Capítulo: 63
Azai.
— Humano, hein? — Comentou o ogro num namoriano no mínimo grosseiro.
— Não há muitos humanos em Nova Crasiria.
Azai, ao fim da negociação entre as nações, fora incumbido de guiar sua tropa, que, reforçada, dobru de tamanho, ao acampamento principal e posto avançado namoriano, à savana, trazendo consigo não apenas a mensagem de paz como também o dever de liderar o contra-ataque da Aliança Azul à Aliança vermelha, responsável por todas as tropas namorinas ao norte. Uma vez que os cratences desciam para o sul de Horac rapidamente, devastando tudo em seu caminho, Azai teve de apressar-se em sua marcha, sua tropa, por conta do grande número de soldados, movendo-se mais devagar do que ele gostaria. Depois de quase um mês de uma árdua marcha, o Maioral-Comandante finalmente chegou ao seu objetivo, já tão cansado das reclamações constantes de seus subordinados quanto dos longos dias sobre o caroçudo lombo de Milagre, esperando iniciar imediatamente os preparativos para a próxima e provavelmente aquilo que seria a última batalha daquela guerra, dar início às montagens de estratégias, lidar apenas com números, equipamentos e posicionamento de tropas. Se soubesse o que lá encontraria, teria preferido que a marcha durasse mais tempo.
Dezenas de milhares de soldados haviam sido enviados para o campo de batalha ao início da guerra, os estrategistas visando tomar o controle da fronteira para Horac ao mesmo tempo que isolavam Nova Crasiria o mais rápido possível, porém, a nação vizinha bem sabia das intenções namorianas e logo respondeu às tropas inimigas. A savana, então, fora dividida em duas, o lado leste, onde fora erguido o acampamento das tropas namorianas, e o lado oeste, onde encontravam-se os esquadrões crasirianos, o campo de batalha sendo todo o espaço entre os dois lados, uma extensão de pouco mais de um quilômetro que logo ficara repleta de trincheiras, crateras de disparos de canhões e cadáveres. Todos estimavam que aquele confronto rapidamente acabaria uma vez que os acampamentos ficava até mesmo à vista um do outro, que tudo seria decidido no próximo embate, que seria necessário apenas mais uma tropa ou esquadrão de reforço. Durante mais de um ano, tanto Namória quanto Nova Crasiria continuaram a enviar soldados ao campo de batalha, e durante mais de um ano, mesmo após incontáveis embates, as fronteiras não mudaram um centímetro sequer.
Ao todo, cerca de duzentas mil pessoas haviam perdido suas vidas na linha de frente ao norte, mas apenas um terço disso havia de fato morrido em combate, doenças assolando as trincheiras e todos e ambos os acampamentos. Cadáveres apinhavam valas aos montes, há muito os soldados já não mais conseguindo mais dar conta de enterrá-los. Monstros surgiam a todo instante, atraídos pelos mortos, porém visando também os vivos. E, além de ter de lidar com tudo isso, perdendo importantíssimas semanas para reorganizar suprimentos, tratar de feridos e inválidos, enterrar os corpos, reorganizar as fileiras, muitas tropas tendo misturado-se de forma desigual por conta do falecimento de seus líderes, Azai deparou-se também com um outro problema: a intensa desconfiança surgida entre os crasirianos e namorianos, que não despareceu com o tratado de paz, os oficiais aliados heitando em ceder quaisquer informações, muito menos em colaborar com suas sugestões.
— Um fato pode ser muito bem explicado historicamente, eu tenho certeza. — Retrucou Azai, já impaciente com a desconfiança de ambos os lados, que hesitavam em compartilhar as menores informações, quem dera aquela que o ogro, o mensageiro de um Capitão-de-Campanha crasiriano (patente crasiriana equivalente a Maioral- Comandante em Namória) possuía. — E que não vem ao caso agora. O acordo de paz foi fechado entre nossas nações, os mensageiros já chegaram a vocês e tudo foi confirmado, agora, vá direto ao ponto e me diga os números.
— Cento e setenta e oito mil. — Respondeu o ogro, levantando o queixo, presunçoso ao relatar o tamanho do esquadrão crasiriano que ocupava a savana ao oeste.
— E, tirando os feridos, incapazes, médicos, curandeiros e todos aqueles que não podem ou não vão lutar? — Perguntou o Maioral-Comandante, dobrando-se sobre o mapa estendido na mesa de sua tenda à sua frente, cercado por seus oficiais.
— ...Bem... Isso é... — Disse o homem, seus olhos vagando de um canto ao outro da tenda, o ogro apoiando-se num pé e depois noutro, inquieto.
— Não me diga que ele não te disse? — Tornou a perguntou Azai, empertigando-se, trincando os dentes com sua paciência já no limite com tudo o que vinha acontecendo naquele acampamento, nas linhas de frente ao norte, nas savanas. Sem obter qualquer palavra resposta do ogro além de sua inquietação e evidente constrangimento, e isto sendo toda a resposta que precisava, o Maioral-Comandante concluiu: — Está dispensado. Retorne ao seu acampamento... e diga ao seu superior que eu estou indo.
— O que?! Senhor Maioral-Comandante, isso é... — Protestou Caleb, silenciado por um olhar de censura de Azai que deixava claro que ele não aceitaria mais reclamações.
