Capítulo: 55
Octávio.
A noção de tempo enquanto seu corpo é dilacerado, rasgado, queimado, pregado, cortado e torturado de todas as outras formas possíveis não era precisa, mas Octávio sabia que estava preso lá, nas profundezas de um calabouço sob uma torre, numa prisão, há muito tempo. Desde o encontro do vampiro com a mulher de voz familiar Octávio vinha resistindo à tortura e à espera, a espera de que homens armados viessem salva-lo, de que uma turba invadisse aquela prisão e resgatasse-o, a espera de qualquer ajuda, qualquer milagre que tirasse-o dali, que toda sua agonia tivesse um fim. Podia apenas torcer para que não tivesse cedido aquelas informações para uma agente de Fernando, deveria ter esperança. Mas, esperança não é algo encontrado num calabouço, não na mente de uma vítima de tortura.
Aidna que o vampiro já não possuia nenhum dedo nos pés ou mãos, suas orelhas e dentes a muito removidos, o torturador certificando-se de fazer tudo bastante lentamente, furando e cortando e esfolando por muito tempo antes de enfim separar os membros do corpo, Octávio teve ossos quebrados, pele esfolada e testículos perfurados, esmagados e removidos, como se o corpo açoitado de Octávio já não causasse um sofrimento suficientemente terrível, o torturador resolvera então expandir sua área de atuação para todos os momentos, mesmo depois das sessões de tortura, prendendo o vampiro a parede com grilhões de forma que Octávio não se sentisse confortável em momento algum, de forma que sempre sentisse dor. Octávio ainda era bem alimentado e tratado medicamente, nenhum de seus ferimentos infeccionando em momento algum, o torturador tendo certeza de manter o vampiro vivo e saudável para o dia seguinte.
A mente antes sempre ativa do vampiro, a voz que sempre dizia para que resistisse, que a tortura logo chegaria ao fim e que tudo acabaria bem, sua força, era então apenas um sussurro débil e desconexo que não mais conseguia afastar a dor, definhando cada vez mais, dia após dia, tão torturada quanto seu próprio corpo. Octávio já não mais conseguia raciocinar direito, preso à escuridão e tormento por dentro e por fora, simplesmente exausto, cansado. Derrotado.
Muito tempo havia se passado e ele resistira bastante, mesmo o orc torturador admitira isso, que a força de vontade do vampiro era impressionante, que jamais havia alguém durado tanto de boca fechada em suas mãos (ao menos não alguém que não tivesse sido treinado para resistir), Octávio tendo somente a esperança de que a qualquer momento seus aliados resgatariam-no, de que aquela seria a última vez, que apenas deveria aguentar mais alguns instantes, só mais um corte, só mais uma pancada, só mais uma queimadura, perfuração, torção, lanhura. "É inútil", pensou em meio ao turbilhão de dor e agonia que ali nunca o abandonavam, tumultuando dentro de si, emaranhando seus sentidos e pensamentos, seu espírito e esperança. "Está acabado. Eles perderam ou eu fui abandonado aqui. Já nada mais importa, eu vou falar tudo para o orc da próxima vez. Quem sabe assim me garantam, ao menos, uma morte rápida". Ouvindo então passos apressados aproximando-se de sua cela, percorrendo todo o corredor estreito que levava a ela, ecoando alto por todo o calabouço, o vampiro concluiu: "isso vai acabar agora. Esse é o fim, eu vou contar tudo para eles. Ah, finalmente...".
Houveram gritos furiosos do lado de fora, o típico tinir do bolo de chaves do carcereiro que Octávio já ouvira tantas vezes antes, e finalmente o barulho da porta sendo destrancada e aberta.
— Na minha casa, no compartimento secreto... — Disse o vampiro, sua voz saindo pouco mais do que um sussurro de sua garganta debilitada pelos muitos gritos de dor que dela saíram nos últimos tempos.
