Guerra A Ruína - Capítulo: 61

Capítulo: 61

Octávio.


O Censura era a fortaleza mais assustadora e inexpugnável que Octávio já havia visto, uma barreira impenetrável construída há cerca de mil anos para deter o avanço, a expansão territorial de Darco. "Se não fosse por uma traição, uma rebelião levantada por humanos gananciosos no interior do forte, pessoas cegas pelas promessas de poder do reino vizinho, talvez o forte nunca tivesse caído", pensou o vampiro, admirando a construção.

O forte crescendo por dentro e através das montanhas, o Censura era um par de longos corredores que estendiam-se no interior das paredes de rocha bruta que ladeavam o estreito, seteiras, pequenos espaços camuflados pelos quais os soldados do forte lançavam estocadas de lanças, e janelas das quais eram despejado piche e óleo fervente contra invasores pontilhavam todo o caminho através dos portões, estes sendo portas duplas de aço com sessenta centímetros de espessura, havendo quatro destes, cada um disposto em intervalos regulares ao longo do caminho, eles servindo tanto para barrar o avanço das forças inimigas quanto para dividi-las em grupos menores para facilitar sua aniquilação.

— Não me surpreende que os soldados tenham preferido escalar as montanhas para atravessar para o outro lado, para cruzar a fronteira. — Comentou Cézar, observando as armadilhas que cercavam-no e ao resto do grupo.

Dirigindo-se para o espaço mais amplo do estreito e ponte exato ao centro da fronteira, onde reuniriam-se com o rei de Namória sob o corpo petrificado do Golem, os três Senadores, mais assistentes e subordinados, cavalgavam escoltados ao centro de uma fileira, um esquadrão de quinhentos homens, composto por infantaria, cavaleiros, atiradores e assoladores, todos soldados de elite e homens experientes cujo equipamento era de primeira mão, o melhor para a proteção dos líderes e representantes do país. O número deles, a escolta, havia sido decidido, é claro, durante os acordos realizados entre os dois países para a reunião que aproximava-se, as palavras sendo trocadas durante dias por mensageiros de ambos os lados que encontravam-se no centro do estreito, sob o golem. Porém, aqueles não eram os únicos soldados ali, na entrada oeste para o Estreito de Gutrok, onde fora erguido um acampamento (não dos Senadores, porém, estes tendo passado suas noites nos melhores quartos do forte, é claro), estavam posicionados milhares de homens prontos para o pior dos casos e, Octávio sabia, não deveria ser diferente da entra leste, sem dúvidas havendo também um pequeno exército lá, à espera.

— Não é só que tenham "preferido". É simplesmente impossível passar, cruzar o estreito para ambos os lados, enquanto o Forte das Correntes e o Censura estiverem sob controle inimigo. — Retrucou Octávio. — Por isso tanto os namorianos quanto nós estávamos reunindo forças em território inimigo, para tentar um ataque contra estas fortalezas do lado que elas são mais vulneráveis.

— Eu já o considerava um excelente político, mas vejo que você também é um excelente estrategista, meu bom senhor!  Disse o golbin, sorrindo ao amigo. Octávio percebia, porém, embora Cézar esforçasse-se para esconder, a dor que o amigo ainda sentia pela perda do filho. — Não é uma surpresa que o controle do exército esteja nas mãos dos Senadores, afinal!

— Nossa autoridade sobre o exército é limitada a ordená-los destruir, conquistar ou defender algo. — Tornou a retrucar o vampiro, optando por ignorar, por fingir não perceber a tristeza do goblin.

— O que você quer dizer?  Perguntou então Cézar, verdadeiramente confuso.

— Ele quis dizer que não somos nós que montamos as estratégias ou manipulamos o curso das batalhas e guerras. — Respondeu Bértil, esclarecendo as palavras de seu companheiro, o vampiro. — Nós, os Senadores, somos aqueles que colocamos o país em guerra, mas quem faz todo o resto do trabalho são os próprios militares. Inclusive, é por nós sermos os únicos com a autoridade de iniciar (e acabar) com conflitos armados que não há uma patente militar que coloque um único homem ao controle de todos os soldados do país, a patente mais alta sendo General, atualmente compartilhada por cerca de trinta pessoas, diferente de Namória por exemplo, onde há o Patrono-Comandante-Mor, patente ocupada sempre por uma única pessoa cuja autoridade se estende a todos os soldados de patente inferior.

— Chegamos.  Comentou então Pedro, fazendo seu cavalo parar, tornando-se à Octávio e concluindo: — Então, contamos com você, meu bom senhor.

