Capítulo: 60
Azai.
A cada passo, a medida que andava, seus pés esmagavam as folhas e galhos em seu caminho, o som ecoando por sobre a paisagem erma e silênciosa que o cercava enquanto Azai seguia a trilha, respondendo-a a convocação que lhe chegara a poucos minutos. Azai não vinha dormindo direito nos últimos dias, e grandes bolsas arroxeadas pesavam sob seus olhos, seu corpo cansado, exausto, segundo Jéssica, pelo uso constante, e já aproximando-se do perigosamente sério, daquilo que Azai chamava apenas por "percepção", do feitiço que desenvolvera inconscientemente após anos de serviço militar, sua Passiva. Mas ele não tinha outra escolha. Já fazia tempos que ele vinha sentindo-os o observando, aproximando-se e recuando de repente, ansiando, esperando por uma chance de pega-lo desprevenido, sozinho.
— Venham, agora é o momento de vocês, desgraçados. — Sussurrou Azai, concentrando-se em seus ecoantes passos, o triturar das folhas sendo esmagadas, o estalido de galhos partindo... e os ecos que so acompanhavam.
Era quase imperceptível, mas Azai não simplesmente ouvia com seus ouvidos, conseguindo identificar os passos de seus perseguidores que mantinham-se a apenas alguns poucos metros de distância, movendo-se quase ao mesmo tempo que ele, camuflando assim seus próprios passos. Ele podia contar dois inimigos, mas sabia que havia mais um, aguardando-o em algum lugar à frente na trilha, os três tendo alguma armadilha já pronta, à espera de sua presa.
Aqueles assassinos eram experientes, profissionais em seu ramo, sem dúvida, diferente dos últimos. Da primeira vez, foi uma tosca tentativa de apunhalar Azai enquanto dormindo. Azai conseguira facilmente defender-se e capturar o assassino, ao interrogá-lo descobrindo que o homem não passava de um simplório qualquer, desesperado o suficiente para matar pelo dinheiro oferecido por um estranho. Isso, porém, serviu para deixar Azai em alerta, o que o salvou da segunda tentativa de assassinato quatro dias depois: envenenamento, quando pôde sentir o cheiro do veneno em sua janta. Conseguira encontrar o responsável pelo envenenamento, um homem que havia matado um soldado e se passado por um membro da tropa de Azai, conseguindo chegar até sua tigela de comida. O assassino desta vez também não se mostrou um bom lutador e acabou morto durante o duelo contra o Maioral-Comandante (Azai tendo sido promovido mais uma vez ao tomar Meia-Ponte). Em ambos os casos, Azai tomara providências para que tudo permanecesse em sigilo, evitando espalhar medo e discórdia, maus boatos, logo agora que as coisas desenvolviam-se daquela boa maneira, logo agora que tudo estava tão próximo do fim, da paz. Sim, e era exatamente por estar perto do fim, que Azai sabia que aquela seria também a última tentativa de assassinato, a última chance para, quem quer que estivesse por trás dos assassinos, intervisse contra a paz, o fim daquela guerra. Ele precisava apenas chegar até o fim daquela trilha vivo.
Desde que fora presenteado com Camponesa, Azai não carregava um escudo, assim sendo forçado a desviar-se, impulsionado por todos os seus sentidos que alertaram-no da proximidade do inimigo, do disparo do projétil, contorcendo-se, jogando-se para o lado, quando o dardo fora disparado da vala à direita.
— Você está morto! — Gritou o Maioral-Comandante, desembainhando sua lâmina e saltando à vala.
O assassino, surpreso demais para reagir a tempo, conseguira salvar sua vida por pouco quando Camponesa caiu sobre si, a lâmina do Maioral-Comandante assim chocando-se contra a adaga que o homem usara para desviar o golpe de Azai no último segundo. O forte impacto, somado à má posição tomada forçada e repentinamente pelo assassino, resultara, porém, num pulso quebrado, os ossos entre o antebraço e a mão do assassino atirador tendo sido estilhaçados.
