Guerra A Ruína - Capítulo: 54

Capítulo: 54

Azai.


— Filhos da puta. — Comentou Caleb, seguindo ao lado de Azai, montado em seu cavalo, passando os olhos por sobre a destruição que cercava-os enquanto a tropa seguia pela estrada em frente ao vilarejo carbonizado e ainda fumegante. — Esses crasirianos não deveriam enterrar os mortos? E, pelos Deuses e Santas, há mulheres e crianças...

Após sua repentina e inesperada (dupla) promoção, Azai fora enviado quase que imediatamente para o oeste, para as bandas próximas à Cordilheira Gris, onde presenciou então o outro lado do fronte de batalha, o lado o qual, embora tivesse bem noção de sua existência, não imaginava ter tamanha proporção. Como ao oeste, em Nova Crasiria, haviam casas e plantações queimadas, gado assassinado e fontes d'água envenenadas, haviam corpos mutilados ladeando as estradas e enchendo as valas, soldados e civis, homens, mulheres e crianças massacrados impiedosamente, incontáveis cidades e vilarejos inteiros reduzidos a destroços, a cinzas e corpos mortos, a enormes campos de morte, cemitérios, como aquele o qual a tropa de Azai então cruzava.

— Uma retaliação, talvez? Pelo que fazemos do outro lado, eu digo. Algo como "se eles não enterram os nossos, não enterraremos os deles!" e "se eles queimam um de nossos vilarejos, queimaremos dez dos deles!".  Apontou Jéssica.

— Nós não matamos mulheres e crianças a torto e a direito! — Retrucou o íncubos, repentinamente furioso.

— Sim, nós as escravizamos. Mas, Nova Crasiria é totalmente contra a escravidão, então eles nos devolvem da única forma que podem. Ainda assim, isso é horrível... — Comentou Azai.  Essa guerra.

A tropa dirigia-se para Meia-ponte, para o sul, e vinha desde então, durante os muitos dias de marcha, durante os muitos quilômetros percorridos desde a capital, encontrando-se bastante frequentemente com cenas como aquela, caos e destruição por todas as partes, saques feitos provavelmente por soldados crasirianos cujo objetivo era apenas este, um esquadrão à parte que não era o objetivo da missão de Azai.

Já tendo visto cenas como aquela dezenas de vezes antes, de ambos os lados da Cordilheira Girs, a cada dia a dúvida em seu coração passando cada vez mais a ser certeza ao saber que tudo aquilo, todas aquelas mortes e miséria, todo aquele sofrimento e tristeza não passavam de formas, de um meio para que homens velhos, Mestres e ricos e poderosos ficassem ainda mais ricos e ainda mais poderosos, O Comandante-Mor, pensando, não pode deixar de sentir-se envergonhado por toda sua vida de devoção cega, de patriotismo ignorante e tolas auto justificativas, e não pode deixar de sentir-se irado por, ainda que soubesse de tudo, ser então ainda apenas mais uma ferramenta as mãos destes mesmos homens velhos. Lembrando-se de seu amigo próximo, de seu melhor amigo, que sempre enxergara as coisas como realmente eram, Tadeo, mais uma vez Azai sentiu saudades do companheiro, assim como arrependimento por ter tantas vezes injuriando-o por apenas dizer a verdade.

Fora então, enquanto o Comandante-Mor, sem desviar os olhos do vilarejo, gravava bem em sua memória a destruição, destruição que não fora trazida apenas à sua própria nação, que Azai percebeu, escutando antes de qualquer um, o aproximar rápido e ritmado, o trotar de um cavalo que seguia a sua direção de sua tropa. Azai fez um gesto, a ordem fora repassada por Caleb e a tropa parou a espera do cavaleiro, não a postos, porém, afinal, apenas um lunático jogaria-se solitário contra cinco mil soldados, entre eles infantaria, atiradores, soldados montados e cintilantes, mas em descanso.

A figura agitada que chegou a galope revelou-se um jovem fantasma, uma pessoa familiar a Azai, um membro de sua tropa, um subordinado desde antes do início daquela guerra, alguém que o Comandante-Mor jamais teria imaginado que tivesse sobrevivido sequer a sua primeira batalha, alguém que quase causara um desastre numa simples caça a um entelodonte um ano atrás: Yago.

