Guerra A Ruína - Capítulo: 9

Capítulo: 9

Azai.


— ...Por que não recrutar apenas harpias, fadas e vampiros, hein?  Perguntou um soldado a mesa, sentado próximo a Azai.

A pergunta gerou uma serie de gargalhadas no refeitório, os outros soldados desprezando-a, como se a resposta fosse das mais óbvias. Vendo o soldado que fizera a pergunta encolher-se na cadeira com as risadas, envergonhado, o Maioral-Mor, parando de comer, curioso, retrucou:

— Por que será?

De repente, quase todas as risadas morreram, a maioria dos soldados calando-se. Os homens trocavam olhares entre si e cochichos percorriam todo o refeitório. Os poucos que ainda riam eram os outros Maiorais-Mor e oficiais de alta patente que ali também tomavam seu café da manhã, a maior parte deles sentado numa mesa sobre um estrado, separados dos demais soldados, seus subordinados. Tadeo, à frente de Azai, simplesmente ignorava toda a discussão, comendo tranquilamente.

— Vocês aí.  Chamou Azai, indicando uns soldados adiante, que antes riram da pergunta. O Maioral-Mor tinha a face deformada num ar de confusão quando continuou:  A resposta perecia-lhes bastante clara, momentos antes. Poderiam, então, explica-la para mim? — As risadas dos soldados a mesa do estrado se intensificaram, tornando-se em gargalhadas.

Aqueles a quem Azai havia feito a pergunta mais uma vez entreolharam-se e somente quando um cutucou o outro com o cotovelo havendo uma resposta:

— ...Porque...  Começou o homem, de repente incerto. Inseguro, continuou:

— Porque, agora com as armas de fogo, voar não é mais uma grande vantagem...?

— Hm, isso faz sentido. — Comentou Azai, coçando a barba. — Mas, sabe, todas as outras pessoas também morrem para armas de fogo. Então alistar somente os voadores traria apenas vantagem ao exército de qualquer maneira não? Movem-se mais rápido, têm melhor visão. Então, se a única desvantagem é a mesma que a de qualquer outro soldado de qualquer outra espécie, por que não criar um exército como o sugerido pelo nosso companheiro ali? Nós, que andamos pelo chão, apenas atrasamos os outros afinal.  Concluiu, para, mais uma vez, o divertimento dos demais oficiais.

Percebendo que, então, a resposta já não mais parecia tão certa, que de repente as pessoas ali realmente começaram a se perguntar o porquê antes de simplesmente rirem da questão porque sua solução parecia ser de senso comum, Azai suspirou e viu-se dando mais uma lição a seus soldados:

— A atual forma dos exércitos (e digo no plural porque é como é utilizada em todo o mundo... bem, pelo menos em todo o mundo da superfície) não é um sistema desorganizado, criado apenas para aumentar os números, afinal, isso, muitas vezes, por si só não significa a vitória. Afinal, a guerra foi a primeira arte, nascida em épocas mais antigas que os mortais podem se lembrar, tão velha quanto a própria vida, e desde então vem se desenvolvendo.

"Como vocês sabem, a alguns milênios, não era incomum as pessoas isolarem-se em seus reinos, onde apenas um único tipo de espécie tinha o direito de ser livre, ou mesmo de viver (como um exemplo bastante recente, e o último deste tipo de governo, temos Darco) ou com pequenas alianças com uma ou duas outras espécies. Nestas nações, o exército era constituído de, obviamente, a raça livre do país.

"Num destes antigos governos, do outro lado do mar, em uma floresta negra num vale cercado por montanhas frias e distantes, um povo era em especial implacável, invencível em seu território: as fadas. Voavam baixo e com a agilidade de libélulas por entre os grossos troncos e misturavam muitos saltos, piruetas e todos os tipos de acrobacias ao seu estilo de batalha, utilizando não apenas da agilidade do voo, mas também de seus olhos especias."

Sabe-se que os estranhos olhos das fadas enxergam de forma diferente de qualquer outro. Eles veem cores inimagináveis as outras espécies, raios e luzes estranhas e fantasmagóricas. Não são incomuns os boatos de que eles podem ver outros mundos ou através de paredes.

"Então, um dia, de repente, de um lugar que as fadas jamais imaginariam, surgiram outros inimigos. Vinham lá de cima, dos céus, sob a intensa luz do sol. Suas asas eram maiores e mais fortes, e eles voavam mais alto e mais rápido que elas. Abatiam- as com golpes certeiros com suas armas ou dilaceravam-as com suas garras, e depois subiam para fora do alcance delas. E esse inimigo invencível era de uma outra espécie, eram harpias."

