Capítulo: 62
Álex.
— Os cratences foram avistados hoje e nos foi relatado que eles já estão à nossa porta. Eles chegarão aqui a qualquer momento entre amanhã ao meio-dia e cinco da tarde, não há tempo para lhes ensinar qualquer coisa muito complexa, muito menos para brincadeiras, então prestem bem atenção. — Disse o assolador frente de Álex, Miranda e outra centena de gremistas, que afileiravam-se em posição de sentido, atentos, sob o sol da manhã.
Todos os gremistas com menos de quatorze anos, junto do povo de Dentre-Flume, foram enviados para o leste, para o interior do país assim que a notícia fora espalhada, para refugiarem-se da batalha eminente. Restaram pouco mais de oito mil magos no Grêmio, enquanto vinte mil combatentes na cidade, apenas onze mil deles sendo de fato soldados, e, embora os reforços de fato estivessem a caminho, ainda demorariam cerca de dois dias para chegarem a capital, logo, os assoladores presentes no Grêmio treinavam e equipavam a maior quantidade de magos possível para o combate, enquanto os soldados na capital faziam o mesmo com os civis voluntários. E, além dos gremistas e dos militares, havia também uma terceira força, esta que, apesar de não costumar envolver-se em guerras, ou mais precisamente em embates entre pessoas, tinha um dever a cumprir para com o Grêmio, simplesmente não podia deixar que ele fosse saqueado e destruído pelos estrangeiros e uma vez que a notícia da frota cratence espalhou-se, reuniu-se em defesa da ilha e da capital de Nova Crasiria, mais e mais chegando a cada dia: os coletores.
— O potencial da magia é limitado pelo conhecimento e imaginação do mago, então é natural pensar-se que é fútil classificá-las, separá-las em matérias nomeá-las em feitiços... escondê-las. — Continuou o mago do exército. — Mas, meus bons senhores, é justamente por não existir uma única forma eficaz de utilizar a magia, por seu potencial criativo ser tão grande, que alguns feitiços são escondidos, ensinados apenas para aqueles de confiança... e dispostos a usá-los. Estes feitiços secretos são conhecimentos estritamente militares e são chamados, ao menos em Nova Crasiria, de: assolações.
"Todo o país tem suas próprias assolações. Em Namória os magos do exército são ensinados a conjurar canhões, Idris aprendem a conjurarem suas próprias armaduras e armas já equipadas, em Nova Crasiria conjuramos um grande número de armas de fogo de uma única vez e as disparamos simultaneamente, e em Tyr focam-se totalmente nos feitiços mais simples e aprofundam-se nas técnicas de aplicações de força numa mistura de arte marcial e magia. Claro, estes não são feitiços de mais alta confidencialidade e nem os mais poderoso, que são mantidos em segredo, conhecimentos passado apenas para os mais altos escalões da comunidade mágica e militar destes países. E mesmo que vocês tenham conhecimento deles, caso vocês tentem praticá-los sozinhos, apenas morreriam (afinal, considerando que o raio de conjuração de vocês não é muito maior que cinco metros, conjurem a quantidade de pólvora errada no canhão ou rifle, ou o façam seu corpo e munição da forma ou material errado, e o máximo que vocês conseguiriam fazer seria explodir seus próprios membros. Quanto aos demais feitiços, creio que dispensam comentários)."
"O que lhes ensinarei são dois feitiços básicos, os primeiros a se aprender ao entrar no exército e tornar-se um mago especializado em combate (provavelmente) em todo o mundo, mas que podem salvar suas vidas. Eles são: o Defensor e o Sinalizador."
"O Defensor, como o próprio nome já indica, é um feitiço cuja função é proteger o mago conjurador. Ele é um tipo de escudo em "V" apoiado num tripé capaz de desviar qualquer projétil disparado contra vocês, e, antes que levantem qualquer dúvida imbecil, ele foi projetado de forma que gaste a menor quantidade de magia possível e é capaz de defendê-los de até mesmo de um tiro de canhão, não o comparem com um muro qualquer."
"Enquanto o segundo feitiço, o nome também já deixando explícita sua função, o Sinalizador tem milhares de utilidades ao mesmo tempo que apenas uma. Ele é tão simples que até um macaco poderia conjurá-lo, sendo nada além de uma fumaça colorida conjurada acima da cabeça de vocês, o mais alto que conseguirem, cada cor simbolizando alguma coisa. Vermelho significa "fracasso na missão", verde significa "sucesso na missão", roxo é "soldado ferido", preto "reforço inimigo", azul "necessário reforço"... Vocês terão de memorizar cada uma destas cores, e aprenderem a conjurar o escudo se quiserem ter alguma chance de sobreviver à próxima batalha. Então, comecemos!"
O dia fora longo, Álex junto da maior parte dos Gremistas passando a tarde prestando atenção às lições dos assoladores, aprendendo os feitiços, a equipar-se com a armadura que lhe foi concedida e, até mesmo, a disparar um revólver. Durante este tempo o Grêmio esteve silencioso como nunca antes desde do dia de sua fundação, a tensão mantendo todos de boca fechada e suas sobrancelhas franzidas em preocupação. As primeiras descontrações, conversas sobre assuntos sem importância, sobre boas memórias, sonhos e desejos, respondidas com sorrisos e despreocupação forçados, sendo feitas somente ao anoitecer, durante o almoço, naquilo que viria a ser a última refeição de muitas daquelas pessoas. Com o fantasma não era diferente, mesmo ele sem sentir fome alguma, Álex simplesmente empurrava a comida goela abaixo, automaticamente, sem conseguir deixar de pensar no dia seguinte.