— Seu desgraçado! — Gritou o homem à frente de Octávio, suprimindo o sussurro do vampiro, tomado pela raiva, relutando apenas brevemente ao perceber o estado do vampiro, sentindo o cheiro nauseabundo que vinha da cela e do próprio Octávio, observando seus muitos ferimentos mal cicatrizados, costurados de forma que o incomodassem por todo o restante de sua vida. Recuperando-se do choque inicial, o homem continuou, avançando colérico sobre Octávio: — P... Pois saiba que você mereceu cada fração desta dor, seu traidor maldito! Você merece sofrer ainda muito mais, e (ah tenha certeza disto!) eu lhe garantirei este destino! — Prometeu Fernando, erguendo a cabeça do vampiro pelos cabelos, fazendo-o encarar sua expressão carrancuda, seus dentes trincados e sobrancelhas franzidas. Tornando a virar-se para o carcereiro que assistia tudo de alguns passos atrás do elfo, de alguma forma apreensivo, ele suando de nervosismo, Fernando concluiu: — Liberte-o destas correntes. Vamos levá-lo la para cima... para o tronco.
— Me... Meu bom senhor, por favor, já não era suposto você estar aqui, levá-lo para o tronco seria...
— Cale-se, seu simplório imprestável, quem você pensa que eu sou?! Desobedeça-me e você também vai para o tronco! — Retrucou o elfo, pressionando o carcereiro, que cumpriu então com o que lhe foi dado.
O vampiro sem conseguir mover os membros, o carcereiro cedeu-lhe um ombro, Octávio tremendo e suando por conta da dor que sentia, estremecendo por seus pés mutilados serem arrastados no chão, por conta das câimbras causadas pela posição desconfortável que fora preso em sua cela minúscula, e também por causa dos outros inúmeros ferimentos que latejavam ao menor movimento, a cada passo do carcereiro a dor cortando-lhe inteiro. Enquanto Octávio era arrastado pelo carcereiro para fora da cela, Fernando continuou a tagarelar, furioso, virando em entroncamentos e seguindo por novos corredores e, subindo incontáveis degraus de escadas em espirais e escancarando violentamente portas semiabertas:
— Imprestáveis, são todos inúteis, idiotas sem cérebro! Duas semanas. Eu fiz questão de trazer um renomado torturador do exército da fronteira norte, retirei-o de seu posto onde estava supostamente sendo bastante útil retirando informações do inimigo, "um homem habilidoso", chamavam-lhe seus colegas, eodeixei em suas mãos. Era suposto que quatorze dias de intensa tortura fizessem qualquer filho da puta contar seus maiores segredos! Parece que eu me enganei quanto aquele orc. Vou mandar executá-lo também, ele e todos os outros... Sim, todos aqueles desgraçados barulhentos da Grande Praça, todos aqueles hipócritas da Assembleia, são todos inúteis e traidores, vou ordenar a decapitação de cada um deles, primeiramente Bértil, aquele velho comedor de bosta, depois Pedro o coitadinho do povo e então aqueles ricaços gordos e gananciosos e a turba imprestável de lixo que suja a Grande Praça com sua mera presença, manchando-a com a própria ignorância e estupidez. Mas primeiro você, Octávio, certificarei-me disto pessoalmente e agora mesmo.
