Guerra A Ruína - Capítulo: 53

Capítulo: 53

Álex


Por um segundo, todos prenderam a respiração, o silêncio reinando absoluto, um império de terror repentino e confusão enquanto o sangue jorrava e continuava jorrar, um fluxo rubro e quente que vazava das gargantas cortadas daqueles homens.

— Sem mais tempo, não é. — Comentou Álex, limpando o sangue que embaçava-lhe a visão na manga da camisa.  Pois temam vocês, meus inimigos, pois os farei arrependerem-se, os punirei por seus pecados com sofrimento e morte. — Concluiu, juntando um revólver do chão, de um dos cadáveres dos soldados crasirianos, que a pouco escolheram-no para levá-lo para onde quer que levaram todos os outros antes e encontraram seus fins quando o fantasma usou de seus feitiços num deles, manipulando-o para que cortasse a garganta de seu companheiro e depois fizesse o mesmo consigo mesmo.

Uma vez que Álex passou por cima dos cadáveres, que ergueram-se terríveis as suas costas, de forma antinatural e com os pescoços ensanguentados, para o lado de fora de sua prisão, seguiu pelo corredor de celas, usando de sua magia e estourando cada fecho que adentrava seu raio de conjuração, libertando o maior número possível de prisioneiros. Não demorou para aquelas pessoas perceberem que o fantasma cuja face estava coberta do sangue dos cratences, cujs corpos mortos seguiam-no, era o responsável por tudo aquilo, e logo uma multidão de fugitivos rebeldes ergueu-se aos brados, gritos e berros de muitas línguas ecoando por todo o forte em ameaças, protestos e urros de fúria e vingança.

Um grupo de três soldados rapidamente desceu as escadas com rifles empunho, os cratenses preparando-se para atirar no mesmo instante que puseram seus olhos na turba, levando as coronhas aos seus ombros, colocando os alvos sob a mira e disparando. Suas munições, porém, de nada adiantaram contra a parede de rocha que surgiu do nada no caminho entre os disparos e os alvos.

Desaparecendo, como se carregada pelo vento numa nuvem de poeira azul, a barreira de rocha revelou para os soldados surpreendidos guardar atrás de si apenas suas mortes, imediatamente Álex e suas marionetes reanimadas devolvendo os disparos, alvejando os cratences. Embora as armaduras em Asatna fossem projetadas de forma que tanto resistissem a poderosos golpes de armas de médio e curto alcance, quanto a desviassem projéteis disparados contra elas, sendo bastante eficazes em inutilizar qualquer munição, eram eficientes apenas até certa distância contra armas de fogo. Os projéteis trespassaram o aço, carne e ossos, derrubando-os esburacados aos degraus da escada, estes transformando-se numa cachoeira vermelha, o sangue dos mortos escorrendo, descendo cada patamar até empoçar-se no nível mais baixo.

Aproximando-se o suficiente, Álex reanimou um dos corpos, controlando três marionetes simultaneamente. Aquele nível de habilidade fora o máximo que conseguira dominar durante as semanas de treino rigoroso pelas quais passara. O fantasma calculara que teria magia o suficiente para manipular cinco marionetes conjuradas por vinte e quatro minutos ou cinco cadáveres reanimados por até quarenta minutos, a conjuração da parede como proteção, porém, fora muito repentina e, por conta disto, muita magia fora desperdiçada. Ainda poderia seguir naquele ritmo por cerca de trinta e cinco minutos, mas deveria controlar o melhor possível sua reserva mágica se quisesse lidar com o mago tigromem e ainda conseguir deixar aquela fortaleza vivo.

Chegando ao fim da escada, o fantasma guiou suas marionetes à frente, para a porta que dava ao andar seguinte, quando os inúmeros disparos, que até mesmo inutilizaram um dos corpos reanimados decepando seus membros e destruindo seu rifle, adiantaram a Álex seu plano de confirmar a presença inimiga.