— Ainda assim, tenho certeza que o Álex vai conseguir afundar, pelo menos uns trinta navios! — Comentou um rapaz, uma harpia com pouco mais que dezesseis anos.
Uma vez que os assoladores e professores do Grêmio juntavam-se com seus próprios grupos, ocupados com estratégias, previsões, contagem de suprimentos, números e outras coisas, Álex era dentre os gremistas do refeitório masculino, o único com alguma experiência de batalha real, tornando-se assim rapidamente o centro das atenções, frequentemente ouvindo as fofocas que corriam desenfreadas a toda sua volta embora ainda assim estivesse sentando-se junto dos demais sobreviventes fugitivos do forte quadrado a fim de evitar as aproximações e curiosidade indesejadas, aquelas pessoas tendo acompanhado-o e Miranda até ali e simplesmente recusando-se a deixá-los, a partir para um local seguro.
— Sim, sim! — Concordou uma outra harpia, este apenas um pouco mais velho.
— Eu ouvi falar até mesmo que ele inventou um feitiço próprio.
— Uau! Isso é verdade? — Perguntou um terceiro gremista, aproximando-se de repente do fantasma e inutilizando seu plano de sentar-se junto dos demais ex-prisioneiros, a curiosidade indesejada pondo fim à tranquilidade reclusa do fantasma.
Apressando-se em terminar sua refeição, Álex, já sentindo-se sufocado com o falatório (e envergonhado com histórias contadas sobre ele, mesmo ele estando tão perto), respondeu-o, levantando-se do banco:
— Sim, chama-se "repressor atroz" e é uma marionete. — Dirigindo-se à saída do refeitório, sob uma cascata de outras perguntas, a curiosidade e admiração dos gremistas ali apenas aumentando, rapidamente transformando-se numa agitação tumultuosa de vozes e ruídos que misturavam-se, já indistintos, o fantasma completou, aos sussurros, deixando aquele prédio: — ...Quanto à sua forma, não se preocupe, tenho certeza de que todos o verão bastante em ação amanhã.
Álex ouvia apenas o som dos próprios passos e o tinir de todo o metal que pesava em seu corpo enquanto andava pelo campus do Grêmio naquela noite, apesar de conseguir ver na muralha adiante inúmeros guardas, a maioria vampiros, que circulavam fazendo sua ronda, atentos ao mar ao oeste, à espera de que a qualquer momento velas vermelhas e chaminés cuspidoras de fumaça surgissem pontilhando o horizonte escuro como um arauto de morte, o início da batalha ainda por vir, a guerra. A expectativa, a tensão que exauria a todos, era quase pior do o eminente e inevitável confronto.
Desconfortável e cansado, não acostumado com o peso da armadura, Álex viu-se obrigado a descansar, sentando-se num banco sob a luz da lâmpada de um poste, frente a um chafariz próximo ao portão da muralha. Os assoladores haviam instruído a todos para que não tirassem suas armaduras e que ficassem com suas armas sempre por perto, dizendo que, apesar da estimativa que tinham da chegada da frota cratence, este tipo de coisa era sempre imprevisível, ainda mais no mar, quando o tempo podia mudar de uma hora para outra, e Álex, sem questionar, assim o fez.
— Armadura "leve", hein? — Comentou o fantasma, suspirando. — Isso não é leve de jeito nenhum! — Observando os relâmpagos iluminarem o horizonte, concluiu:
— Bem, pelo menos eles estavam certos de que o tempo muda bastante de repente no mar...
— É leve para o bolso. — Retrucou Miranda, surgindo à luz do poste, sorrindo. Sentando-se ao lado do fantasma, Álex então passando o braços sobre ela num abraço carinhoso, a lebromem continuou: — O nome não tem nada a ver com o peso; afinal, há uma centena de camadas de ferro, couro e lã nisso aqui, apenas com a quantidade de dinheiro que é gasta nela, que é muitas vezes mais barata que qualquer armadura completa de aço. A maioria dos exércitos em toda Asatna é equipada com armaduras leves.
— Desde quando você é a sabichona? — Perguntou Álex, sorrindo. — Sei que você está tão desconfortável usando isso quanto eu.
— Horas, sempre fui mais inteligente que você, só nunca disse nada porque não queria te deixar sem jeito. — Respondeu a lebromem, brincalhona.
— Tem razão, por todos os Deuses, como eu pude não perceber isso?! Este simplório gremista lhe pede perdão, minha boa senhora.
— Eu sou generosa com meus servos, então considere-se perdoado. — Os jovens passaram alguns bons instantes em silêncio na companhia um do outro, apenas ouvindo as batidas sincronizadas de seus corações, como se o tempo não mais fluísse, como se nada mais importasse, desejando que aquele momento durasse para sempre, antes de Miranda voltar a falar: — Não tem ninguém aqui fora mesmo. Nem no bazar. É estranho, normalmente, a esta hora da noite ele era frequentado por metade do Grêmio, alunos, professores e empregados em busca de diversão.
— Isso não me surpreende, afinal, todas as prostitutas, os taverneiros, os bartenders, e os donos de lojas do bazar fugiram junto com os outros civis.
— ...Léx, você já... "frequentou" o bazar com este tipo de intenções? — Perguntou Miranda, remexendo-se nos braços do fantasma, ciumenta ao perceber as verdades ditas por Álex
— Você quer saber se eu já fui num prostíbulo? — Retrucou o fantasma, gargalhando. — Não se preocupe com isso, sempre fui tímido demais para sequer ter coragem de entrar num. Mas, e você, hein? Agora que você já tocou no assunto...
— Já.
— O QUE?!
— Brincadeirinha. — Respondeu Miranda, sorrindo. — Pensando nisso, é estranho, não acha? Na maioria dos países, é incentivado para que os magos fiquem uns com os outros, formem casais e se reproduzam, mas aqui até o refeitório é separado pelo sexo dos estudantes.
