Guerra A Ruína - Capítulo: 59

Capítulo: 59

Álex.


Ainda estava quente, mas não era mais a queimação quase dolorosa que Álex sentira antes. O calor que o fantasma sentia agora era algo mais reconfortante, quase nostálgico, contrastante com o frio típico de Crát. Álex abriu os olhos, deparando-se com um teto de tábuas de madeira que parecia oscilar levemente sobre sua cabeça. Sentindo a boca seca como um deserto de areia. A sede atormentando-o, o fantasma jogou o lençol, que estava grudado à sua pele suada, para o lado e sentou-se na beirada da cama, uma câimbra fazendo-o trincar os dentes pelos movimentos repentinos, seus pés descalços encostando no piso também de tábuas de madeira. O quarto era bem iluminado, a luz entrando por uma grande janela na parede norte, para a qual Álex estava virado, os raios de sol caindo exatamente sobre os pés do fantasma.

— Minhas unhas. — Comentou Álex, percebendo a ausência das mesmas em seus pés, confirmando depois que era a mesma coisa em quanto a sua mão. — Mas o que?!

Abrindo a porta e entrando no quarto de repente, Miranda disse, surpresa, um largo sorriso surgindo em seus lábios enquanto corria para abraçar o fantasma:

— Léx, você acordou! Que bom! Eu estava tão preocupada.

— Miranda, o que você quer dizer? — Perguntou Álex, levando a mão boa à cabeça, sentindo uma pontada de dor, ainda confuso. — O que houve?

— Você não se lembra? De nada? — Perguntou a lebromem, o fantasma respondendo com um meneio de cabeça em "não". — Bem, eu não te culpo. Pouco depois que embarcamos, depois de zarparmos daquele dique, você desmaiou de repente. Você ficou com uma febre terrível e, independente do que fizéssemos, não melhorava. Na verdade, você só ficava pior. Em pouco tempo, você já estava ofegante, respirando com muita dificuldade, balbuciava qualquer coisa sem nexo e vomitava muito. Depois, seus cabelos começaram a cair. — Contou Miranda, Álex levando a mão ao topo da cabeça, desesperado, de repente com medo de já estar careca antes mesmo dos vinte anos de idade. O fantasma não conseguiu conter o suspiro de alívio quando sentiu o cabelo que, não lembrava-se quando exatamente em sua viagem, tornara-se longo. Rindo da reação espantada de Álex, Miranda continuou: — Não se preocupe, você não ficou careca ainda! E então foram suas unhas. As coisas ficaram bastante assustadoras, sabe? Manchas estranhas surgiram em sua pele e logo você começou a sangrar pelo nariz. Tudo piorou quando o resto da tripulação também ficou doente. Haviam vômito, dores por todo o corpo, exaustão e fraqueza, todo mundo foi afetado...

— E você está bem?  Interrompeu Álex, segurando a lebromem pelo ombro, preocupado. — Não está se sentindo doente também, está?

— Não se preocupe comigo, eu já estou melhor. — Respondeu Miranda, corando levemente enquanto encarava o fantasma. Estranhamente satisfeita com a preocupação de Álex sobre si, a lebromem o beijou antes de contar o resto da história:

— Alias, todo mundo já está melhor. E você era o que estava em pior estado dentre todos nós. Escute-me, Léx, e preste atenção: não use mais, não, sequer chegue mais perto da Ruína.

— O que?

— Era a Ruína que estava nos deixando doente, Léx. Depois de já termos tentado de tudo, quando você começou a sangrar, eu disse para Dilian trancar a Ruína num lugar longe de todos, e ele a colocou num baú de aço no interior do navio. Foi quando sua febre começou a baixar, seus cabelos pararam de cair, os vômitos e dores do resto da tripulação também cessaram-se, e logo todos já sentiam-se melhores. Então, prometa-me, Álex: você não vai mais utilizar aquela coisa.

— Mas... 

— Prometa-me.  Insistiu Miranda.

— ...Não vou mais usar da Ruína. Eu prometo. — Concordou Álex, enfim cedendo.

— Certo, bom. E, desculpe-me, Léx... — Disse Miranda, baixando os olhos e curvando os ombros.

— Desculpá-la? Por quê? — Perguntou o fantasma, confuso.

— Enquanto navegávamos para o leste, seguindo a costa de Crát, nós nos deparamos com um porto, e ele estava apinhado de navios, Léx. Dezenas de milhares de enormes navios de guerra armados com incontáveis canhões e encouraçados com aço, cada um abrigando um pequeno exército. E eles, naquele momento, estavam zarpando... para Nova Crasiria.

