Capítulo: 56
Álex.
— ...Começo a me arrepender de um dia já ter desejado ver neve... — Comentou Álex, puxando o cobertor para mais próximo de si com ambas as mãos, tanto a de carne quanto a metálica, a manopla de aço que rangia a cada movimento e abrigava o cilindro de Ruína.
— Não diga que eu não lhe avisei. — Respondeu Miranda, baforando as mãos e esfregando-as.
As Três brilhavam então a toda força nos céus noturnos, agraciando a tudo abaixo de si com suas luzes, refletindo sobre a neve que cobria a tudo, brilhando tanto quanto as estrelas lá do alto ao refletir esta luz prateada, toda a campina de colinas ondulantes e, em outras épocas do ano, verdejantes, e as ruínas onde os fugitivos abrigavam-se, uma velha construção visivelmente há muito abandonada, uma alta torre inclinada de forma assustadora e bastante degradada por conta das décadas de negligência e das intempéries, porém, ainda assim, um abrigo seguro e quente, um teto sobre as cabeças daquelas pessoas cansadas. A paisagem era de um frio e pálido espelho sob um domo de escuridão.
Álex e Miranda haviam acendido sua fogueira num dos andares superiores da torre, tomando o cuidado, assim como o resto do grupo, de manter descrição e controlar as chamas, evitando chamar a atenção para o abrigo. Estavam na única construção visível num raio de centenas de quilômetros, o que sem dúvida chamaria a atenção de qualquer um na área, mas nem por isso ascenderiam chamarizes flamejantes que indicassem sua localização gratuitamente aos cratenses. Ainda assim, as demais fogueiras estavam mais distantes, pelo menos um andar abaixo, e não por conta da inclinação da ruína ser mais perceptível nos níveis mais altos.
Havia mesmo então, durante os acampamentos noturnos, as pausas e refeições, uma distância ou apreço, um silêncio respeitoso, uma admiração ou temor dos demais para com os magos, principalmente para com Álex, a quem os fugitivos começavam a chamar, em suas muitas línguas, por motivos óbvios, por nomes como "Mestre da Sombra" ou "Senhor da Foice". Em outros tempos, Álex teria sentido-se jubiloso pela reputação, orgulhoso por seus feitos, pela estima e confiança que os fugitivos tinham nele, mas naquele momento não conseguia sentir nada além do peso da responsabilidade e um sentimento que recusava-se a dar atenção e vinha tentando suprimir em seu âmago desde o começo.
Ao fim da batalha no forte quadrado, haviam somente uma centena de ex-prisioneiros vivos, as centenas de cadáveres daqueles que morreram lutando por sua liberdade misturados aos corpos sem vida dos cratences por todos os cantos. Sentindo já o peso daquela única pequena fração de ruína, o cilindro, que, mesmo que não produzisse calor nenhum, parecia queimar quando em contato com sua pele e esquentava muito, mesmo cuidadosamente embrulhado, o fantasma sabia que não poderia levar mais consigo, afinal, mesmo que pedisse que Miranda pegasse uma outra fração do crânio, o peso, a atmosfera criada pelo pedaço que Álex carregava já era o suficientemente exigente para todos o fantasma e todos aqueles que cercavam-no, mais podendo levá-los todos à loucura. Álex ordenou então que todos pegassem somente o necessário, armas, armaduras, roupas, comida e água, e concentrassem os barris de pólvora na sala de estudos que servira de campo de batalha no último confronto do local, ouvindo então pela segunda vez aquela voz que traduziu suas instruções da última vez e, uma vez a ordem cumprida, incendiou todo o forte. Quando as chamas alcançaram a pólvora, de uma vez só, o forte fora destruído, implodido numa nuvem negra de fumaça e chamas da qual chovera escombros, soterrando a Ruína em vários metros de rocha no topo daquela montanha perdida.
Por sorte, haviam montarias o suficiente para todos nos estábulos do forte quadrado. Depois de um dia de viagem, o grupo seguindo Álex e Miranda, mesmo que os jovens não tivessem qualquer objetivo em mente naquele momento além de afastar-se o máximo possível do forte quadrado e o mais cedo possível, um homem, um humano, apresentou-se ao fantasma. Ele se disse um marinheiro, um capitão de um navio mercantil... um contrabandista e traficante chamado Dilian, que já trabalhou em todo o mundo conhecido (e além) e por isso falava muitas línguas. Álex relutou, porém o homem disse conhecer um porto secreto que costumava utilizar quando atracava em Crát que não ficava a mais do que duas semanas de viagem dali, e poderia lá arranjar uma embarcação para tirá-los daquele país. Como o fantasma não fazia ideia de como voltar para Nova Crasíria, resolveu então seguir o caminho indicado por Dalian, para o sul, e assim vinha fazendo. Há três semanas.
