Capítulo: 58
Octávio.
Fora a pobre Matilde, a esposa de Cézar e mãe de Iandro, que conseguira as informações com Octávio em sua sentença, quando ela fora colocada como a empregada encarregada das refeições na prisão a pedido de Cézar a Fernando, que, sem qualquer suspeita, acatou com seu desejo uma vez que não apenas o goblin vinha se mostrando bastante leal e eficiente ao seu ingênuo modo (como o preferido pelo elfo), como também Fernando não considerava-o como uma ameaça em potencial, vendo-o como nada mais que um idiota facilmente manipulável. O ex-Senador não sabia, porém, que a lealdade de Cézar vinha de Octávio e que ele jamais acreditara que o vampiro, seu amigo, seria capaz das coisas das quais fora acusado (corrupção, desvio de verbas públicas, espionagem e traição à pátria e ao Senado) e que o goblin vinha dando ouvidos a Bértil, um dos pedidos da velha harpia sendo que Cézar conseguisse entrar em contato com Octávio nos calabouços, Bértil indicando assim a esposa do goblin a um cargo que ele próprio fizera ficar vago na prisão.
A harpia não fizera questão de explicar como exatamente a Octávio, mas depois da fuga do vampiro do Prédio Senado, Bértil, precavendo-se para o pior dos casos, cuidara para que o antigo responsável pela função de empregado encarregado pelas refeições aposentasse-se e tirasse férias num país muito distante não apenas de Nova Crasíria, mas do próprio Continente de Gal.
Uma vez então que Bértil conseguira os documentos guardados por Octávio, a harpia não perdera tempo e, utilizando de seus contatos na mídia, publicou cada um dos escândalos e fraudes, cada um dos crimes e mentiras de Fernando nos jornais e garantiu de espalhá-los por toda Dentre-Flume, o verdadeiro campo de batalha para todos os políticos de Nova Crasíria. Os donos de indústrias e comerciantes, vendo a oportunidade na crescente insatisfação da população, com o apoio do Partido da Irmandade, logo começaram a agitar as multidões. Com o índice cada vez maior de desemprego, pobreza, criminalidade e com as lembranças frescas da perda de parentes e amigos na guerra, esta não fora uma tarefa realmente difícil.
Os soldados na cidade tentaram reprimir os revoltosos, caçando e prendendo centenas de pessoas, surgindo no centro da capital até mesmo conflitos armados, mas em pouco tempo a população tornou-se numa maré imparável de fúria, como uma tsunami, uma multidão rebelde constituída por dezenas de milhares que marchou até a Grande Praça e até à frente do Prédio do Senado, onde, inicialmente protestou estrondosamente, exigindo por justiça, mas depois de ser recebida a tiros por soldados, invadiu o prédio em busca dos Senadores do Partido da Reconquista, em busca de sangue, deixando assim em seu caminho um rastro de cadáveres daqueles que opuseram-se a si.
Quando Fernando não foi encontrado no Prédio do Senado (Murilo não tendo a mesma sorte, sendo cercado numa das salas do prédio, espancado e desmembrado junto dos seus guardas pela turba ensandecida) Bértil guiou a multidão à prisão em busca de Octávio, aquele que havia sido o mártir daquela revolta, que fora colocado como um herói trágico que fora punido pelo próprio e vilanesco partido que o traíra por trazer a verdade ao povo, o vampiro tornando-se um símbolo da revolução. Quando encontraram Fernando lá também, Octavio cuidou para que não o executassem imediatamente, dizendo que a morte do "traidor da pátria" deveria ser presenciada e lembrada por todos e não apenas por aqueles que ali estavam.
Ferido e cansado como estava, o vampiro não pode ver (embora tivesse desejado muito, fazendo questão de até mesmo de pedir que "ele dançasse muito na corda" àqueles responsáveis pelo nó e cumprimento da mesma), tendo de ficar de repouso sob cuidados médicos, mas o dia do enforcamento de Fernando lotara a Grande Praça como nenhum outro evento jamais fizera, incontáveis pessoas espremidas numa compacta massa de carne que não apenas preenchia toda a praça, como deixava até mesmo os limites desta, perdendo-se de vista muitas ruas cidade adentro.