— Senhores oficiais, preparem o mapa, reúnam os documentos e os demais oficiais e tenham todas as informações em mãos. Vamos ao acampamento do exército de Nova Crasiria. — Observando um de seus subordinados começando a reunir um grupo de soldados, Azai concluiu, fazendo o homem imediatamente parar e dispensar aqueles que reunira: — Sem escolta.
— Você acha que as pessoas que perderam tudo nesta guerra aceitarão esta paz?
— Perguntou enfim, Caleb, que remexia-se pouco confortável ali, enquanto acompanhando seu superior.
Os olhares de esguelha eram intensos e os cochichos e burburinhos percorriam a enorme massa de soldados do acampamento, que abriam caminho frente aos passos firmes e rápidos de Azai, que seguia em direção à grande tenda no topo da baixa colina adiante e sem intimidar-se.
— Eu, ao menos, espero que sim. — Respondeu Jéssica. — Inflamar, cultivar o ódio no coração não trará nada a estas pessoas além de mais dor, nunca conseguirão seguir em frente e reerguerem-se. Tem de entender que este é o melhor caminho, é por isso que lutamos, por isso que tantos de nós deram suas vidas.
— Nós lutamos, demos nossas vidas pela Ruína. — Retrucou Azai. — E por um ódio que nos foi forçado. E agora as pessoas compreendem que a Ruína não ficará em suas mãos e que o ódio que sentem é baseado em mentiras. Não se preocupe, Jéssica, essa guerra logo chegará ao fim.
— Os Mes... Bem, "eles" não poderiam recomeçar a guerra se anseiam tanto assim pela ruína? — Tornou a perguntar Caleb.
— Não apenas a palavra do rei foi dada, com certeza em nome da maioria das pessoas do reino, como os termos que nos foram concedidos são generosos. "Eles" contentaram-se com isso. — Respondeu o Maioral-Comandante.
— Os termos, hein... Isso me lembra que eu estava pensando: você não os acha estranhos? Digo, em momento algum o rei de Nova Crasiria exigiu a liberdade dos seus, o povo crasiriano tomado como escravo por nós! — Comentou o Caleb.
— O que você está dizendo? — Retrucou Jéssica, erguendo uma sobrancelha, incrédula, ao íncubos. — É verdade que, segundo nossa constituição, prisioneiros de guerra podem ser escravizados, mas nela também consta que, uma vez que a paz é selada entre nossa nação e qualquer outra com a qual estivermos em guerra, os escravos capturados em guerra são automaticamente libertos. Aquele Senador deveria saber disso quando negociou com o rei.
— Bem, me desculpe se nem todos nós, soldados, recebemos ensinos e outros luxos em nosso treinamento! — Respondeu Caleb, zangado com a atitude presunçosa da maga.
— Acho que não importa o que aconteça, algumas coisas não mudam nunca... — Comentou Azai, baixinho, sorrindo por ainda ter aqueles dois como companheiros, e aquele caloroso ambiente em sua volta, enquanto Caleb e Jéssica continuavam a digladiarem-se com palavras afiadas e ofensas de todos os tipos.
Observando rapidamente os arredores, o Maioral-comandante imediatamente, percebeu que a situação daquele lado da savana não era tão melhor quanto o namoriano, quando uma outra coisa, porém, chamou-lhe a atenção, um detalhe simples que fez com que Azai repentinamente parasse de andar para confirmar o que havia visto: uma esfarrapada e evidentemente já muito usada armadura leve, composta de várias camadas de couro, algodão e aço, marcada por cortes e repleta de remendo, como qualquer outra, diferenciando-se das demais apenas, porém, pelo emblema de pinheiro em seu peito. Um uniforme militar de Horac. Retomando seu caminho, o Maioral-Comandante apressou-se, seguindo, zangado, à tenda do líder aliado.
— Senhor Capitão-de-Campanha. — Disse Azai, entrando na grande tenda, franzindo as sobrancelhas ao confirmar suas dúvidas e lá ver os oficiais do exército de Horac já discutindo com os crasirianos. Enquanto seus próprios subordinados adentravam a tenda, Azai continuou, esforçando-se para não enfurecer-se com o ato mesquinho de seus novos aliados: — É mesmo excelente que os horacianos já tenham juntado-se à nossa companhia. Creio que podemos começar então a fazermos os planejamentos, não?
Com todos os oficiais aliados da tenda trocando olhares carregados de desprezo e suspeita às palavras do Maioral-Comandante, após instantes de relutância, o Capitão-de-Campanha respondendo, em crasiriano, numa frase cuja Azai sequer compreendeu uma única palavra, mas que pôde perceber o escárnio pelo tom da voz do homem e pelas risadas abafadas daqueles que cercavam aquele oficial aliado:
— Não falamos sua língua, volte mais tarde, quando tiver um intérprete.
— Isso não é necessário, meu bom senhor. — Retrucou então Jéssica na mesma língua, adiantando-se um passo à frente. — Serei eu a intérprete.
Ao ouvir as palavras de Azai traduzidas pela maga, o Capitão-de-Campanha disse, ainda desgostoso, com desdém:
— ...Sim, claro, podemos começar os planejamentos. Então, vejamos, por que não começamos com você nos dizendo a quantidade de soldados sob seu comando?
Dando continuidade à conversa, traduzindo tudo com perfeição, Jéssica repassou as palavras do crasiriano ao seu superior, que, sem relutância, respondeu ao homem:
— Cento e quarenta e cinco mil soldados, sendo cinquenta e oito mil de infantaria (combatentes a curta e média distância), trinta mil soldados montados (a grande maioria deles sobre chacais-monarcas), trinta mil atiradores, seis mil cintilantes (três mil amarelos e três mil azuis) e vinte e um mil alados (dentre atiradores, magos e combatentes a curta e média distância).
