não!" pensou, concordando com Flint, relembrando-se das duras horas que passara junto do resto da tripulação para tirar o navio do gelo da última vez que ficara preso.

— As picaretas! — Tornou a gritar o capitão, convocando os marujos, ordenando-os a quebrar o gelo.

Já se aproximando do barril onde estavam as ferramentas, que estava cercado por outros homens tão cansadas, rabugentos, mal-humorados quanto o próprio Drake, o rapaz, e todo o resto da tripulação, sentiu novamente o chacoalhão, dessa vez ainda mais forte que o anterior, fazendo as tábuas de madeira do navio estalarem-se todas, inclinando o convés para o lado o suficiente para que algumas caixas, que não estavam amarradas, escorregarem alguns metros, fazendo as picaretas todas caírem ao chão. Porém, o navio a vapor ainda estava parado.

Uma vez que o ranger da madeira e o arrastar dos equipamentos cessaram, um silêncio mórbido pairou por sobre toda a tripulação, todos prendendo a respiração ao mesmo tempo. Passaram-se cerca de dez segundos antes que alguém respirasse novamente, agachando-se para pegar uma picareta, com uma expressão mais próxima da esperança do que ao alívio, porém, no mesmo instante em que o homem, um sátiro (uma pessoa que enquanto a parte superior de seu corpo era como a de um humano comum, a parte inferior do corpo era coberta por pelos, suas pernas arqueadas como as de um bode e com cascos fendidos no lugar dos pés, o que dificultava o uso de calças) tomou a ferramenta pelo cabo, estilhaços de madeira voaram a metros pelo ar, o bombordo do navio explodindo de repente, seguido por um estrondoso e sinistro crocitar.

— AS ARMAS!  Berrou Flint, dando início ao combate.

Enquanto todos os marujos, aos berros, corriam ao barril onde estavam depositadas armas de todos os tipos, espadas, lanças, alabarda, machados, e até mesmo armas de fogo, como revólveres e rifles, Drake virou-se aos poucos, até pregar seus olhos na criatura que atacava o navio: um karkinos albino, um crustáceo gigantesco, com uma carapaça resistente como pedra e pinças tão grandes que partiriam aqueles ursos de cornos de Qhur como um homem adulto parte um palito de dente.

Com uma série de relâmpagos alaranjados passando sobre sua cabeça, os disparos das armas de fogo, que, apesar de terem atingido em cheio o monstro, nem mesmo arranharam sua carapaça, e alguns empurrões de marinheiros que avançavam com armas em punho contra o karkinos, Drake finalmente voltou a si, percebendo o perigo de sua permanência estática ali, pondo-se a correr para tomar uma arma, caso alguma delas ainda tivesse sobrado, para que ao menos tivesse alguma chance de defender-se.

Antes, porém, que desse mais de três passos, mais uma vez o navio inclinou-se, dessa vez fazendo chover, além dos estilhaços de madeira, sangue, entranhas e membros esmagados, torados fora. Tornando o olhar ao krakinos, a virar-se para trás, Drake viu o monstro levantando uma de suas pinças, na qual estavam grudados os restos do pobre infeliz do sátiro de antes, que a criatura fizera o corpo estourar como um balão cheio


d'água num único golpe.

Fixando-se apenas na ideia de pegar uma arma, o rapaz voltou a correr, simplesmente já não pensando em nada, surdo aos gritos dos homens sendo estraçalhados às suas costas, e cego aqueles que saltavam do navio numa irracional tentativa de salvar-se ao fugir para as águas congelantes do extremo norte. Alcançando o cabo do primeiro equipamento que vira, uma alabarda, Drake voltou-se para a criatura... ficando mais uma vez estático, não conseguindo mover um único músculo sequer.

O monstro, subindo parcialmente no convés do navio, girando suas pinças para todos os lados, fazendo aquele abominável crocitar encher o mundo, parecia vir exatamente na direção de Drake, fitando o rapaz com sua dúzia de cintilantes olhos.

— DRAKE, CUIDADO! — Berrou Egmyr, alertando o amigo, correndo na direção do rapaz. Até ter a metade superior do corpo separada da inferior por uma das poderosas pinças do karkinos, morrendo inutilmente, logo antes do monstro descer sua outra pinça, acertando em cheio a perna esquerda de Drake, arremessando-o para a amurada do navio, que quebrou-se, fazendo o rapaz cair ao mar de gelo.