Tudo isso levou duas semanas, dias estes que Octávio passou sob tortura. Bértil lamentou sobre o ocorrido ao vampiro, mas insistiu que, ainda assim, na verdade, a revolta havia ocorrido num tempo assustadoramente curto, ressaltando também a fúria e violência com que as pessoas levantaram-se contra o Senado. Octávio, suspirando, inevitavelmente sentindo raiva das palavras de Bértil, raiva por não ter sido resgatado antes, e ainda medo e dor ao apenas lembrar-se de seu período nas mãos do orc (que, na verdade, Octávio não fez questão de punir, apesar de ter tido a oportunidade, enviando-o de volta ao exército e às linhas de frente ao norte), porém sabendo também que as palavras da velha harpia eram verdadeiras, o respondeu lembrando-o que haviam, do outro lado das muralhas da cidade, dezenas e dezenas de milhares de pessoas, refugiados, vítimas da guerra de Fernando e que estes, sem dúvida, constituíram, sem dúvida, boa parte dos rebeldes, se não a maior parte deles.
— Tem certeza disto, meu bom senhor? — Perguntou um dos donos de indústrias que então reuniam-se na sala. — Digo, até pouco tempo atrás estas pessoas estavam no mínimo ... ferozes. Dar este tipo de notícia a eles é um pouco...
— Não se preocupe com isso, meu bom senhor. — Respondeu o vampiro, sentado numa das extremidades da mesa triangular. — Isso não só faz mais de um mês, o que não pode ser considerado exatamente "pouco tempo" se tratando de nossa situação, como também tanto a sede de sangue deles já fora saciada com as execuções de Fernando e Murilo, quanto, quero lembrá-lo, os motivos deles eram exatamente a atitude violenta que Nova Crasiria tomou recentemente, entrando nesta guerra. Mais alguma dúvida ou questionamento? — Perguntou então, passando os olhos por cada um dos homens ao seu redor.
— É claro que não, meu bom senhor, é claro que não. — Comentou um outro dos aliados de Octávio, um comerciante. — Mas, se possível, gostaríamos de saber, creio eu que todos nós: quando os portos irão, como o prometido por você mesmo, creio que lembre-se, por assim dizer, "reavivarem-se"? Trazendo qualquer outra coisa que não armas e equipamentos militares, é claro.
— Eu também gostaria que uma Nova Crasiria agitada como antes fosse uma realidade o quanto antes... mas primeiro temos que resolver nossas questões políticas, meu bom senhor. — Respondeu Octávio, sorrindo, porém deixando claro que não se discutiria mais sobre aquilo, ao menos não naquela reunião. "Ainda estamos em guerra com metade do mundo civilizado, o país acabou de passar por uma repentina troca de poder e encontra-se incerto em seu futuro, e este homem (e sem dúvida, como ele mesmo disse, os outros do seu tipo também) já está pensando em seu lucro. Acho que a diferença entre meus aliados no mercado e os de Fernando são apenas o tipo de negócios que eles possuem...". Levantando-se, concluiu: — Então, meus bons senhores, é isto. Chegou a hora.
Deixando a sala para trás, acompanhado por Bértil e Pedro, Octávio seguiu pelo corredor, esforçando-se para manter-se ereto e disfarçar o andar manco, trincando os dentes às pontadas de dor que ainda o afligiam ao andar.
— Tem certeza de que está tudo bem? — Perguntou uma mulher surgindo ao seu lado de repente, suas sobrancelhas franzidas em preocupação. — Meu bom senhor, você deveria ficar descansando. Ainda é cedo demais para deixar seu repouso!
— Não se preocupe, Maria, eu estou bem. — Respondeu Octávio, sorrindo a berserker. — Além disso, se o novo Senador passar ainda mais tempo sem mostrar-se para o povo, vão acabar esquecendo-se que ele existe.
