Guerra A Ruína - Capítulo: 57

Capítulo: 57

Azai.


Mais uma vez, os ensandecidos gritos de júbilo, urros animalescos de satisfação mórbida, misturaram-se a uma cacofonia de aplausos, bateção de mãos e pés e barulhos indistintos que ecoavam por entre os prédios carbonizados e casas destroçadas, a pilha de entulho e cinzas que servira como campo de batalha, a cidadezinha, uma vez que o último homem, um soldado qualquer que estava de olhos arregalados e coberto de suor, assustado momentos antes do alçapão abrir-se sob seus pés, fora executado, o estalo de seu pescoço partindo-se sendo ouvido mesmo pelas pessoas mais distantes do estrado quando o cadáver pendeu pendurado à corda.

Haviam outros pendurados, enforcados, pendendo de dúzias de postes que haviam sido erguidos no centro da cidadezinha, na praça, o cumprido estrado, onde foram lidas as acusações e onde as sentenças foram dadas e executadas para cada um daqueles homens, apinhado de cadáveres de rostos inchados e arroxeados. Os mortos, os enforcados, eram todos crasirianos, soldados os quais Azai vinha perseguindo durante semanas, os cavaleiros fugitivos de uma batalha anterior, aqueles que escaparam graças ao mago, ao assolador, e outros saqueadores que fugiram com a aproximação de Azai, uma vez que o Comandante-Mor vinha libertando, salvando incontáveis vilarejos e cidades, como aquela em que estava naquele momento, em seu caminho, exterminando qualquer soldado inimigo ou fora-da-lei durante este tempo, ambos os grupos de malfeitores vindo a juntarem-se no mesmo grupo.

Aquela fora a última batalha deles, a última esperança dos crasirianos, o assolador, que parecia ser o oficial em comando do esquadrão, vendo-se forçado a liderar seus homens, sendo que o número deles não parava de cair, num confronto contra a tropa do Comandante-Mor naquela cidadezinha, o resultado disto, embora não tenha sido alcançado sem alguma dificuldade, sendo a já inevitável queda do esquadrão crasiriano.

Azai havia enviara parte de sua tropa adiante depois da fuga dos cavaleiros, para frente dos crasirianos, bem ao seu caminho, dando-lhes a ordem de impedirem que os inimigos voltassem a Meia-Ponte, barrando-lhes qualquer rota que levasse-os a esta cidade, enquanto o grosso de seus soldados perseguiam os inimigos, o Comandante-Mor armando emboscadas durante todo o trajeto dos crasirianos, enviando incursões noturnas ao seu acampamento, posicionando seus homens de forma que encurralassem- os, deixando-os expostos, e assim diminuindo o números de inimigos a cada dia, levando-os de centenas pra dezenas, até que o assolador decidiu enfim parar de fugir, não vendo qualquer futuro para ele ou seus subordinados nessa estratégia, preferindo arriscar-se na chance minima de sucesso num confronto direto uma vez que os namorinos tinham melhor conhecimento da área e estavam guiando-os quase com perfeição num caminho mortal, para utilizarem de emboscadas e armadilhas (o natural contra um número de perseguidores tão superior). O assolador conseguiu atravessar uma brecha nas fileiras namorianas com ainda cerca de setenta de seus soldados, seguindo para aquela cidadezinha, a qual tomara sem muita dificuldade numa única noite, e lá ergueram sua defesa.

Quando Azai cercara o alvo com toda sua tropa, recebera exigências do mago para que deixasse-os fugir, caso contrário ele mataria cada um dos habitantes do lugar. Azai tivera pouco tempo para decidir qualquer coisa, os crasirianos ameaçando matarem um civil a cada hora a a partir da meia-noite, quando Comandante-Mor enviou então, contando com a exaustão e o desespero dos inimigos, assim que as sombras começaram a estenderem-se com o cair da noite, seus melhores batedores com o auxílio de uma série de cintilantes, um destes grupos, inclusive, liderado por Yago, para que libertassem os prisioneiros enquanto fingia considerar a proposta. Após uma série de gargantas cortadas, dardos disparados das sombras e passos rápidos e abafados, felizmente, logo ondas de civis começaram a emergirem dos esgotos, liderados pelos soldados de Azai e o Comandante-Mor pode enfim investir contra os crasirianos.