Concentrando se, ao custo de deixar mais uma marionetes de lado, o fantasma conseguiu ver pelos olhos de um dos corpos reanimados, assim pondo-se a usar seu rifle, mirando e disparando, mirando e disparando, abatendo os inimigos um a um, mirando e disparando, mirando e disparando, exterminando os cratenses enquanto ignorava os danos que as marionetes levavam, até que os tambores dos rifles esvaziaram-se e à frente os inimigos já recuavam apavorados. Queria enviar suas marionetes atrás deles naquele mesmo instante, manipular os cadáveres de forma que estraçalhassem aqueles soldados com suas próprias mãos gélidas, queria ver em primeira mão, pelos olhos dos corpos reanimados que ainda possuía, as faces dos cratenses perdendo a cor enquanto eram estrangulados e seu sangue jorrar dos ferimentos que abriria neles com os dentes se fosse preciso... mas, com a vantagem do baixo custo mágico que os corpos reanimados ofereciam, vinha também a desvantagem de que o mago conjurador dos feitiços tinha controle sobre eles apenas em sua área de conjuração.

Prosseguindo, Álex recompletou seu número de marionetes, substituindo também aquelas que já estavam demais danificadas. Apoderando-se dos equipamentos dos mortos restantes, os demais prisioneiros finalmente armaram-se e a rebelião seguiu-se fortaleza adentro. Álex sabia que não demoraria muito mais para que os cratences reorganizassem-se e para logo suprimirem a ele e aos demais, os fugitivos rebeldes não resistiriam ao contra-ataque ocidental. As portas nas extremidades daquele corredor que davam a escadas que desciam para as profundezas da rocha, idênticas àquela pela qual o fantasma e a turba subiu, porém, deu-lhe uma ideia: não tinham armas, técnica ou organização o suficiente para lidar com os inimigos, então deveriam, pelo menos, contar com seus números.

— Estas escadas darão a outras celas, a outros prisioneiros, os libertem!  Disse Álex, indicando-as à turba a suas costas. Que agitou-se em burburinho, sem compreender uma palavra sequer vinda da boca do fantasma.

Álex já estava prestes a contar com a linguagem universal de sinais, prestes a montar um teatro de mímica horrível e contar com que aquelas pessoas compreendessem-no, quando uma voz vinda de algum lugar da turba repassou a mensagem em outra língua, e as pessoas assentiram e separaram-se para fazer como o indicado.

Sem perder mais tempo, Álex separou um pequeno grupo dentre aqueles que já estavam armados com gestos e seguiu adiante, colocando-se então ao lado da porta da sala seguinte. A cada segundo que se passava, sua magia diminuía ao mesmo tempo que os cratenses ficavam mais preparados, não podia se dar ao luxo de demorar-se a cada novo obstáculo e o fantasma sabia que do outro lado daquela porta haveria um obstáculo, dirigia-se, afinal, em direção ao local no qual, lembrava-se, o mago tigromem e seu combatentes haviam sido hospedados.

Os corpos reanimados arrombaram a porta e avançaram descarregando os tambores de seus rifles contra os cratences que haviam se posicionado por trás de barricadas, estas improvisadas com mesas e caixas, e por trás de vigas nas paredes. Apesar disto, porém, e dos reforços dos rebeldes armados, Álex viu-se rapidamente em desvantagem perdendo em poucos instantes duas das marionetes, focando-se completamente na que sobrara, mirando cuidadosamente a cada novo disparo, até a última bala, quando, por fim, controlou o corpo reanimado contra os inimigos empunhando apenas uma espada. Sua última marionete foi rapidamente abatida.

Álex havia tirado a vida de cinco inimigos, mas haviam ainda, pelo menos, outros quinze cratenses na sala, que não deixavam espaço para os rebeldes fugitivos que estavam com o fantasma dispararem.

E, de chamas azuis, do estalido do vórtice de vento deslocando-se sobre seus membros, trajando uma armadura completa, empunhando um grande escudo e uma espada de uma mão, curvando-se para passar por sob a porta, o minotauro conjurado de Álex, o próprio fantasma vendo por seus olhos, fez com que os inimigos tremessem.