Na véspera da execução do elfo, do ex-Senador, houve uma nova eleição. Haviam, afinal, dois cargos vagos a Senador. Bértil conseguira reeleger-se ao antigo cargo, passando com facilidade os donos de indústrias e comerciantes e os membros do Partido da Irmandade que também candidataram-se. Octávio, porém, simplesmente não precisara esforçar-se o mínimo sequer, sem ter feito qualquer discurso ou mesmo mostrar seu rosto para conseguir o cargo, sendo eleito Senador com quase o triplo de votos de cada um dos demais candidatos. "Os jornais e aqueles que agitaram a multidão fizeram realmente um bom trabalho me transformando num mártir", pensou o vampiro já aproximando-se da porta à varanda.
— Nenhuma oposição quanto ao atual plano? — Perguntou Octávio aos outros dois Senadores, já segurando as maçanetas das portas duplas.
— Não é de todo de meu agrado, mas a posição em que estamos é a nossa melhor opção. — Respondeu Bértil, dando de ombros.
— É um pouco diferente do que esperávamos, mas ainda assim é melhor do que o antigo rumo do país. — Respondeu Pedro. — Além de que agora é tarde para reclamar, afinal.
A luz repentina cegou-o por alguns instantes, mas logo ele viu: a Grande Praça apinhada de pessoas, incontáveis delas, a multidão saindo até mesmo dos limites da praça, todos à espera de suas palavras. Planejaram que o discurso de Octávio fosse feito de noite, para ocultar os ferimentos horríveis que cobriam todo seu corpo, mas o vampiro insistiu que fosse feito durante o dia, para, na verdade, destacá-los, intensificar à população os terrores pelos quais seu "nobre herói" passou, sabendo que o efeito disto, o espanto causado, apenas tornaria-o ainda mais admirado. "É um pouco estranho ter a visão daqui de cima", pensou o vampiro, olhando para a fileira de partidários ao pé do prédio e lembrando-se de sua posição lá embaixo, entre aquelas pessoas, há mais de um ano atrás.
Voltando-se para multidão que esperava em silêncio, sentindo a expectativa e a relutância, Octávio começou o discurso:
— Destruição. Morte. Caos. Pobreza. Insegurança. Tristeza. Medo. Essas foram as recompensas, os espólios, que conseguimos com esta guerra sem sentido.
"Pais, irmãos, amigos, esposos e filhos foram levados de nós pelas palavras distorcidas de um lunático mentiroso e ganancioso, forçados a lutarem com suas vidas por sua batalha e causa egoísta. — Soluços e choramingos ecoaram num burburinho causado pelas lembranças tristes que assolavam muitas das pessoas ali. Uma vez que o pequeno tumulto assentou-se e tornando a dar seu lugar ao silêncio respeitoso e atencioso de antes, Octávio continuou: — E eu também lutei! Vi as linhas de frente e sua desgraça, descobri a verdade e confrontei os malditos Fernando e seu, na verdade, subordinado, o Senador fantoche Murilo, exigi que fosse feita a justiça e o que é o correto, o dever de um Senador de verdade, e dei a este dever meu corpo e alma! — Disse, levantando os braços mutilados à multidão, suas mangas arregaçadas, provocando uma onda de aplausos e berros indistintos.
"Não posso trazer de volta os entes queridos perdidos neste caos. Não posso apagar as memórias tristes e os acontecimentos pesarosos que os atormentam. Haverão aqueles que nunca voltarão, coisas que não podem ser consertadas. Mas há um algo que eu posso lhes dar, e isto é o futuro. Um futuro onde seus filhos não terão de pegar em armas, um futuro onde o tempo ruim será a única preocupação do povo, um futuro onde ainda existirá uma Nova Crasiria como conhecemos! Eu lutei por isso, todos nós lutamos por isso, e eu não desistirei até lhes entregar este futuro brilhante!"
Um brado, uma algazarra, um estrondo de um milhão de vozes alcançou os céus, preencheu e reverberou pela cidade, ecoou no mundo inteiro em resposta as palavras ali ditas, e Octávio soube que seu discurso havia sido um sucesso. Ele, porém, ainda não havia acabado:
— Eu e os demais Senadores viemos trabalhando duro para isso e, nesse exato momento, meu bom povo, lhes garanto, buscamos pela paz. Paz esta que já fora enviada por intermédio de mensageiros à Namória e à Crát, paz que trará nada além de prosperidade a todo o mundo e irá por um fim a estes tempos de barbárie e crueldade desenfreada e impensada.
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