— A neve nos atrasa. — Disse o fantasma, carrancudo, enquanto encarava a campina abaixo e adiante da janela.
Tornando-se ao fantasma, as bochechas e o nariz vermelhos pelo frio, Miranda retrucou, com um sorriso forçado nos lábios:
— É verdade. Mas, é linda, não acha? A paisagem que nos cerca, eu digo.
— Não sabemos quando pode aparecer um grupo inteiro de combatentes cratenses atrás de nós, não temos tempo para admirar a paisagem. Temos de nos movermos sempre, e nos movermos rápido.
— Você vem se esforçando demais, Lex. Por favor, tente relaxar um pouco, ou você vai acabar quebrando. — Não conseguindo qualquer resposta do fantasma, Álex apenas franzindo ainda mais as sobrancelhas enquanto esquadrinhava o horizonte, Miranda continuou: — Eu sei que você vem dando tudo de si por nós, por mim, e que você está preocupado, mas eu também me preocupo com você, Léx.
— Obrigado, Miranda. — Respondeu o fantasma forçando-se a sorrir. — Mas eu estou bem. Vá dormir, amanhã será um dia longo.
— ...Você não precisa fazer tudo isso sozinho, sabe. — Frente a Miranda a visão do fantasma, Álex, o rapaz alegre e gentil que conhecera a tempos estava então com o cansaço deformando-lhe as feições, seu rosto envelhecido em anos, seus ombros caídos e seus olhos, que ela lembrava-se como reluzentes jóias castanhas que brilhavam com sua vividez e honestidade, então lentes opacas e frias, melancólicos botões escuros que nada refletiam além do intenso pesar que atormentava a alma atrás deles. — Não precisa suportar toda a dor sozinho, guarda-la toda para si. — Miranda não percebera quando começara a chorar, dando-se conta somente agora das lágrimas que escorriam por sobre suas bochechas, geladas, tocavam seus lábios, salgadas, e pingavam de seu queixo, pesadas. — Eu pensei que você tinha superado essa fantasia ridícula de heroísmo e aventura, então por que você continua a agir todo legal assim, seu idiota!? Você não é um herói trágico que tem de levar o mundo nas costas! Eu estou aqui, sabe, estive aqui desde o começo...! Você não foi o único que sofreu, não foi o único que se odiou pela própria fraqueza, não foi o único que mudou em todo este tempo, droga... Eu gosto de você, Álex, então não me trate como um estorvo. Eu também quero te salvar.
Como se tivesse voltado a ser apenas um garoto, toda a experiência adquirida até ali, naquele momento, não ajudando-o de nada, Álex desviou o olhar da lebromem, passando os olhos por todo aquele cômodo mal iluminado da torre antes de, por fim, comentar sem jeito, sentindo-se corar, envergonhado:
— ...Pensei que você gostava do professor Nícolas.
— Eu nunca gostei dele. — Retrucou Miranda, enxugando as lágrimas nas mangas da roupa, forçando-se a encarar o fantasma, quase incrédula por ele não ter percebido suas intenções mesmo naquele ponto. — Ele é um bom professor, sem dúvida, além de o melhor alquimista e também médico de toda Nova Crasíria, é inteligente, habilidoso e bonito, eu não nego. — Disse, percebendo o incomodo de Áléx apenas aumentar a cada elogio que fazia ao draconiano. Não pode evitar de sorrir tanto por causa das reações do fantasma, aquelas, ao menos, as mesmas que o garoto que ela conhecera no passado faria, quando pelas próprias. A Miranda do passado, afinal, simplesmente não suportava as verdades, sempre fugindo, sempre derrotada pela melancolia e depressão, derrotada pelas às dificuldades, escondendo-se atrás das próprias lágrimas, estas que derramava apenas por si mesma, uma covarde que não apenas recusava o mundo ao seu redor como também aos próprios sentimentos, sem nunca tê-los expressados ao seu amado. A lebromem daquele instante sabia que sua antiga "eu" teria quebrado em muitos pontos de sua jornada. A lebromem daquele instante sabia que sua antiga "eu" não teria conseguido se confessar da foram como fez a seguir: — Mas quem eu sempre amei foi você, Álex. Eu apenas falei aquilo para te deixar com ciúmes, mas, bem, tapado do jeito que você é, você acabou não percebendo. Ao contrário, ao invés de você sentir-se ameaçado por Nícolas, sentir que me perderia, você torceu por mim... Você continuou a gostar da Presidente. Diga-me, Álex, você ainda prefere a ela do que a mim?