Com o escudo erguido, todos os disparos ricocheteando na grossa camada de ferro, a marionete monstruosa avançando então numa rápida corrida, seus passos pesados e estrondosos abalando não apenas o espírito dos cratenses mas também a estrutura do lugar, partes das barricadas improvisadas, sacos de grãos, caixotes e barris de alimentos, caindo com as vibrações causadas pelo minotauro, percorreu todo o caminho até o primeiro inimigo, que sequer teve chance de defender-se, esmagado entre a rocha e o ferro por um golpe de escudo. Voltando-se ao oponente seguinte, Álex controlou a marionete de forma que esta brandisse sua espada num semicírculo horizontal, assim separando as duas metades do corpo do cratense. Imediatamente os ocidentais puseram-se a, mais uma vez, recuar, virando a esquerda na encruzilhada adiante, depois de uma porta na extremidade oposta pela qual a marionete entrara. Mas Álex não os deixaria escapar de novo.

O fantasma fez com que o minotauro corresse adiante, decapitando mais dois inimigos em mais dois golpes. O fantasma não precisou falar nada ou dar qualquer sinal para que os demais o seguissem quando ele adentrou a sala.

Pela estrutura da fortaleza, Álex sabia que aquele o qual buscava em vingança estava em algum lugar adiante, porém não sabia ideia qual direção seguir naquela encruzilhada, direita ou esquerda. Correu em disparada à direita, deixando o minotauro desaparecer e levantando mais cinco cadáveres, logo acompanhado por dezenas, centenas de outros rebeldes fugitivos que equipavam-se com armas tocas e equipamentos tomados dos mortos. Em pouco tempo chegaram, Álex e a turba, num grande par de portas, que, ensandecida e sedenta de sangue, a turba abriu.

Do outro lado, numa enorme sala quadrada e com uma plataforma de madeira servindo como uma  espécie de segundo nível (o lugar sendo muito bem decorado, repleto de estantes de livros, longas mesas sobre as quais encontravam-se equipamentos alquímicos e ingredientes raros, pergaminhos antigos e esqueletos de pessoas e muitos outros itens relacionados à magia), estava de prontidão uma centena de soldados organizados em fileiras, sobre as estantes, no segundo nível da sala e por trás de barricadas improvisadas, com os rifles apontados para os prisioneiros rebeldes, prontos para disparar.

Mais uma vez, a barreira conjurada por Álex salvou a turba, que comemorou gravemente ao sobreviver à primeira saraivada de disparos, enquanto todos espalhavam-se pela sala em busca de abrigo. Logo, porém, o cheiro de pólvora queimada estava no ar, sangue empoçava-se sob os cadáveres cujos números apenas cresciam, munição voava para todos os lados e lâminas chocavam-se, pessoas de ambos os lados caindo um a um... e feitiços eram conjurados.

Os cratences, além da vantagem em quanto a equipamento e posição naquela batalha, as estantes e mesas sendo inúteis como proteção contra os atiradores da plataforma de madeira ao alto, também possuíam magos, que conjuravam e controlavam marionetes e disparavam projéteis mágicos contra os prisioneiros rebeldes.

Álex estava do lado de maior número, mas sabia que se não fizesse algo logo, estaria condenado. Precisava dar um jeito na plataforma de madeira. Teria de gastar uma quantidade considerável de sua magia naquilo, mas não havia escolha. Fitou a plataforma, que percorria toda a estenção da sala lá ao alto, concentrando-se em seu feitiço, e... voou. Não, não voara, fora arremessado!

Chocando-se contra a parede e caindo ao chão, sem ar e ainda atordoado, Álex esforçou-se para levantar-se, percebendo então que não morrera por pouco, que havia sido protegido do impacto pelo cadáver de um membro da turba que interpusera-se entre ele e a fonte da força, vendo a estante de livros a qual usara como cobertura esmigalhada por todos os lados, como se tivesse sido golpeada por uma grande espada ou machado. Por uma grande lança.

