Guerra A Ruína - Capítulo 6

Capítulo: 6

Azai


Após quase treze horas perseguindo a fera, seguindo seus rastros, todos do grupo atentos a galhos torcidos, pedras viradas e pegadas na terra, finalmente a caçada chegava próxima de seu fim. Azai examinava então a marca na forma de um grande casco fendido deixada na terra fofa e umedecida da floresta. Não haviam dúvidas: o animal estivera ali há pouco tempo.

Por conta de reclamações dos locais para com o quartel quanto a plantações destruídas e cães mortos, uma caçada ao animal encrenqueiro, que vinha causando tamanha confusão, fora organizada, e, vendo nisto uma possibilidade de animar seus homens, Azai ofereceu-se à expedição, sendo assim encarregado da tarefa, liderando o pequeno grupo que montara.

O Maioral-Mor trazia consigo cinco de seus homens, quatro senhores-de-armas (soldados duas patentes inferiores a Azai), Yago, Benjamim, Tiago e seu irmão, Caleb, mais seu Maioral, Tadeo, todos armados com lanças, rifles e escudos, além de facões, facas e revólveres, e equipados de armaduras leves, uma proteção composta por várias camadas de couro, algodão e uma cota de malha, visando a movimentação mais rápida e silenciosa o possível.

Mesmo assim, depois de tanto tempo de caminhada, os soldados mostravam-se impacientes, desejando acabar de uma vez com tudo. Azai sentia-se da mesma forma, mas, conhecendo muito bem os riscos daquela impaciência, resolveu ressaltar a seus subordinados, despertando-os para os riscos que corriam. Chamando todos para perto de si, disse:

 Estamos todos quase lá. O animal não deve estar muito mais distante de nós, em uns dez ou vinte minutos de busca, logo devemos encontrá-lo. Então, prestem atenção: ficou claro que, com as plantações devoradas, a forma com que os cães foram mortos, a altura que os galhos foram quebrados e com a forma das pegadas (que por sinal, vimos, não eram nem um pouco pequenas), estamos atrás de um entelodonte, e dos grandes. Quero que levem isto a sério, porque se não o fizerem, poderão se ferir muito seriamente, ou até mesmo morrer.

"As presas do animal chegam a ter mais de um metro e são afiadíssimas, em alguns lugares do Pequeno Continente até mesmo são feitas espadas e lanças dela, são mais do que o suficiente para rasgar até mesmo uma boa armadura completa de aço como papel, que dirá estes trapos que estamos usando, além de suas patas, que, combinadas com o peso do animal, funcionam como um poderoso martelo de guerra. Mas isto não é tudo, afinal, seus pelos são grossos e oleosos e sua pele muito gordurosa, o que faz com que, a menos que nossos ataques sejam muito poderosos, o animal quase não sentirá dor, muito menos sofrerá qualquer dano sério. Sigam minhas ordens e fiquem atentos. Estamos próximos do fim, mas a parte difícil vem agora."

Uma vez com todos mais dedicados, Azai voltou a busca, separando seus homens numa grande rede, um ao lado do outro com o espaço de aproximadamente seis metros entre cada um. Varriam cada centímetro da região com seus olhos, já de armas empunho, praticamente sem respirar, ansiosos, atentos ao menor dos sons. Mas foi Azai, o mais velho e mais experiente soldado dali que captou um leve ruído ao norte, por trás de uma baixa colina coberta de folhas mortas, um som parecido com o soprar de um fole.

Parte ansioso, como sempre ficava antes de uma batalha, parte contente, por poder, talvez, trazer algum ânimo aos seus homens agora que os tempos mostravam-se tão sombrios, Azai, com um assovio, imitando um pássaro da região, e um gesto com a mão, fez os outros parassem de avançar e se aproximassem lentamente. Avisou aos seus soldados sobre o barulho e a provável presença do animal e indicou Benjamim, um sátiro de aparência simplória que exibia um largo sorriso na face e um olhar despreocupado na maior parte do tempo, um veterano que Azai sabia ser o mais furtivo dentre todos o grupo, a verificar a origem do som.

Assentindo lentamente com a cabeça, Benjamim pôs-se a cumprir a ordem, deixando ali o rifle e a lança e, com passos rápidos, confiantes e suaves, que quase não combinavam com sua personagem desleixada, começou a subir a colina. Em poucos instantes, o homem já voltava, o sorriso então ausente como costumava ficar quando prestes a lutar, descendo a colina tão rápido quanto subira, porém agora parecendo tomar mais cuidado. Aproximando-se do grupo, confirmou:

— Está lá, deitado, porém acordado. Deve ter pelo menos uns três metros de altura e uns quatro ou cinco de comprimento. Seu corpo está cheio de cicatrizes mas não aparente ter nenhum ferimento sério. Acredito que é um macho-alfa e muito experiente em batalhas, tanto contra outros de sua espécie quanto nós, pessoas.