Os sorrisos tortos e desdém evidente rapidamente foram substituídos por uma atenção, um alerta cauteloso sobre o Maioral-Comandante e os seus, os então aliados de Azai ficando tensos quando o namoriano continuou, suas palavras sendo traduzidas quase imediatamente pela cintilante, por Jéssica, o Maioral-Comandante continuando enquanto dando um sinal a seus oficiais, que despejaram sobre a mesa à frente dos crasirianos e horacianos:
— Trouxemos também cópias dos registros de toda a quantidade estocada de munição, alimentos, pólvora, óleo, armamentos, ferramentas, equipamentos, remédios, e etc. além de alguns mapas da região leste, desde as trincheiras e o campo de batalha, cada um dos túneis por nós cavados estando nele, até a floresta ao pé das montanhas e além. Tenho certeza de que qualquer outra informação técnica poderá e será respondida por estes homens, meus oficiais que agora me acompanham. Então, agora que, creio eu, não temos mais quaisquer empecilhos, podemos começar? Como posso ver que vocês já estão aqui reunidos há algum tempo, logo creio que há pelo menos alguma ideia ou base inicial, algo que, ao menos, assemelha-se a um plano, não? Por favor, conte-na.
Com a face fechada numa carranca, numa mistura de ódio e desprezo, enquanto revirava e verificava os documentos ali trazidos por Azai, o oficial crasiriano respondeu ao Maioral-Comandante:
— Nossos aliados, os horacianos nos trouxeram algumas informações sobre os cratences, nos dando uma ideia do tamanho de seu exército e poder, então temos sim um plano. — Não dando mais que, no máximo, uma resposta vaga, concluiu: — Os atacaremos e depois regressaremos, os atraindo para uma emboscada.
— E nosso papel nisso tudo? — Perguntou Azai, já mal conseguindo conter-se, esforçando-se para ignorar a má vontade do "aliado".
— Não se preocupe com isso, meu bom senhor. — Respondeu o crasiriano, tornando a sorrir de forma escarnecedora, os demais aliados que o cercavam fazendo o mesmo, como se todo o humor para ali retornasse de repente, como se todos lembrassem-se de uma piada engraçada: — Você ficará como um apoio reserva ao nosso nordeste, caso necessitemos de ajuda ao longo do desenvolvimento da batalha.
Azai imediatamente percebeu as intenções daqueles homens, sua mesquinhosidade egoísta os forçando a colocar a tropa namoriana ao mesmo tempo longe e á vista das suas, como se temendo que eles de repente os traíssem e os pegassem desprevenidos, posicionando-os de forma que, mesmo que isto acontecesse, que os namorianos juntassem-se aos cratenses, eles percebessem de imediato e assim tivessem tempo para reagir, e, caso não viesse a acontecer, os crasirianos e horacianos sozinhos poderiam lidar com os inimigos, enquanto os namorianos observavam, vergonhosamente, como covardes impotentes, apenas de longe, humilhados, desnecessários. Mesmo assim, o Maioral-Comandante nada conseguiu fazer além de sorrir, um largo e brilhante sorriso que exibia todos os seus amarelados dentes, quando retrucou ao homem:
— Ah, isso é mesmo reconfortante! Um excelente plano, verdadeiramente brilhante. Apesar de eu achar um tanto estranho que vocês tenham preferido recolher informações sobre o inimigo a partir dos horacianos a nós, concordo completamente, e, tenho de admitir, vocês têm mesmo coragem!
— S... Senhor Maioral-Comandante? — Perguntou Jéssica, incrédula, incerta se aquilo era ironia ou mesmo se deveria traduzir aquelas palavras, encorajada a repassar a informação em crasiriano para os aliados por um sorriso de seu superior e um meneio de cabeça em "sim".
— As futuras gerações lembrarão-se desta batalha e sobre ela cantarão: "duzentos e cinquenta mil bravos soldados da Aliança Azul contra os quinhentos mil malignos cratenses invasores da Aliança Vermelha"! — Continuou Azai. E os sorrisos, num instante, sumiram.
— O que você pensa que sabe, namoriano? — Perguntou o Capitão-de-Campanha, sério. — E o que faz você pensar que somos duzentos e cinquenta mil? A breve volta em nosso acampamento foi o suficiente para estimar todo o nosso exército?
— Eu sei quais são as intenções e planos dos cratenses. — Respondeu Azai, dando de ombros. — Éramos aliados até pouco mais de um mês atrás, afinal. E, pelo mesmo motivo, sei que os horacianos não enviaram um reforço a vocês muito maior do que cinquenta mil soldados, afinal eles temem perder sua capital para os invasores, e lá reuniram a maior parte de seu exército. Então, considerando a informação que você mandou a mim pelo mensageiro, e adicionando mais algumas poucas dezenas de milhares à margem de erro, tenho uma boa ideia do tamanho do exército reunido aqui, ao acampamento oeste.
— Se você possui essas informações, deveria saber então que não será todo o exército cratence que seguirá para o sul. — Retrucou o oficial horaciano ao lado do Capitão-de-Campanha, avançando, colocando-se à frente de Azai, carrancudo.
