Guerra A Ruína - Capítulo: 8

Capítulo: 8

Álex


Ansioso pela amiga, Álex fitava-a cabisbaixo, sem jeito. A garota, agora de aparência desolada, com olheiras como grandes sacos arroxeados sob os olhos vermelhos, de cabelos despenteados, e, até mesmo, um tanto mal cheirosa, esquecendo-se mesmo de fechar a boca, Miranda, revirava a comida do prato com o longo garfo de metal que segurava. Ainda sem saber o porquê, Álex percebera, já dias antes, que, desde a notícia d'A Conferência, desde o dia que ele conhecera Milly, a garota vinha mostrando-se estranha. Porém, embora ela mostrasse-se um tanto apreensiva e melancólica, até então Miranda esforçava-se para sorrir e conversar com o rapaz (mesmo que, as vezes, Álex tivesse a impressão de que isso só deixava-a ainda mais para baixo), mas tudo ficou pior, quando, três dias atrás Miranda ficara sabendo daquela terrível notícia, que saíra em todos os jornais e que todos os candidatos a Senadores utilizaram de alguma forma a seu favor: Horac declarara guerra contra Crát.

Sabendo que sua amiga estava naquele deprimente estado porque ela nascera lá, naquele país ao norte, porque estava preocupada com seu povo e família, que agora teriam de lutar contra um dos maiores países do mundo, Álex, então, visando tirar um pouco do peso dos ombros da garota, a convidou para um dos raros passeios que os gremistas faziam a cidade abaixo, a Dentre-Flume. Embora ela tivesse mostrado-se negativa quanto a isso no começo, negando-se a sequer sair do quarto, com o tempo, Álex convencera-a, trazendo-a então a um restaurante que ele, na primeira vez que estivera na cidade, visitara, chamado: "Plantação d'Água".

— Isso é mesmo bastante bom. Vamos, prove. — Sugerira o rapaz, sem ser realmente honesto, afinal, Miranda estava a tanto tempo revirando a comida de seu prato, sem sequer levar uma única deste fração a boca, que o prato já deveria estar frio e nojento.

— ...Hum... — Respondera a garota, sem mudar de expressão, somente grunhindo, como vinha fazendo até então, desde o início do passeio.

— Pois é, esses dias, numa das aulas de Estudo dos Monstros, o professor disse que o conceito de monstro, até bem recentemente, variava muito de um país para o outro, e ele disse também que não faz muito tempo que a ideia de que um monstro é somente e apenas um animal capaz de utilizar efetivamente da magia, conjurar feitiços, é válida. E, bem, o mais engraçado disso tudo é que alguns países já chegaram a considerar até mesmo ratos, gafanhotos, lobos e pumas como monstros! A antiga Darco, basicamente, classificou qualquer animal que pudesse causar algum dano a um homem ou sua propriedade como um monstro!  Disse Álex, tentando de alguma forma tirar a atenção de Miranda de seus maus pensamentos, distraindo-a com banalidades e qualquer coisa que a fizesse responder ou sorrir de novo.

Vendo-se falhar novamente, Álex escutou quieto a garota responder com um simples ruído. Insistiu:

— O que me lembra: eu venho pensando numa nova marionete, não uma dessas padrões que aprendemos a conjurar nas aulas, mas uma somente minha! ...Descobri que inventar um feitiço, qualquer que seja, é mais difícil do que parece. Primeiro, deve-se pesquisar durante dias sobre o que você conjurará, até finalmente compreender completamente esta estrutura ou a energia. Depois, uma vez que você tem a coisa em mente, caso você não tenha reservas de magia o suficiente, como no meu caso, pratica-se todos os dias, utilizando toda sua magia, esgotando-se vez após vez, durante meses, aumentando aos poucos, realmente aos poucos, tipo, muito pouquinho mesmo, sua reserva de magia, para então, em meio a todo este esforço...! Descobrir que alguém de um país do outro lado do mundo já inventara este feitiço dois séculos antes de você sequer nascer... como no meu caso. — Álex dessa vez fora surpreendido, ou recompensado, com um tímido e quase inaudível riso vindo de Miranda, cujos lábios curvaram-se levemente numa sombra do que poderia ser um sorriso.