— Na maioria dos países, magos são tratados como armas, criados desde a infância com o objetivo de juntarem-se ao exército. Aqui, olhe para nós, apenas filhos de camponeses de vilarejos do interior que ninguém conhece, pessoas comuns que vieram para cá em busca de um grande futuro. Alguns sonham em voltarem para sua terra natal como médicos ou curandeiros, outros em continuarem no Grêmio como professores e estudiosos, e outros ainda tornarem-se inventores, cientistas e, até mesmo, filósofos. Acho que é isso que diferencia este lugar de todo o mundo, o que o torna especial. Aqui não são criadas apenas armas, aqui é criado um futuro.
Aconchegando-se, aproximando-se ainda mais de Álex, Miranda disse, sua voz trêmula, baixa, quase inaudível:
— ...Eles estão mortos. Meus pais, eu digo. Meu pai estava acorrentado próximo a mim no navio. Ele estava todo machucado e muito magro. Eu perguntei a ele sobre minha mãe... e ele me disse que ela havia sido queimada. Seu corpo devia estar em algum lugar sob aquela pilha de carne que vimos na aldeia, tão desfigurada que nem mesmo eu a reconheci. — Esforçando-se para conter suas lágrimas, sentindo um nó apertar-se em sua garganta, Miranda continuou: — Eu deveria ter imaginado, afinal, ela já era uma mulher bastante velha e fraca, e de aparência acabada pelo trabalho no campo, não teria serventia para os cratenses. Pouco depois de me contar o que havia acontecido com ela, os ferimentos do meu pai começaram a infeccionar por causa da água pútrida que empoçava-se sob nós. Eles nem esperaram que ele morresse direito, meu pai só ficou com febre e já jogaram-no do navio.
— Eu já imaginava isso. — Disse Álex, pesaroso. — Temia isso. Só não havia tocado no assunto porque tinha medo, medo de encarar o fato de que nossa jornada idiota foi inútil. Medo de lhe trazer lembranças ruins.
Virando então o rosto do fantasma com as mãos e puxando-o para junto do seu, Miranda beijou-o. Enquanto mais um relâmpago clareava os céus momentaneamente, delineando o contorno da face da lebromem, seus cabelos e seu corpo, Álex retribuiu, puxando-a para mais perto de si.
Quase todas as casas do Bazar estavam vazias, logo não fora difícil para os jovens encontrarem quartos vagos. Um quarto que não fedesse a bebida, vômito ou sêmen, porém, era outra história.
A chuva tamborilando incessante no telhado, goteiras encharcando o piso de madeira, e os trovões ensurdecedores ressoando estrondosos durante a tempestade que chegara ainda de madrugada, os jovens ajudavam um ao outro a vestirem suas armaduras. Colocando o revólver no coldre que passava sob suas axilas, Álex perguntou, incerto:
— Isso ainda é necessário? Digo, o céu está caindo lá fora, no primeiro passo para lá da soleira desse lugar, a pólvora vai ficar encharcada.
— Ainda assim, é melhor levá-lo por via das dúvidas. — Respondeu a lebromem, dando de ombros. — Eu, pelo menos, não quero levar bronca dos assoladores.
Respirando fundo então, voltando-se a lebromem e segurando-a pelos ombros, Álex disse:
— ...Miranda, prometa-me que você não vai morrer. Prometa-me que você vai voltar para mim.
— Eu prometo, Álex. — Respondeu Miranda, sorrindo estonteantemente, exibindo todos os seus dentes brancos. — Eu sempre voltarei para você.
BAM! BAM! BAM! Ressoou, ecoante.
— Trovões? — Perguntou Miranda.
— Não, o sino da Torre do Grêmio. — Respondeu Álex, franzindo as sobrancelhas. Colocando as botas, concluiu: — É melhor nos apressarmos e irmos logo!
Ainda estava escuro, um breu onde qualquer forma não era mais que uma mancha de sombras indistintas a mais de um metro de uma fonte de luz, mas não dava-se de dizer com certeza se ainda era de fato noite por conta das nuvens negras que preenchiam toda a extensão dos céus, como fumaça, como um tapete de sombras. A chuva caía grossa e rápida, turvando a visão e abafando os sons, enlameando todo o chão gramado, carregada pelo vento forte que vinha do oeste. Com o capuz do manto que usava por sobre a armadura cobrindo a cabeça já encharcado, Álex observou todos reunindo-se à frente da torre na qual, em seu topo a dezenas de metros de altura, badalava o sino. Gremistas, coletores e assoladores afileirando-se frente a um estrado de madeira previamente preparado. Oito mil pessoas, então, mesmo que menos de um terço deles tivesse qualquer experiência de combate real, soldados, todos ombro a ombro, de rostos pálidos, ansiosos. Professores e assoladores de alta patente ladeavam o estrado, o sino parando então finalmente de badalar quando Milly subiu seus degraus até ficar quase dois metros acima dos demais, encarando as fileiras alinhadas à sua frente. O fantasma pode ver o pingente branco em forma de coração que pendia de uma corrente simples de corda em seu pescoço e não conseguiu deixar de tirar os olhos dele, sentindo uma estranha familiaridade com o objeto.
— A ruína. — Comentou baixinho, compreendendo.