Por um instante, Álex não sentiu-se envergonhado ou confuso e soube exatamente o que fazer e o fantasma permitiu-se esquecer-se de tudo o que vinha lhe desgastando tanto, e deixou-se levar pelos seus instintos, pelos seus sentimentos, aqueles mesmos que vinham crescendo desde os tempos na floresta, enquanto ambos os jovens ainda eram perseguidos pelo grifo. O beijo fora toda a resposta que precisara dar a Miranda.
— Eu não consigo tirar as imagens da minha cabeça, Miranda. — Confessou o fantasma, puxando o cobertor para mais perto de seu corpo nu e coberto de suor, sentindo o vento gélido soprar da janela para arrancar os resquícios de calor que guardavam sob as peles das quais os jovens cobriam-se. — Eu fecho os olhos e vejo as imagens, aquelas imagens de terror. Eu me digo para mim mesmo que não sinto nada, que não me arrependo por nada, que o que eu fiz foi o correto, tento enterrar tudo bem no fundo, mas as imagens sempre voltam para me atormentar. Eu ainda posso escutar o som de "creck" de ossos se partindo sob golpes violentos, o burburinho do sangue saindo de dentro de corpos, vivos e mortos, e os gritos desesperados de pessoas que não querem perder a vida. Eu ainda posso sentir o fedor do sangue misturado com todo o tipo de excremento, da pólvora queimada que espalha-se no ar cada vez mais a cada novo disparo. Eu ainda posso sentir a resistência da carne contra a lâmina empunhada no ataque. Eu ainda vejo o momento em que as pessoas deixavam de ser pessoas e tornavam-se apenas pilhas de carne, quando os corpos tombavam sem vida.
Apertando-se contra o peito do fantasma, compartilhando seu calor com ele, ainda um pouco ofegante, passando os dedos por sobre o exoesqueleto negro que cobria-o exatamente na forma de seu endoesqueleto, pelos seus músculos recém-adquiridos e pelas muitas cicatrizes, a lebromem respondeu-o:
— Não havia outra escolha. Eles fizeram coisas horríveis conosco, nos capturaram, e nos matariam em seus experimentos cruéis com o tempo. E matariam também a muitos outros depois de nós da mesma forma. Você matou e sentiu-se culpado por isso, Léx, mas é o que lhe diferencia deles, o que faz com que você você mereça continuar vivo. E eu também. Eu sei do que você está falando. Matar alguém, isso marca a pessoa. Mas você não deve fingir que isso nunca aconteceu ou que não sente nada, se não você não vai ser diferente deles no final. Branda sua arma, lute, mate se necessário, mas lembre-se do que você sente agora, para que isso permita que você siga em frente, lamente, mas jamais arrependa-se. Talvez todas aquelas mortes não fossem inevitáveis, mas eram necessárias. Você não fez nada de errado, mas lembre-se do que fez.
— ...Miranda, o que você acha que é amadurecer? — Perguntou de repente o fantasma, sério.
— Amadurecer é aprender, Léx. — Respondeu a lebromem, tão séria quanto o rapaz. — É ter coragem de olhar para trás e reconhecer o que você fez e então esforçar-se para da próxima vez, dalí em diante, fazer da melhor forma.
— Você é forte. — Comentou Álex, fechando os olhos.
— Sim, eu sei. — Retrucou Miranda, ambos os jovens sorrindo em resposta, a lebromem encostando seus lábios e língua com a de seu amado, subindo sobre ele, risonha, e ambos mais uma vez voltando a atividade que antecedeu a conversa.