"É verdade, eu ouvi que seus pais morreram, não é? — A estas últimas palávras pelo menos, Octávio até então estando mais grato, aliviado pela perspectiva da morte do que realmente com medo, o vampiro reagiu, sua face contorcendo-se em profunda tristeza, seu último raio de esperança, a possibilidade de ao menos seus pais terem sobrevivido, tendo desaparecido. Percebendo isto e querendo causar ainda mais dor ao vampiro, Fernando continuou, com um sorriso maldoso torcendo-lhe os lábios: — Ah, eles apanharam tanto, suas faces foram tão destruídas, que tornaram-se simplesmente irreconhecíveis. Sua mãe foi a primeira a perder a vida, sabe? Seja lá quem foi, alguém quebrou sua pélvis e, depois de muitos dias em agonia, febre e dor, ela morreu. Seu pai então foi a loucura, dizem que ele gritou sem parar quando soube da morte da esposa, que mesmo depois de espancá-lo, ameaçá-lo e amordaçá-lo ele continuou a forçar sua voz, até que rompeu as cordas vocais, não conseguindo produzir nada além de um chiado irritante. Ele se recusou-se a comer e beber, mas os soldados empurravam tudo goela abaixo, forçando-o a continuar vivo. Em pouco tempo, sua mente colapsou e ele não conseguia fazer mais nada além de fitar os próprios pés, atônito, babando sem parar. Depois disso, os guardas simplesmente desistiram dele, uma vez que ele não reagia mesmo quanto sob tortura, e jogaram-no numa cela escura e esquecida, deixando-o definhar até seu inevitável fim.
Subiram um último lance de escadas, seguiram por um último corredor e abriram uma última porta, os raios de luz adentrando de repente o calabouço, trespassando a escuridão como uma lâmina dourada uma vez que a porta fora escancarada, cegando assim Octávio, que não via aquele brilho, que não sentia aquele calor e aquela ardência em sua pele há tempos.
— Eu queria lhe dar o mesmo destino que seu pai, deixá-lo para apodrecer, perdido para todo o sempre na escuridão, esquecido... Mas as circunstâncias não estão a nosso favor agora, meu amigo, você tem de me perdoar.
Enquanto o carcereiro guiava-o adiante, Octávio pôde ver o "poste", um alto pilar de madeira repleto de manchas negras amarronzadas e furos espalhados de forma aleatória, de diferentes formatos. "Manchas de sangue e buracos de bala", compreendeu o vampiro.
Muitos soldados surgiram no alto da muralha da cidade e de vários andares da torre-calabouço e de prédios, dormitórios, refeitórios, e outras construções que ali localizavam-se, o lugar servindo como uma pequena fortaleza, com até mesmo, um muro de quatro metros cercando-o por completo. Observavam, ansiosos, Octávio ser preso ao poste pelas algemas que nele estavam parafusadas. Os soldados trocavam olhares nervosos, cochichavam entre si e olhavam de esguelha para Fernando, que em repostas, gritou:
— O que estão olhando?! Voltem aos seus postos, ou garantirei que cada um de vocês terá a própria vez neste poste, se estão tão ansiosos por ele assim!
— Meu bom senhor, posso lhe ajudar? — Perguntou um oficial da guarda da cidade, aproximando-se relutante.
— Sim, meu bom senhor, você pode. — Respondeu o elfo. — Já ia pensando que eu seria forçado a catar uma arma e puxar o gatilho eu mesmo!
— ...É necessária uma autorização de superiores para um fuzilamento, meu bom senhor. — Comentou o oficial, dando olhadelas ao vampiro, inquieto.
A face carrancuda deformou-se num algo ainda mais sombrio, seus olhos arregalados e suas veias pulsando forte e visíveis no pescoço e testa. Mesmo que as sobrancelhas de Fernando tivessem relaxado, seus dentes estavam tão apertados que o elfo exibiu sangue em suas gengivas quando respondeu ao homem, aproximando-se tanto dele, curvando-se sobre o oficial como uma sombra assustadora, que seus corpos quase se tocaram:
— ...Eu sou o Senador, a maior autoridade deste país, e estou lhe dando uma ordem, e, juro por todas as merdas divinas que existem nesse mundo que, se você não fizer o que eu disse nos próximos três segundos, eu vou garantir a sua morte, a morte de seus amigos e a morte de sua família. Prepare um esquadrão de fuzilamento. Imediatamente, guarda.
— S... Sim, meu bom senhor.
Durante os momentos que seguiram-se à resposta do oficial da guarda, do momento em que o homem virou-se e saiu a passos apressados gritando ordens, dirigindo-se rígido, ao mesmo tempo furioso e envergonhado, para um dos prédios, até a sua volta, quando chegou com mais outros dois homens, cada um empunhando um rifle, Octávio percebeu a atmosfera sombria, a pressão desagradável imposta por cada um dos olhares frios que os guardas davam de esguelha causava, uma tensão gélida e silenciosa que o vampiro não compreendia.