— O que você disse?! — Gritou Álex, levantando-se de repente, franzindo a sobrancelha, ao mesmo tempo com medo e raiva. — Tantos assim... Sem a Ruína, estaremos perdidos!

— Você tem razão, mas se você tentar bancar o herói, você vai apenas acabar morrendo Álex, você sabe disso.  Retrucou Miranda, persistente.  Você não precisa fazer isso!

— ...Acho que você tem razão. — Respondeu o fantasma, relaxando após um longo suspiro. — Depois de tudo pelo o que eu passei, acredito que saiba pelo menos o suficiente de como funciona a realidade para não insistir nisso agora... Mas também sei que não devo apenas ficar parado observando meu país ser reduzido a cinzas. Quando atracarmos, vamos avisar o exército. — Comentou o fantasma, forçando um sorriso decidido à Miranda, apesar de estar realmente ansioso, relutante. Concluindo, disse:  E entregaremos a Ruína a Milly.

— Sim, esse é um bom plano.  Concordou a lebromem, retribuindo o sorriso.

— Mas, é mesmo uma pena que a Ruína cause esse tipo de efeito, caso contrário, poderíamos simplesmente contar com a Presidente para exterminar todo o exército cratence. Embora não saibamos o que realmente desencadeou nosso mal-estar, se foi o tempo que você passou com a Ruína ou o quanto você a usou.

— Agora a pouco você disse algo sobre "tripulação". — Comentou Álex, tornando a sentar-se ao lado de Miranda. — São aqueles que conseguiram fugir conosco?

— Sim, são eles. Dilian não teve problemas em ensiná-los a navegar sob suas ordens, e, em pouco tempo, todos já eram marinheiros. Somos trinta e cinco, contando com nós dois e Dilian.

— Então apenas trinta e três deles conseguiram vir conosco. — Disse o fantasma, pondo-se a olhar os próprios pés, de repente cansado, melancólico.

Durante toda a viagem do forte quadrado ao galpão no qual estava atracado o navio, o fantasma não havia trocado uma palavra com qualquer um que não Miranda e Dilian uma vez que os demais sequer falavam sua língua, mas Álex não pôde deixar de sentir-se culpado, triste com a morte daquelas pessoas, pessoas que acreditaram nele, que o seguiram.

— Não foi culpa sua, Léx. — Comentou a lebromem, percebendo os sentimentos do fantasma, mais uma vez abraçando-o enquanto o confortava.

Uma batida na porta chamou então a atenção dos jovens, que permitiram que a figura responsável por isso entrasse no quarto, em resposta um homem revelando-se e trazendo a eles uma mensagem do capitão, que pedia pela presença de Miranda. A lebromem, sorriu e levou consigo também o fantasma, tendo ideia do que tratava-se aquilo e que Dilian chamaria Álex também se soubesse que ele já recuperara-se, que ele estava acordado.

O dia estava bonito, sem uma única nuvem nos céus, o sol brilhando forte e uma brisa fresca carregada do cheiro salgado do mar acariciando gentilmente a pele daqueles expostos a ela, enquanto as águas eram um único espelho plácido, calmo, do azul profundo que o encimava. Seria tudo perfeito se o navio não estivesse aos frangalhos, caindo aos pedaços, quebrado, queimado, esmagado e estilhaçado, o parapeito já praticamente inexistente, a figura de proa (uma tartaruga com uma lamparina na boca) sem a cabeça e patas e o piso do convés com todos os tipos de rachaduras e fendas.

— Aqui em cima!  Chamou Dilian, acenando da plataforma no topo do maior dos três mastros do navio. — Chamam! Que bom que você melhorou. Vamos, subam aqui, subam!

Encarando a longa escada de mão até a plataforma, Álex tomou um odre de um dos tripulantes dele próximo e tomou um longo gole do que descobriu ser vinho para aliviar a sede que sentia antes de começar a de fato subir depois de Miranda, conjurando para si uma mão esquerda no lugar do membro perdido.

— Por todos os deuses, o que foi que aconteceu enquanto eu dormia? — Perguntou Álex quando finalmente alcançando a plataforma, segurando a mão de Dilian, que a ofereceu como apoio ao fantasma.