A nevasca, da mesma forma que atrasara o grupo, encobrira qualquer um de seus rastros durante os longos dias seguintes de caminhada. Seguindo na direção indicada por Dilian, os rebeldes fugitivos conseguiram evitar vilarejos e cidades no caminho, mantendo-se sempre afastado de estradas e de campos muito abertos, cruzando centenas de quilômetros, deixando a torre inclinada e as colinas para trás, a campina dando cada vez mais espaço para pequenos bosques, ilhas arborizadas cercadas por todos os lados por um descampado, até a orla de uma mata mais fechada e extensa, onde encontrarem- se com um rio, o qual seguiram por mais centenas de quilômetros mata a dentro, contornando penhas e descendo despenhadeiros sob o intrincado telhado de galhos secos sobre suas cabeças, abrigando-se do frio e de possíveis perseguidores sempre sob a proteção de cavernas ou fendas escuras esculpidas na rocha pelos anos ou a sombra de altos relevos, mantendo o fogo sempre baixo e fazendo pouca fumaça apesar do frio que gelava os ossos e sempre tentava-os a jogarem mais galhos às chamas; enquanto a comida não fora um problema em momento algum na jornada para ninguém além das peculiares montarias típicas do império, que tinham de saciarem-se com os galhos secos das árvores no inverno. E depois de quatro semanas de viagem, por sorte, o inimigo sem dar qualquer sinal em momento algum, Álex e o resto do grupo finalmente chegaram a uma parte mais larga e profunda do rio e à cidadezinha portuária na qual Dilian, o contrabandista, costumava atracar para descarregar sua mercadoria ilegal.
Ainda ficava a alguns quilômetros do mar, e o lugar não tinha nada da exuberância da capital do império de Crát, ou a beleza tradicional e simplista de seus vilarejos, mais parecendo-se com uma pequena favela qualquer, um aglomerado desorganizado de barracos feios e empoleirados uns sobre os outros na beira do rio, cercando um longo cais de madeira apinhado de galpões e outros prédios. Dos tortos e irregulares píeres, vários navios de médio e pequeno porte estavam atracados, simples embarcações a vela e remos sobre as quais marinheiros de aparência suspeita de todos os cantos do mundo bebiam enquanto jogavam cartas e dados ou trocavam gracejos com as prostitutas dos bordéis próximos.
Álex não tinha dinheiro, uma única nota (Crát sendo o único país em toda Asatna a utilizar dinheiro impresso em papel) para pagar por sua viagem, quem dirá por mais de cem pessoas, mas Dilian vinha se mostrando tão agradecido e admirado para com o fantasma tanto quanto qualquer um dos outros do grupo em suas conversas com o fantasma (o homem revelando-se um verdadeiro falador, parecendo ter uma fonte inesgotável de assuntos), que ouviram-no falar, as palavras deixando sua boca com uma atenção quase devota, o traficante prometendo, confiante, que conseguiria o navio prometido e levaria a todos de graça. E aquela era a única esperança de Álex, uma daquelas embarcações sombrias, de um dia voltar para Nova Crasíria, sua nação e terra natal.
Uma vez que as notícias da queda do forte quadrado não pareciam ter chegado até aquela cidadezinha, Álex supôs que o lugar deveria ser um segredo mesmo para os próprios cratences, o que era bastante lógico se pensassem que, apesar dos experimentos mágicos em pessoas serem repudiados em todo o mundo, Crát era um país escravagista, logo o que era feito dos escravos naquele lugar não era de real importância, o responsável sobre tamanho sigilo sendo, sem dúvidas, a grande quantidade de Ruína lá localizada. Ainda assim, deveriam haver soldados à procura dos rebeldes fugitivos, e o fantasma preferiu separar seus companheiros (ou seguidores) em oito grupos de treze pessoas e enviá-los por cantos separados em horários diferentes para a cidadezinha, evitando chamar a atenção com o grande número de pessoas, combinando de encontrarem-se todos nas docas, num grande galpão indicado por Dilian mais afastado dos demais, onde supostamente estavam aqueles que podiam transportá-los e seu navio.
O sol já havia dado espaço Às Três mais uma vez quando Álex, Miranda, Dilian e mais outras dez pessoas, o primeiro grupo por insistência do fantasma apesar da relutância daqueles que o seguiam em deixá-lo, adentrou a cidadezinha, deixando os gibões-guerreiros para trás, com os demais. A mistura de urros, grunhidos e outros sons inteligíveis ao fantasma, palavras e frases estrangeiras vindos de todos os cantos, das tavernas e bares, dos prostíbulos e hospedarias, das casas de ópio e becos onde eram vendidos drogas de todos os tipos, Álex supôs que fosse cratense, mas, na verdade, era uma mistura de uma centena de línguas faladas em uma centena de países diferentes, do extremo ocidente aos cantos mais longínquos de ilhas obscuras para lá do Pequeno Continente. O fantasma não sabia, e Dilian não se deu o trabalho de explicá-lo supondo que fosse óbvio, mas aquela cidade sequer estava nos mapas de Crát, inexistente ao governo (ao menos para as partes não corruptas dele) daquele país, o lugar todo sendo erguido pela mesma gentalha, criminosos e foragidos, piratas, traficantes e ladrões. Isso, porém, tornava apenas a situação verdadeira do fantasma e do resto do grupo pior do que eles imaginavam.