— O inimigo se aproxima. — Disse a draconiana, fazendo, surpreendentemente, sua voz ressoar mesmo por sobre o alto chiado da chuva e o tamborilar das gotas caindo ao chão, sua voz alta e imponente. — Ele vem em busca de vitória e não a obterá sem deixar para trás um rastro de sangue, pois usurpa nossas conquistas, anseia, ganancioso, nossas riquezas e inveja o que construímos, trazendo consigo apenas morte e destruição. E eu lhes digo: nós os retribuiremos na mesma moeda! — Concluiu a presidente, estendendo os braços e sendo envolvida, engolida pela escuridão dos céus, as nuvens negras como carvão, que deformavam-se, moldaram-se no corpo de Milly num instante, espalhando a água que cobria-a para todas as direções.
Não, não eram nuvens, nem a própria escuridão que envolveu a Presidente, mas sim o aço, uma armadura de aço completa e negra com um coração roxo no centro que ela conjurou num instante sobre si mesma, perfeitamente.
— Impossível... — Sussurrou Álex, pasmo, sua voz sendo apenas mais uma em meio ao burburinho que ressoou por sobre todas as fileiras de soldados. — Nem uma única partícula de magia foi desperdiçada, nem uma única partícula perdeu-se no ar...
— Todos os curandeiros ao Palácio Magno, ficarão responsáveis por tratarem dos feridos. Os demais, sigam as ordens dos assoladores e dos professores, preparem-se para o combate. — Gritou a Presidente, seus pés deixando a superfície da madeira do estrado, flutuando. — Afundem o maior número possível de navios, matem o máximo de cratences que conseguirem e atrasem o quanto puderem a chegada dos inimigos à cidade! MOSTREM A ESTES DESGRAÇADOS DO QUE O GRÊMIO É CAPAZ! DESTRUAM-OS!
Em meio à algazarra de berros e urros, enquanto todos dividiam-se, seguindo as ordens dos assoladores que separavam as colunas em blocos e guiavam-os à muralha, à ponte em "Y", ao porto e a outros pontos, Álex segurou Miranda pelo pulso, puxando-a a si e beijando-a mais uma vez, antes de dizer para a lebromem:
— Vamos nos ver de novo, ao fim de tudo isso. Tome cuidado.
— Sim, nós vamos. — Respondeu ela, determinada. — Você também, tome cuidado, Léx. — Concluiu, correndo ao Palácio Magno.
Seguindo com os demais de sua fileira, o fantasma juntou-se a um bloco sob o comando de um assolador, que separou todos por suas especialidades mágicas, logo Álex ficando num grupo de marionetistas, que foi guiado ao porto. Ao longo do cais, outros marionetistas, centenas deles, mais chegando a todo instante, afileiravam-se, sob o comando de Henrique. Nas ameias da muralha, metros acima, uma confusão de passos apressados, canhões sendo empurrados, direcionados e preparados para o disparo, enquanto ali o velho sátiro barbudo instruía seus subordinados antes mesmo que o primeiro mastro surgisse no horizonte:
— Conjurem, de preferência, monstros e animais aquáticos. Marionetes voadoras são alvos mais fáceis para os inimigos ao convés. — O velho não tinha uma voz tão alta quanto a Presidente, mas inspirava tanta autoridade quanto. Enquanto dando suas aulas teóricas, recitando os longos textos de história ou sobre a conjuração de marionetes, era impossível de sequer imaginar que aquele homem tinha alguma experiência em batalhas reais, mas ali sua perícia militar era visível. Poucos sabiam, mas Henrique havia sido um assolador durante boa parte de sua vida. — Aqueles que não sabem conjurar nenhum destes dois tipos de marionetes, voltem às muralhas e aguardem que os cratences entrem ao alcance. Até lá, empunhem armas de longo alcance e aguardem com os demais atiradores e sob a instrução deles. Àqueles que continuarem aqui, conjurem as marionetes ao meu sinal!
Assim que Henrique terminou de dar suas instruções, os marionetistas sob seu comando cumprindo para com elas, muitos subindo as escadas rochedo acima, seguindo ao topo da muralha, apenas cerca de duzentos gremistas permanecendo no cais, os navio começaram a surgir no horizonte, as velas e chaminés erguendo-se como as torres e prédios de uma distante cidade, aproximando-se e aumentando de tamanho cada vez mais. Muitos deles.
— São tantos... — Comentou um rapaz, que Álex reconheceu como sendo aquele que perguntou-lhe sobre seu feitiço original.
— "Dezenas de milhares". — Lembrou a outra harpia, que o fantasma também reconheceu, o rapaz que falava, durante o jantar, sobre o próprio Álex e quantos navios ele afundaria. — Considerando que há, pelo menos, quinhentos soldados em cada um...
— Considerando isso, se o deixarmos atracar, estamos todos perdidos. — Completou a primeira harpia.
— Errado. — Retrucou Álex, visando passar alguma confiança aos companheiros, sabendo que aquela atitude poderia não apenas levar aqueles dois à morte, como também desmotivar os demais e possivelmente também matá-los. — Considerando que há quinhentos deles em cada navio, para cada uma embarcação que destruirmos, damos um grande golpe em todo o exército cratence. Estão apenas facilitando nosso trabalho. — Concluiu, escondendo o real terror que sentia perante a frota.
Ao perceber como Henrique sorriu a suas palavras, Álex olhou em volta e viu como tinha a atenção de todos para si, aqueles jovens gremistas observando-o com um fixo olhar de admiração, o medo tendo desaparecido um pouco de suas faces. Percebendo isso, Álex remexeu-se um tanto sem jeito com a atenção.
— Como ela consegue voar daquele jeito? Qualquer um já teria desmaiado! — Comentou uma voz indistinta da multidão.
Aproximando-se de seu alvo, a Presidente conjurou então, de repente, uma dezena de pontos cintilantes, ardentes como o próprio sol, cinco à sua esquerda e cinco à sua direita, atirando-as logo em seguida nos navios, cegantes feixes de luz que cruzaram a extensão restante das águas contra as embarcações que começavam a disparar contra ela. Os pontos atravessaram as altas ondas do mar agitado e nuvens d'água levantadas pelos disparos de canhão deixando apenas um rastro de vapor em seu caminho, atingindo em cheio seus alvos. Dez pontos foram disparados. Dez navios foram naufragados.
