Guerra A Ruína - Capítulo: 7

Capítulo: 7

Octávio.


Junto do gigantesco e luxuoso navio a vapor e toda a frota de belonaves que constituía sua escolta que trouxeram os Senadores de volta a Nova Crasíria, chegara também a notícia do rompimento de relações do país com Crát, após desentendimentos n'A Conferência.

Ambos os Prédios, do Senado e da Assembleia, estavam fervilhando, tanto pelo aumento inesperado da quantidade de trabalho, efeito contrário ao esperado a uma vez que os Senadores retornassem (com quebras de contratos comerciais de países menores com medo da fúria do império ocidental, constantes despachos de emissários a portos de todo o mundo numa tentativa de assinar novos acordos, intermináveis reuniões para discutir as relações com o estrangeiro, o futuro da situação econômica do país e a divisão e distribuição da Ruína, além de uma possível aliança com Horac, agora que o país ao norte mostrava-se tão averso a Crát e aqueles que apoiavam-no) quanto aos grupos que dividiam-se dentro do próprio Estado de Nova Crasíria, tendo aqueles apoiando a decisão dos Senadores e aqueles contrariando-a. Dentro de ambos os prédios e ambos os grupos frequentemente eram mencionados nomes de candidatos e partidos das eleições e suas promessas e ideais, alguns deles, com pontos de vista no mínimo  diferentes dos, até então, atuais Senadores.

Acompanhado por Cézar, que tentava dissuadi-lo de sua ideia, Octávio seguia pelos corredores do Prédio do Senado, andando com passos largos e determinados. O vampiro, que vira suas especulações e ideias quanto a um futuro racional e próspero contrariadas, pensava: "'cicatrizes mais profundas do que você imagina', hein?", compreendendo, furioso, agora sobre o que seu pai tentara lhe avisar, sentindo-se ao mesmo tempo um tolo, por não ter previsto aquele resultado, e o único ali realmente capaz, sendo ajuizado, visionário e empreendedor, concluindo ter o dever de abrir os olhos de seus líderes.

— Pare com essa loucura, Octávio, os Senadores já decidiram-se! — Alertava Cézar, que esforçava-se para acompanhar o passo do colega.  Eles não vão voltar atrás só por conta de seu projeto!

— Eles têm de compreender.  Retrucou o vampiro, que dirigia-se confiante a uma das salas de reuniões.

Octávio não perdera tempo lamentando-se, especulando ou praguejando contra os nomes dos Senadores nessas semanas conturbadas. Fora um dos primeiros a deixar suas opiniões claras quanto a decisão tomada n'A Conferência, não apenas participando das reuniões daqueles que compartilhavam seus ideais, como também liderando-as e bapresentando projetos e possíveis soluções, sempre mostrando-se firme quanto as suas ideias. Então, dias atrás, o grupo enviara seu projeto planejado para a Seleção (tarefa na qual os Senadores debatiam sobre os projetos a eles enviados pela Assembleia, podendo ou não aprová-los), porém fora recusado. Felizmente, como parte da autoridade de alguns dos membros da Assembleia de maior cargo, com insistência fora possível marcar uma reunião com os próprios Senadores, para que fosse insistida a aprovação do projeto. E finalmente chegara o dia em que, como o representante de seus colegas, Octávio apresentaria-se e ao projeto planejado pelo grupo na reunião: um plano de um acordo entre Nova Carsíria, Horac e Crát no qual, basicamente, Nova Crasíria serviria de intermediário nos assuntos relacionados a Ruína entre os países, aliando-se a Horac com contratos comerciais e exportando não apenas a Ruína em si para Crát, mas também os serviços do Grêmio, retomando assim o comércio com o ocidente.

— Me escute, Octávio, por favor, eu te considero um amigo, e como um amigo te aconselho: deixe isso para lá. Esqueça. Você vai acabar ou sendo demitido ou, com sorte, ficando sob constante pressão daqueles que apoiam os Senadores... que não são poucos.

Parando de caminhar, virando-se ao goblin, que até então vinha se mantendo neutro nas discussões, o vampiro respondeu-o, ainda impassível:

— Eu agradeço seu conselho, meu "amigo". — Disse, estranhando a forma como a palavra "amigo" soou-lhe ao sair de sua boca, sugerindo mais uma zombaria do que um agradecimento, o que não fora sua intenção, embora realmente não pensasse nada quando a Cézar, fosse como amigo ou inimigo. — Mas, como um membro da Assembleia, um político que, em frente a bandeira e aos próprios Senadores, jurou servir ao Estado com e para o povo, reconheço meu dever, e ele é para com minha nação e seu futuro, e, para isso, devo abrir os olhos dos nossos líderes quanto a insatisfação de sua nação e sua população, aqueles mesmo que os elegeram quatorze anos atrás. — Suspirando, dando as costas ao colega e continuando seu caminhar à sala, Octávio então concluiu: — Não entendo por que você, que continuou neutro até agora tentaria me impedir ou me aconselhar agora.