— Bem, tivemos alguns problemas com corsários, sabe. — Respondeu o humano, sorrindo. — Embora tivéssemos tentado conversar, eles não são de um tipo muito falador. Uma vez pirata, sempre pirata, eu digo! Mas não foi nada que a chamam aqui não pode resolver, felizmente! Espero, ao menos, que cumpra com seu dever quando a hora chegar e, ao menos, atrasem os cratences quando estes aproximarem-se (embora eu tenha quase certeza de que eles, estes corsários, irão simplesmente desaparecer sem sequer deixarem rastros, com o rabo entre as pernas, quando isso acontecer). Agora, deixando isso de lado, olhem! — Disse Dilian, entregando aos jovens uma cumprida luneta de bronze.

— Você primeiro. — Disse Miranda, gesticulando ao objeto, sorridente. Uma vez que o fantasma pegou a luneta e a levou ao olho, apontando-a à direção indicada por Dilian, a lebromem continuou: — Você esteve de cama por realmente muito tempo, sabe. Cerca de dois meses. Durante este tempo todo, estivemos navegando. Fico feliz que você tenha acordado para ver isso.

— Chegamos! — Comentou Álex, pasmo. — O Grêmio! — Disse, sorrindo, sem conseguir conter a empolgação, a nostalgia, quase deixando que lágrimas de felicidade caíssem de seus olhos, compreendendo que o calor reconfortante que sentia era o de Nova Crasiria, o país tropical no qual nascera e crescera.  Olhe, Miranda, nós voltamos! Voltamos! Olhe, olhe!

— Sim, Léx. Finalmente voltamos.

Uma multidão de gremistas aglomerava-se no porto da ilha do grêmio, centenas de chapéus pontudos e negros pontilhando o cais e a escada atrás deste, que escalava o rochedo para o interior da muralha da ilha. Álex levou a mão à cabeça, relembrando-se de seu próprio chapéu, perdido em Horac (quando os jovens os deixaram para trás para fazer a investida furtiva ao galpão para libertar os prisioneiros), sorrindo ao relembrar-se também que nunca o usava na cabeça. O fantasma sabia que apenas em parte aquelas pessoas reuniam-se ali por curiosidade, o verdadeiro motivo sendo para aniquilar os invasores caso isso se mostrasse necessário, sabia que nenhum deles ou quase nenhum deveriam ser alunos, mas sim professores ou assoladores, prontos para qualquer coisa, esperando ansiosos, para o que estava por vir.

Álex havia pisado no porto realmente pouquíssimas vezes antes, apenas quando a ilha fora apresentada a si por alunos veteranos e em atividades obrigatórias, aulas que o levaram para lá por qualquer que fosse o motivo, mas não pôde deixar de sentir um forte sentimento de nostalgia ao saltar do convés para o píer e sentir aquela madeira sob seus pés. Olhando à direita, para o leste, pode ver A Ponte estendendo-se cumprida, em "Y", da capital até a ilha, onde, embora ele não pudesse ver dali, sabia que era vigiada por Valor, Valentia e Vitória, estátuas enormes e imponentes, a representação física e em forma humana d'As Três e do Caminho do Mago.

Miranda também saltou do navio quando um dos magos saiu da multidão, um velho sátiro de barba cumprida que, aproximando-se dos jovens, perguntou, pasmo:

— Por todos os deuses, Àlex, Miranda, são vocês?

— Professor Henrique!  Respondeu o fantasma, exibindo todos os dentes num largo sorriso. — Sim, somos nós!

— Onde é que vocês estavam? O que é que vocês estavam fazendo? Você ao menos sabem as consequências que terão de enfrentar por terem fugido num momento de crise como o que enfrentávamos?! O que vocês esperam voltando agora, tão de repente?!

Já tendo esquecido-se de que haviam de fato fugido do Grêmio e que poderiam ser punidos por isso, Álex re-conjurou uma mão ao fim do antebraço direito, controlando-a com sua magia enquanto jogava o cabelo para trás, chamando a atenção para o ferimento quando respondeu:

— Ainda enfrentamos um momento de crise. E é exatamente por isso que nós dois voltamos.

Como sempre, naquele pátio gramado, atrás da biblioteca, sob aquela árvore, a brisa era constante e refrescante e o silêncio reinava imperturbável por qualquer coisa além do farfalhar das folhas sobre a cabeça do fantasma e da grama sob seus pés. Olhando agora para aquelas lápides, Álex, não mais sentindo desconforto algum ao encará-las, se perguntava se aqueles dois, heróis, não haviam passado pelas mesmas coisas que ele.