— Senhor Comandante-Mor.  Disse o fantasma, desmontando e prostrando-se à Azai.

Tanto o cavaleiro quanto o cavalo estavam cobertos de suor. Aquele homem era um batedor, um membro da tropa enviado em qualquer direção muitos quilômetros adiante para averiguar o terreno em busca de sinais de inimigos e discrepâncias com o mapa, para garantir a segurança da tropa e integridade da rota traçada em geral, soldados que retornavam ao grosso de sua tropa e aos seus superiores somente quando ordenados ou quando possuíam algo a relatar, como...

— Inimigos?

— Sim, senhor Comandante-Mor. Cerca de quinze quilômetros ao nordeste daqui. Contei quinhentos deles, a maioria infantaria, mas também há muitos soldados montados. São saqueadores, estão carregando suprimentos para o sudoeste deles, para Meia-Ponte.

— Seguindo esta direção... — Disse Jéssica, levando a mão ao queixo e arregalando os olhos.  Eles darão de cara com um vilarejo! Temos de impedi-los!

Todos os sobreviventes da batalha de Girlir haviam perdido muito, incontáveis companheiros, amigos próximos, amantes... A mulher havia sofrido muito com a morte de Miguel, enterrara o homem com as próprias mãos, esforçando-se para conter as lágrimas enquanto isso, chorando em silêncio enquanto preparava seu amado para o pós-vida, passando os dias seguintes num profundo estado de letargia e pesar, em luto. Não culpara Azai pela morte de seu amado. Assim como Adriel, Jéssica não pensava que o homem pelo qual Miguel sacrificou-se fosse merecedor de sua ira vingativa ou indigno de qualquer coisa, nem tornou-se fraca com sua perda, nunca abandonando suas tarefas militares apesar da dor, ainda assim, porém, mudara.

Jéssica mudara, como Azai mudou, como todos aqueles que seguiam-no mudaram, o que antes considerava apenas como uma obrigação, como aquilo que fora forçada a treinar desde a infância para cumprir, aquilo que executava com tanta indiferença, suas tarefas sendo pouco mais do que só um capricho insignificante do destino, um dever imposto a ela pela decisão de outros, então tornou-se para Jéssica o que ela sabia que deveria fazer e o que ela podia fazer para mudar as coisas mesmo que o mínimo possível. Para Jéssica, de alguma forma, os outros haviam deixado de serem apenas "outros", Azai percebeu.

— E é o que faremos. — Concordou o Comandante-Mor, retomando a marcha da tropa e redirecionando-os, fazendo os sinais para que Caleb os repassasse aos berros aos soldados.

— Tem certeza de que consegue lutar assim, senhor Comandante-Mor? — Perguntou Caleb, olhando de esguelha para seu superior, preocupado.

Apesar de todos os deslizes ainda cometidos e irreparáveis de sua personalidade, o íncubos vinha esforçando-se para agir como seu irmão mais velho, tentando ser mais cuidadoso, percebendo então como Azai vinha disfarçando a dura forma de andar, a perna esquerda manca, que também era mais uma das muitas feridas adquiridas na batalha de Girlir.

— É claro que eu consigo! — Respondeu Azai, afastando-se do íncubos, carrancudo, incitando Milagre adiante. — Contanto que eu permaneça montado... — Cochichou.

Apesar de tudo, Azai ainda era um guerreiro até a alma, e também exatamente aquilo que sua aparência demonstrava, jamais admitiria fraqueza assim como jamais deixaria-se levar pela tristeza a ponto de deixar de apreciar uma boa bebida.

Os homens seguravam foices, enxadas, martelos e pás, apenas alguns poucos com bestas ou arcos ou armas de fogo, pouco mais de cem deles, pessoas entre dezesseis e quarenta anos de idade, que erguiam uma débil fileira defensiva, esperando a aproximação dos crasirianos e sua própria morte, esperando ao menos ganharem tempo o suficiente para as mulheres e crianças fugirem em segurança. Os inimigos invasores aproximavam-se à frente de uma grande nuvem de poeira, que encobria a luz do sol, obscurecendo o dia e o destino dos infelizes que estavam no caminho daquela horda de morte cavalgante, duas centenas de cavaleiros, e outros tantos de infantaria. A terra vibrando pela aproximação dos inimigos invasores, o barulho dos cascos e os gritos de guerra cada vez mais altos, o tinir do aço chacoalhando, batendo, as cotas de malha pulando no ritmo dos cavalos, os sons cada vez mais altos, cada vez mais mais altos...