Encorajado, o rapaz continuou, vasculhando em sua mente por algo com o qual pudesse puxar assunto, algo que não levasse a garota a pensar em sua família ou país:

— A propósito, você sabia que este restaurante tem quase dois mil anos de idade? Digo, não o restaurante em si, mas o prédio no qual ele fora estabelecido, é claro. O chef é velho, mas nem tanto!

— ...É, esse prédio e mais dois terços da cidade, Léx. — Retrucou Miranda, falando pela primeira vez em dias.

A Álex parecera que não ouvia aquela voz há séculos. Seu apelido saindo da boca da garota parecia poesia. Não deixaria que seu esforço até então acabasse somente com aquilo.

— Aí é que está, Miranda! — Disse o rapaz, após estalar a língua meneando a cabeça de um lado para o outro em sinal de negativo. — As pessoas costumam desmerecer esta cidade, seu valor histórico e idade incrível porque, simplesmente, quase toda ela é antiga! Eles acabam pensando que isto é simplesmente o normal, me entende? Mas não é! Nesse exato momento estamos sentados onde, há dois milênios, um outro povo, de cultura e linguagem completamente diferentes, também estavam! Digo, pense no quão fantástico isso é! Percebe o que eu quero dizer? Sabe, como estas estruturas resistiram por tantas eras? Quais os segredos que desapareceram junto dos nativos desta região e como eles eram, aqueles que construíram esta cidade?

— As construções resistiram tanto porque, diferentemente das técnicas de construção atual, eles não utilizavam argamassa e tijolos ou muita madeira. — Respondeu Miranda, suspirando. — Tudo era construído a partir de grandes e únicos blocos de rocha vindos da Montanha Perdida, lá ao longe, com exceção das telhas, que eram feitas de barro, das colunas de madeira e das janelas. Quanto aos segredos, é provável que mesmo o mais oculto deles, que, provavelmente, era um feitiço simplório qualquer, já tenha sido reinventado e de forma muito mais eficiente. E, sobre o povo, bem, já sabemos praticamente tudo sobre eles, é só você deixar de ler apenas livros de aventura e ler um de história.

— ...Miranda, quando você ficou tão inteligente? — Perguntou Álex, sem disfarçar seu espanto com a explicação lógica nada esperada de sua amiga.

— Antes de me mudar para cá, eu, entusiasmada, pesquisei um pouco sobre o lugar... E, o que é isso? Você quis dizer que eu sou burra?

— Bem, deixe de ser uma estraga prazeres e pense comigo: há dois mil anos, como eles tinham os recursos necessários para trabalhar tudo isso? E, por que dar-se o trabalho de arrastar os gigantescos blocos de pedra desde a Cordilheira Gris?

— Não subestime as pessoas, Léx, ao menos naquela época já existiam o cinzel e o martelo, e troncos de madeira eram usados para rolar os blocos. Enquanto, o porquê deles darem-se tanto trabalho, bem, simplesmente porque aqui era um importante ponto de parada nas rotas comerciais... — Respondeu novamente Miranda, voltando à sua atípica melancolia.

De repente, o clima tornara-se sombrio e desagradável novamente. Não precisavam falar para saberem o que se passava na cabeça um do outro. Álex logo arrependeu-se de ter prolongado demais a conversa, dizendo a si mesmo que deveria ter imaginado que havia o risco de uma palavra ou outra trazer à tona a verdade que tentavam esquecer.

Naquele momento, com a menção ao comércio, relembraram-se da segunda má notícia, como se a primeira já não fosse ruim o bastante, que surgira naqueles dias. Esta, talvez, pelo menos para Álex e todos os outros cidadãos de Nova Crasiria, ainda mais assustadora que a anterior, e ainda mais usada por políticos que se autopromoviam atacando o, até então, atual governo, que esforçava-se para conter os atrevimentos dos novos candidatos e a indignação causada por seus discursos com promessas de resistência a Crat e seus aliados.