Uma vez que confirmada a posição do entelodonte, Azai, sem perder mais tempo, organizou seus homens, indicando-lhes suas posições e rapidamente montando um plano de ataque, dizendo com quais armas prosseguir e como agir.

Percebendo Benjamim tomar um generoso gole do líquido suspeito de seu cantil, o Maioral-Mor confirmava a posição de seus subordinados, passando os olhos por sobre eles ao seu redor e ao longo da colina que cercava a fera, o entelodonte tendo deitado-se numa depressão cercada pelo monte de terra, próximo a uma pilha de vegetais meio devorados e uma poça de água suja, quando, já sob os últimos raios de sol, o animal começava a ficar sonolento. O uso de drogas, de qualquer entorpecente na verdade, era proibido no exército namoriano a menos que como anestésico para ferimentos ou caso o soldado em questão fosse de patente igual ou superior a Maioral-Mor, quando recebia o direito de consumir álcool, mas, como um dos principais fatores da popularidade de Azai, o Maioral-Mor preferia fazer vista grossa aos seus subordinados quanto a esta regra, sabendo muito bem o quão difícil era se manter calmo enquanto a batalha se aproximava. E ao fim dela também, quando seu corpo estava coberto dos pés à cabeça pelo sangue de seus inimigos, seus companheiros mortos e a terra ao seu redor assolada, queimada e destruída.

Logo, em poucos minutos, Azai tendo confirmando a prontidão dos outros e a sua própria, verificando por uma última vez seu rifle, tudo estava pronto e a luta prestes a começar. Do topo de uma das colinas, ao lado esquerdo do entelodonte, O Maioral, apoiando-se num joelho, levantou a arma a altura do rosto, deixando a têmpora do animal sob a mira e... Bang! Um disparo, este logo seguido de vários outros: Bang! Bang! Bang! Bang! Bang!

Porém, não fora o Maioral-Mor quem puxou o gatilho em primeiro lugar, como havia sido combinado. Um dos atiradores que estavam a traseira do animal, nervoso, com medo ou simplesmente apressado demais mesmo depois do discurso de seu superior, ou ainda tudo isso de ao mesmo tempo, disparara, não apenas atingindo o animal nas costas, quase não causando dano, como também assustando-o, fazendo-o levantar-se num pulo e disparar frenético para frente, então em alerta a presença inimiga, apressando todos os demais soldados a atirar, o que chamou a atenção do entelodonte para os topos da colina, a posição de todos vindo então a ser revelada.

Com o entelodonte furioso a varrer as colinas com seus olhos vidrados, os homens relutaram em atirar e atrair a atenção do animal para si, mas isso de pouco adiantou quando a fera pôs os olhos num dos soldados, fitando-o aos bufos, chutando a terra com uma pata dianteira, escolhendo-o como alvo e investindo contra o coitado.

Caleb, que fora contra quem o entelodonte investira, conseguiu saltar para o lado por pouco, rolando colina abaixo, perdendo seu rifle. A fera, sentindo sua presa atingir apenas a terra, tornou a procurar por um alvo, bufando, revirando a terra em sua ira enquanto esquadrinhava seus arredores, mas fora alvejada mais quatro vezes pelos soldados, ficando ainda mais ensandecida, os disparos não servindo como mais que provocação. Salivando litros e bufando como um touro, o animal desistiu de procurar aqueles que atiravam nele e focou-se em acabar com Caleb, uma presa fácil, desarmada, próxima e a vista, o entelodonte disparando alucinadamente colina abaixo de cabeça baixa, com a presa voltada para o íncubos, que, aos tropeços, lutava para sair da lama da poça na qual caíra.

Com apenas alguns poucos metros separando Caleb de uma morte horrível e extremamente dolorosa, um urro horripilante e cheio de dor preencheu toda a mata vindo do animal que caíra ao chão, o peso de seu corpo sobre uma das presas esmigalhando-a, enquanto debatia-se no chão de forma tão repugnante que encheu até mesmo Caleb de pena. Dentre as patas traseiras do animal, um jorro de sangue incessante fluía como um rio vermelho, esguichante. Seus testículos tinham sido destruídos por um disparo.

— CORRE! SAI DAÍ, PORRA! — Berrou Azai, já preparando-se para os próximos disparos de seus revólveres. Logo que Caleb conseguiu afastar-se, subindo noutra colina, Azai continuou a ordenar, aos gritos:  Mirem nos olhos ou na têmpora! Atirem, atirem!  Pensando em voz alta, sua voz soando pouco mais que um sussurro, concluiu: — Quando eu descobrir quem foi o bosta que atirou antes da hora, juro que vou fazer o filho da puta se arrepender!

Uma vez que os tambores dos rifles esvaziaram-se, imitando ao Maioral-Mor, todos os soldados sacaram seus revólveres dos coldres e continuaram os disparos, numa incessante chuva de balas que durou quase um minuto, os urros agonizantes do animal e o estampido da pólvora ao queimar encobrindo todos os sons da noite como uma canção hedionda de morte e dor que ecoava por sobre toda a mata.