— O que foi, você pensa que Crat tem algum interesse no território de Horac? Pois você está errado. Eles querem a Ruína... e o Grêmio, por isso eles seguem para o sul, afinal, se invadirem Nova Crasiria terão a ambos.
— Isso é um absurdo! — Gritou em resposta o horaciano, furioso. — Você está dizendo que a estratégia de nossa nação é errônea?!
— Eu sei disso. — Respondeu o Maioral-Comandante, sem recuar frente ao oficial aliado carrancudo, muitos ali dentro já levando as mãos as armas e a situação ficando cada vez mais tensa. Tornando a sorrir Azai continuou: — Mas, é claro, estou mais que disposto a ouvi-los e seguir conforme a estratégia por vocês sugeridas. Afinal, caso o massivo exército de meio milhão de soldados da nação com o maior poderio militar de toda Asatna realmente desça ao sul, como eles planejavam enquanto éramos aliados (então com nosso auxílio), vocês serão dizimados, mas creio que derrubarão pelo menos duzentos mil deles, então precisaremos simplesmente investir de repente para por um fim aos inimigos confusos que ainda nos têm como companheiros. E, caso eles não desçam... bem, também não perderemos nada realmente, enquanto os países de vocês desperdiçarão grande parte do poderio militar além de outros recursos, pelo orgulho de vocês, o que não seria algo muito agradável na situação que Asatna encontra-se atualmente, não? Manter a soberania da nação e o domínio sobre a Ruína é algo que exige muito dinheiro e um poderoso exército, afinal...
O exército inimigo era pouco mais que uma gigantesca e quilométrica nuvem de poeira no horizonte, aproximando-se rapidamente, perseguindo os coitados que foram escolhidos para provocá-los.
Vinte mil soldados dentre os crasirianos e horacianos, foram escolhidos no dia anterior à tarefa de atacar o acampamento cratence durante a noite, libertando e assustando as montarias inimigas, queimando seus suprimentos, tendas e barracas e matando o maior número de oficiais possível. O exército massivo do inimigo, ao mesmo tempo que o tornava forte, tornava-o confiante demais, despreocupado, até mesmo negligente, suas defesas sendo, no mínimo, fracas, resultando assim no sucesso dos enviados da Aliança Azul na investida noturna.
Claro, uma força tão grande não seria demais afetada pelo caos causado naquele único ataque, independente de quantos incêndios fossem iniciados, quantas gargantas cortadas ou montarias para sempre perdidas, o ataque em si sendo apenas pouco mais que um incomodo aos cratences. Mas, ainda assim, o suficiente para atraí-los a uma perseguição e ao verdadeiro contra-ataque da Aliança Azul, a armadilha ainda por vir.
— São muitos... — Comentou Caleb, boquiaberto uma vez que o inimigo tornou-se menos indistinto, não mais uma nuvem de poeira levantada pelos passos apressados dos cratences em perseguição frenética, mas meio milhão de pontos vermelhos equipados com rifles, lanças, revólveres, espadas, maças e todo tipo de arma.
— Em parte. — Respondeu Azai, empurrando um galho do arbusto no qual escondia-se atrás para o lado a fim de desobstruir a própria visão. — O elemento surpresa fará o resto.
— Espero que sim... Mas, desculpe-me por minha ignorância, o plano não é o mesmo que o sugerido por aquele crasiriano babaca e arrogante?
— Não precisa se desculpar, você não está sendo ignorante, afinal, mas, compreenda, não era um mal plano no fim das contas, apenas incompleto, ainda arriscado demais por conta das suposições errôneas deles. — Respondeu Azai, sem sentir-se obrigado a corrigir, porém, a descrição do íncubos sobre o oficial crasiriano.
Os aliados, aqueles que foram incumbidos da missão noturna, já eram a este ponto quase engolidos pela força dos cratences, milhares dos alados da Aliança Vermelha movendo-se, voando organizados em "V", e disparando consecutivamente contra os crasirianos e horacianos numa feroz troca de tiros contra os alados inimigos, a cada segundo uma harpia ou vampiro caindo ao chão, despencando centenas de metros em queda livre, morto, ou, se apenas ferido, destinado a morrer, enquanto os soldados montados, que fugiam da dianteira do exército do império ocidental sequer atreviam-se a olhar para trás, tirando sangue de suas montarias enquanto esporeando-as, incitando-as o mais rápido que podiam.
— Por que eles todos vieram à perseguição? Podiam muito bem ter enviado apenas uma fração do exército, não? — Tornou a perguntar Caleb, ansioso perante a tensa cena de fuga dos aliados que, a cada segundo, diminuíam em número. — A chance disso ter sido parte de uma armadilha era grande de qualquer forma.
— Ainda que seja uma armadilha, é melhor arriscar do que passar mais tempo no deserto sob o constante risco de ataque inimigo ao anoitecer. Uma única investida noturna pode não causar muito dano, mas cinco, ou dez ou mesmo quinze delas resultariam em fome e cansaço, e isso venceria o exército, independente de seu tamanho, não, justamente por conta de seu tamanho, eles devem tomar tanta conta de seus suprimentos. — Tornando-se então a Jéssica, sério, por fim ordenou: — Estão aproximando-se. Rápido, faça com que o senhor Maioral Yago preparara-se.