A batalha fora não durara muito mais que duas horas, os cavaleiros inimigos mostraram-se ainda mais cansados do que Azai esperara e seus homens não tiveram dificuldades contra eles. O assolador, porém, fora um oponente mais digno, erguendo paredes de chamas, conjurando fumaça e armas de todos os tipos, lutando até o fim, quando Azai trespassou seu coração com Camponesa, matando-o com as próprias mãos após um grandioso e longo embate, o Comandante-Mor desviando-se e protegendo-se de incontáveis feitiços ao investir contra o mago, que não demonstrara-se menos eficiente em combate a curta distância, conjurando sua própria arma, uma espada flamejante, com a qual lutou contra seu oponente, Azai, o assolador trocando golpes com sua lâmina ao mesmo tempo que conjurava seus feitiços visando parar o Comandante-Mor de uma vez por todas.

— Acho que esta é a última. — Comentou Jéssica, suspirando. — Agora esta área, estas pessoas estão livres da preocupação quanto a inimigos invasores e bandidos.

— Isso não é verdade, afinal, Meia-Ponte ainda está em mãos crasirianas. — Retrucou Caleb, franzindo as sobrancelhas. — O povo não estará livre de inimigos até que esta guerra chegue ao fim.  Concluiu, levantando o queixo e cruzando os braços.

— Certo, de onde você está copiando esta fala?  Perguntou Jéssica.

— Eu não estou copiando!  Respondeu o íncubos, zangado. Sussurrando, concluiu: — Estou fazendo uma referência...

— De qualquer forma, Caleb tem razão quanto a Meia-Ponte.  Disse Azai, dando meia volta, deixando a praça.  Preparem todos. Partiremos em três hor...

— Libertador!  Interrompeu-o um homem, uma harpia que saltou em seu caminho, ajoelhando-se frente ao Comandante-Mor, aos prantos.  Obrigado... Obrigado por nos trazer justiça. Obrigado por nos trazer paz. Obrigado por nos trazer liberdade, Libertador!

— Levante-se, homem. — Disse Azai, estranhamente orgulhoso por, pela primeira vez em sua vida, ter recebido agradecimentos pelo seu trabalho.  Eu apenas cumpri com meu dever.

— Então você é o único em Namória que o faz.  Retrucou uma mulher saindo da multidão que aglomerava-se ao redor da cena. Ela estava coberta de fuligem e marcada por machucados recentes no pescoço e ao redor dos olhos e da boca, carregando uma criança tão suja quanto ela própria. Esforçando-se por conter as lágrimas, continuou: — Estes desgraçados invadiram minha vila... quatro meses atrás. Quatro meses e ninguém enviou ajuda. Quatro meses de violência e terror. Vi meu marido ser morto na minha frente. Eu... sofri muito, assim como todas estas pessoas comigo aqui hoje. Já não tínhamos mais esperanças, pensamos que seríamos massacrados quando eles se cansassem de nós, quando nos tirassem tudo o que possuíamos até a última gota, como vinham fazendo com as outras vilas. Mas você chegou em nosso resgate... E nós sabemos.  Disse a mulher, seu último comentário chamando a atenção de Azai.  Sabemos pelo que você teve de passar o que você fez para vir nos ajudar pois, ninguém mais viria.

— Estupraram e mataram minha esposa. — Disse um elfo musculoso também aproximando-se, com o típico olhar vazio dos traumatizados, seu corpo sujo por um muco fedorento. Um daqueles que fugiram pelos esgotos. — Estupraram e mataram minha filha. Você os matou.