Logo Álex deixou o labiríntico emaranhado desorganizado de becos e ruelas sujas e tortuosas para trás, guiado pelo humano, que constantemente o avisava sobre os perigos ou contava-lhe as histórias deste ou daquele estabelecimento, muitas delas acabando sempre do mesmo jeito: o contrabandista e sua tripulação sacando as espadas e revólveres e começando um tumulto. Chegou às docas.
— É aquele ali. — Disse o humano, evidentemente alegre, indicando com um dedo um velho galpão de madeira próximo à margem do rio. Dirigindo-se ao lugar, ele continuou: — Sempre atracamos ali quando paramos aqui, em Crát. Geralmente, ficamos só alguns dias, vendemos um pouco, compramos um pouco e logo partimos, de volta ao mar e à vida de marinheiro, ao trabalho infindável, mas não tem muito tempo fomos pegos por uns corsários crasirianos enquanto tentávamos contornar o Continente de Gal pelo Sul quando voltávamos de Zuoya (um pequenino país do Pequeno Continente, insignificante se não fosse pelas excelentes ervas cultivadas lá). Conseguimos escapar por pouco, mas o ataque ferrou com a porra do meu navio (aqueles filhos da puta, piratas desgraçados!) e fomos obrigados a parar aqui para reparos, estes que, descobri, demorariam uma eternidade e meia para depois do prazo de entrega que havia sido estabelecido com o comprador das ervas que consegui em Zouya. Confiança é de suma importância no meu ramo, é claro, mas eu não tinha escolha, veja bem, não podia simplesmente comprar outro navio e levar a carga ao comprador, ou rezar aos Divinos Ralura e Relure que impedissem que as ervas estragassem, então eu, como um homem sensato, tomei a escolha óbvia: enquanto o navio era reparado, parti em busca de um novo comprador para a mercadoria o mais rápido possível. — Finalmente alcançando o galpão, Dilian empurrou as portas escancarando-as para o interior da construção enquanto completou: — Não consegui vender muito aqui, então parti para uma cidade próxima, mas lá, de alguma forma, acabei sendo preso pelos soldados que, depois que um esquisitão me examinou, me enviaram para aquele forte quadrado nas montanhas.
Haviam pelo menos sessenta homens lá dentro, que já estavam gritando pragas e maldições, prestes a puxarem os gatilhos de suas armas de fogo quando finalmente reconheceram, pasmos, seu capitão desaparecido. O interior do galpão era espaçoso, embora estivesse apinhado de tralhas, redes, beliches e fogueiras improvisadas que esquentavam o jantar. O navio estava ancorado num dique profundo e largo o suficiente dentro do galpão, aparentemente já pronto para zarpar, embora alguns homens ainda trabalhassem nos parapeitos, janelas, portas e outros detalhes, consertando dobradiças, colocando vidro, e substituindo a madeira danificada por novas tábuas ou lavando as manchas de sangue.
— Eu sabia que estes comedores de bosta ainda estariam aqui! — Comentou o humano, de braços abertos, gargalhando enquanto olhando para cada um dos marinheiros relutantes, logo em seguida aproximando-se de sua embarcação, admirado ao observá-la enfim reparada. — Ah, Jaqueline, é tão bom revê-la! — Disse, passando a mão sobre a madeira do navio.
— Dilian. — Comentou um ogro, aproximando-se de seu capitão relutantemente, embora apenas meio surpreso ao rever o homem. — Pensamos que você havia morrido ou sido preso e escravizado por estes cratenses. — Continuou, olhando de esguelha para Álex: — Ouvimos dizer que você foi capturado por alguns soldados.
— Ah, Poxi, há quanto tempo! Sim, é verdade, eu fui capturado... mas fugi! E graças a este xamã. — Respondeu Dilian, indicando o fantasma, que pensou que o nome significava apenas mais uma alcunha resultante de sua última performance sangrenta, sem saber que era o nome dado aos magos militares no Pequeno Continente.