— Porque somos amigos, merda. — Disse o goblin baixinho, observando enquanto o vampiro seguia adiante e deixando-o para trás, Cézar massageando então a parte entre os olhos.

Após alguns minutos de caminhada e mais outros de espera numa sala separada, Octávio via-se então, finalmente, em frente às portas que davam a sua reunião previamente marcada. Eram grandes e luxuosas, azuis, com entalhes em verde em forma de trepadeiras. Um par de guardas armados com alabardas e equipados de armaduras completas de aço, apresentando as mesmas cores, azul e verde, abriram as portas em silêncio.

O interior era tão luxuoso quanto se podia esperar do Prédio do Senado, tapeçarias e plantas coloridas de uma centena de cores em todos os cantos da sala e armaduras vazias ladeando o caminho. Porém, percebeu Octávio, ali não havia qualquer janela e, uma vez que as portas fecharam-se atrás do vampiro, o silêncio que criou-se era tamanho que dava-se de ouvir a respiração de todos os homens ali. Era um ambiente isolado e silencioso, construído de forma que não fosse possível escutar qualquer ruído ou observar qualquer movimento do lado de fora.

Avançando, Octávio fez uma breve reverência frente ao único Senador que encontrava-se ali, onde esperava encontrar os três: uma harpia velha e calvo, de sobrancelhas grossas, que cobriam os olhos amarelos de pupilas verticais, sua expressão sendo severa e marcada por muitos sulcos de profundas rugas, possuindo também longa barba grisalha que caía sobre o peitoral flácido. Como uma harpia, aquele idoso possuía um exuberante par de asas, as penas destas sendo tão acinzentadas quanto os poucos fios de cabelo que ainda encimavam-lhe a cabeça, esbranquiçadas pela idade; tinha o tamanho de um humano comum mas os pés eram descalços, impossibilitados de qualquer calçado, exibindo quatro longas garras negras, assim como nas mãos, suas unhas projetando-se em sete afiados centímetros.

Octávio parou de pé em frente ao alto estrado onde encontrava-se o velho. Os dois lugares vazios que cercavam o harpia incomodavam-no, sentia-se subestimado. Num canto da sala, num estrado menor, encontrava-se um escriba com papel e tinta, pronto para registrar tudo ali, como de acordo. Após uma troca de sinais para com o escriba, e um breve pigarreio, o Senador começou:

— Eu, Bértil Glurium, membro eleito Senador e representante da nação de Nova Crasíria e de todo seu povo e grandiosidade, dou início a esta reunião em nome de todo o Senado, com o poder a mim concedido pela ausência dos demais Senadores, que têm outros assuntos a resolver. Sendo assim, meu bom senhor Octávio de Pessos, Membro Associado da Assembleia...  Disse, fitando o vampiro.

— Sim, Vossa Alteza, sou eu.  Retrucou Octávio.

— Vens aqui hoje, nesta Reunião de Discussão de Projeto, exigida, se não estou enganado, por você próprio, além de Pedro de Alcor, Luciano Rosa, Renam Bertum... Hum, devo continuar a listagem?  Perguntou a harpia, parando de ler a lista de nomes, o documento em suas mãos.

— Por favor, não se incomode. Sim, está correto.

— Então, meu bom senhor, pode começar. — Concluiu o velho. Assentindo com a cabeça e tornando a fazer uma saudação, Octávio apresentou:

— Muito obrigado, meu bom senhor Bértil. Pois então: este projeto, que fora organizado não apenas por mim, mas também por outras várias pessoas, estas que, acredito, o senhor conheça seus nomes, não apenas exprime a insatisfação de uma grande parcela da população, que não aprovara os resultados da dita "A Conferência", mas propõe também uma possível e, talvez, ainda mais vantajosa do que seria possível de outra maneira, solução.

"Trata-se, essencialmente, de uma série de acordos políticos e comerciais para com o estrangeiro, mais especificamente, Horac, ao norte, e Crát, do Continente de Muntrídia, ao oeste, criando assim um forte elo entre Nova Crasíria e estes países, gerando um grande impulso financeiro e, provavelmente, também mágico e tecnológico, além de uma óbvia melhora nas relações exteriores, que foram, infelizmente, bastante degradadas durante as discussões entre os líderes mundiais sobre a Ruína.