Os disparos de canhões sequer acertavam a Presidente, as balas sendo desviadas para cima, para baixo e para os lados, algumas acertando, até mesmo, outros navios, como se repelidas por uma força misteriosa, e os pontos cintilantes, disparados com ainda mais velocidade do que a draconiana voava, penetraram o aço e a madeira que compunham as embarcações como se estas fossem feitas de papel, retorcendo-as, quebrando-as, implodindo-as, estilhaçando-as num milhão de pedaços que espalhavam-se pelos ares, flamejantes, pouco das embarcações sobrando para realmente afundar-se nas águas. Mily continuou conjurando as esferas incandescentes e as atirando com força assombrosa, naufragando mais vinte navios, antes dela de fato alcançá-los, quando ergueu-se dezenas de metros acima do mastro mais alto e abriu seus braços como se em boas-vindas, as gotas de chuva e as munições contra ela disparadas tendo seu rumo desviado por uma esfera invisível que cercava Presidente. Por alguns instantes, nada aconteceu, e Álex supôs que a Presidente tivesse feito algum comentário sarcástico aos inimigos, mas então, dos céus, como a própria justiça divina, ensurdecedor, aterrorizante e de força incomparável, os raios caíram. Centenas deles. Milhares.
O horizonte foi clareado sob o rugido daqueles que caíam mortais sobre os inimigos de Milly, e por alguns instantes o dia pareceu voltar a brilhar. A tempestade de raios estendia-se, simplesmente, num raio quilométrico e ao finalmente cessar-se, mil navios jaziam em chamas.
— É... É um Deus?! — Disse uma outra voz indistinta.
— Um raio de conjuração quilométrico... tanta magia em sua reserva mágica... bem, acho que não há diferença entre ela e um deus de verdade. — Retrucou outro alguém anônimo.
— Quanto disso é dela e quanto é da Ruína? — Perguntou Álex, aos sussurros.
— AGORA! — Berrou Henrique, pegando todos desprevenidos. — CONJUREM AS MARIONETES!
Apesar de Milly ter causado grande desordem e destruição dentre as fileiras inimigas, haviam simplesmente muitos deles, e os navios começavam a aproximarem-se ao sul e ao norte, evitando a draconiana, contornando-a, e continuando a rumar ao continente e à capital.
Enquanto os gremistas sob o comando de Henrique conjuravam suas marionetes, incluindo Álex, que conjurou o repressor atroz pela primeira vez sem a ajuda da Ruína, percebendo então o quanto era exaustante, o quanto aquela marionete exigia dele, percebendo que conseguiria mante-lo por apenas pouco mais que duas horas, Henrique também mostrou-se digno de sua posição no Grêmio, conjurando um gigantesco kraken, um musculoso polvo com trinta metros das pontas dos tentáculos à cabeça, com quatro pares de olhos e um bico muito afiado.
Com suas quatro poderosas asas, o repressor atroz logo alcançou o primeiro alvo, uma enorme belonave cratence, Álex então ficando ainda mais assombrado com Milly por conseguir afundar aquelas monstruosidades com tamanha facilidade quando ele finalmente percebeu o tamanho e engenhosidade que aquelas embarcações carregavam.
O fantasma guiou sua marionete ao convés do navio, onde instantaneamente foi recebido por uma salva de balas, disparos de todos os tipos de armas de fogo, arco e flechas e bestas. Enquanto a maioria dos disparos simplesmente atravessavam a fumaça que cobria o esqueleto da marionete, Álex, brandiu sua foice num golpe amplo, que separou uma dezena de corpos em dois de uma vez só. Dando continuidade ao seu golpe, com um outro movimento amplo, outra dezena de soldados tombaram, os ataques contra o repressor atroz, porém, não cessaram-se. Álex percebeu então que não passaria de perda de tempo continuar a ceifar as vidas dos poucos cratences ao convés, compreendendo que deveria focar-se em afundar o navio e assim decidindo-se a fazer. Porém, tarde demais.
Haviam também magos juntos aos soldados inimigos, e rapidamente uma centena de marionetes surgiram ao redor do repressor atroz, cercando-o. O fantasma incitou sua marionete para cima, fugindo da maioria dos golpes inimigos enquanto voando. Algumas das marionetes inimigas, porém, conseguiram acompanha-lo, seguí-lo em pleno ar, onde ele teve de combatê-las mesmo vendo-se em desvantagem.
Uma águia gigante desceu sobre o repressor atroz com as garras afiadas voltadas às faces coroadas da marionete, quando Álex conseguiu fazer desviar-se ao mesmo tempo que jogou a lâmina de sua foice contra o inimigo, partindo-o em dois, e este logo explodindo em muitas partículas azuladas de magia, de repente, então outras águias, como parecia ser o padrão de marionete voadora daquele exército, cercaram o repressor atroz, mais e mais surgindo a cada instante.
— Destruir as marionetes inimigas também é inútil! — Comentou o fantasma, frustrado, suando frio ao observar a rápida aproximação das embarcações ao Grêmio, já começando a contorná-lo. — Devo afundar o navio. Afundar o navio... — Resmungava Álex, enquanto ao mesmo tempo controlava sua marionete, destruindo os inimigos, esquivando-se de investidas ferozes e contra-atacando de forma tão feroz quanto. — Atacar o casco? Não, eu não conseguiria perfurar o aço e a madeira com a foice... E se eu destruir os mastros, assim fazendo as embarcações pararem? Não, os motores a vapor continuariam a impulsionar as belonaves... Os motores!