Um burburinho irrompeu por entre os marinheiros, fazendo mesmo o ogro, Poxi, recuar alguns passos, um nervosismo evidente tomando conta de toda a tripulação antes já relutante, o fantasma supondo apenas que os magos tinham uma fama parecida em qualquer lugar de Asatna, sem perceber, porém, o homem que deixara o galpão, esgueirando-se por uma porta lateral.
— Fugiu, você disse? Como? — Retrucou Poxi.
— Por agora, tudo o que você precisa saber é que este chamam ergueu uma rebelião de prisioneiros e liderou-nos à vitória com seus feitiços, chamando monstros do ar e demônios das sombras. — Tornou a responder Dilian, de forma dramática e evidentemente ensaiada. — Viajaremos agora, de volta ao lar do xamã como prometi a ele, e, durante esta viagem, contarei-lhes a todos sobre este feito, detalhe por detalhe, então, por agora, apenas aguardem pacientes.
— É claro, capitão. — Disse o ogro, fazendo um sinal aos homens sobre o convés do navio, lá encima, continuando: — Mas nós também temos notícias a lhe dar: você não é mais capitão de merda nenhuma! — Completou, sacando sua espada, um sabre, e atacando o humano.
Álex mal percebera o atirador que pusera-o sob a mira até que a munição fosse disparada, o projétil seguindo veloz em direção a sua cabeça, repelido a pouco mais de um metro do alvo por uma repentina parede, conjurada por Miranda, que comentou, forçando um sorriso:
— Estou começando a ver vantagens neste mundo machista. Sempre esquecem de falar da mulher.
A lebromem saltou então, envolta pela aura azulada, impulsionando-se forte o suficiente contra o chão para estilhaçá-lo, rachando, partindo, pulverizando o concreto sob seus pés ao adiantar-se contra o atirador que disparou contra o fantasma. Quase no mesmo instante, seu oponente sequer tendo tempo de raciocinar, Miranda já estava cara a cara com o atirador, agachada sobre o parapeito do navio. Enquanto o soco desferido pela lebromem transformava a face, o crânio e o cérebro de seu oponente numa única geleia sangrenta, Álex observou o ambiente ao seu redor, vendo Dilian defender-se, esquivando-se e contra-atacando o ogro num embate feroz, faíscas voando cada vez que suas lâminas encontravam-se, a cada movimento uma enxurrada de palavreados em línguas desconhecidas ao fantasma saindo da boca dos dois, e os outros companheiros, os demais rebeldes fugitivos do forte quadrado, também atracando-se com os marinheiros amotinados.
Álex e os seus estavam em menor número e claramente em desvantagem, os marinheiros forçando-os num compacto círculo defensivo, cercando-os de todos os lados enquanto os atiradores os abatiam um a um. Álex pousou a mão boa sobre a manopla de aço no braço esquerdo, cheia apenas pela Ruína, sentindo a magia esquentar, formigar, fervilhando pronta para ser utilizada.
Quando os marinheiros chocaram-se contra as paredes do galpão e os móveis e as tralhas que abarrotavam todo o lugar, arremessados por uma vontade mística e invisível tão forte quanto a investida de um animal selvagem ou os intensos ventos do mar tempestuoso, um feitiço de força conjurado pelo fantasma, uma dúzia de ossos foram quebrados, línguas toradas fora pelos dentes de seus donos que fecharam-se repentinamente, e aqueles que não ficaram apavorados, pasmos com a incrível demonstração de poder do mago estavam desmaiados.
— Matem-nos! — Gritou Álex aos seus companheiros, esquecendo que sequer falavam a mesma língua.
Com o feitiço conjurado pelo mago, porém, mesmo que suas palavras não tivessem transmitido seu significado aos seus companheiros rebeldes fugitivos, suas intenções foram claras e o fantasma conseguiu incitá-los contra seus inimigos, agora com uma fúria ensandecida, embebidos pelo frenesi da batalha e uma forte confiança em Álex, chocando-se contra os amotinados de forma imponente, imparáveis, suas lâminas subindo e descendo implacáveis sobre os inimigos.
Conjurando as sombras, a fumaça que aglomerava-se, inconstante, formando um algo parecido com um manto sobre os ossos deformados de uma criatura monstruosa, o feitiço, a marionete original de Álex, o rapaz disse, nomeando a coisa:
— Repressor atroz, puna-os!