Já atravessando a extensa savana, aproximando-se das florestas e da Cordilheira Gris adiante, os aliados apressados em sua fuga já aproximavam-se de seus companheiros, do esquadrão crasiriano e dos horacianos que aguardavam no sopé de uma das montanhas, sobre um aclive bastante inclinado. Perdendo a vantagem sobre o menor grupo de inimigos, os crasirianos e horacianos, que logo estariam sob a proteção de seus companheiros, os cratences adiantaram-se rapidamente, tentando acabar com a distância entre si e a fração perseguida do exército da Aliança Azul de uma vez por todas, percorrendo, eufórico, a planície de grama baixa e terra revirada que fora o campo de batalha que dividiu Namória e Nova Crasiria durante toda aquela guerra até então.
— Agora! — Ordenou Azai, dando enfim o sinal para a maga.
Em resposta, quase que imediatamente após o Maioral-Comandante terminar de falar, a cintilante fez com que a marionete que controlava, lá no alto, um grande pássaro, então desaparecesse em chamas azuis. E a explosão aconteceu.
Produzida com tamanha precisão que brotou exatamente no centro do exército cratence, a terra misturando-se com a fumaça e o fogo e subindo dezenas de metros àos céus numa extensa cortina morte, mesmo o chão sob os pés de Azai, a mais de um três quilômetros do centro caótico do ocorrido, tremendo sob a onda de choque, que era visível aproximando-se a olho nu, a armadilha montada pela Aliança Azul ao preencher os túneis e trincheiras cavadas no conflito ali ocorrido anteriormente com o conteúdo dos de barris de pólvora de todo o exército aliado, como o sugerido pelo Maioral- Comandante, funcionando assim como o esperado, não apenas eliminando incontáveis inimigos, como também separando-o suas forças ao meio. Tão rápido os cratences caíram na armadilha, os crasirianos e horacianos começaram os disparos de canhões, os projéteis caindo aos milhares sobre os soldados ocidentais, abrindo grandes crateras que rapidamente empoçavam-se de sangue e apinhavam-se de corpos, em meio aos inimigos. O Maioral-Comandante não deixou de perceber a excitação de seus próprios soldados, qu, vendo uma vulnerabilidade no inimigo que até então era tão esmagadoramente superior, apertavam os cabos de suas armas e remexiam-se inquietos. Quando então lembrou-se, relutante, da confissão do oficial crasiriano quanto às suas forças, o aliado dizendo: "cento e setenta e oito mil. Eu não menti quando lhe passei a informação através do mensageiro, esses são todos os nossos soldados preparados para o combate, e ainda contando com os horacianos. Uma parte considerável dos nossos voltou à capital para contra-atacar uma outra investida cratence e nosso vizinho nortista não foi muito generoso quanto ao seu reforço, como você previu, afinal". Mesmo todas as forças da Aliança Azul ali reunidas contavam apenas com pouco mais da metade do exército cratence, Azai compreendendo muito bem que a vitória era incerta e dependia de como desenvolveria-se aquela batalha, do quão eficazes seriam as estratégias planejadas.
A batalha prosseguia e os oficiais dos invasores do império ocidental retomaram parcialmente o controle sobre seus soldados, tornando a avançar, seguindo em frente mesmo sob o intenso bombardear do oponente. Apesar do ímpeto, porém, a metade traseira do exército fragmentado movia-se numa velocidade muito menor, não apenas tendo de atravessar a grande vala criada pela explosão, como também intimidada pelas bolas de canhão que caíam a apenas alguns metros adiante, a distância entre as duas metades do exército cratence apenas aumentando.
Mesmo assolada pelas bolas de canhões e, posteriormente por tantas outras munições, setas e flechas, os projéteis quase encobrindo o sol, como nuvens negras carregadas de morte, a parte dianteira da força inimiga não deixou-se atrasar e subia a encosta, ensandecida, quando logo deu-se início então aos primeiros combates a curta distância, uma vez que os cratences encontraram-se com seus oponentes, que protegiam-se por trás de uma série de barricadas e cercas, que foram erguidas dispostas em várias camadas em vários níveis do aclive.
— AVANÇAR! — Ordenou então o Maioral-Mor, dando assim finalmente início ao ataque por parte dos seus.
Uma vez a ordem dada não houve demora em cumpri-la e, de repente, todos aqueles que as possuíam subiram sobre os lombos de suas montarias, incluindo o próprio Azai, disparando a toda velocidade, deixando a proteção da floresta para trás, os soldados montados imediatamente seguidos pela infantaria, atiradores e combatentes de curta distância, além de todos os cintilantes amarelos, e todos estes sob as sombras das asas dos alados.
A tropa do Maioral-Comandante aproximava-se do leste, seguindo em direção às forças cratences, que, de repente, brandaram com o ânimo retomado, em comemoração, quase como se todo o soldado do exército do império ocidental berrasse em uníssono, cantando sua vitória com a chegada do aliado esperado, como se a explosão, a incessante chuva de projéteis e as aparentes infinitas barreiras armadas pelo oponente nada mais significassem. Quando os namorianos aproximaram-se ainda mais e ainda em linha reta, sequer aparentando começar a redirecionar sua tropa para o sul, aclive acima, o brado diminuiu até ser engolido pelos típicos barulhos da batalha. E, finalmente alcançando e trespassando as linhas da metade mais distante da montanha e dos crasirianos e horacianos do exército da Aliança Vermelha, os namorianos seguindo como uma flecha, imparáveis através dos inimigos, deixando um rastro de corpos para trás, a esperança nascida entre os cratences não apenas fora esmagada e triturada, mas fora também transformada no mais puro desespero.