"Eu vou morrer..." pensou Drake, fitando o cinzento céu sobre sua cabeça, compreendendo que os ossos de sua perna atingida haviam sido estraçalhados.

Centímetro a centímetro, o rapaz caía de encontro ao mar sob si. Como se o tempo, o medo e todo o resto não mais fossem significantes, Drake, desnorteado, sentiu seu corpo atravessar a fina camada de neve sobre o gelo no mar, sentiu, logo em seguida, o gelo rachar-se sob seu peso e a água salgada lhe envolver todo seu corpo, o rapaz perdendo lentamente a consciência.

E então uma forte pancada, ao chocar sua cabeça contra algo maciço, trazendo-lhe assim, junto do choque do frio e a dor, tanto a da cabeça quanto a de sua perna, seus sentidos de volta, fazendo o rapaz entrar em desespero, quase como se somente então percebesse o significado de "morrer".

Debatendo-se agitadamente, sentindo a água salgada do mar entrar em sua boca, nariz e olhos, tentando levantar-se, porém vendo-se impedido por conta de sua perna quebrada, espirrando água para todos os lados, Drake conseguiu finalmente apoiar-se em sua perna boa e em ambos os braços, levantando-se sobre os membros e ficando assim acima da água. Olhando ao redor, o rapaz percebeu que a água chegava a apenas alguns centímetros acima da areia e que o navio não havia sido parado pelo gelo, mas que na verdade havia encalhado na costa do próprio Continente sem Nome, que, tão pálido quanto tudo em qualquer outra direção, fora confundido com o próprio mar.

Com o frio penetrando até o fundo de seus ossos, a tremedeira apenas intensificando a dor em sua perna quebrada, Drake rastejou até de volta ao navio, quando quase já encostando na embarcação, o rapaz percebeu que não tinha qualquer forma de subir a bordo. Ainda ouvindo os berros de seus companheiros marujos a cima, Drake respirou fundo e gritou por ajuda a todo o pulmão, tão alto quanto conseguia, porém, ainda assim, teve sua voz subjugada por um estrondoso barulho, como um trovão, que ressoou exatamente quando ele gritara. Logo em seguida houve um confuso alvoroço, um medonho crocitar, o barulho de madeira quebrando e logo em seguida um "glup" de algo caindo na água. O alvoroço perdurou por vários minutos, os berros dos marujos e seus passos apressados, a madeira rachando e o tilintar do aço tornando as súplicas por ajuda do rapaz em apenas sussurros em meio a um tornado, até que Drake murmurou uma última vez antes de render-se ao frio, desmaiando.


Mancando pelo convés do navio, apoiando-se numa muleta improvisada, Drake dirigia-se à cabine do capitão, frustrado.

Com o ataque do karkinos, Flint havia perdido quinze homens, oito diretamente para o monstro e mais sete para ferimentos e doenças que vieram depois, reduzindo a tripulação a apenas vinte e cinco pessoas. Daquela vez, conseguiram afugentar o karkinos com um tiro de canhão, que tiveram de trazer do interior do navio, onde estava a postos numa janela. O disparo do canhão foi a única coisa que mostrou-se capaz de atravessar a carapaça do monstro, que arrancou da criatura quatro patas direitas numa explosão de seu esverdeado e fétido sangue, que impregnou toda a embarcação com o insuportável cheiro de peixe podre que perdurava mesmo então, depois dos marinheiros terem lavado e relavado o convés incontáveis vezes.

Somente quase uma hora depois de rechaçarem o monstro que um dos tripulantes viu Drake recostado ao lado da embarcação, desmaiado, quando o resgataram. Assim como muitos outros tripulantes, o rapaz adoeceu, fraco pelo frio, ficando mais uma vez cara a cara com a morte, e sendo mais uma vez salvo por sua sorte, que, infelizmente, dessa vez não mostrou-se tão eficiente. Quando Drake finalmente abriu seus olhos, despertando, já curado da febre, viu-se sem uma das pernas, aquela que o karkinos atingira.

Desde então passara-se uma semana, o monstro não atacara novamente e, após muitas discussões, foi decidido que continuariam com a expedição, um grupo de oito desbravadores sendo montado e incumbido de avançar o máximo possível continente adentro, enquanto os demais marujos faziam os reparos necessários na embarcação.

— E como assim eu não estou no grupo dos desbravadores?! — Perguntou Drake a Flint, sua frustração logo transformando-se em raiva.