A presença dos três Senadores ali era de suma importância, uma vez que era preciso que houvesse pelo menos dois deles em concordância para que qualquer coisa fosse de fato decidida e aprovada, mas não seria muito agradável ao rei de Namória ter de revesar sua atenção para três cabeças ao mesmo tempo, e seria ainda pior se os Senadores começassem a discutir uns com os outros, logo em casos como este, como acontecera também durante a reunião d'A Conferência, era eleito dentre os Senadores um representante que seria o único a falar na situação, e, caso viesse a haver algum desacordo dentre os Senadores, este seria discutido somente entre eles e em particular. Como o responsável por tudo aquilo, Bértil e Pedro não tiveram demora em concordar que não era nada mais que justo que Octávio fosse o representante.

— Eu farei meu melhor. — Respondeu Octávio, sério, encarando o companheiro Senador.  Definitivamente obterei esta paz.  Concluiu, esporeando seu cavalo adiante, ao centro do espaço oval que era o centro do estreito.

E, à sombra do golem, o vampiro sentiu medo. Além daquele lugar ter sido escolhido para a negociação por ficar no centro dentre as duas nações, e num espaço relativamente privado da fronteira, fora escolhido também por conta do símbolo da paz que era o corpo sem vida do Golem, a morte da criatura tendo encerrado a guerra do Pandemônio e assim o território da antiga Darco sendo dividido em dois e nascendo então Nova Crasiria. Fosse aquilo um marco do fim de uma guerra ou não, o vampiro teve de esforçar-se, resistir contra todos os seus instintos que gritavam para que ele saísse dali o mais rápido possível.

De joelhos, com as mãos voltadas para cima, com seis metros de altura, o corpo petrificado do demônio, da criatura que instigou a guerra que levou o nome de "Pandemônio" era humanoide, bastante musculoso, com dedos muito longos e pontiagudos nas mãos, três pares de grandes asas emplumadas, então caídas ao chão o par superior quebrado, e de cabeça monstruosa, que exibia uma face encovada, deformada em ira em seus momentos finais e fadada a ficar assim até o fim dos tempos, com três pares de pequenos olhos em órbitas profundas, um buraco irregular onde ficaria seu nariz e dentes pontiagudos e tortos, encimada por um par de longos chifres com mais de dois metros de comprimento. Mais que sua aparência assustadora, Octávio pode perceber a atmosfera pesada, sombria, ao redor do Golem.

"Como, por todos os deuses, conseguiram matar esta coisa?" pensou o vampiro, encarando o Golem. "Eu já duvidei dos feitos de Milly, de sua força, mas vendo isto e sabendo que ela derrotou outros três destes... Esta mulher não pode mesmo ser uma pessoa normal."

— Assustador, não é?  Comentou uma voz rouca, carregada pela idade de um homem que aproximou-se de Octávio montado num chacal-monarca, fazendo com que o cavalo do vampiro quase fosse à loucura, empinando e bufando, ensandecido, até que Octávio conseguisse finalmente domá-lo.

— Sem dúvidas. — Respondeu o vampiro, pensando, irado: "esse idiota, por acaso, não percebe que seu monstro é um problema para minha montaria? Chacais-monarcas, esses bichos foram um problema nessa guerra, e durante o Pandemônio também... Talvez devêssemos adotar alguma outra montaria em Nova-Crasira também, algo mais feroz, útil em combate."

— E pensar que meu pai não apenas ficou cara a cara com o Golem, como também negociou com ele. — Continuou o homem, sorrindo gentilmente enquanto continuava a observar o corpo sem vida da criatura.  Só de ficar perto de sua carcaça vazia, sinto-me aterrorizado, impulsionado a fugir. Me pergunto como meu pai conseguiu não cair de joelhos perante o Golem enquanto em vida.

— Meu bom senhor, Joshua — Disse Octávio, surpreso, então prestando atenção ao jovem que encarava. "Esperava que ele fosse mais velho." — Sinto-me contente que você tenha aceitado participar desta negociação. E, peço perdão, quase não o reconheci, o rei de Namória, afinal, esperava que meu bom senhor tivesse um sotaque mais carregado quando falasse crasiriano, mas vejo que domina perfeitamente bem nossa língua.

— É claro que eu viria, eu não perderia isto por nada, afinal, como qualquer bom líder, anseio pela paz.  Respondeu Joshua, fazendo-se ser ouvido por todos ali,

sorrindo. — E, é claro que você não me reconheceu por causa do meu sotaque. — Disse, seu sorriso alargando-se ainda mais. — Mas, minha família sempre teve facilidade em aprender as coisas.  Desmontando, apoiando-se então numa belíssima e evidentemente também caríssima bengala, continuou, indo à mesa redonda previamente colocada à sombra do Golem:  Então é você que falará desta vez, hein? Quando soube que Bértil havia retomado seu cargo como Senador, jurei que mais uma vez trocaria palavras com você, como durante A Conferência, meu velho.