— Libertador! — Gritou um outro alguém, uma figura invisível em meio à multidão, uma voz anônima que falava por tantas outras.

— Minha cidade foi liberta por você!  Comentou alguém de algum lugar da multidão.  Você nos salvou quando todos os outros haviam nos dado as costas!

— O senhor soldado quase foi executado por desacatar as ordens de seus superiores em prol do povo comum de um pequeno vilarejo, encarou de frente os Mestres e militares de alta patente e agora luta por nós.  Apontou um outro anônimo, esclarecendo a dúvida levantada a Azai momentos antes. De alguma forma, a história da trajetória do Comandante-Mor tinha chegado até ali, até aquelas pessoas. — És um herói!

— Libertador!  Ecoou o grito, repetido por outra pessoa e depois outra e ainda depois por mais uma.

A exaltação retumbante espalhou-se pela multidão e logo todos gritavam como um só, bradando a Azai, o Libertador, as pessoas aproximando-se para tocá-lo, chorando, agradecendo e prostrando-se ao Comandante-Mor, cada um deles com sua própria história de infortúnio, infelicidade e pela salvação que chegou pelas mãos de Azai, e unidos por este motivo.

Envolto na gratidão daqueles que salvara, certo de que sua espada era brandida, que ele tirava vidas por um bom motivo, Azai não pôde deixar de sentir-se verdadeiramente certo, realizado, porém, seu coração ainda contorcia-se, pesaroso sob o emaranhado de reflexões que o Comandante-Mor então fazia questão de ouvir, uma em particular fazendo-o sentir-se apenas ainda mais melancólico com a visão daquelas pessoas que o cercavam, agradecidas: a certeza de que outras inúmeras pessoas ainda viriam a ser envolvidas na guerra, civis inocentes da ganância de seus líderes. Azai sabia que, independente da quantidade de vilarejos e cidades ele próprio salvasse, muitos outros viriam a cair, independente da quantidade de pessoas que ele salvasse, muitas outras sofreriam e morreriam. E isto de ambos os lados da guerra.

Enquanto uma família prostrava-se aos seus pés, aos prantos, agradecendo pela justiça trazida aos invasores, Azai lembrou-se de uma outra família muito parecida com aquela, um homem, uma mulher e uma jovem, que ele encontrara a muitas centenas de quilômetros dali, do outro lado da Cordilheira Gris, nas ruínas de uma casa no meio de plantação carbonizada. A mulher e a garota gritavam muito alto enquanto os soldados revezavam-se para estuprá-las.

Por um momento, veio-lhe à mente também uma imagem de um de seus companheiros que disse já ter tido uma família muito parecida com a daquela vez, um estimado companheiro que morrera em combate sempre fiel, um homem bom e gentil que morrera por uma causa tola e egoísta.

Trincando os dentes e fechando os punhos, enfurecido como nunca, irado consigo mesmo por ter sido ignorante por tanto tempo, por ter fechado seus olhos e aceitado todas as desculpas e justificativas que aqueles acima lhe davam, Azai lembrou-se então da tarefa que havia sido incumbido, de seu dever. E, como estava determinado a fazer, decidiu verdadeiramente cumpri-la, mesmo que estivesse ciente de que não fosse esperado que ele fizesse-o da forma como pretendia:

— Eu passei a maior parte da minha vida no exército.  Disse o Comandante-Mor, a multidão silenciando-se quase que por completo num instante ao som de sua voz, apenas soluços chorosos e os barulho da respiração daquelas centenas de pessoas sendo ouvido quando continuou, aquelas pessoas tornadas de repente num público atento a cada palavra dita por Azai: — Lutei inúmeras batalhas contra inúmeros inimigos e vi sangue o suficiente derramado para me afogar nele. E eu sei, sei que vocês sentem-se perdidos, cheios de ódio, sei que vocês querem se agarrar a alguma coisa, que precisam tirar forças de algum lugar para seguir adiante, mas não entreguem-se a isto, a este sentimento. Jamais. Não deixem que os outros lhes apontem uma direção e digam-lhe o que fazer, não deixem que os outros pensem por vocês, não aceitem suas palavras como inquestionáveis. Pois é assim que as guerras começam. É assim que isso tudo começou.