— Precisamos de homens aqui, para consertar o navio e para protegê-lo caso aquela coisa volte. — Respondeu Flint, sem tirar os olhos do papel no qual escrevia o relatório diário.

— Eu abandonei minha casa para isso! Perdi minha perna para isso! E você simplesmente me deixa para trás, aqui, tendo de ficar olhando para as costas daqueles que serão lembrados?!

— Eu já disse, precisamos de você aqui, e ponto final!  Retrucou o ratomem, esmurrando a mesa, franzindo as sobrancelhas, fechando a face numa terrível carranca. Passando-se uns momentos, os dois encarando-se em silêncio, Drake fechando os punhos forte o suficiente para cravar suas unhas na carne, Flint continuou, ao fim de um longo suspiro: — Eu te entendo Drake, mesmo, mas eu não posso fazer isso. Sei que este não era o planejado, mas prometi a seu pai que o traria de volta em segurança, e agora, com essa reviravolta... É muito arriscado. Se algo acontecesse a você, eu não poderia encarar seu pai de volta.

— Mas algo já aconteceu comigo. — Disse o rapaz, balançando o toco de sua perna esquerda, criando um silêncio tenso, sombrio, que rapidamente preencheu todo o aposento, a face de Flint deformando-se numa expressão que misturava raiva e vergonha.

— Ao menos, se és mesmo amigo de meu pai, dê-lhe a satisfação de imortalizar seu filho mutilado.

Os dois encararam-se sem dizer nada pelo que pareceu ao rapaz ser uma eternidade, quando, Drake já prestes a suplicar dizendo que não atrapalharia os outros do grupo, ouviu Flint finalmente responder-lhe, quase num sussurro, voltando-se novamente ao documento, impassível:


— ...Então vá. Faça o que quiser.

Desde que puseram-se a avançar continente adentro, vinha nevando incessantemente, forçando-os a parar de progredir. Presos pela neve, não podiam continuar em frente ou voltar ao navio e, para piorar, a quantidade de suprimentos que trouxeram, o suficiente apenas para duas semanas, já havia sido consumida em mais da metade.

O sol ainda não nascera, mas todos os nove, incluindo Drake, já estavam de pé, preparando café da manhã, espremidos no interior da barraca. Sentindo a atmosfera tornar-se mais sombria a cada dia, o rapaz disse, tentando puxar assunto com algo que animasse os demais companheiros, mesmo que ele próprio estivesse melancólico desde o momento em que acordara sem uma das pernas:

— ...Isso me lembra de uma história que meus pais me contaram, sobre um rigoroso inverno que aconteceu muitos anos atrás, quando eles ainda moravam com meus avós: ele chegou antes da hora e o cultivo foi todo perdido, além de, também, boa parte do gado. Nos meses seguintes a coisa foi apertando, porque eles perderam o contato com outras cidades por terra, por conta da neve, tendo apenas uns comerciantes pilantras que traziam mercadorias de navio mas cobravam os olhos da cara por ela.

"Tiveram de abater os bisões, que eram fonte de sustento de muitos lá, usados tanto como montarias como animais de carga. Depois foram os gatos, mas estes não tinham muita carne, então, logo em seguida vieram os cães".

"Estavam todos desesperados, cozendo e comendo roupas e botas de couro e qualquer outra coisa na qual conseguissem pôr as mãos. Pensavam que iriam morrer... então o inverno, tão de repente quanto chegou, se foi. De um dia para o outro, o sol já brilhava forte nos céus, a neve derretia, a grama voltava a crescer e as estradas foram reabertas. Foi quando minha mãe ficou grávida de mim, e meus pais então se mudaram para um lugar mais quente."

Drake lembrou-se que ele era o único ali que falava horaciano apenas quando um humano grunhiu alguma coisa a seus colegas, que os fez gargalhar, finalmente despertando alguma conversa entre o grupo. "Bem, de qualquer forma, acho que consegui o que queria" pensou o rapaz, envergonhado, terminando de tomar sua caneca de café num último gole, levantando-se e avisando os demais com a única palavra em namoriense que conhecia, dizendo que iria "mijar".

Levantando a lona da barraca, saindo para fora, Drake afastou-se alguns passos do acampamento, deixando as risadas para tras, ouvindo então apenas o barulho de seus pés, ou melhor, seu pé e sua muleta, afundando na neve. Baixando as calças, e olhando para os céus, enquanto fazia o que tinha de ser feito, fitava uma nuvem vagarosamente tapar o sol e depois, continuando a seguir seu rumo, sair da frente do mesmo.