A marionete, num rápido bater de asas, aproximou-se de um grupo de oponentes, percorrendo de todo o trajeto de forma surpreendentemente rápida, mesmo com todo seu tamanho, cortando-os, separando seus corpos em dois num único golpe diagonal descendente, manchando o casco do navio de vermelho com o sangue esguichado dos seus corpos, agora, sem vida, transformando o pavor dos marinheiros amotinados em puro terror irracional, alguns deixando suas armas caírem ao chão enquanto fugiam, outros avançando ensandecidos, desesperados, ao ataque.
— Não recuem, seus vermes covardes, ou eu juro que eu os farei pagar por isso!
— Gritava o ogro, pressionado pelo humano, esforçando-se para manter a lâmina de seu oponente longe de si. — Malditos imprestáveis! Os matarei todos e formarei uma nova tripulação, vocês verão!
E a foice do repressor atroz caiu ao chão estridentemente, pesada demais para que a marionete segurasse-a com uma única mão, uma vez que a outra havia sido destroçada pelo disparar do canhão do navio, o projétil levando consigo, além do membro da marionete, grande parte da parede sul do galpão, abrindo um rombo na madeira que o erguia.
— Boa! — Comentou Poxi, caindo nas gargalhadas. Incentivando seus homens, que agora voltavam ao combate, retomando as armas caídas e tornando a encarar os companheiros do fantasma, completou: — A coisa não é invencível, vejam! Não temam, voltem agora e matem todos eles e eu os recompensarei com tesouros, mulheres e bebidas! Matem estes desgraçados! Matem-no chamam!
No mesmo momento que os marinheiros amotinados massacravam seus oponentes; matando-os a golpes poderosos e violentos de sabre ou com disparos certeiros de rifles, pistolas, arco e flechas e bestas, tornando a amontoa-los numa aglomerada posição defensiva até que sobrasse apenas Álex, Dilian, um único sobrevivente dentre os outros dez que seguiram com os jovens e o contrabandista, e Miranda, que voltou para o lado do fantasma saltando do convés da embarcação para novamente o chão do galpão, coberta de sangue dos pés a cabeça, como se o grupo já não estivesse suficientemente encurralado, pelo menos cem deles adentraram ao lugar pelas portas da frente num fluxo rápido e constante: soldados cratenses, liderados pelo marinheiro que saíra pelos fundos.
— Acabou, Dilian. — Disse o ogro por entre as arfadas, limpando o suor de sua testa. — Você nunca deveria ter fugido, "capitão", assim, quem sabe, você pudesse viver por uma década ou mais como escravo. — Continuou, enquanto os cratenses cercavam os quatro, seus oponentes, os soldados formando uma muralha de lanças abaixadas e escudos erguidos ao redor deles. Como eu planejei que acontecesse.
— Poxi, seu filho da puta, você me entregou!?
— É claro que sim. E por que eu não deveria? Eu ganharia quinhentos khin e ainda me tornaria o novo capitão do navio, afinal, depois da falha que você cometeu ao tentar contornar o Continente de Gal e conseguir nos deixar encurralados por aqueles piratas de merda, o resto da tripulação estava no mínimo ... suscetível a uma troca de liderança.
"Pessoas morreram na fuga, sabe, e o navio foi danificado demais para completar a viagem. Estava tudo ao meu favor, assim como está agora, acho até que a Galinha Ancestral está ao meu favor! — Respondeu Poxi, gargalhando jubiloso com a raiva que Dilian exibia com suas feições deformadas em ira numa feia carranca. — Louvada seja a Galinha ancestral! Mas, como o capitão generoso que eu sou, dou-lhe esta opção: renda-se, Dilian, e diga para estes xamãs fazerem o mesmo e eu lhes concederei uma morte rápi... — Dizia o ogro até que o aço gélido trespassou sua cabeça, interrompendo-o quando a lâmina entrou por entre seus olhos e saiu quase quinze centímetros por trás da cabeça, por dentre os cabelos do homem, a foice da marionete, cuja mão já havia sido re-conjurada pelo fantasma, agora refeita numa espada.
Antes que os soldados avançassem e os empalassem, Álex conjurou uma barreira de chamas ao redor dos sobreviventes de seu grupo, as labaredas erguendo-se a quatro metros de altura em todas as direções, queimando com tamanha intensidade que os dois cratenses azarados que foram pegos pelo feitiço foram carbonizados em segundos, enquanto o aço de suas armaduras escorria, derretido, ao chão, incandescente. Já coberto de suor, sentindo as chamas arderem sobre sua pele mesmo que as labaredas estivessem a cinco metros de distância de si, o fantasma conjurou então, visando acabar com os inimigos o mais rápido possível, uma serie de lanças de ferro, atirando-as logo em seguida contra os cratenses que o cercavam, em todas as direções, para trás da cortina ardente de labaredas.