— ...Mas eles ainda não estão muito longe?  Perguntou enfim um dos homens que compunha a defesa da vila, estreitando os olhos para os crasirianos adiante.

Quase que instantaneamente, Milagre saltou por cima do homem, Azai bradando então um novo grito de guerra, acompanhado e liderando sua tropa adiante:

— PELO POVO! PELO CORRETO!

A vista do exército muitas vezes maior dos namorianos, os crasirinaos tentaram imediatamente recuarem, apenas para verem-se cercados pelos seus inimigos, mais soldados surgindo por de trás de uma colina ao sul e de um vale ao oeste. Os crasirianos então começaram a reorganizarem-se apressadamente sob os berros de ordens do oficial responsável pelo esquadrão, ainda que não rápido o suficiente para lidarem com os milhares de namorianos que os cercaram em poucos instantes.

Os crasirianos ainda não estavam na típica formação circular, a sólida barreira de escudos que faziam ao estarem cercados por todos os lados, formavam então um triângulo, uma flecha apontada para a direção de uma das partes menos densas da tropa namoriana, a parte oeste. Estavam a menos de sessenta metros dos inimigos quando Azai percebeu a estranha formação, imaginando aquilo como apenas a última tentativa desesperada de fuga dos crasirianos, um ato tolo que apenas facilitaria seu trabalho. O Comandante-Mor lideraria uma rápida e poderosa investida ao centro das forças inimigas, destruindo-os de uma única vez, quando um milhão de raios azuis e amarelos, os estalares resultantes da conjuração de inúmeros feitiços, e os estrondos dos disparos de inúmeras armas de fogo, fizeram-no perceber que não era como ele bem como imaginava.

O assolador na ponta da flecha, na extremidade da formação triangular dos crasirianos, que começava a mover-se contra a brecha aberta pelo mago, disparou milhares de munições em conjunto com todos os atiradores de seu esquadrão, conjurando, assim que os namorianos entraram ao alcance, dezenas de armas de fogo, disparando-as, desfazendo-as e re-conjurando-as e disparando-as novamente em apenas ínfimos instantes, atirando tantas vezes em poucos segundos que o resultado fora como se atirasse um milhão de relâmpagos tivessem sido atirados contra os soldados da Aliança Vermelha, uma grossa coluna de velozes riscos amarelos cruzando o terreno e abatendo os namorianos e suas montarias, pessoas de todas as espécies e cavalos, camelos e chacais-monarca.

Os namorianos sob a repentina saraivada sequer tiveram chances de defenderem-se, soldados e montarias caindo por todos os lados e derrubando aqueles que não conseguiam desviar ou saltar por sobre seus cadáveres, instalando o caos nas fileiras, que já apavoravam-se com a demonstração de poder do inimigo, que deveria ser, supostamente, um alvo fácil. As ordens demoraram a serem gritadas pelos oficiais sobreviventes daquele lado da tropa de Azai e muitos mais morreram enquanto os soldados levantavam seus escudos, espalhando-se, e os cintilantes esforçavam-se para pararem as munições, ainda que não pudessem conjurarem paredes que, consequentemente, afetariam o avanço da tropa e causariam acidentes, utilizando então feitiços de vento e marionetes contra elas, assim não conseguindo resultados excelentes, afinal.

Ainda assim, porém, o assolador não havia acabado, já depois de matar sozinho

dezenas e dezenas de inimigos, então avançando montado sobre seu cavalo, seguido pelo resto de seu esquadrão, conjurou também uma nuvem de fumaça negra que encobriu todo o próprio movimento e o de seus companheiros. E também das estacas, um feitiço simples e econômico, que atirou à sua frente, forçando uma passagem pela tropa namoriana já dispersa.