— Uau, você mudou mesmo! Parece um homem feito agora. — Comentou a mulher, aproximando-se do fantasma por trás, colocando-se ao lado dele. Ao contrário de Álex, porém, ela não havia mudado nada, um único fio de cabelo sequer, continuava a mesma da qual Álex lembrava-se da primeira vez que a viu. O fantasma sentiu-se um tanto culpado, pedindo desculpas a Miranda internamente, ao perceber que ainda sentia-se atraído pela Presidente.  O Grêmio todo já está fervilhando de fofocas sobre vocês. Falam sobre um mago que reduziu toda uma frota de corsários a nada mais que carcaças de navios e cadáveres à deriva, sobre um épico deste mesmo homem, que libertou todos os escravos de Crat, iniciando uma revolução no país, e, é claro, não demoraram para anexar a esta lenda o título de "Matador de Monstro", aquele que salvou uma família de camponeses de um terrível dragão. Sem falar das outras alcunhas, não param de surgir mais e mais a todo instante, o chamam de "Mestre da Sombra", "Senhor da Foice"... Que tal começar por aí?

— Por que não? Acho que é um início tão bom quanto qualquer outro, afinal. Bem, então, primeiro: não fui eu que derrotei os corsários, foi Miranda. Segundo: eu libertei apenas alguns escravos, e esta não era minha verdadeira intenção, foi apenas uma consequência da minha própria tentativa de fuga... e muitos deles morreram me seguindo. E terceiro: foi um grifo que eu matei (por sorte), e este já deu trabalho o suficiente! Se fosse um dragão, eu estaria morto agora, sem dúvidas. E desta vez eu também não consegui salvar ninguém. Quanto aos títulos e tudo o mais, creio que você saiba melhor do que ninguém o quanto as histórias fogem de controle quando começam a aumentar em sua glória, não é?

— Sim, é verdade, eu sei!  Respondeu a draconiana, por entre as gargalhadas.

— Agora, então, por favor, do começo. Detalhe por detalhe.

— Eu entendo. — Disse Milly, que ouvira tudo em silêncio, toda a história, a trajetória dos jovens relatada por Álex detalhe por detalhe (apenas com exceção da forma com a qual encontrou a Ruína) como o pedido pela Presidente. — Sei como é difícil, esse caminho. Já trilhei-o uma vez, afinal. Darei um jeito nos assoladores, os convencerei a não punir vocês dois (mas não pense que me engana com essa história de "voltei para avisá-los do perigo eminente", pois ficou bastante claro que a lebromem ter avistado a frota foi uma coincidência!). Quanto aos experimentos que você viu neste "forte quadrado", os cratences estavam, provavelmente tentando recriar algo como o golem, um corpo perfeito e imortal. Ainda bem que não conseguiram. Vocês fizeram bem em destruir todos os dados da pesquisa junto do forte. — Levando uma mão ao queixo, pensativa, Milly continuou: — Mas, uma frota de dezenas de milhares de belonaves vindo direto para cá, hein? Isso é um problema, se considerando o que você me relatou sobre a Ruína. Cuidarei para que a mensagem chegue aos novos Senadores.

— Novos? O que aconteceu com aquele elfo e... os outros dois? — Perguntou Álex, tentando inutilmente se lembrar dos outros dois Senadores.

— Os dois do Partido da Reconquista morreram, Murilo sendo brutalmente massacrado por uma multidão enfurecida, espancado, assassinado e desmembrado, Fernando (o elfo) sendo enforcado numa execução pública, enquanto o outro, Pedro, do Partido da Irmandade, bem, ainda é um Senador e está vivo e saudável.

— U... Uau...

— Os novos senadores são Bértil, que reelegeu-se e Octávio, que agora é algum tipo de herói nacional. Bem, pelo menos ele é um bom herói, ao mesmo tempo um pacifista e um guerreiro. — Respondeu a draconiana de um jeito assustadoramente calmo. — Muita coisa aconteceu por aqui também, mas, de qualquer forma, continuando, eu já esperava que a Ruína pudesse trazer algum tipo de efeito colateral, afinal, mas apenas para aqueles que a utilizassem-a de forma errônea, não para todos aqueles próximos a ela.

— Forma errônea? O que você quer dizer? Digo, a Ruína é uma fonte inesgotável de magia, não é? É óbvio que um mago poderia utilizá-la em suas batalhas como seu trunfo.

— Não, o verdadeiro valor deste recurso não está em utilizá-lo como uma reserva mágica infinita... para um mago. O mundo mergulhou em caos por conta do potencial da Ruína como, na verdade, combustível. Pense bem, como funciona um item magicamente imbuído?