Mais como uma dor, um latejar incômodo que, de alguma forma, mais uma vez cegou-o, Octávio começou a escutar, então com mais clareza, a sua própria mente, que esforçava-se, como uma máquina a muito desligada, como um conjunto de engrenagens então enferrujadas, para juntar os fragmentos de informação que conseguia se lembrar por entre as muitas palavras de Fernando e por seu comportamento: "por que me matar agora? Por que ele viria pessoalmente? Por que estão todos tão... tão... irados? 'Desgraçados barulhentos da Grande Praça, hipócritas da Assembleia, inúteis e traidores... Vou ordenar a decapitação de cada um deles' ...Ele perdeu" compreendeu enfim , arregalando seus olhos, olhando em volta verdadeiramente pela primeira vez, vendo então relutância, medo, desconfiança. E raiva. "A informação chegou aos meus aliados! As provas foram vazadas ao público, a população fora agitada e levantou-se contra o Senador Fernando e o Senador fantoche Murilo!".
— Preparar! — Ordenou o oficial da guarda, interrompendo os pensamentos de Octávio, ele e seus dois companheiros fazendo como o ordenado. — Apontar! ...Últimas palavras, meu bom senhor, Octávio?
"Eles não estão relutantes apenas por conta de saberem a verdade sobre Fernando. Eles também sabem a verdade sobre mim. Não apenas não querem seguir as ordens dele, como também não querem me matar".
"Eu só preciso de um pouco mais de tempo, só mais alguns instantes (talvez), alguns segundos (quem sabe), alguns minutos (decerto). Recomponha-se Octávio de Pessos, pessoas estão lutando por você agora mesmo, pessoas morreram por você, você não pode desistir agora!"
— Sim... — Disse o vampiro, sua voz cansada soando tão baixa que somente por conta do silêncio total fora ali ouvida, e ainda assim não por todos. "Vamos lá, eu, você já fez este tipo de coisa tantas vezes antes, eu sei que você está um pouco cansado, mas tudo depende deste momento. Tudo!". Lutando para encontrar as palavras certas, sentindo a cabeça girar pelo esforço, Octávio continuou: — Eu sei que é assustador. Sei que é assustador, que é difícil encarar esta sombra que faz com que suas pernas tremam, que suas ações sejam todas relutantes, que é assustador tomar decisões por si mesmo, que só de pensar nisto as possíveis consequências vêm às suas mente: "vão me prender" ou "vão me matar" ou "vão me torturar", e sei também que eu, este pobre coitado ferido e mutilado, não sou o melhor exemplo para lhes falar disto, mas: isto importa. Isso significa simplesmente tudo...
— SEM ÚLTIMAS PALAVRAS! — Berrou o elfo, interrompendo o discurso do vampiro, dirigindo-se ao oficial da guarda da cidade, que respondeu-o, então, mais determinado:
— É uma tradição da guarda da cidade sempre escutar as últimas palavras dos condenados à morte... senhor "Senador".
— Suas ações são importantes, então jamais faça algo do qual você sabe que se arrependerá. — Disse Octávio, continuando seu discurso, concluindo: — jamais faça algo que você sabe que é errado!
Neste exato momento os barulhos da batalha irromperam aos ares uma vez que uma série de cavaleiros armados adentrou pelo portão do pequeno muro que cercava aquela torre, liderando uma multidão de pessoas, pessoas comuns, homens e mulheres que empunhavam martelos, facas, facões e quaisquer outras coisas que pudessem pôr as mãos.
— Abaixem estas armas, meus bons senhores. — Voltando-se confiante para Fernando, Bértil concluiu: — Admiro a lealdade de vocês, mas não há mais necessidade disto para com este corrupto assassino e maquinador.
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