Os companheiros do homem saltaram a vala, cercando então Azai, enquanto aquele que tinha o pulso quebrado fugia aos tropeços, trincando os dentes ao segurar o grito de dor. As espadas curtas que os assassinos empunhavam, porém, faziam com que eles tivessem de aproximarem-se demais de Azai para o ataque, assim um deles aprendendo a lição de que o Maioral-Comandante não chegara a tão alta patente militar à toa quando vira-se desarmado num rápido contra-golpe de Azai. Dando continuidade ao movimento, o Maioral-Comandante baixara rapidamente sua lâmina num golpe descendente vertical que fendera a cabeça do oponente ao meio.
O último assassino capaz de lutar então desistiu do combate a curta distância e de qualquer vestígio de discrição que aquele embate ainda possuía e sacou seu revólver, disparado três vezes contra Azai, os sons da munição impulsionada pelo queimar da pólvora ecoando como trovões por sobre a quieta trilha acima, naquele trecho ladeada por um pequeno matagal. E o assassino viu os três furos que deixou no cadáver do colega que Azai usara como escudo. O assassino que atirou não tivera a sorte de ter um escudo à mão contra os disparos de seu oponente.
— Quem enviou vocês?! — Perguntou Azai então segurando o terceiro homem, aquele que ele quebrara o pulso, pela gola de sua roupa. A única resposta que o Maioral-Comandante conseguira, porém, foram as convulsões e balbucios de um homem que tomara veneno em suicídio quando percebeu que ele e seus companheiros haviam sido completamente massacrados, derrotados. — Talvez eu nunca venha a descobrir, hein? Ou talvez não. Agora, não devo deixa-lo esperando, aquele que convocou-me, ele é a maior autoridade deste reino, afinal... o rei.
Aquela era a maior carruagem que Azai já havia visto em toda sua vida. Do tamanho de uma casa média, parecendo ao mesmo tempo um pequeno castelo e uma fortaleza sobre rodas, com quatro guaritas, cada uma em uma extremidade da carruagem, ocupadas por par de atiradores experientes em ornamentadas armaduras brancas completas de aço que empunhavam armas da mais alta qualidade, rifles do maior alcance com poderosas lunetas embutidas a carruagem do rei era puxada por vinte e quatro chacais-monarca de pelagem completamente branca, o veículo tendo três andares, branco e repleto de adornos, possuindo banheiro, cozinha, quarto e sala de estar.
Uma vez que Azai estava relutante em pisar no brilhante degrau da carruagem, sabendo que sua bota estava enlameada, que suas roupas estavam respingadas de sangue e encharcadas de suor, que ele próprio estava fedorento pelos muitos dias que passara sem tomar banho (a convocação tendo sido extremamente repentina), enquanto ele ficava ali, fitando nervoso a porta aberta do veículo, o empregado insistiu, indicando o caminho para dentro:
— Senhor Maioral-Comandante Azai, por favor.
Assentindo com a cabeça em "sim", Azai, por fim, subiu os degraus da carruagem e cruzou a soleira da porta, quando os chacais-monarca começaram a moverem-se, guiados por um chicote rápido, colocando a carruagem em movimento mais uma vez. O empregado guiou-o através da sala de estar até uma escada em espiral, passando pela cozinha e sala de jantar, Azai suando frio por cruzar todo o interior do veículo em seu uniforme militar puído e remendado e com suas botas sujas, espalhando poeira no piso limpo e poluindo o ar bem aromatizado com o cheiro de suor, sangue e bebida que o impregnava, até que finalmente chegaram, ao fim dos degraus, a um par de grandes portas ricamente ornamentadas e guardadas por dois soldados como aqueles nas guaritas. Pedindo para que o Maioral-Comandante esperasse ali, o empregado bateu a porta e adentrou ao quarto, de onde voltou instantes depois, trazendo então a permissão para que Azai entrasse no cômodo e a mensagem de que o rei aguardava-o ansioso.