Enquanto os soldados montados abriam uma grande brecha entre aquela metade do exército inimigo, cortando, empalando, esmagando e atropelando a esquerda e a direita, os alados cratences, que até então aguardavam por ordens sobre as cabeças de seus companheiros, sequer tiveram tempo de reagir ao primeiro contato com as harpias e vampiros (estes obrigados a lutar mesmo enquanto o sol ainda alto para compensar a diferença numérica ainda que o exército inimigo estivesse dividido pela metade) namorianos, uma segunda guerra sendo travada nos céus, os confrontos aéreos repletos de acrobacias e manóbras, rasantes e subidas para alturas ainda maiores, a todo instante cadáveres desfigurados e soldados cujo as assas foram danificadas caindo ao chão, empalados pelas lâminas erguidas pelos combatentes terrestres ou esmagando a estes com seus corpos ou espatifando-se contra a terra numa explosão de sangue e membros decepados.
Viam-se também chamas, vapores, ventos poderosos e todos os tipos de projéteis, armas, monstros e animais sendo conjurados por todos os lados, uma confusão de luzes, as labaredas alaranjadas misturando-se com o clarão repentino de pequenas descargas elétricas e as cintilações azuladas resultantes tanto das conjurações dos feitiços quanto da destruição e dispersão destes, os cintilantes lutando com armas as mãos ao mesmo tempo controlavam suas marionetes sangrentas e atiravam projéteis e conjuravam paredes e labaredas às suas voltas num estilo único de batalha desenvolvido através de uma vida inteira voltada à guerra.
Com Camponesa já embebida em sangue da ponta da lâmina ao cabo, Azai tendo tirado dúzias de vidas em seu caminho cruel sobre o lombo de Milagre, que não ficara para trás em sua cota de mortes, mordendo e atropelando qualquer cratense azarado ou burro o suficiente para permanecer à sua frente, o Maioral-Comandante então quase fora cegado pela luz intensa ao mesmo tempo que o ar quente soprado veloz atingiu-lhe em cheio, ardente em sua pele, ambos gerados com a ignição e surgimento da colossal cortina de fogo ao oeste do exército cratence, a segunda armadilha armada pela Aliança Azul e terceira parte do plano, esta também sugerida pelo próprio Azai.
Uma barreira intransponível erguida num instante com o ascender do óleo despejado numa série de trincheiras por parte de Yago e seus subordinados ao receberem o segundo sinal de Jéssica, que observava junta dos demais cintilantes azuis, ainda da floresta, as chamas ardendo na forma de um enorme semicírculo que encurralava o inimigo, forçando-o a aglomerar-se ainda mais conforme os namorianos os pressionavam do leste.
Era então, aquele era o momento em que os soldados montados deveriam começar a fazer meia volta, afastar-se dos cratences para depois uma segunda investida, e assim faziam todos os namorianos sobre os lombos de chacais-monarca, cavalos e camelos. Mas fora nesse momento que Azai avistou-o, aquilo que verdadeiramente decidiria a batalha, o verdadeiro golpe contra o coração daquela enorme e, aparentemente, infindável massa de inimigos: o homem que liderava aquele exército.
Sabendo que aquela poderia ser sua única oportunidade de matá-lo, Azai não pensou duas vezes em investir contra o oficial, uma fada que vestia uma armadura dourada e uma máscara de demônio que diferenciava-se das demais por ter um par de chifres a mais.
— SIGAM-SE! — Berrou Azai, trazendo uma série de subordinados consigo.
O ogro estava cercado por dezenas de seus próprios soldados, protegido, escoltado, quando Azai e os seus chocaram-se com o grupo, o encontro imediatamente resultando num embate sangrento, soldados de ambos os lados digladiando-se até a morte em golpes violentos, mas a vida daqueles cratences de baixa patente não era importante, haviam mais dezenas de milhares, centenas de milhares para substituí-los, Azai visava apenas uma cabeça, e já aproximava-se desta, sua lâmina sedenta de sangue a apenas alguns centímetros de seu alvo. Fora então, enquanto o Maioral-Comandante guiando Milagre, que os caninos afiados daquela fera ensandecida pela batalha, pelo sangue, fogo e pelo constante açoitar de seu mestre perfuraram por quase sete centímetros o pescoço do chacal-monarca sobre o qual Azai estava montado, os dentes do gibão-guerreiro perfurando mesmo através do aço da armadura e a grossa camada de pelos, pele e gordura de Milagre.
Enquanto a montaria de Azai caía ao chão, um rio de sangue jorrando do ferimento em seu pescoço, enquanto debatia-se e esperneava, tentando inutilmente livrar-se da fera cratence, que desferia uma violenta série de mordidas e tapas, socos e arranhões usando das afiadas garras de aço embutidas nas manoplas de sua armadura, o Maioral-Comandante rapidamente saltou da sela de Milagre, rolando para longe, desviando-se por pouco da estocada que a fada montada sobre o gibão-guerreiro, que o oficial cratence desferiu-lhe.
Sua perna manca dobrando-se sob o peso de seu corpo, em agonia, Azai demorou para reequilibrar-se, vendo-se de repente na defensiva, desviando dos golpes rápidos da lâmina do inimigo com Camponesa, enquanto, ao mesmo tempo, recuava, afastando-se do alcance das longas garras de aço que transformara Milagre em pouco mais que um trapo ensanguentado, esquivando das patadas da fera, do gibão-guerreiro, por poucos centímetros vez após vez.