Finalmente, já sem nenhuma bala nos tambores de seus revólveres, Azai desceu a depressão, deslizando a encosta da colina, empunhando a lança que trouxera consigo e que deixara de prontidão a seu lado, no chão, quando preparava-se para abater o entelodonte. Aproximou-se do animal, agora já coberto de sangue, arfante e com a face umedecida pelas lágrimas, pelo muco que escorria do focinho e pela espuma que transbordava-lhe da boca ao queixo, expressão de dor intensa, e, após um longo e profundo suspiro, Azai, com uma certeira, rápida e forte estocada com a ponta da arma direto no coração do entelodonte, matou-o da forma mais misericordiosa que conseguiu encontrar.

Fora uma caçada desagradável, uma morte desagradável, mas o Maioral-Mor já estava acostumado com aquilo. Era um soldado a quase trinta anos, participara de mais de um combate, vira mais de uma morte. Matara mais de uma única vez. Sabia como funcionavam as coisas ali, no mundo real: num campo de batalha de verdade não havia heroísmo ou qualquer beleza, ao contrário das propagandas criadas pelos romancistas em suas obras fantásticas e maravilhosas, e a honra tornava-se apenas uma lembrança de um passado distante, tudo resumindo-se apenas a matar todos aqueles que não eram seus aliados, e isso era a única coisa que ocupava sua mente, movendo-o por meros instintos, num cenário cheio de dor, raiva e sangue. A desagradável verdade que apenas um soldado poderia conhecer, que apenas um soldado deveria conhecer. Daquela vez fora um mero animal selvagem e arruaceiro, mas Azai devaneava sobre a sombra que vinha caindo sobre si e seus homens...

Depois de um dia e uma noite na mata, Azai e seu grupo chegavam de novo a base, já próximo ao meio-dia. Apesar do sucesso em abater o animal que vinha causando problemas, nenhum dos sete (especialmente o jovem chamado Yago, que, descobrira Azai, fora aquele que atirou precipitadamente no entelodonte, causando toda a confusão, e agora carregava todo o equipamento do grupo, além de já estar sentenciado a vinte voltas ao redor de toda a base assim que chegassem nela) expressava qualquer sinal de felicidade.

Os seis cruzaram os portões de madeira, Caleb ainda ouvindo o longo discurso de seu irmão mais velho, que emprestou-lhe o ombro em apoio, sobre cuidado. Dirigiram-se aos chuveiros, enquanto Yago começava a dar as voltas na base, após depositar as cargas onde foi lhe ordenado. De banho tomado, os soldados seguiram para o refeitório, onde conseguiram uma refeição (meio) quente e (meio) temperada.

— Bem, pelo menos a caçada não foi um completo fracasso. O animal está morto e receberemos nossa recompensa, o bônus salarial, por termos ajudado os locais.

— Comentou Benjamim, que em algum momento entre o banho e a refeição seus olhos ficaram avermelhados enquanto recuperava aos poucos seu sorriso habitual, o sátiro esforçando-se para animar os companheiros.

— O coitado do Caleb torceu o tornozelo enquanto corria e quase morreu, a pele do animal, que já não era dos melhores, sendo coberta por cicatrizes do jeito que era, foi então completamente arruinada pelos tiros e conseguimos o marfim de apenas uma presa, uma vez que a outra foi esmigalhada.  Retrucou Tadeo, sem suavizar as palavras como costumava fazer.

Bufando de raiva, suas sobrancelhas tão franzidas quanto conseguia, Azai respondeu ao sátiro, confessando suas verdadeiras intenções:

— Bem, nós sete, não, garantirei que nós seis receberemos o bônus. — Disse, dando ênfase no "seis".  Mas não foi por isso que me voluntariei ao serviço, sabe? Eu também me preocupo com o ânimo dos demais. Com tudo isso que vem acontecendo, com o clima ficando cada vez mais tenso, os soldados têm ficado abatidos. Por conta disso eu planejava vender a pele e o marfim do animal e, com o dinheiro que conseguisse, comprar vinho e cerveja, enquanto fazia um churrasco com a carne, assim animando o pessoal.

— Isso seria bom.  Comentou Tadeo, olhando para o jornal em cima da mesa, ali próximo.  Qualquer um pode ver o caminho como isto está trilhando, afinal, e não é um bom caminho.

No jornal, impresso na primeira página e de forma chamativa, anunciava-se: "FIM DA CONFERÊNCIA COM DESENTENDIMENTOS ENTRE OS LÍDERES DE NOVA CRASÍRIA E DE CRÁT. INSATISFAÇÃO CRESCENTE E SURGIMENTO DE LADOS DISTINTOS NA DISPUTA PELA RUÍNA."

 Malditos sejam estes Crasirianos! E que nosso Rei aja com mais sabedoria que estes traidores...  Disse então o Maioral-Mor, ainda rabugento.

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