Descendo de repente ao convés, ignorando as águias gigantes que perseguiam-no, Álex jogou o repressor atroz contra a madeira, atravessando-a e mais dois pisos sob este, esmagando uma série de cratences sob o corpo metálico de sua marionete, dando continuidade à sua busca controlando o repressor atroz escadas abaixo, também ignorando os soldados inimigos confusos, que disparavam ou atacavam-no com suas lâminas ensandecidos ou simplesmente fugiam, causando mais danos aos seus próprios companheiros do que realmente à marionete.
A bola de fogo que Álex fez com que se tornasse o navio, quando ele enfim encontrou-se com as caldeiras, com o gigante motor e as enormes pilhas de carvão que impulsionavam aquela embarcação, que implodiu e incendiou-se, rapidamente sendo engolido pelo mar profundo, fez com que valesse a pena a perda da marionete na explosão.
— Próximo! — Disse Álex, re-conjurando o repressor atroz e incitando-o agora já com um objetivo claro em mente, ao próximo alvo.
— Muito bem, Álex. — Comentou Henrique, observando a estratégia do fantasma, repassando-a aos demais marionetistas: — OS MOTORES! ESTÃO CHEIOS DE CARVÃO, ARDENTES E COM MUITA PRESSÃO DE VAPOR! ATAQUEM OS MOTORES!
As próximas duas belonaves foram tomadas pelas chamas, as labaredas erguendo-se altas, tão belamente quanto a primeira que Álex afundou, embora o fantasma tivesse conseguido naufragar apenas metade do que seu professor Henrique conseguira com a força bruta do kraken, quando os canhões e balistas começaram a ser disparados de ambos os lados, das muralhas e dos navios, logo uma nuvem de projéteis tomando conta dos céus, cruzando toda a imensidão dos ares que separavam os atiradores dos alvos, sibilante.
— RECUAR! — Berrou o velho sátiro em ordem, ao mesmo tempo que um terço do porto do Grêmio desaparecia de repente, deixando apenas uma alta nuvem de destroços e água que erguia-se metros ao ar para trás perante as bolas de canhão. — RECUAR! AO INTERIOR DAS MURALHAS! RECUAR!
Os navios inimigos ainda eram muitos e começavam a circundar a ilha do Grêmio, seguindo a capital, quando os marionetistas recuaram ao interior das muralhas. O caos era repleto, nuvens de lama levantavam-se por todos os lados conforme os disparos de canhão caíam ao longo do campus, a muralha e os muitos prédios e construções da ilha eram reduzidos a escombros, cadáveres começavam a cair, imóveis, por todos os lados, espetados por flechas e setas, com membros ausentes, com queimaduras por todo o corpo enquanto os gremistas esqueciam-se tudo o que haviam aprendido nos últimos dias sob tutela dos assoladores. Viam-se muitos sendo arrastados, agonizantes, ao Palácio Magno, ao centro da ilha, para longe do alcance dos canhões inimigos. Nuvens coloridas começavam a se erguer e misturarem-se no ar, carregadas pelos fortes ventos da tempestade, misturando-se umas com as outras, no que poderia se tornar um sério problema se não fosse pelo fato de que todas carregavam as mesmas mensagens de desespero de derrota, de "soldado ferido" ou "fracasso na missão" ou "necessário reforço". A ordem de recuar fora dada quando, com um estrondoso ruído, A Ponte fora derrubada pelos inimigos.
Pessoas clamavam por MiIly aos prantos enquanto seguiam aos tropeços ao centro da ilha, acatando a ordem de retroceder, gremistas ainda mais jovens que Miranda, pouco mais que crianças, gritavam histéricos, enquanto simplesmente permaneciam estáticos, sem conseguirem mover um membro sequer, paralisados pelo pânico. Alguns, como em cenas macabras que nunca eram narradas nas histórias épicas das quais Álex costumava ler, seguravam suas entranhas e membros sem sequer compreender o que havia acontecido consigo ao fundo de crateras abertas por disparos canhões, observando suas próprias pernas esmagadas e trituradas ou seguindo, impassíveis de expressão, ao Palácio Magno enquanto seguravam o próprio braço decepado. Num segundo, o número esmagadoramente superior dos inimigos, apesar de todo dano causado à sua frota, virou o jogo, cercando toda a ilha e substituindo as grossas gotas d'água que nela caíam por bolas de canhão e setas de balistas.
— Eles estão passando o Grêmio! — Comentou Álex, enquanto corrento em direção ao Palácio Magno enquanto emprestava seu ombro a um companheiro ferido, pasmo, sabendo que, se tantos desembarcasse, como o comentado pela harpia, seria o fim de Nova Crasiria.
Quando uma fumaça de cor rosa ergueu-se sobre as demais, muito mais alta e intensa mesmo sob a tempestade. O fantasma, assim como a maior parte dos gremistas não havia ouvido uma palavra sequer daquela cor. Não faziam ideia do que aquilo significava.
E o bloco de gelo sobrevoou a ilha, jogando sua colossal sombra sobre a mesma, sendo tão grande que, independentemente para que lado se olhasse, só se via água congelada, um enorme cristal azulado, sobre a própria cabeça, e as gotas de chuva que sobre ele caíram, solidificaram-se em pingentes de gelo antes mesmo de tocarem sua superfície. Ao sul do Grêmio, o bloco de gelo caiu, a terra tremendo em resposta, levantando também uma cortina de água tão colossal quanto si próprio, apenas metade desta água voltando ao mar, o resto congelado ainda no ar. Um segundo bloco de gelo foi arremessado logo em seguida, caindo ao norte do Grêmio.