— Bem, uma ideia, um feitiço é forçado num objeto por meio da inserção da magia da reserva mágica do próprio mago responsável por imbuir o objeto em questão, e quanto maior a quantidade de magia colocada, por mais tempo o item permanecerá como, de fato, magicamente imbuído. — Respondeu Álex, arregalando seus olhos em compreensão.

— E como é feito para se utilizar um desses itens?  Tornou a perguntar Milly.

— O usuário precisa simplesmente liberar a quantidade necessária de sua magia ao item, cujo o feitiço já está imbuído, a conjuração sendo então automática.

— Sim, e, em teoria, qualquer um pode utilizá-los, estes itens, mas se uma pessoa que não tem controle de sua reserva mágica simplesmente tocar um item magicamente imbuído, ela não vai conseguir controlar a quantidade de magia que liberará ao item e pode desmaiar, o item pode quebrar, e, em casos extremos, a pessoa pode morrer. De qualquer forma, um intermediário, um mago ou ao menos alguém instruído minimamente sobre sua reserva mágica é necessária para utilizá-los. Agora, pense, e se isso não mais fosse preciso de um intermediário? E se...

— O mago fosse substituído pela Ruína.  Disse o fantasma, concluindo a frase de Milly, franzindo as sobrancelhas, fechando a cara numa carranca de apreensão.  É claro, é este o valor da ruína. A capacidade de fazer um trem ou navio sem a necessidade de carvão ou velas, uma indústria sem funcionários...

— Ou uma arma de com capacidade destrutiva jamais antes vista, que precisa apenas ser apontada ao seu alvo.  Comentou Milly, dando de ombros.

— Presidente, você disse que já imaginava os efeitos da Ruína nas pessoas, não é? Por que? Como você chegou a esta conclusão? Digo, nada sobre isto havia sido divulgado em qualquer momento. Mesmo que você descobrisse o verdadeiro valor deste recurso, descobrir também que ele é diretamente tão perigoso às pessoas é um pouco...

— Eu sou a grandiosa Milly, a maior maga do mundo, uma pessoa muito acima de qualquer outra, invencível, incompreensível, era de se esperar que, ao menos, eu conseguisse supor isto.  Respondeu a draconiana, sarcasticamente, dando as costas às lápides e deixando também Álex e a árvore que fazia sombra sobre o fantasma para trás enquanto dirigia-se de volta à biblioteca.  De qualquer forma, os efeitos da Ruína vêm, provavelmente, pelo que pude tirar do que você me disse, do tempo pelo qual as pessoas passam com ela. Além de que, o tamanho, a quantidade de Ruína deve influenciar isto também, então eu vou garantir para que o pedaço que você trouxe seja moldado em formas menores e irei entregá-las aos professores e assoladores (apesar de que desconfio que a quantidade também influência no limite de magia que pode liberar por sua vez, o que pode diminuir um pouco o potencial destrutivo da Ruína). Isso deve, ao menos, nos ganhar tempo para que o reforço do exército chegue.

— Eu tirei de um crânio! — Gritou o fantasma ás costas de Milly, fazendo-a parar, a Presidente estancando no mesmo instante em que as palavras chegaram-lhe aos ouvidos.  Um colossal crânio do tamanho de uma torre de vigia, destas que apinham as muralhas que nos cercam. Eu vi esta coisa criar vida... Diga-me, Presidente, o que é a Ruína?

Tornando a se aproximar do fantasma, sentando-se à sombra da árvore, recostando-se sobre o tronco, Milly suspirou, cansada, ao respondê-lo, finalmente sua aparência correspondendo (ao mínimo) com sua idade:

— Se chegou a este ponto, se você já viu isso, não há porquê esconder o resto. É melhor você sentar-se também, Álex. — Disse ela, Álex fazendo então como o aconselhado. — Você, como qualquer um que se considere um mago, deve saber que existem três coisas impossíveis para a magia, não é? A primeira é conjurar algo cuja a existência torne-se permanente em nosso mundo, algo que não consuma continuamente da reserva mágica de seu conjurador. A segunda é que não é possível não apenas criar vida, mas qualquer matéria orgânica. E a terceira é interferir com diretamente com a conjuração de outro mago.