"E assim, estas pessoas com asas de pássaros tomaram o vale, criando seu reino nas montanhas. Eles eram implacáveis, invencíveis em seu território. Atacavam rapidamente, dilaceravam e saiam do alcance do inimigos, ou simplesmente disparavam flechas lá do alto, utilizando de seus olhos de aguçados e infalíveis. Durante o dia."

"Então, um dia, de repente, de um lugar que as harpias jamais imaginariam, surgiram outros inimigos. Vinham de... De onde vinham? Sempre atacavam de noite, quando as harpias tornavam-se praticamente cegas. Os inimigos voavam mais devagar, porém mais silenciosamente, assim como seus movimentos eram precisos e furtivos, utilizando das sombras e do silêncio. Matando e então desaparecendo, como se nunca ao menos tivessem existido. Vampiros."

Uma vez que terminou de falar, Azai percebeu que recebia mais atenção do que esperava, todos aqueles do refeitório atentos a história, em silêncio. Quebrando o silêncio, percebendo que o Maioral-Mor tinha acabado, um soldado confuso perguntou:

— Então... os vampiros são os mais fortes?

Sentindo como se tudo o que tivesse falado não passasse de uma perda de tempo, irritado, Azai completou, já respondendo a pergunta daquele homem lento, de sobrancelhas franzidas, com uma carranca feia:

— Anos depois, eles perderam para os sátiros, que tinham vantagem em terreno rochoso e também aproveitaram-se das limitações diurnas dos vampiros. E os sátiros, por sua vez perderam para outra espécie, até que as fadas novamente retomaram o lugar, séculos depois, assim o ciclo recomeçando. Moral da história: todas as espécies têm vantagens e desvantagens físicas naturais, porém isso não as torna invencíveis, afinal, todas as espécies também têm uma ou outra desvantagem, mesmo os goblins, que são pequenos e fisicamente mais fracos que qualquer um, são tão mortais quanto um gigante furioso armado com um martelo de batalha, se estiverem com uma adaga em mãos e nas sombras, utilizando de sua audição incrível para esgueirarem-se para trás de seus alvos. Além de que, não é necessário extrema força física para puxar um gatilho, mirar um canhão, controlar belonaves e cumprir com tantas outras tarefas vitais as forças armadas de qualquer país. Uma mistura eficiente das espécies torna o exército mais forte! — Concluiu o Maioral-Mor, curtindo, presunçoso, a admiração e atenção que recebia dos soldados ao refeitório, seus subordinados.

— ...Não é de se estranhar que eles passem a fazer estas perguntas agora, não é mesmo? — Apontou Tadeo.

Azai e seu amigo estavam fumando, apoiando-se num canto da muralha de madeira, observando a base, que então estava visivelmente mais agitada do que o normal.

Dos grandes portões, que não fechavam-se a dias, entravam fileiras aparentemente intermináveis de caravanas, carroças, carros de boi e camelos com os lombos carregados, todas transportando comida, remédios, armas, munição, armaduras e outros suprimentos, além de um grande número de montarias, como os cavalos (tipicamente utilizados ali, ao sul do continente) ou camelos e chacais-monarcas, mais característicos do berço de Namória, ao norte do Deserto Interregno.

Também estendia-se a entrada da base, organizados numa longa fila indiana, pelo menos duas centenas de homens livres de todas as espécies, todos ali presentes a fim de alistarem-se no exército. Isso devia-se, principalmente, ao intensa esforço do governo na grande campanha de recrutamento que vinha ocorrendo então, com representantes militares e políticos passando em desde os menores vilarejos às maiores cidades, incitando medo e ódio com as palavras certas contra os inimigos ao mesmo tempo que prometiam glórias e riquezas aqueles que juntassem-se ao exército. Já tinha tempos que esta campanha de recrutamento vinha sendo promovida, mas com o estouro da guerra, tornou-se muito mais intensa e notória.

— Estamos em guerra, afinal.

— Pois é. — Concordou Azai, após baforar um longo filete de fumaça. — Quanto tempo mais você acha que ficaremos aqui? Um mês? Dois? Digo, ainda temos que treinar estes novatos, os suprimentos continuam chegando e temos de verificar e contar todos eles, e a campanha de recrutamento por essas bandas parece estar longe de acabar.

— Pelo menos mais um mês.  Respondeu Tadeo, sem o menor sinal de dúvida em sua voz, sincero em sua resposta.

— Por que você acha isso? Por que "pelo menos mais um mês mais um mês"?

— É obvio, não é? Com todos os rumores e estas notícias nos jornais... As tropas do sul não irão partir antes do término das eleições de Nova Crasíria. De outra forma, "eles" não estariam aqui ainda.  Completou, indicando com a cabeça o maior destaque da base nos últimos tempos: os cintilantes, magos treinados para a guerra.