Milly desceu em frente ao palácio no centro da ilha, sua armadura desfazendo-se no azul que era a magia quando tipicamente dispersa, sob o aço suas veias tão saltadas que mais pareciam as raízes de uma árvore, pulsando em intervalos regulares como vermes sanguessugas, seus olhos completamente vermelhos, tomados pelos vasos sanguíneos, enquanto sangue escorria de seu nariz e a Presidente ofegava intensamente. Suas pernas tremiam e Álex sabia que ela sequer conseguia manter-se em pé, prestes a desmaiar a qualquer momento e quem sabe, até mesmo morrer, a draconiana sendo arrastada ao interior do palácio por um grupo de professores logo em seguida.
— Todos, entrem no palácio! — Ordenou um assolador ali perto. — Protejam-no com suas vidas!
— Ela congelou o mar. — Comentou Álex, observando pela visão de sua marionete, que voava metros acima, o fantasma numa varanda de uma das torres do palácio. — Ela congelou o mar e os navios que nele estavam antes que os cratences chegassem a águas rasas. — Seguindo os passos dos soldados inimigos sobre o gelo, continuou: — Entendo, eles não podem seguir à capital e desembarcar... enquanto Milly estiver viva. Tem tantos vindo para cá. Quantos serão, hein? Vinte mil? Cinquenta mil? Parece que a maioria dos navios deles ainda está em alto mar, muito longe daqui, parados. Esperando o gelo derreter ou decidindo-se se vão contorná-lo? — Os inimigos desciam de seus navios e cruzavam o gelo, seguindo a ilha e invadindo-a, passando por sobre os trechos destruídos da muralha aproximando-se do palácio de todas as direções, incontáveis cratences: — É mesmo... Se eu sobreviver a isto, vou tentar fundar uma filial do Grêmio no meu vilarejo, como eu sempre sonhei. Um mini Grêmio. Para entrar aqui sem ser um Talentoso, afinal, tem de ter notas quase perfeitas, muitos são rejeitados, estes poderiam ser enviados para meu mini Grêmio. Sim, eu seria o diretor e Miranda minha assistente e nós dois cuidaríamos de tudo. Teríamos nossos filhos, um monte deles, e nós os ensinaríamos tudo o que sabemos, e eles seriam grandes. Até que um dia nos aposentaríamos e nos mudaríamos para um cantinho quieto, nossa casinha, onde passaríamos o resto de nossos dias. — Suspirando, baixando o repressor atroz ao chão, preparando-se para combater a enorme horda de inimigos já bastante próxima, Álex concluiu: — Sim, isso seria legal. Chega de aventuras.
Eles não haviam trazido canhões nem atacaram o palácio com grandes feitiços destrutivos, mas Álex supôs que isso tinha a ver com o objetivo deles, que eles queriam conservar o máximo do Grêmio de alguma forma, apesar de terem reduzido o observatório, o Bazar a biblioteca e vários outros prédios a, praticamente, nada. Na verdade, os cratenses pensavam que era no Palácio Magno que estava concentrado todo o valor do Grêmio, suas máquinas, resultados de pesquisas e muito mais. Não enganavam-se completamente, mas desconsideravam a importância dos demais edifícios da ilha, tendo destruído muito do que buscavam sem sequer perceber.
Quando os inimigos colocaram o palácio ao alcance de suas armas de fogo, entraram também ao alcance daqueles protegidos atrás das paredes do prédio, e iniciou-se uma grande troca de tiros, disparos sendo efetuados incessantemente de ambos os lados, o barulho, o estalido do queimar da pólvora de um milhão de revólveres e rifles sendo disparados ao mesmo tempo, além do ruído da corda retesada de arco e flechas de bestas sendo solta, misturando-se numa horrível cacofonia de morte, corpos caindo sem vida dentro e fora do palácio em resposta. Não haviam alados dentre os combatentes do povo ocidental, todos estes tendo seguido direto a Dentre-Flume, sem esperar pelo desembarque dos companheiros, na capital já acontecendo também uma grande batalha, travada em cada esquina e rua, sobre os telhados, no porto e nas praias.
Apesar da massa de carne aparentemente infinita que cercava o palácio, os cratences não queriam destruí-lo, e logo isso voltou-se contra eles, os magos de Nova Crasiria não tendo piedade em suas conjurações, causando o maior dano que conseguiam àqueles invasores inimigos, cratences, levantando enormes paredes de chamas, manipulando marionetes, atirando projéteis conjurados, causando destruição de todas as formas possíveis, os gremistas encurralados colocando, ensandecidos, todo o conhecimento destrutivo que possuíam em prática, muitos deles simplesmente ignorando o esgotamento de sua reserva mágica, não parando até que suas consciências deixassem seus corpos, desmaiados ou mortos.
Então não era hora de conter-se, o fantasma sabia, e a visão de tantos, Álex conjurou outros quatro repressores atrozes, mesmo que soubesse que não conseguiria mantê-los por muito mais de dez minutos. A batalha no porto exigira três marionetes e o fantasma levou quinze minutos para naufragar cada belonave, tendo lá gastado muito de sua reserva mágica, mas isso não importava, não naquela situação, afinal, se ele perdesse ali, tudo estaria acabado.
As marionetes de Álex desceram sobre a multidão vermelha de demônios que era o exército cratence e enquanto os golpes inimigos trespassavam a fumaça que compunha parte dos repressores atrozes, ou suas lâminas atingiam o aço do qual era, formados seus ossos, sem causar qualquer dano, suas foices colheram as vidas de dezenas a cada novo movimento. Os golpes amplos separavam inúmeros membros, cortavam tantas outras gargantes e faziam muitos outros paralisarem-se de medo ou fugirem, deixando suas armas para trás, apenas para serem mortos pelos seus superiores, que não permitiam covardia ou deserção.