Acontecera que, pouco depois do anúncio do início da guerra entre Horac e Crat, dois outros países tomaram seus lados, apoiando o país ocidental. Estes eram: Thirlundia, logo ao norte de Horac, fazendo fronteira com o país, e Namória, ao sul, também fazendo fronteira com o país. Porém, não era o fato de Horac estar cercada de inimigos por todos os lados que apavorava e incitava indignação no povo de Nova Crasíria, mas sim o motivo de Namória, seu país vizinho, logo ao leste, do outro lado da Cordilheira Gris, ter decidido apoiar a Crát: o país ocidental oferecera a Namória o mesmo acordo quanto a repartição da Ruína que, n'A Conferência, oferecera a Nova Crasíria. Por conta disso, insatisfeita com a postura tomada por Namória em relação a um país escravagista, Nova Crasíria também proibiu qualquer comércio ou viagem para com o país vizinho. Como resultado, Nova Crasiria vinha estando com o comércio praticamente parado, com todos os países aliados ao império ocidental evitando-a.

— ...B... Bem, deixando isso de lado, como vai o progresso nas aulas de alquimia, hein?  Disse Álex, tentando trazer a conversa novamente a ares menos inquietantes.


O dia seguiu, as horas passaram-se, e os dois jovens continuaram o passeio pela cidade, frequentando outras lojas, cafeterias e restaurantes, mas, ao contrário do que Álex planejara, aquilo serviu apenas para deixar o clima ainda mais pesado e sombrio. As pessoas nas ruas cochichavam nas sombras ou falavam abertamente em grupos, bastante alto, como se para todos escutarem, discutindo sobre tudo o que vinha acontecendo, sobre a política e os negócios.

Muitos, a maioria deles homens cujos empregos possuíam qualquer relação ao porto, que até pouco tempo estavam sempre barulhentos e cheios de vida, apinhados de caravelas e navios a vapor vindos de todos os cantos do mundo, mas então encontravam-se quase desérticos, silenciosos mesmo de dia, estavam desempregados, fosse estivador ou carroceiro, vendedor ambulante ou mesmo prostituta. A palavra "guerra" fora ouvida mais de uma vez nestas conversas.

Álex resolvera então, antes de agravar ainda mais o problema de sua amiga, voltar mais cedo ao Grêmio, retornando por sobre A Ponte. Ainda era meio da tarde quando os dois chegaram de volta à ilha, atravessando o alto portão que dava de fato ao Grêmio, passando sob o olhar sempre atento das altas estátuas de rocha e cobre de três lindas mulheres, cujo tinham a mão direita estendida e aberta e a mão esquerda empunhando uma lança. Eram representações humanas d'As Três, como eram chamadas as luas que orbitavam o planeta. O nome destas irmãs eram: Valor, Valentia e Vitória, símbolos de... bem, do valor, da valentia e da vitória, virtudes adotadas por magos do mundo inteiro como o "Caminho do Mago".

Miranda apressou-se então a seguir ao seu dormitório, andando rápido e em silêncio, deixando Álex, pensativo, para trás. Alí, pela primeira vez, o rapaz percebeu o quão intimidadoras eram aquelas estátuas gigantescas. Uma de cada lado da ponte e outra sobre a mesma, com uma perna em cada lado. Iluminadas pelo sol, elas não só estendiam suas sombras por muitos metros, mas também tinham as pontas de cobre de suas lanças brilhando como fogo, e pareciam não mais guardiãs que davam boas-vindas aos gremistas, mas imponentes divindades da guerra.

— Guerra, hein?...  Disse o rapaz, sentindo a estranheza da palavra.

Até então, mesmo naquele momento, parecia-lhe que isto era algo distante, vindo direto dos livros de fantasia que costumava tão frequentemente ler, que ele jamais veria, que não surgiria novamente naquela era. O garoto imaginava que, embora fossem realmente tempos difíceis, nem Nova Crasíria nem muito menos ele, teriam motivos de envolver-se nisso; nenhum outro país iria querer sua nação como uma inimiga, afinal, aquele país era o mais magicamente desenvolvido do mundo inteiro.

— Deve ser mesmo horrível para aqueles que vivem isso.  Comentou o garoto, continuando seu caminho, tentando imaginar como Miranda sentia-se. — Mas, talvez agora seja uma época de nascimento de heróis? — Disse, exibindo um largo sorriso esperançoso enquanto se lembrando das palavras de Milly. — Talvez eu mesmo possa ser um! Isso seria legal.

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