Após a fera, em toda sua fúria ensandecida, desferir então um golpe amplo demais, porém, Azai, sem perder tempo, aproveitou-se do descuido do animal, da oportunidade de aproximar-se, que lhe apareceu e assim o fez, parando exatamente sob o peito do animal num salto e, erguendo Camponesa sobre sua cabeça, a ponta da espada penetrou exatamente pela brecha da armadura do gibão-guerreiro, o aço fincando-se em seu pescoço. A força da estocada, porém, fora não suficiente para trespassar a grossa camada de gordura da fera, e o animal imediatamente entrou em frenesi, tentando de tudo para tirar o Maioral-Comandante de sob si, conseguindo por fim por as mãos em volta do corpo de Azai, caído sobre o joelho e a perna manca, a fraqueza quase insuperável causada por um ferimento adquirido a muitas batalhas ainda atormentando-o, sob um berro carregado pela fúria que fervia seu sangue sempre que colocava-se em batalha e pela determinação de viver. O Maioral-Comandante conseguiu então por uma das mãos num de seus revólveres e disparar na palma desprotegida do animal que o envolvia, assim libertando-se e, por fim, erguendo-se e mais uma vez pondo as mãos no cabo de sua espada, fincando o resto da lâmina através do pescoço do gibão- guerreiro, banhando-se em seu sangue, que jorrou forte para fora de seu corpo.
Ainda erguendo-se, Azai quase não teve tempo de desviar-se do machado que caiu-lhe sobre sua cabeça, rolando à esquerda no último segundo, uma vez que, embora atento aos seus instintos ampliados, estes encontravam-se confusos sob o caos da batalha. Dando continuidade ao movimento, acertando exatamente na articulação interna do cotovelo do inimigo que atacou-lhe, um elfo, decepando-lhe o braço direito e, rapidamente mudando de posição e redirecionando Camponesa, terminando com o cratence atravessando a ponta da lâmina através do espaço do olho de sua máscara de demônio.
Horas já haviam se passado desde o início do confronto, o sol já aproximando-se, alaranjado, do horizonte, mas os cratences eram muitos e a batalha não tinha acabado ainda, porém, e Azai encontrava-se sozinho dentre os inimigos, cercado de três lados, contra a parede de chamas que ele mesmo criara, e logo as atenções dos soldados, que lutavam com todas as forças para sobreviverem à emboscada, sedentos de sangue e furiosos com a traição dos namorianos, voltaram-se ao Maioral-Comandante.
Pelo menos uma dúzia de inimigos aproximavam-se ao mesmo tempo, em disparada contra Azai e ele teria de lidar com todos eles sozinho. Já estivera numa situação parecida antes, na mansão da Cordilheira Gris, mas daquela vez ele tinha certeza de que seus oponentes seriam os únicos os quais iria enfrentar, uma vez que estivessem mortos ninguém os substituiria, além de que estava numa sala isolada, onde podia concentrar-se totalmente apenas em seus oponentes, contando com sua habilidade passiva, mas ali era diferente. Azai estava de frente a centenas de milhares de inimigos numa verdadeira e grande batalha em campo aberto onde haviam lâminas se chocando, disparos sendo feitos, soldados berrando e sangue jorrando por toda parte, assim os sentidos magicamente ampliados pela Passiva tornando-se confusos, quase inúteis naquela situação.
O primeiro a desferir um golpe contra o Maioral-Comandante fora um gigante que empunhava uma lança, Azai não podendo fazer nada além de desviar-se da estocada uma vez que o alcance deste oponente era monstruosamente grande. Um segundo oponente, porém, um goblin, aproveitando-se da oportunidade, disparou sua besta contra o peito de Azai, que não conseguira desviar-se a tempo, apenas inclinando-se o suficiente para que sua armadura, o próprio peitoral de aço, salvasse-o, desviando a seta. O Maioral-Comandante respondeu a ambos os ataques sacando um de seus revólveres disparando-o e acertando em cheio os buracos para os olhos nas máscaras de demônio dos oponentes. Azai estava tentado a descarregar as oito munições que lhe restavam (duas no revólver que empunhava e seis no que ainda possuía o tambor cheio), acabar, pelo menos, com o maior número de oponentes antes de sua provável queda, mas resolveu economizar os disparos para gastá-los depois contra aqueles que empunhavam armas de longo e médio alcance, disparando apenas mais duas vezes, e fazendo mais duas vítimas.
E finalmente os cratences alcançaram-no para que seus aços se encontrassem. Sete lâminas seguiram contra Azai, em direção ao seu rosto, à sua perna esquerda, ao seu pescoço e gorjal, e ao seu peito, e seus instintos berravam para que ele recuasse em sua confusão de alerta vinda de todos os lados, embora não o dissessem, porém, para onde.
Azai sentia o aço plano e afiado das espadas, machados e lanças dirigindo-se contra si, ouvia-os cortando o ar e zunindo, ouvia os passos e a respiração daqueles que as empunhavam, sentia o cheiro do suor, do sangue e da poeira levantada sob a confusão caótica que era a batalha incrustados em suas peles, mas ignorou tudo isto, ignorou a forma de lutar com a qual venceu tantas outras batalhas, seus instintos, a magia que salvou-lhe sua pele tantas outras vezes, seguindo um passo depois do outro, concentrando-se apenas em não morrer instantaneamente.