— Sinto-me honrado. — Respondeu a harpia, Bértil e Pedro acompanhando Octávio a uma distância de poucos passos. — E você também não mudou nada.

— Você deve ter mesmo um grande apreço por parte destes dois, Octávio de Pessos.  Comentou o rei, sentando-se na cadeira na extremidade leste.

Era possível ver os quinhentos soldados namorianos atrás de Joshua, a cerca de cem metros, como também estavam os soldados crasirianos. Dentre eles, inclusive, Octávio avistara um homem, um humano estranhamente manchado de sangue.

"Ainda são sete horas da manhã e esse homem já matou alguém? Por que ele não se lavou? Estão tentando nos intimidar ou sua luta ocorreu ainda no caminho para cá? Bem, acho que não importa, afinal, não devo me preocupar com este provável zé-ninguém. Tenho de me concentrar nesta negociação!"

— E pretendo fazer jus a este apreço, à confiança colocada em mim. — Retrucou Octávio, tornando sua atenção ao rei. "Não posso e nem demonstrarei fraqueza aqui". — Terei certeza de cumprir com as expectativas que tanto meu bom povo quanto os demais Senadores têm quanto a mim.

— É claro que sim. Então, senhor Senador Octávio... Ah, perdão, creio que o correto seria "meu bom senhor", não?

— Por favor, não se preocupe com isso, "senhor rei", Joshua.

— Obrigado. Continuando, creio que, antes de qualquer coisa, para que seja possível prosseguirmos com esta negociação, devemos resolver a questão que, infelizmente, nos jogou uns contra os outros nesta guerra insana: a Ruína.

"Durante A Conferência, como imagino que você bem saiba, sendo um Senador, foram feitas propostas quanto à divisão, distribuição, processamento e mesmo regulamentação deste novo e imprescindível recurso. É claro, na época, naquela reunião de líderes mundiais, a única coisa que conseguimos foi criar este terrível conflito, nenhuma das propostas feitas vindo a ser aceita unanimemente, dividindo-nos em grupos, nos separando e jogando-nos uns contra os outros."

— É claro, e sei muito bem também todos os acontecimentos d'A Conferência, os assuntos discutidos e as propostas feitas nesta. Por isso vim preparado para a negociação. — "Como, tenho certeza, você também, seu... moleque? Velhote?" — É sabido que a Ruína é um recurso findável e, na verdade, existe em pouquíssima quantidade, menos que uma mixaria se comparada com sua demanda mundial, há apenas algumas toneladas dela, logo, deve ser muito bem distribuída entre as nações. — Comentou Octávio, o rei de Namória apenas sorrindo e meneando a cabeça em "sim" até então. — Originalmente, n'A Conferência, fora proposto que Horac minerasse a Ruína e que esta fosse transportada de navio ao longo da costa do Continente de Gal até Nova Crasiria, onde seria processada, estudada e desenvolvida no Grêmio. Os resultados das pesquisas no Grêmio seriam compartilhados com Crat, e o império ocidental ficaria com cinquenta por cento da Ruína, que compartilharia com seus países vizinhos, enquanto Nova Crasiria ficaria com dez, os outros quarenta sendo distribuídos para os demais países. Claro, essa proposta beneficiaria a poucos, o imperador de Crat a fez aproveitando-se do receio que seu grande poderio militar causava nos demais países, tomando para si que eles evitariam ao máximo entrar num conflito armado. Horac, porém, não deixou-se intimidar, revoltado por, mesmo tendo sido o país responsável pela descoberta, ficar com menos de dez por cento do novo recurso, e recusou a oferta iniciando uma longa discussão, posteriormente sendo apoiado por Nova Crasiria, que possuía ressentimentos quanto ao governo de Crat.

— "Possuía"?

— Vemos hoje o resultado de nossa ignorância e desejamos apenas a paz.

Enviamos a Crat também a mensagem de paz.

"Continuando, apesar desta proposta, uma de muitas feitas na mesma reunião de líderes mundiais, claramente desfavorecer muitos países, não é de toda descartável."

— Imagino que para Nova Crasiria não, mas se você olhar pelo ângulo contrário, o atual acordo estabelecido na Aliança Vermelha também não é ruim, veja bem. — Retrucou Joshua.