O quarto era tão ricamente mobiliado e limpo quanto todo o resto da colossal carruagem, bem decorado e amplo, mas não foi isso o que mais chamou a atenção do Maioral-Comandante. A família real, os Brilhantis, era composta por, supostamente, humanos, ainda que, mesmo após gerações de casamentos interespécies os descendentes estranhamente não apenas continuassem humanos, como também herdavam as características típicas da realeza, o que, apesar de ser tratado publicamente como um símbolo da fortitude da família real, de sua dignidade e grandeza, um sangue mais forte que qualquer um, gerava uma certa quantidade de boatos sobre suas origens místicas ou mesmo divinas. Encarando o próprio rei, Joshua Brilhantis III, Azai quase pode acreditar nestes boatos.
Seus cabelos eram curtos e bem penteados e sua barba, rente, seus olhos azuis claros, tão pálidos que pareciam transparentes, e apesar de cada um dos fios de cabelo de seu corpo ser branco, quase brilhantes, parecendo fagulhar claro, como estrelas durante a noite no deserto a cada movimento, Joshua não tinha uma ruga, uma linha de expressão sequer que deformasse-lhe a face, na testa ou na área ao redor dos olhos, sem um único sinal que indicasse sua idade real e velhice. O que não seria estranho, não faria com que Azai estancasse pasmo, se o homem não estivesse reinando há incríveis quarenta e oito anos, quase cinco décadas no trono, tendo vivido mais de setenta anos.
— Parece que você se divertiu no caminho, não é? — Comentou Joshua, sem qualquer sinal de surpresa ou inquietação ao sangue que manchava as roupas de Azai. — De qualquer forma, não fique aí parado, sente-se. — Disse o rei, indicando com um gesto a cadeira à frente de sua mesa. Apesar da aparência juvenil, que não transparecia-lhe mais idade do que um inexperiente rapaz de vinte e tantos anos, a voz do rei produzia o típico som rouco e arrastado dos idosos. Uma vez que Azai fez como o indicado pelo Rei, Joshua continuou: — Surpreso? Esperava um velho de barba comprida e encolhido pela idade? O que foi, por acaso nunca ouviu falar das incríveis habilidades divinas dos Brilhantis, que nos concede imortalidade, onisciência e tantos outros poderes assombrosos? — Perguntou o rei, sorrindo às próprias questões levantadas, antes de voltar a falar: — Bem, não o culpo pela surpresa. A verdade é que mesmo nós, da realeza, não sabemos o porquê de nossos corpos pararem de envelhecer em certa idade. Nós alcançamos a maturidade muito rapidamente também, fiquei com esta aparência quando tinha apenas quatorze anos. O máximo que os estudiosos puderam supor, as explicações a nós dada, foram: ou todos nós possuímos um instinto único que conjura automaticamente um feitiço ainda desconhecido quando alcançamos determinada idade, ou somos alguma outra coisa que não humanos. Oras, perdão, sei que não foi para discutir curiosidades de família que lhe chamei aqui hoje, senhor Maioral-Comandante Azai, mas a alta posição faz com que as pessoas evitem uma conversa com você, enquanto a idade apenas intensifica a vontade de trocar palavras com os outros. Enfim, você sabe por que eu o chamei?
— Não, senhor rei. — Respondeu Azai, sentindo o suor brotar de sua pele, ansioso, ouvindo cada batida do coração, ainda mais nervoso do que quando encontrara-se com Patrono-Comandante-Mor Daví.
— Daví tinha mesmo razão sobre você, hein? Um verdadeiro herói. Sim, e é exatamente sobre isso que quero conversar com você, Azai, sobre suas últimas atitudes, a tarefa que lhe foi incumbida e os caprichos incompreensíveis dos Deuses e Santas. Para falar a verdade, eu nem mesmo esperava que você ainda vivesse até este ponto, afinal.
"Tínhamos o salvado e dado-lhe uma nova tarefa com um objetivo bastante simples, o enviamos para o oeste como uma propaganda ao exército, uma figura pública que retomaria as terras da nação e salvaria seu povo (inclusive, é por conta disso que estas ressentes promoções têm lhe chegado tão rápida e facilmente, um pequeno empurrão em sua história a fim de impressionar o povo). E, como o esperado por Daví, você saiu-se muito bem nisso.