"Nova Crasíria, após acordos de ajuda mútua com Horac, ligados à defesa dos direitos e exigências do país como o descobridor e detentor legal de toda a Ruína, serviria de intermediaria e apaziguadora de relações, comprando do vizinho a norte o recurso e exportando-o para o oeste, entre os países, ao mesmo tempo que recuperaria sua boa relação para com Crát. Para isso.

Octávio continuava, prestes a aprofundar-se nos planos e acordos, ofertas e barganhas, e projetos e oportunidades, e assim completar sua apresentação, quando fora interrompido, de forma grosseira e, percebera, desdenhosa, por Bértil, que empertigava-se na cadeira, de sobrancelhas franzidas e carranca fechada:

— Negado.  Disse o Senador, de repente.

— ...Perdão?

— O projeto fora negado. Não haverá nenhuma reconciliação entre Nova Crasíria e Crát. É uma ideia ridícula tentar ajeitar-se para com aquele povo. Eles que utilizam de seu poderio militar para oprimir todos aqueles que estão a seu alcance, além de que, apoiar a Horac apenas para vender a Ruína aos ocidentais é o mesmo que trair nosso vizinho nortista.

Ainda ouvindo seu pai, Ângelo surgindo em sua mente com sua aparência cansada, sussurrando em seus ouvidos "esse país tem cicatrizes mais profundas do que você imagina, meu filho", Octávio fora então tomado por uma súbita onda de fúria e desprezo para com aquele velho irracional e retrógrado, protestando, aos berros, perdendo a compostura que mantivera até então:

— É só por causa disso?! Vocês, como crianças manhentas, recusam ao progresso, arriscando o futuro do país inteiro, apenas por conta da merda de uma rixa causada por uma discordância quanto ao governo do império de Crat?!

— Como se atreve, seu pirralho insolente!  Retrucou Bértil, socando a mesa à sua frente, levantando-se colérico. — Este país fora construído em cima dos corpos de centenas de milhares de compatriotas que deram seu sangue, suor e lágrimas em nome da liberdade e igualdade para todas as espécies, numa guerra que durou gerações, libertando-nos das correntes da escravidão após um milênio de servidão! E agora, você, pirralho, cospe em cima dos ideais os quais fundaram nosso país, afirmando que necessitamos da ajuda daqueles escravagistas de bosta, os ocidentais, que devemos nos humilhar pedindo desculpas a eles?!

— É mesmo, Crát é um país escravagista, mas, adivinha: dois terços de todo o mundo é! — Retrucou o vampiro abrindo os braços de forma zombeteira, logo em seguida continuando furioso:  E, meses antes, não parecíamos ter qualquer problema em comercializar com aqueles "escravagistas bosta".

A medida que a discussão continuava, o escriba, que estava boquiaberto e suando frio, surpreso com o rumo grosseiro e selvagem que tomara a discussão, o clima tornando-se tenso de repente, continuava a registrar tudo o mais rápido que conseguia, a pena em sua mão deslizando frenética de um lado para o outro rapidamente preenchendo página atrás de página das folhas a pouco em branco.

— Os comerciantes apenas faziam sues trabalhos vendendo seus produtos, assim obtendo lucros que, por sua vez, com as taxas dos impostos seriam arrecadados pelo governo e utilizados como recursos nos órgãos públicos.  Disse o Senador, tornando a sentar-se, ainda furioso, porém mais controlado, expressando em suas palavras mais de seu repúdio quanto as ideias de Octávio, justificando a decisão do Senado. — Obviamente não pararíamos o comércio. Mas, se eles recusam-se a comprar de nós porque nos recusamos a ajudá-los a escravizar Horac e obter toda a Ruína, que assim seja!

— Tolice!  Tornou a protestar Octávio, também retomando sua compostura e

também não menos furioso.  Se o preço que tínhamos de pagar para termos a Ruína, que traria tantos benefícios, era apenas aliar-se a Crát, vocês são todos cegos por negarem-se a pagá-lo. E Horac, teimosa como é, será destruída de qualquer forma agora que o resultado d'A Conferência foi este, logo nada mudou.

— ...Octávio de Pessos, seu tolo. Sei que seu pai é um comerciante. Você deveria seguir seus passos e deixar a política para lá, sei que se sairia bem nisso. O que lhe convém, já ter um futuro garantido, pois não precisa voltar ao Prédio da Assembleia amanhã, e nem nunca mais. — Anunciou por fim o harpia, descendo do estrado. — E esteja agradecido aos seus antigos colegas de trabalho, que o apreciam tanto, e a minha piedade, pois de outra forma seu destino seria às escuras e frias celas de um calabouço profundo ou mesmo a forca, por ter dito tais coisas a um dos Senadores. Você tem até o fim do dia para recolher suas coisas.