"Ele percebe minhas intenções e não quer perder a vantagem que Crat lhe dá. Bom".

— É claro, a quantidade da Ruína poderá muito bem vir a ser rediscutida entre as

nações, desta vez de forma mais justa, para todos nós, mas um único país ao norte, responsável pela mineração, teria lucro o suficiente com a venda da Ruína, a quantidade deste recurso destinada então ao país minerador podendo ser menor do que aos demais, enquanto esta seguiria uma rota terrestre pré-determinada que cruze todo o continente para sua distribuição.

— Um único país ao norte, hein? — Comentou o rei, franzindo suas sobrancelhas em compreensão, o sorriso deixando-lhe os lábios. — Como, por exemplo...

— Tyrlundia, talvez. — Disse Octávio, completando a frase do rei enquanto dando de ombros.

— Você disse que já enviou a mensagem de paz a Crat, não é?  Perguntou Joshua.

— Com todos os termos de negociação juntos também, é claro.  Respondeu o vampiro, sorrindo.

"Ele reconhece sua posição. Se Crat aceitar (e provavelmente aceitará), o contrato será refeito e ele perderá sua atual posição vantajosa que goza de uma (futura) grande porcentagem de Ruína, logo, se ele quiser que Namória ainda saia por cima nesta paz, Joshua tem de negociar conosco os termos de paz o mais rápido possível. E é aí que está a grande questão, afinal: se o império negar e ele tiver aceitado, Crat não relutará em tratá-lo como um inimigo."

— Peço perdão, senhor Senador Octávio. — Pediu o rei de Namória, remexendo-se na cadeira. — Creio que o subestimei. É a idade, entende, vem fazendo isso acontecer com mais frequência do que eu esperava ultimamente.  O rei respirou fundo, tornando a olhar para o Golem, pensativo, demorando-se alguns instantes antes de continuar:  Esta é uma decisão difícil, que coloca muito peso sobre os ombros de um velho. — Disse, curvando os ombros num sinal de cansaço. — Mas, embora seja meu dever como rei tomá-la, devo fazê-la sabiamente. Então, por favor, senhor Senador Octávio, diga-me quais são as suas propostas quanto a Ruína e os demais assuntos relacionados a esta guerra.

Praguejando internamente, aquela resposta sendo a última que o vampiro desejava, Octávio pensou: "desgraçado, tentando ganhar tempo, não é? Se esta é sua resposta, é inútil, passaremos o dia inteiro aqui e, no final, ele vai pedir um tempo extra para refletir. Sua verdadeira intenção é interceptar a resposta de Crat antes de nós! E deve ser fácil para ele, como um aliado da nação ocidental descobrir a resposta deles. Se chegou a este ponto, só posso depender da escolta enviada com os mensageiros e da velocidade deles...". Enquanto distraído, imerso nos próprios pensamentos, Octávio sequer percebera a aproximação daqueles passos apressados que vinham de suas costas, seguindo a sua direção.

O vampiro ainda refletia sobre possibilidades e planos, quando Bértil tocou-lhe no ombro, chamando sua atenção, sussurrando uma curta frase em seu ouvido logo em seguida, de forma rápida e direto ao ponto, sem transparecer em sua face qualquer sentimento, como ele e Pedro vinham fazendo desde o início da discussão. Curioso, o rei de Namória perguntou, erguendo uma sobrancelha, apreensivo:

— Boas notícias?

— Realmente, uma excelente notícia, meu bom senhor: acabamos de receber a resposta de Crat.

— Isso é, bastante rapidamente, não?

— Sim, definitivamente. — Respondeu Octávio, de repente levantando-se. — Trinta por cento para Nova Crasiria e o Grêmio, mais vinte por cento distribuído ao longo da rota que virá a ser estabelecida para os países aliados. Estes são os termos, meu bom senhor, Joshua, por favor, tome o tempo que quiser antes de aceitá-los.  Concluiu o vampiro, fazendo uma breve saudação e dando meia volta, parando quando o rei de Namória chamou-lhe a atenção, também levantando-se, agora sério, um tanto pálido:

— Senhor Senador Octávio.  Disse ele. Uma vez que o vampiro retribuiu-lhe o olhar, frio, calmo, ambos encararam-se num silêncio tenso, sombrio, que fez com que todos os soldados, das duas nações, suassem frio, apertando com mais força os cabos de suas armas, engolindo em seco, Joshua então finalmente, continuando, voltando a falar:

— Duvido que exista um instituto em toda a Asatna que seja capaz de sequer comparar-se tanto em tecnologia quanto mágica, tanto em teoria quanto em capacidade técnica com o Grêmio, fazendo assim de Nova Crasira a nação mais bem capacitada em trabalhar a Ruína. Contudo, como o senhor Senador Octávio mesmo disse, a Ruína é um recurso finito e existente em pouquíssima quantidade, ainda mais se considerarmos as partes que já foram roubadas com as batalhas travadas no Continente Sem Nome, logo, transportá-la por mar seria muito arriscado. Devemos considerar a presença de piratas, tempestades, monstros marinhos, e muitos outros riscos... Uma rota terrestre, como uma linha ferroviária, não parece-lhe mais atraente?