— Sol.  Comentou Drake.  Sol!  Gritou, voltando à barraca às pressas.

Enquanto caminhavam, subindo uma colina lamacenta, os nove entreolhavam-se, nervosos, todos sentindo-se da mesma forma, porém nenhum deles confiante o suficiente para admitir. Drake, tendo de fazer o dobro de esforço que os demais, sentia-se ainda mais apreensivo.

Fazia quatro dias desde que a nevasca cessara e, até então, tinham avançado bastante adiante dentro do Continente Sem Nome, na direção de uma cadeia de altas colinas que avistaram. A viagem tinha sido exatamente o que se esperara, ao menos


daquela vez: a pouca comida sendo fortemente racionada, dias frios e noites ainda mais frias e cada vez menos risadas durante os acampamentos. Porém, então a situação mostrava-se diferente, porque...

— ...Está quente.  Confessou o rapaz.

Ofegante e já coberto de suor, sentindo sua roupa colar em sua pele, o rapaz pensava: "há não muito tempo atrás, nos aglutinávamos numa única barraca, abraçados uns aos outros para não congelarmos" e "nevou incessantemente por mais de uma semana, ainda assim esse lugar está virado num lamaçal".

Finalmente, chegando ao seu limite, desconsiderando o que os demais pensariam, se ele estava com sintomas de hipotermia ou enlouquecendo, Drake, enquanto seus companheiros fitaram-no sérios, tirou duas camadas de suas pesadas roupas, um grosso casaco de peles e um colete de lã.

Apesar de não compartilharem uma língua comum, aquele ato podia ser compreendido em qualquer parte do mundo e por qualquer um, e, aparentemente, os demais exploradores assim o fizeram, pois, após trocarem rapidamente algumas palavras, todos fizeram o mesmo que Drake.

Não demorou muito mais para que chegassem ao topo da colina, onde depararam-se com uma gigantesca depressão, um vale abaixo coberto por uma grossa camada de névoa, que impedia o vislumbre de qualquer coisa ao fundo.

— Nuvens? — Perguntou Drake, mesmo sabendo que ninguém responderia. Apesar da extrema dificuldade em descer o declive de muleta, o rapaz empenhou-

se em acompanhar os outros oito na descida da colina, tomando cuidado para não dar um único passo em falso, que, sabia, ali isso tiraria-lhe sua vida facilmente, praguejando a cada desajeitado passo dado. Para sua surpresa, a cada metro descido, tudo ficava ainda mais quente e suas roupas ainda mais úmidas. "Não era para estarmos no extremo norte de Asatna, no topo do mundo?"

Porém, o mais inesperado mostrou-se ao rapaz somente quando este alcançou o sopé da colina, ao chão da depressão, quando suas roupas já estavam pingando água e Drake sentia-se tonto, a ponto de que pensou se o que via era uma mera ilusão e que de fato enlouquecera, pois a sua volta havia uma intensa floresta tropical, repleta de altas árvores, grama, arbustos e limo por toda a parte, além de vários animais de todos os tamanhos e formas a fitá-lo das copas das árvores ou do chão da floresta. O rapaz decidiu que não estava de fato louco somente quando percebeu a pasma e aterrorizada expressão no rosto de seus companheiros, que não conseguiam fechar a boca, fitando tudo a seu redor.

Prestando mais atenção a estranha paisagem, logo Drake percebeu que nenhuma daquelas árvores, plantas e animais eram como qualquer outro que já vira antes. Os animais, alguns parecidos com macacos e outros com insetos ou mesmo peixes, fitavam Drake e seus demais companheiros curiosos; a grama e os arbustos pareciam mais as penas de algum pássaro extravagante, cada folha com uma cor diferente, algumas até mesmo brilhando, fluorescentes, enquanto as árvores, apesar de estenderem-se retas para cima, como qualquer outra, mais pareciam com gigantescos cogumelos, com suas copas (ou seus píleos) em forma de concha, acumulando toneladas de água fervente. "Isso que nos cerca não é névoa, é vapor!" percebeu Drake.

Todos recuaram alguns passos quando, da mata, surgiu uma enorme criatura parecida ao mesmo tempo com um elefante e com um macaco, porém com pelo menos quatro metros de altura ainda quando sobre suas quatro patas. Musculoso e coberto de pelos, a criatura arreganhando sua enorme boca, mostrando todos os longos e afiados dentes e um par de assustadoras presas sob a cumprida tromba, a criatura rugiu tão alto quanto uma baleia, pisoteando o chão com as patas como um touro enquanto abanava as grandes orelhas.