Baixando as chamas, Álex não perdeu tempo em conjurar outras marionetes, um grifo e um minotauro, ambos armadurados, e guiá-las contra os cratenses. Sem que o fantasma percebesse, porém, as labaredas haviam se espalhado pelo galpão, as línguas ardentes das chamas tendo encostado nas ripas do teto, iniciando um incêndio. Enquanto os cratenses espalhavam-se, saindo de formação enquanto atacados pelas marionetes, um outro grupo adentrou o galpão, uma centena de pessoas que saltaram pelo rombo do canhão na parede, pela porta dos fundos e pela dianteira, por de trás dos soldados ocidentais: os demais companheiros e seguidores do fantasma, os rebeldes fugitivos do forte quadrado, assim o caos aumentando naquele campo de batalha.
O canhão tornou a disparar, mais uma vez acertando o repressor atroz, estraçalhando metade do corpo da marionete e destruindo o esqueleto humanoide que existia por debaixo do manto de fumaça. Álex regenerou a marionete num segundo, não contendo-se nem um pouco com o gasto de magia. Enquanto o repressor atroz brandia a enorme espada em poderosos golpes amplos, decepando mais membros e partindo mais corpos ao meio a cada novo movimento, o próprio fantasma tornou a conjurar as lanças de ferro, atirando-as contra aqueles ao canhão, contra os marinheiros amotinados, voltando-se logo em seguida aos demais inimigos, conjurando e disparando lança após lança, as lâminas das armas atravessando as armaduras dos inimigos um a um numa explosão de faíscas e sangue. De qualquer outro modo, Álex já estaria há muito desmaiado pelo uso consumo demasiado de magia, se não mesmo morto, mas não com a ruína em mãos, não com todo aquele poder, ele bem sabia.
Foi quando a madeira explodiu em fuligem e chamas, que Álex se deu conta do ambiente ao seu redor, do galpão em chamas como já estava, partículas incandescentes voando em todas as direções a partir da ripa carbonizada, fumaça embaçando a visão e queimando a garganta e o pulmão do fantasma, fazendo-o tossir e lacrimejar incessantemente.
— Para o navio! — Gritou Álex, forçando-se a ser ouvido por sobre o som do combate, da matança e dos estalos da madeira queimando.
— PARA O NAVIO! — Repetiu, Dilian, retirando sua espada de um corpo morto parando ali perto e repassando sua mensagem em outras três línguas.
Álex correu para a rampa da embarcação, cortando, empalando e esmagando qualquer um em seu caminho com suas marionetes, sem qualquer dificuldade durante a matança, chegando ao convés do navio, uma piscina de sangue onde repousavam uma dezena de cadáveres irreconhecíveis, corpos triturados e esmagados, os inimigos abatidos por Miranda, que também não tardou a subir a bordo, logo atrás do fantasma, à frente de Dilian, que não esperou para iniciar as tarefas necessárias para zarpar. Álex, apertando os olhos para ver através da fumaça, observando os demais companheiros recuarem, aqueles que sobreviveram à batalha contra os inimigos, que eram melhores equipados, que estavam em maior quantidade e que tinham melhor técnica. Apenas um terço dos sobreviventes tinha subido a bordo do navio, o contrabandista já gritando ordens a eles e estes as obedecendo, quando a rampa fora destruída, partida ao meio por uma parte do telhado do galpão, que começava a desabar.
— Temos que zarpar! — Avisou Dilian, segurando o ombro de Álex, que empertigava-se no parapeito da embarcação, controlando suas marionetes contra os inimigos, tentando inutilmente salvar os outros dois terços que não haviam subido a rampa.
— Não podemos abandoná-los! — Respondeu o fantasma, retirando a mão do humano de seu ombro num tapa feroz.
— O galpão logo desabará. Eles não podem mais subirem a bordo e os inimigos ainda são muitos. — Retrucou Dilian. — Temos que zarpar... — Insistiu, a dor visível em seu olhar.
Álex, trincando os dentes, sentindo um nó apertar-se em sua garganta, então assentiu lentamente, e o navio deixou o galpão para trás, seguindo para o rio e depois para o mar, a construção logo desabando numa nuvem negra à vista do fantasma.
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