— Reabrir o túnel Cavado ao norte?  Sugeriu o vampiro, quase desinteressado, referindo-se a uma antiga passagem entre o leste e oeste do sul do Continente de Gal, construída através das Cordilheiras Cinzentas pelos Darcenses a quase um milênio e destruída por Édrik durante o Pandemônio há pouco mais de setenta anos.

— Isto viria a ser muito trabalhoso e caro, até arriscado, uma vez que demorará certa quantidade de tempo para que sejam desenvolvidas formas definitivamente eficazes para se utilizar a Ruína no Grêmio. Por que não, não construí-la por aqui mesmo, através deste estreito? Claro, eu financiarei sua construção não apenas ao longo de todo o meu território, como também o de Nova Crasíria, farei questão de que a estrada de ferro seja construída o mais rápido possível, e que seja, é claro, da melhor qualidade, terei certeza de garantir que ela durará por séculos.

— Mas, "Isto viria a ser muito trabalhoso e caro, até arriscado, uma vez que demorará certa quantidade de tempo para que sejam desenvolvidas formas definitivamente eficazes para se utilizar a Ruína no Grêmio", não é?

— Arriscado, de fato. Um risco que estou disposto a correr, sem pedir nada em troca, caso tudo isso mostre-se em vão e a Ruína não passe de um conto de fadas exagerado, supervalorizado por tolos. Porém, se este novo recurso for realmente o que dizem e o Grêmio conseguir fazer utilizá-lo de forma eficiente, eu pediria que esta tecnologia fosse compartilhada conosco assim que possível.

— ...A tecnologia desenvolvida no Grêmio será compartilhada com Namória com um atraso de dez anos em compensação à linha férrea.

— Cinco anos e mais cinco por cento de Ruína.

— Cinco anos, mais cinco por cento de Ruína... e teremos isenção de taxas pelo transporte do novo recurso.

— Perfeito.  Disse Joshua por fim, suspirando.  Temos um acordo então.

— Sim. Temos a paz.  Retrucou Octávio, sorrindo, então aproximando-se do rei namoriano e estendendo-lhe a mão. Uma vez que o rei respondeu e apertou sua mão (todos os soldados então suspirando de alívio em uníssono), o vampiro concluiu:  Bem-vindo à Aliança Azul, meu bom senhor, Joshua. Agora, se me dá licença, tenho de contra-atacar a frota cratence o mais rápido possível.

Nesse momento, o aperto da mão de Joshua tornou-se mais intenso, quase doloroso, sua expressão facial, a típica máscara impassível que políticos e líderes de todos os tipos costumam tanto usar, Octávio vendo por baixo dela, porém, a ira inflamando-lhe a medida que a compreensão abria-lhe os olhos quanto ao que acontecera ali. Por um momento, foi difícil para vampiro manter o sorriso e a expressão tranquila perante o rei de Namória, que fitava-o intensamente, Joshua, apesar de irado por ver-se ter sido manipulado por Octávio, ainda indeciso entre o ódio e a negação, e a apreciação e aceitação. Uma vez que o rei olhou por sobre os ombros, para sua escolta, ainda apertando a mão do vampiro, Octávio teve certeza de que ele chamaria seus soldados à batalha, porém, curiosamente, pôs-se a rir altas gargalhadas, após pousar os olhos sobre o humano ensanguentado, finalmente concordando:

— É claro. Que o futuro nos seja próspero, que os Deuses e Santas nos abençoem e que esta paz perdure por todas as gerações ainda por vir!

"Apesar de tudo, o termo que ele conseguiu no final foi bastante bom (foi difícil manter o controle sobre a negociação de forma que, ao final de tudo, ele não lucrasse muito pouco, assim ele ficando insatisfeito demais para honrar o acordo quando descobrisse a verdade, e não deixar ele aumentar demais seu lucro, ou se não ele desconfiaria de meu blefe)", concluiu o vampiro, imerso em seus pensamentos, já muitas horas depois da negociação.

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