Ainda quando Azai retomou seu caminho, seguindo para sua tenda para preparar-se para a partida, depois de terminar de falar, o silêncio perdurou, tanto entre o povo que aglomerara-se na multidão, as vítimas de cidades e vilarejos assolados pela guerra, quanto entre os soldados, rostos pasmos, cheios de medo, como se ao dizer aquelas palavras, o Comandante-Mor tivesse cometido um crime, quebrado um tabu. Mas ele pôde ver também, por trás das máscaras de espanto, do medo relutante, um brilho esperançoso em cada um daqueles olhares, um verdadeiro sentimento de admiração queimando dentro de cada uma daquelas pessoas.

Azai, à frente do grosso de sua tropa, antes de ver as muralhas da cidade, viu primeiro o resultado de um mundo de batalhas que jamais conhecera, cadáveres de harpias e vampiros caídos, destroçados ao chão, espalhados por sobre a estrada e pelos campos. Viam-se corpos mortos de soldados de ambos os lados, porém era evidente que o número de baixas crasirianas fora maior que as baixas namorianas.

— A missão fora cumprida sem grandes perdas, senhor Comandante-Mor. — Relatou o homem que batia continência a Azai, um Maioral-Mor de sua tropa, responsável por um grupo de alados. O homem tinha uma bandagem em volta da cabeça manchada por uma grande forma vermelha onde ficava sua orelha direita e sua espada curta ainda pingava sangue a suas costas. — Estávamos num número muito maior quando nos aproximamos da cidade e começamos a disparar contra aqueles nas muralhas, então ambos os grupos de alados inimigos, diurnos e noturnos, foram forçados a virem contra nós. Os alados não atrapalharão a retomada da cidade, senhor Comandante-Mor.

O Comandante-Mor e sua tropa estavam acampados a pouco mais de dois quilômetros das muralhas, fora do alcance dos atiradores e magos inimigos, dos canhões e de todas as defesas da cidade, a tenda de Azai no topo de uma alta colina, com vista para a muralha adiante, a construção que cercava Meia Ponte, a maior cidade daquelas bandas, uma das maravilhas arquitetônicas das construções ancestrais de uma outra era, quando cada cidade era uma capital e cada horizonte era um outro país. Localizada à beira de um planalto próximo à Cordilheira Gris, a cidade fora construída de fato sobre o planalto em apenas sua metade, a outra metade em pé sobre uma larga e bela ponte cheia de arcos que estendia-se para sobre o abismo abaixo por quase duzentos metros, o castelo da cidade (na verdade, mais próximo a uma torre) ao fim da ponte, voltado para o leste, para a floresta adiante e abaixo. Apesar de toda sua beleza e imponência, as feridas causadas pela invasão crasiriana ainda eram recentes e não haviam sarado, casas carbonizadas, crateras causadas pelo disparo de canhões e destroços apinhando as ruas por todas as partes.

— Bom trabalho, senhor Maioral-Mor, agora descanse. — Respondeu o Comandante-Mor, dispensando o homem com um gesto de cabeça, voltando-se para aqueles que reuniam-se a sua tenda. — Reféns?

— Nos fora relatado que ainda haviam civis na cidade, mas até então (estranhamente) não fora feita qualquer ameaça ou exigência por parte de seus ocupantes, senhor Comandante-Mor. — Respondeu Caleb.

— E a falha? — Tornou a perguntar Azai, referindo-se à fenda aberta pelos crasirianos durante a invasão da cidade na muralha semicircular  que cercava a cidade.

— Ainda aberta. Aparentemente, os inimigos desistiram da ideia de repará-la, mas construíram uma série de poços secos, barreiras e outras armadilhas e obstáculos.