Alguma coisa atingiu sua orelha, mas o Maioral-Comandante não importou-se, algo raspou sua coxa esquerda, mas ele também não deu importância a isto, e, por fim, viu uma flecha cravar-se em seu antebraço esquerdo, mas isto também já não mais importava, uma vez que ele conseguiu então, finalmente, ficar a pouco mais de alguns centímetros do aglomerado de seus agressores, que recuavam, pasmos, espantados perante a atitude de Azai.
Segurando um cratence pelo pescoço com uma mão apenas, Azai usou-o de escudo, defendendo-se dos ataques vindos de sua esquerda, enquanto brandiu Camponesa num amplo arco à direita, decapitando um inimigo e empurrando os demais em direção às chamas ao oeste. Jogando o corpo morto do cratence que usara como escudo sobre um dos oponentes, Azai virou-se então à esquerda, sacando o revólver cujo tambor ainda estava cheio e logo descarregando-o numa rápida saraivada, disparando seis vezes e derrubando seis cratences, meia dúzia de soldados que tinham-no sob a mira ou estavam próximos o suficiente para encontrá-lo com suas armas de médio alcance, finalmente voltando-se mais uma vez ao leste, a parede de chamas ficando a suas costas, e avançando, em frenesi, brandindo camponesa enquanto abrindo um caminho sangrento através de uma série de membros decepados e grandes ferimentos abertos.
Uma vez que atravessara a barreira criada pelos soldados que cercavam-no, encontrou-se então com a maioria dos cratences de costas para ele, como ele esperava (e torcia) que fosse, o resultado de sua estratégia, já que, encurralados, cercados por todos os lados, os inimigos haviam sido pressionados num círculo.
Azai, felizmente, não viu-se no exato centro da formação do exército do império ocidental, conseguindo cobrir um breve trecho de terra em sua disparada sangrenta, avistando então a poucos metros de distância a extremidade mais próxima do semicírculo defensivo que era a formação da massa de soldados cratences. Azai percebia que precisava apenas atravessar mais aquela barreira para deixar as forças inimigas para trás. Coincidentemente, foi então que a tropa namoriana abriu uma brecha nas defesas inimigas, naquele exato local à vista do Maioral-Comandante. Mas fora também nesse exato momento, antes mesmo que a esperança pudesse florescer, que o desespero de ver-se encurralado mais uma vez assolou o Maioral-Comandante.
O gibão-guerreiro já estava quase em cima dele, suas longas presas a pouco mais de um metro de distância, Azai podendo ver todo o interior da bocarra escancaradas da fera e todos os seus afiados dentes quando deu-se conta de sua presença. Era inútil, ele nada poderia fazer contra aquele animal a tão curta distância, em tão pouco tempo, qualquer que fosse o ímpeto final do Maioral-Comandante seria inútil. Ele morreria em segundos.
As presas fincaram-se profundas na carne do pescoço, as garras rasgaram os olhos e a barriga desprotegida e todas as suas entranhas saíram para fora enquanto ele debatia-se, sangrento, ao chão, em dor e agonia, seu sangue empoçando-se sob seu corpo enquanto ele morria. E o gibão-guerreiro finalmente parou de se mexer.
— Milagre! — Disse Azai, em reconhecimento à sua montaria, ali parada sobre o cadáver da fera do império ocidental, fitando-o tão machucado que parecia mais morto que sua própria vítima.
Sem perder mais um segundo sequer, vendo ali sua última e única oportunidade, Azai montou sobre o chacal-monarca, sequer precisando guiar o animal para longe dos inimigos, a montaria seguindo aos demais namorianos por conta própria, veloz e imparável através dos últimos metros da massa compacta que era a formação do exército cratence, saltando por sobre os soldados inimigos e deixando-os para trás.
A noite já havia caído, mas as chamas, o óleo ainda queimava, ardente, iluminando o campo de batalha frente ao Maioral-Comandante, que observava a devastação causada naquele último confronto. Incontáveis corpos espalhados por quilômetros e mais quilômetros, tanto sangue e demais fluidos tendo caído ao chão que a savana tornara-se pouco mais que um lamaçal vermelho e fedorento.
Voltando então sua visão ao sul, Azai viu o aclive que servira de campo de batalha para os crasirianos e horacianos contra os cratences quase que completamente devastado, a mata que lá crescia reduzida a cinzas, tantas crateras resultantes dos disparos de canhão deformando a terra quando haviam estrelas brilhando nos céus, quase que todas as barreiras levantadas pelos aliados derrubadas, destruídas, o pé da montanha estando tão apinhado de corpos mortos quanto a planície onde o Maioral-Comandante encontrava-se.
— Senhor Maioral-Comandante Azai! — Tornou a chamar Caleb, ofegante, assim como o próprio Azai, marcado pela batalha como se tivesse mergulhado em sangue, suor e poeira, porém com menos ferimentos que seu superior, o íncubos finalmente conseguindo ter a atenção do Maioral-Comandante. — Os cratences estão recuando. — Indicou Caleb, apontando para os soldados que seguiam de volta para o norte, em debandada, sem liderança. — Devemos persegui-los, senhor?
— ...Não. Não, deixe-os ir. — Respondeu Azai, percebendo que grande parte daqueles cadáveres caídos sob seu próprio sangue, dos corpos sem vida que repousavam por toda a savana, eram soldados de sua própria tropa. — A partir daqui é, responsabilidade dos horacianos.
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