Observando o ainda pálido e boquiaberto vampiro recolher suas coisas, guardando-as todas num caixote de madeira, empilhando e arranjando os livros, pranchetas, tintas, penas e canecas, Cézar instantaneamente compreendera que não fora o melhor resultado aquele obtido naquela sala fechada.

A voz do goblin alcançara-o, interrompendo os pensamentos de Octávio, que voltavam ao debate de algumas poucas horas antes, refletindo sobre suas palavras, parte de si culpando-se por tê-las dito, envergonhado por ter perdido o controle, reconhecendo sua presunção, e parte firmemente crente, ou, pelo menos, forçando-se a assim parecer, de ter feito o correto e tentado com tudo de si abrir os olhos de seus líderes, guiando-os e seu país para um futuro próspero:

— Todo o mundo já está sabendo...  Disse ele, coçando sua cabeça, sem jeito.

— Eu... sinto muito.

— ...Obrigado. — Respondeu Octávio, sem compreender exatamente o pesar de Cézar.

Não demorou muito mais para Octávio terminar de ajeitar suas tralhas, e assim que o fez, sem pressa, rumou mais uma vez pelos muitos corredores do grandioso e belo prédio, até sair deste, descer a escadaria e misturar-se a multidão na Grande Praça.

Ainda quase sem acreditar no que realmente fizera e no que realmente acontecera, o vampiro andou vagarosamente, desviando dos muitos transeuntes, alheio a quase tudo a seu redor. Escutava o barulho das águas das fontes caindo, dos passos apressados por todos os lados, de risadas e conversas, mas não prestava de verdade atenção a isto.

"Acho que realmente tive sorte" pensava o vampiro, concentrado, revirando seus sentimentos confusos e embaralhados dentro de si, de alguma forma, na verdade, decidindo-se. "Talvez mais do que eu possa imaginar. Digo, se todos os três Senadores estivessem lá, e eu ainda assim tivesse dito tudo aquilo, eu ainda teria sido apenas despedido? Acho que não. De qualquer forma, devo continuar a ver a situação de forma racional: o governo, este de fortes ideais conservadores, recusou-se a aceitar minha proposta, apesar de totalmente lógica, e agora, desta vez por uma falha minha, eu admito, em manter a compostura, perdi meu emprego. Devo trabalhar com a companhia de meu pai?".

Já sentia-se mais próximo a seu eu normal, mais ativo e sensato, quando uma voz mais alta, grave e imponente que as demais, vinda de algum lugar próximo chamou-lhe a atenção, fazendo-o parar seu caminho e juntar-se a multidão, que ali aglomerava-se, Octávio pondo-se a escutar.

Um homem de terno sobre uma grande caixa de madeira, de braços abertos discursava, falando de forma confiante e persuasiva. Era um elfo de cabelos loiros, curtos e bem penteados. Naturalmente com vez e meia o tamanho de um homem comum, sem nenhum outro pelo no corpo que não fossem os cabelos sobre sua cabeça e as sobrancelhas sobre os olhos, com orelhas finas e cumpridas, o elfo dizia:

— ...Lhes digo: Migalhas! São migalhas o que nos sobram! Acovardados, fugindo de suas responsabilidades com seus rabos entre as pernas, nossos atuais líderes não apenas não apenas não demonstraram qualquer resistência para com aqueles ocidentais, que tratam-nos, a todos nós, como meras peças à sua disposição, oprimindo-nos, cortando relações conosco e ameaçando nos destruir com seus exércitos, e qualquer outros de seus vizinhos que não façam o mesmo, usurpando-nos! Como também, eles relutam até mesmo em oferecer ajuda a nossos irmãos nortistas, aqueles que compartilham de nossa sina: a grande sombra opressora que é Crát, com suas ambições incontroláveis e seu demoníaco desejo de dominação!

"Repito, meu bom povo, e ouçam-me bem, enquanto podem: se, ao final destas eleições, nossos líderes ainda forem estes velhotes covardes e incapacitados, se nada fizermos para deter aqueles que vêm do Oeste, então nosso tempo findará! Voltaremos aos negros séculos passados! Nossas mulheres e filhas serão atiradas aos homens como carne aos cães, enterraremos nossos próprios filhos antes deles sequer chegarem à maioridade, e veremos nossos irmãos serem massacrados aos montes por qualquer que seja o motivo! Uma nova Darco nasce, meu bom povo! E ela vem do oeste com suas bandeiras vermelhas, trazendo exércitos e correntes! E como escravos, ferramentas presas a um dono, serão apenas as migalhas que nos sobrarão!"

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