Namória, como qualquer outra nação que se prezasse, tinha sua própria e organizada comunidade mágica, os membros da divisão militar sendo conhecida como "cintilantes". Eram magos treinados em templos secretos (como a maioria dos magos de guerra dos outros países também eram) especificamente para batalhas contra outras pessoas ou exércitos desde suas infâncias, mestres em feitiços letais e de suporte de todos os tipos.

Os cintilantes vestiam capas, mantos e muitas outras camadas de tecidos tingidos de negro que encobriam, na verdade, uma proteção, armadura leve. Carregavam uma longa cimitarra e um par de adagas largas na cintura, uma vez que também aprendiam combate corpo a corpo, como a elite militar do país. O detalhe que mais chamava a atenção neles porém, eram suas douradas máscaras de metal em forma de crânio que cobriam seus rostos, um turbante negro envolvendo também suas cabeças. Tanto as máscaras, as roupas negras e as lâminas a cintura, quanto o nome da divisão eram um legado de séculos passados, de muito antes da família real de Namória (os Brilhantis) ascender ao poder. E origem também de muitos boatos.

Os cintilantes que ali alojavam-se vinham do sul, de algum lugar próximo as misteriosas e sombrias Matas Inexploradas e tinham chegado em nove grupos de vinte, apresentando-se a base durante a noite (aparentemente haviam viajado disfarçados nas caravanas. Alguns diziam que eles logo partiriam, apenas esperavam o resto do grupo ou estavam reabastecendo-se para logo continuar a viagem ao norte, desta vez, então, junto do resto dos soldados da base. Outros, porém, contavam histórias mais absurdas, como que, na verdade, eles estariam fazendo seus estranhos e macabros rituais para mais facilmente convencer o povo a alistar-se) ou estarem "acumulando as sombras da noite" para usarem como poder nas batalhas que estavam por vir. Superstições que nasceram junto da organização, uma vez que ela já fora um grupo de assassinos mercenários responsáveis por dar um golpe no antigo governo do país. Mesmo Azai, embora não admitisse, sentia-se desconfortável a presença daquelas figuras macabras.

— ...Entendo. — Respondeu o Maioral-Mor, franzindo as sobrancelhas, fechando a cara numa carranca. — Vamos, ainda temos que treinar muitos novos soldados. — Disse por fim, pondo-se a seguir em direção à frente do dormitório, onde seus subordinados já esperavam de cócoras sob a sombra do prédio.

Passavam em frente aos depósitos, que encontravam-se quase lotados, e aos homens que descarregavam as caravanas de todo o abastecimento que chegava, levando as caixas, sacos, caixotes e baús de um lado para o outro. Aquilo que era trazido a base, em sua maior parte, eram sacos de grãos, sal e comida seca, além de roupas, remédios e outros itens de primeiros socorros e necessidades básicas, mas também haviam armaduras (estas forjadas em todos os tamanhos e formas adequadas para todas as espécies, tanto as sapientes quanto para aquelas que serviriam de montarias), armas, fossem ou não de fogo, pólvora e munição.

Tadeo, seguindo ao lado do amigo, finalmente disse, com um meio sorriso torcendo-lhe os lábios, sem qualquer consideração ao orgulho de Azai, provocando-o:

— E então, ainda acha a notícia do descobrimento da Ruína incrível?

Então, em frente aos estábulos e lá, numa estranhamente harmoniosa relação, os cavalos dividiam espaço com os camelos e os chacais-monarcas (uma espécie de canídeo pouco maior que um cavalo e parecida com seus pequenos primos de nome parecido comumente usada como montaria pelo exército namoriano) ao mesmo tempo. Aqueles animais, é claro, haviam sido rigidamente treinados para suportar não apenas a presença uns dos outros, como também aos ardores da guerra.

— Me conforta saber que se vencermos mais este desafio o país prosperará, como deve ser, e isso é o suficiente!  Respondeu o Maioral-Mor, sem perceber a clara intenção do tigromem. — No final, não acredito que o Rei tenha tomado qualquer atitude imprudente, como Horac fez ao proclamar seu direito sobre toda a Ruína, sem permitir a qualquer outra nação pôr as mãos nela. Veremos também qual será a posição tomada por nosso outro vizinho, quanto a tudo isso. — Concluiu por fim Azai, desfazendo a sombra de um sorriso que antes estava na face de Tadeo.

Suspirando, o tigromem comentou, sem necessariamente fazer um elogio:

— Pelos Deuses e Santas, Azai, você realmente pensa somente como um soldado...

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