— A tropa inimiga está concentrada lá? Identificaram assoladores entre eles?

— Não, senhor Comandante-Mor, os crasirinos estão bastante bem distribuídos pelas muralhas, torres e em outros pontos da cidade, como nossos cintilantes puderam garantir utilizando de marionetes voadoras que conjuraram. — Respondeu Jéssica, falando pelos magos da tropa. — Também não identificamos assoladores entre suas fileiras... um sequer.

— Estão disfarçados, hein? De qualquer forma, podemos supor que, uma vez que a parte mais vulnerável de suas defesas não possui a maior concentração de soldados, lá estão os assoladores, ou, ao menos, a maior parte deles. E os portões?

— Bloqueados, senhor Comandante-Mor. Empilharam entulho em muitos metros atrás dos portões e também no interior cercaram a área ao redor deles com uma grande barricada em semicírculo, atrás da qual os soldados posicionam-se.

Com a imagem de Adriel trazendo a muralha de Serenia abaixo com as serpentes de aço que conjurara vindo à mente, o Comandante-Mor lamentou-se por não ter a companhia do velho cintilante, sabendo que nenhum outro mago de sua tropa, não, em toda Namória, não no mundo (com exceção de uma única mulher) conseguiria igualar o feito. Enquanto organizava as informações em sua cabeça, tentando formular um plano, Azai perguntou, voltando-se para cada uma das pessoas à sua tenda, para os soldados que serviam de guarda nos cantos, para Caleb, Jéssica e para os outros oficiais que o cercavam:

— Alguma ideia?

— Esgotos?  Comentou um Maioral-Mor.  Nossos batedores mostraram-se bastante eficientes em tratando-se deles. Talvez pudéssemos os enviar durante a noite e atacar por dentro e por fora ao mesmo tempo. Causar uma distração ou fazê-los cuidar das forças na fenda da muralha.

— É impossível para nossos soldados aproximarem-se o suficiente da tubulação do esgoto sem serem vistos pelos inimigos nas muralhas e torres. Da última vez que o fizemos, foi numa cidade que, na verdade, era pouco mais que um vilarejo, você sabe, não fora projetada para resistir a invasões e tomadas... Como Meia Ponte foi. — Retrucou outro oficial. — Nossas forças são de mais de vinte e cinco mil soldados, temos mais de duas vezes os números do inimigo (graças aos ataques aos grupos de invasores que o senhor Comandante-Mor veio liderando, é claro), devemos simplesmente investir com nossas forças contra a brecha na muralha.

— Vantagem numérica de nada adiantará se nos afunilarmos dessa forma! — Comentou o Maioral-Mor anterior. — Ficaríamos vulneráveis demais às armadilhas e aos crasirinaos dessa forma.

— Os cintilantes não podem conjurar uma rampa para nossas tropas subirem as escadas? — Perguntou Caleb, voltando-se para Jéssica, que o respondeu balançando a cabeça de um lado para o outro em "não".

— Essa muralha tem mais de vinte metros, está muito além do limite da área de conjuração de qualquer um de nós. — Comentou a maga.

— Certo.  Disse Azai, pondo um fim ao burburinho da discussão que começava a aumentar entre os oficias, que debatiam sobre a melhor estratégia e planos a se seguir.

— Iniciaremos um bombardeio com nossos canhões contra a fenda na muralha, os portões e os crasirianos que os guardam antes do entardecer, quando enviaremos vampiros com o objetivo de desestabilizar as tropas inimigas. Jéssica, os cintilantes não lutarão diretamente desta vez. Ordene-os a usarem somente de seus fantoches voadores como apoio aos vampiros. A este ponto, os portões já devem ter sido destruídos, caso contrário, o envio das tropas aladas noturnas será adiado. E, quando o caos começar, liderarei o grosso da tropa adiante, e atacaremos a ambos os pontos, a falha na muralha e os portões.