Azai e o resto de sua tropa, em instantes, finalmente juntaram-se ao combate, adentrando a nuvem negra, a fumaça intransponível à visão, que já pairava por sobre todo o campo de batalha. Com a visão turva, o Comandante-Mor não conseguindo enxergar a mais de três metros ao seu redor, Azai incitou Milagre contra um inimigo que sabia que estaria lá, guiado apenas por sua incrível percepção. Os confrontos e duelos desenrolavam-se por todos os lados, invisíveis, soldados lutando e morrendo sob a escuridão conjurada, os barulhos da batalha continuavam a ressoar, ecoando, gritos de dor e berros de ordens, e barulhos de golpes e estrondos de disparos, quando Milagre atacou o coitado do primeiro crasiriano que surgiu à sua frente, devorando a face inteira do homem numa única mordida. Escutando os passos dos inimigos seguirem todos na mesma direção, ouvindo os cascos dos seus cavalos distanciando-se cada vez mais, o Comandante-Mor não demorou a perceber as intenções deles.

— Eles vão fugir por aquela direção.  Disse.  SIGAM-SE!  Ordenou para quem conseguisse ouvi-lo. — SIGAM-ME! — Repetiu, guiando sua montaria para o oeste, atrás dos fugitivos.

Centenas de soldados seguiram o Comandante-Mor, abatendo qualquer inimigo que surgisse por detrás da fumaça, Azai levantando e descendo Camponesa inúmeras vezes, brandindo-a em semicírculos e estocadas, em golpes verticais e horizontais, ascendentes e descendentes, banhando sua lâmina em sangue até o cabo, matando dúzias de oponentes, torando membros, cortando gargantas e perfurando corações, a tropa pondo-se em perseguição aos invasores inimigos.

A infantaria crasiriana fora completamente dizimada, não sobrando uma única alma viva dentre eles, quatrocentos cadáveres de inimigos invasores repousando naquele campo de batalha, porém, ainda assim, Azai agira tarde demais, fora lento demais. A fumaça dispersou-se num clarão azul que pareceu incendiá-la por completo, um espetáculo que seria lindo se não revelasse por sob a camada de escuridão tanta morte e sangue e uma centena de cavaleiros crasirianos, liderados pelo mago assolador, já muito distante. Aquela fração do esquadrão crasiriano conseguira fugir.

— Uma meia vitória apenas?  Perguntou Caleb, pasmo, levantando a viseira do elmo.  Mataram dezenas dos nossos e ainda fugiram... Esses magos filhos da puta, eu vou matar todos eles! — Disse por detrás de dentes trincados, em fúria. — Ah, desculpe, Jéssica, cintilantes em geral, não quis dizer que vou matar vocês ou qualquer coisa do tipo... — Corrigiu-se, lembrando-se somente então da presença daquelas pessoas do seu lado também.

Jéssica, em resposta, apenas balançou a cabeça de um lado para o outro com um meio sorriso em sua face, já conhecendo bem o íncubos, dizendo:

— Não se preocupe com isso, eu entendo bem o que você quis dizer, Caleb. — Comentou a mulher, observando os companheiros caídos e, adiante, a nuvem de poeira que dispersava-se no ar, levantada antes pelos cascos dos cavalos dos fugitivos. — A partir do momento em que eles entraram naquela formação, eles já sabiam que eram poucos os que sobreviveriam e estavam dispostos a morrerem tentando fugir, então, no final, foi como eles já esperavam, seguimos com o plano deles de alguma forma. Também não sinto que esta foi uma vitória completa sabendo que aquela centena ainda vive, livre para causar mais destruição... Uma meia vitória também é uma meia derrota, não é? Terá sido isto, o sacrifício de tantos dos nossos, tão insignificante?

Olhando para trás, observando o povo do vilarejo cair de joelhos, chorando e agradecendo aos Deuses e Santas, largando suas armas em alívio sabendo que poderiam viver por mais um dia, que poderiam reencontrarem-se com suas famílias e amigos, Azai retrucou:

— Acreditem, esta foi batalha foi a de maior significado que já lutamos até agora, e também a maior vitória.

Voltando-se aos subordinados, o Comandante-Mor tornou a berrar ordens, pedindo o tratamento dos feridos, a contagem dos mortos, a verificação de segurança da vila, prosseguindo com sua tarefa, certo então de que, pela primeira vez na vida, mesmo que agindo apenas como uma peça para as mesmas pessoas que jogaram o mundo em guerra, estava fazendo algo certo, lutando uma batalha que valia a pena.

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