— Seus superiores... — Comentou o fantasma, sorrindo da varanda enquanto observando o açougue sangrento que tornaram-se os arredores do Grêmio, os cratences forçados a avançarem pelos seus oficiais, apenas para verem-se massacrados pelos magos ao interior do palácio, que continuamente conjuravam feitiços cruéis, tirando incontáveis vidas. — Não vai impedir nossa iminente derrota, mas pode, pelo menos, atrasá-la. — Concluiu, incitando suas marionetes aqueles que possuíam armaduras mais adornadas que as demais ou aqueles que erguiam-se sobre os outros aos berros, gritando (o que o fantasma supunha serem) ordens.
Com a morte dos líderes, dos oficiais daquele exército, certo caos espalhou-se pelas fileiras, já um tanto desorganizadas, dos cratences, que eram pouco mais que grandes aglomerados de carne compacta, os inimigos apavorados pela perspectiva de avançar, então recuando umas boas dezenas de metros, e a batalha perdurando por mais bons longos momentos, os cratences avançando e recuando à medida que as marionetes do fantasma causavam o caos e espalhavam o terror por entre eles, ao mesmo tempo que massacrava-os.
Logo a terra molhada misturara-se com todo o sangue que jorrara por meio dos membros perdidos e feridas abertas, além de todos os tipos de fluidos que vazavam das pessoas assustadas, e o outrora verdejante campus tornara-se uma lama vermelha, grudenta e fedorenta. Mais algumas dezenas de golpes de foices, não, dúzias deles, não, centenas deles, não milhares de semicírculos, de golpes ascendentes e descendentes, de ataques diagonais e transversais e mesmo chutes, socos e mordidas quando as foices das marionetes quebraram-se e perderam as lâminas, quando elas já não possuíam armas catadas dos mortos e o mundo inteiro resumia-se a matar, matar e matar. Álex abriu os olhos, deixando a visão das marionetes de lado, sem sequer perceber que havia compartilhado a consciência com as cinco ao mesmo tempo, finalmente percebendo os sons dos berros e tinires do aço chocando-se com o aço, dos disparos de armas de longo alcance todos os tipos, que subiam todos os degraus da escada até a varanda na qual ele observava o campo de batalha, percebendo então finalmente o quão exausto ele próprio estava.
O fantasma apoiava-se no peitoral da varanda, seus olhos doendo, inchados pelos vasos sanguíneos saltados, sentindo o gosto férreo do próprio sangue, que escorria do nariz à boca e à língua, percebendo o estado assombroso de seu corpo, muitas de suas veias já tendo passado do seu limite e algumas até mesmo tendo se estourado, manchas vermelhas de sangue brotando por sob toda sua pele, seu coração batendo em ritmo, em velocidade quase irreal.
— Eles invadiram o palácio, hein? Espero que Miranda esteja bem. — Comentou, forçando-se a abrir os olhos, observando como a massa, então apenas um pouco menor, de inimigos esforçava-se como nunca para tomar o palácio, ignorando os feitiços e projéteis e flechas e setas disparados contra si, invadindo pelas janelas e depois pela porta principal. — Ah, que merda... eu ainda tinha esperanças de que essa tempestade maldita acabaria e nossos aliados chegariam correndo, gloriosos. — Concluiu, tornando a fechar os olhos.
Os sons continuaram por alguns minutos, cada vez mais próximo, Álex percebendo, apesar de toda a exaustão, que os gremistas recuavam cada vez mais para os andares superiores. Mas a batalha parecia, ao invés de ficar cada vez mais a favor dos soldados inimigos, ao invés dos gremistas sentirem-se cada vez mais desesperados, desesperançosos e desmotivados, ainda mais acirrada, os crasirianos resistindo como nunca, como se aqueles poucos e intensos momentos determinassem qual lado sairia vitorioso.
— Mas acho que é impossível, hein? — Continuou o fantasma, um sorriso melancólico de aceitação curvando-lhe os lábios. — Para que os aliados nos alcançassem tão rápido, afinal, de alguma fora as negociações na fronteira teriam de ser mais que bem-sucedidas...
E, abrindo os olhos de novo, Álex pode ver o porquê de seus companheiros ainda não terem desistido: dezenas de milhares de soldados descendo d'A Ponte, cavalgando por sobre o gelo e aproximando-se do Grêmio correndo, gloriosos. Aliados.
Foi então que o barulho finalmente alcançou a sacada do fantasma, os passos subindo os degraus, dois, três de cada vez, apressados, a última curva, exibindo então o dono daqueles pés nervosos: um homem numa armadura vermelha, arfante, cansado, um orc muito familiar, um que o fantasma vira pela primeira vez sobre uma duna de areia numa praia, numa noite em Horac. Um muito, muito odiado, inimigo.
Álex, porém, estava sem uma gota sequer de magia em sua reserva mágica quando o homem o atacou.
Lembrando-se então de uma das últimas conversas que teve com Miranda, levando a mão boa ao coldre sobre seu manto, sacando seu revólver, torcendo para que um milagre acontecesse, e disparando no último instante, quando a lâmina do machado do cratence já descia sobre si, o projétil atingindo em cheio o olho direito do cratence, onde não havia a proteção da armadura, a cabeça do orc então explodindo em vermelho, sangue e miolos escorrendo do elmo enquanto seu corpo sem vida caía ao chão.
Na via das dúvidas, hein? — Comentou o fantasma, antes de ceder, perdendo o resto da força que ainda restava-lhe, sem conseguir mais manter a própria consciência por sequer tempo o suficiente para ver os donos dos próximos passos que subiam os degraus.
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