Resmungando qualquer coisa, o líder do grupo virou-se aos demais, gesticulando com as mãos, nervosamente, numa expressão de puro terror. Quando todos pareciam querer recuar, os oito já subindo às pressas a colina, o rapaz interveio:

— Ei, vocês não podem estar falando sério, não é!? Nós viemos até aqui justamente por algo assim, para nos depararmos com uma descoberta como essa! Pessoas morreram por isso! Vocês não podem simplesmente recuar com o rabo entre as pernas agora!

Porém, novamente, de nada adiantaram as palavras de Drake, pois, sem compreender o rapaz ou ignorando seus gestos incrédulos de propósito, seus companheiros exploradores deixaram-no para trás, fugindo às pressas, subindo o mais rápido que conseguiam a colina da qual subiram e cercava aquele misterioso vale.

Praguejando sua falta de sorte, seu coração batendo acelerado, esperando que aqueles estranhos animais atacassem-no a qualquer instante mas, ainda assim, sem conseguir recuar, Drake virou-se novamente à misteriosa e improvável floresta que parecia ter saído de um conto de fadas, levando sua mão rapidamente ao coldre preso ao sob suas axilas e sacando o revólver que trouxera consigo.

Percebendo que aquelas esquisitas criaturas pareciam temê-lo tanto quanto ele as temia, Drake decidiu avançar mais alguns passos, o que fez a maioria delas recuar nova e velozmente para mata adentro numa única horda assustada, com exceção do enorme elefante-macaco, que mostrou-se mais territorial que os demais, tornando a bater com a pata dianteira no chão, levantando a terra, e a rugir enquanto exibindo suas mortais presas e dentes. Percebendo o perigo, mas ainda decidido a avançar ("não vou deixar que tudo isso tenha sido em vão! Nem minha perna, nem o sacrifício de Egmyr!), Drake, pondo-se a berrar, encarou o animal e disparou para o alto, espantando de uma vez por todas qualquer coisa ainda num raio próximo.

Conforme avançava mata adentro, sentindo muitos olhos a encararem-no a cada passo, com o revólver, já novamente completamente carregado, bem firme em sua mão livre, Drake observava os seus arredores, parte admirado, como se tivesse adentrado, de alguma forma, em algum momento da viagem, num outro mundo, explorando uma terra fantástica e habitada por milenares seres mágicos, e parte horrorizado, sem saber quando um daqueles pares de olhos escondidos pelas folhas coloridas saltariam sobre ele e estraçalharia-no por completo.

Tudo ficou ainda mais bizarro quando, por entre arbustos e rochas cobertas de limo, começaram a surgir as ruínas. Eram obeliscos partidos, repletos de estranhos símbolos gravados em seus quatro lados, muralhas caídas de dezenas de metros de altura e mais dezenas de metros de largura, feitas com gigantescos blocos únicos de rocha, as partes que ainda resistiam de pé mostrando um encaixe perfeito entre eles, e também, surgiu à frente de Drake uma estrada de tijolos hexagonais perfeitos, que o levaram a uma escadaria que parecia se estender até os próprios céus. Hesitante mas impulsionado pelos mesmos instintos que o fizeram embarcar naquela viagem, que o fizeram adiantar-se naquela floresta surreal, os instintos habitantes dentro do coração de cada pessoa, que levaram exploradores a descobrirem novas ilhas e continentes e conquistadores a levarem seus exércitos à vitória, o rapaz pôs-se a subir degrau por degrau, instigado pela curiosidade, sedento de reconhecimento, riqueza glória e poder.

Conforme subia, Drake viu passando por si dezenas daquelas muralhas, centenas delas, uma maior que a outra, até que percebeu que elas, na verdade, constituíam uma única estrutura piramidal, a qual então escalava. Mesmo que ainda tivesse suas duas pernas em boas condições, percebeu Drake, ainda demoraria várias horas para subir ao topo da pirâmide, mas o rapaz persistira e após sabe-se-lá-quanto-tempo, finalmente alcançara seu patamar. O que vira lá foi ainda mais súbito e impensável que a floresta em si ou a pirâmide e incontáveis vezes mais aterrorizador. Com milhares de vezes o tamanho de qualquer gigante, colossal, ele fitava o rapaz com o seu olhar vazio, descansando em seu trono de pedra, uma montanha sob um deus.

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