"Havíamos o enviado para retomar Meia Ponte, afinal, é uma importante grande cidade de Namória, fonte de incontáveis toneladas de minérios de todos os tipos, e onde há a maior concentração de pessoas em toda aquela região, logo, além de recuperar o orgulho (e bons tostões) namoriano ao retomar a cidade, sua história espalharia-se bastante rapidamente por todos os cantos. Mas ao invés de seguir direto à cidade, Azai, você fez questão de retomar cada vilarejo, cada casebre do interior esquecido pelos Deuses e Santas, e salvar o maior número de pessoas, não, salvar todas as pessoas dos horrores da guerra. E o efeito disso foi excelente, sua história rapidamente, enquanto você libertava vilarejo após vilarejo, propagava-se como o fogo sobre o capim seco e logo você foi ascendido a, então realmente um herói pelo próprio povo, sem sequer nós precisarmos intervir. Um forte guerreiro e líder genial, um salvador... porém com ideais divergentes de seu real propósito."
"Daví viu em você a nobreza necessária para cativar corações, ele previu você trazendo ao povo comum a força, a grandeza e imperiosidade do exército e do reino. Mas o que você lhes entregou, na verdade, o que Daví não pode prever, foi independência, liberdade e autonomia. Aqueles salvos espalharam-se, boatos voaram, ideias foram difundidas e as pessoas passaram a não mais desejaram pela guerra, mas a repudiarem. E, é claro, você já tem total apoio dos membros do alto escalão do exército (até mesmo Daví gostou de você, embora seja um homem realista, inteligente o suficiente para não falar disto em público), e, como um famoso e admirado herói, suas palavras espalharam-se até mesmo em certas camadas dentre os Mestres. Assim, em poucos meses nas linhas de frente, você praticamente acabou com uma campanha, com um preparo de meio ano para a guerra em todo o reino. Mas isso não foi tudo, é claro que não, os Deuses e as Santas não estariam satisfeitos com apenas este nível de problemas. Tinha de ser especificamente naquele momento, especificamente aquela oferta, especificamente você que encontrou-se com o mensageiro crasiriano."
Repentinamente levantando-se, exibindo uma longa bengala de ébano, ouro e marfim na qual apoiava-se, Joshoua então seguiu à janela de seu quarto, comentando:
— Olhe, o Forte das Corretes. Verdadeiramente assombroso! Já estamos quase lá, Azai.
"Então voltemos ao assunto: os Mestres já não nutriam bons sentimentos sobre você, mas com o recente desenvolvimento das coisas, este rancor mesquinho transformou-se no mais puro ódio, o ódio que um homem de negócios sente por aqueles que acabam ou interferem com suas tramas e investimentos. E esta guerra é o investimento deles, Azai. Você já deve ter suposto, mas este é o motivo destas tentativas de assassinato contra você. Eu já sabia das intenções dos Mestres, é claro, "o herói pacifista é morto pelo inimigo, e tudo volta ao normal, a guerra procede e seus negócios também. Não interferi, pois eu só tinha a perder com isso, afinal, no pior dos casos, as coisas voltariam a serem como antes, Namória não seria realmente prejudicada, mas se eu demonstrasse algum favoritismo, então haveriam problemas de verdade, ou eu teria os Mestres contra mim, ou o povo comum e o exército. Mas aqui está você, vivo e bem! No final, eu não estou numa posição tão melhor que os Mestre, afinal..."
Com a carruagem repentinamente parando num solavanco, logo o empregado de antes bateu a porta e entrou, avisando ao rei que haviam chegado, antes de ser dispensado pelo mesmo que concluiu:
— Senhor rei. — Disse Azai, levantando-se, pasmo com tudo aquilo, com o resultado inimaginável das ações que tomara por apenas agir como achava correto. — Se... Se não fosse eu a me encontrar com o mensageiro, e se apenas você ficasse sabendo disto... O que você faria? — Perguntou enfim, engolindo em seco à espera da resposta.
— Eu ordenaria que o mensageiro fosse morto e que qualquer um que ouviu suas palavras também. — Respondeu Joshua, sorrindo. — Bem, infelizmente foi você que o encontrou e não fez questão de manter sua mensagem em segredo, que espalhou-se de boca em boca por todos aqueles que ouviram-no e desejavam também a paz.
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