"Porém, você já deve ter ouvido falar disto, creio eu, e esta história é uma das poucas verdadeiras, mas eu já conjurei um objeto definitivamente real, permanente. Era uma pedrinha comum, pouco menor que a falange do meu dedinho, sem nada de especial. Mas ela existe até hoje, e continuará a existir mesmo depois de minha morte, até que o vento e a chuva, até que a contínua ação da natureza transforme-a em pó e, enfim, até que nosso mundo morra. Além disso, você mesmo viu vida sendo criada a partir da magia. Isso porque estas não são de fato "regras invioláveis e perfeitas", mas apenas uma limitação de nossa era."

"A mais de cinco mil anos atrás, quando as primeiras civilizações surgiram, quando as pessoas deixaram para trás as sociedades nômades, aprenderam a cultivar a terra e estabeleceram-se num único lugar, os magos, apesar de serem adorados como deuses ou coisas próximas a isto em muitas culturas, não conseguiam fazer mais do que atirar pedras e ascender fogueiras, sabia? E você sabe como eles os faziam? Para as pedras, eles conjuravam-nas normalmente e atiravam-nas nos animais com as próprias mãos ou fundas, enquanto para ascender fogueiras, eles conjuravam um par de pederneiras e as batiam sobre o chumaço, ascendendo-o assim com as faíscas geradas. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, quanto mais antigo o feitiço, o conhecimento mágico geral, mais fraco e ineficaz ele é."

— Você quer dizer que trata-se apenas de conhecimento? — Perguntou Álex, incrédulo. — Que um dia, no futuro, tudo será possível aos magos? Que chegará o momento em que poderemos até mesmo criar vida e que as conjurações não mais irão se decompor em magia?

— Você está certo apenas em parte. Posso afirmar com certeza que sim, chegará o dia em que poderemos conjurar material orgânico e que a conjuração permanente estará ao nosso alcance, que enquanto a ciência continuar a avançar, a magia também evoluirá (este lugar não se chama Grêmio do Desenvolvimento Mágico e Científico de Nova Crasíria por nada), mas uma regra permanecerá para sempre inalterada. "Não é possível interferir diretamente com a conjuração de outro mago".

— E por que? O futuro que você enxerga e o seu potencial são praticamente infinitos, então por que esta limitação em específico permaneceria?

Conjurando um cubo de ferro, Milly perguntou ao fantasma:

— Álex, você consegue fazer com que este cubo desapareça, utilizando apenas de sua mente, de seu conhecimento e da capacidade mágica atribuída a cada ser pensante?

— Não.  Respondeu o fantasma, dando de ombros.

— E quanto a esta árvore atrás de mim?

— ...Isso... Então... Nosso mundo...

— Também é composto de magia. Cada coisa neste mundo e em todos os outros, matéria, energia e até mesmo nossos pensamentos são nada mais que formas variadas da magia, inúmeras facetas de uma mesma coisa. Mas... quem conjurou tudo isto? Afinal, é necessária uma ideia inicial para que a magia tenha se moldado da forma como é hoje. A resposta para esta pergunta é o que chamamos de Deus.

— Então a Ruína... O... O crânio gigante do qual eu tirei um fragmento... era Deus...? — Perguntou Álex, boquiaberto, compreendendo então o porquê de Milly aconselhara para que ele sentasse-se, sentindo suas pernas perderem as forças, cada fio de cabelo em seu corpo arrepiando-se.

— Pode-se dizer que sim. Chamá-lo de nosso Deus não é equivocado, afinal, foi ele quem criou a vida neste planeta, mas há ainda muitas coisas que não compreendo, como: como foi que ele surgiu se antes dele nada existia? E para isso eu só consigo pensar que ele também foi criado e a pergunta se repete de novo com "e quem criou o criador dele?", assim por diante infinitamente... Bem, agora você tem sua resposta. — Disse a Presidente, levantando-se e espreguiçando-se antes de voltar ao seu caminho, concluindo: — É isto, até mais!

— Espera. — Disse Álex, fazendo a draconiana parar mais uma vez, ela suspirando antes de retrucá-lo:

— O que foi agora, hein? Eu já não respondi sua pergunta?

— Como você sabe de tudo isto? Que aquele que é agora a ruína, é "nosso Deus", aquele que criou a vida aqui? E como você tem conhecimento o suficiente para a conjuração permanente?

— ...Por que eu o vi com meus próprios olhos, Álex. — Respondeu a draconiana. — Eu tenho apenas oitenta e três anos. — Disse ela, com as mãos sobre o peito, sobre o coração. Levando o dedo indicador direito à têmpora, então, concluiu: — Mas tenho também centenas de milhares de anos.

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