— Sim, senhor Comandante-Mor!  Responderam todos ali em uníssono.

Haviam mil canhões disparando incessantemente desde as quatro horas da tarde, quinhentos posicionados contra a falha e quinhentos posicionados contra os portões, as balas de canhão zunindo em todo seu trajeto no ar até caírem, estrondosas, sobre seus alvos, levantando nuvens de poeira. A madeira e o aço, as tábuas rebitadas e as grades atrás destas, os portões da cidade ao fim da estrada, já haviam sido reduzidos a pouco mais que detritos insignificantes após duas horas de bombardeio constante. Até a pilha de entulho atrás dos portões havia sido afetada pelos canhões, grande parte dela então tornado em pouco mais que pó, o antigo obstáculo agora apenas um pequeno aclive de alguns metros, uma rampa.

A ordem de cessar fogo só chegou duas horas depois do cair da noite e com a ordem de avançar, quando os soldados alados enviados, depois de uma longa e árdua batalha, os vampiros, com o suporte das marionetes dos cintilantes, lutando mesmo contra assoladores que, como o esperado, estavam disfarçados entre os soldados da fenda, finalmente chegaram ao topo da muralha, tomando controle da fenda e dos portões, e deram o sinal previamente combinado.

Azai seguiu rodeado de soldados, montado em Milagre e com Camponesa empunho à frente de todos, a tropa inteira movendo-se como uma só até que ficaram a apenas duzentos metros da muralha, quando as forças namorianas dividiram-se em duas, cada uma seguindo para uma das entradas da cidade, o Comandante-Mor dirigindo-se à fenda. Azai seguiu pelas ruas brandindo sua lâmina à esquerda e à direita, abatendo inimigo atrás de inimigo, disparando seus revólveres contra os crasirianos nos telhados, que tentavam pega-lo e a seus soldados, ao mesmo tempo que gritava as ordens a serem repassadas. Deu a Yago a liderança sobre um grupo de soldados e os enviou junto dos vampiros à frente, ao castelo ao fim da ponte, reorganizou seus soldados no centro da cidade, numa larga avenida, guiando-os, imparáveis, adiante, atrás de Yago e dos vampiros, muitos dos inimigos preferindo saltar da ponte para o abismo a lutar contra aquela força incomparável. Ordenou que as marionetes dos cintilantes voltassem suas atenções aos inimigos fugitivos e aos oficiais que tentavam reorganizá-los.

Logo o Comandante-Mor e sua tropa chegaram à praça ao fim da ponte e ao castelo depois desta, onde Yago e seus soldados e os vampiros já concluíam com seus conflitos, os alados tendo invadido pelos andares superiores do castelo enquanto Yago e os seus tomavam os andares inferiores, o combate, os últimos vestígios de resistência, cessando-se por completo uma vez que o grosso da tropa de Azai juntou-se à batalha.

— Ragh! — Grunhiu Azai, retirando Camponesa do cadáver à sua frente, voltando sua atenção então aos passos que aproximavam-se às suas costas, quando virou-se, apontando um dos revólveres ao homem que surgiu. Tornando a guardar a arma no coldre, Disse:  Senhor Maioral-Mor Caleb, o que foi?

Senhor Comandante-Mor Azai.  Respondeu o íncubos, limpando o sangue que impregnava sua cimitarra na manga do casaco antes de colocá-la de volta a bainha e bater continência, continuando então: — A retomada de Meia-Ponte foi um sucesso! Também fora localizado, no calabouço do castelo, um grande número de civis, senhor Comandante-Mor, estima-se que hajam lá, pelo menos, cinco mil deles. Alguns apresentam ferimentos ou sinais de fome e tortura e estão sendo tratados pelos nossos cintilantes azuis e médicos agora mesmo. Além disso... o Senhor-de-Armas Yago fez um prisioneiro, um crasirino que redeu-se e fala namoriano, e, bem, ele diz ter uma mensagem... para o rei.

Nenhum comentário:

Postar um comentário