Sobre ela erguia-se, imponente, um gigante de armadura completa empunhando uma lança tão grande quanto o próprio corpo. Uma marionete, uma de três.

— DESGRAÇADO!  Berrou Álex, ignorando então a plataforma de madeira, os cratenses e a turba, procurando pelo mago conjurador, pelo tigromem. — EU VOU TE MATAR!

Correndo em disparada, o fantasma percorreu o campo de batalha, pessoas de ambos os lados sendo mortas de todas as formas ao seu redor, o início de um incêndio, as chamas consumindo os livros e as estantes e mesas de madeira, golpes sendo desferidos por todos os lados, alguns errando o fantasma por centímetros. Logo encontrou-o: de pé sobre uma estante caída, adiante, do outro lado da sala, vestindo uma bonita armadura mais decorada que as demais, empunhando uma lança e concentrando-se em controlar suas marionetes. Álex não pensou duas vezes, apontou o revólver que vinha carregando e disparou contra o tigromem. A munição atingiu-lhe em cheio, faíscas voando do peitoral do mago e este caindo para trás, ao chão. Mas o disparo não fora efetuado próximo o suficiente para a bala atravessar aquela armadura.

O tigromem levantou-se procurando pelo seu agressor, e não demorou para pôr os olhos sobre Álex, que, quando percebera que não havia matado o mago cratense, tornara a disparar o revólver até descarregá-lo por completo, atingindo inutilmente mais duas vezes o homem, uma munição encontrando-se com seu ombro e outra com sua perna. Uma explosão de madeira e papel em chamas anunciou a aproximação de um dos gigantes, que explodira em pedaços a estante de livros em seu caminho, revirando mesas e espalhando destroços ao correr na direção do fantasma, esmagando, até mesmo, um dos rebeldes enquanto movia-se.

— Não dessa vez, desgraçado! — Comentou Álex, jogando o revólver para o lado e conjurando um grifo de armadura completa, guiando-o contra o gigante.

O grifo foi certeiro, voando graciosamente, com as garras dianteiras contra a cabeça do gigante, derrubando-o de costas no chão. Dando continuidade ao movimento, o grifo, chegando à plataforma de madeira, jogou-se de novo num rasante contra a marionete do tigromem que começava a levantar-se. O zunido que a lança fez ao ser atirada pelo segundo gigante foi ensurdecedor e o estrondo que esta fez ao fincar-se até a metade na parede, empalando o grifo, foi ainda pior, como o disparo de um canhão, como um trovão próximo. O grifo desfez-se em partículas de magia enquanto dois gigantes aproximavam-se de Álex, o que atirara a lança e aquele que a marionete alada derrubara.

A górgona rapidamente enrolou-se no primeiro gigante e fincou suas adagas nos ombros deste, enquanto a aracne não fora menos bem-sucedida, desviando dos chutes do segundo gigante e fincando sua lança na parte de trás de um dês seus joelhos, derrubando-o. Como o esperado por Álex, o mago tigromem não tinha muita experiência em lidar com aquele tipo de oponente, não humanoides, monstros.

Desesperando-se, o tigromem chamou o terceiro gigante, que atirou a lança contra Álex. O fantasma desviou-se por pouco, jogando-se para o lado no último segundo, caindo sobre uma pilha de corpos sem vida e escombros. O basilisco era grande, quase tão grande quanto o gigante, e suas mandíbulas cheias de dentes afiados, cujo aqueles que não quebraram-se ao chocarem-se com o metal que protegia a marionete do inimigo, fincaram-se profundamente numa das pernas do terceiro gigante, derrubando-o e logo em seguida imobilizando-o com seus braços fortes.

Álex estava quase no fim, o tigromem estava logo adiante e seus gigantes estavam imobilizados, o fantasma iria conseguir, obteria sua vingança... ou ao menos assim teria sido se ele não tivesse ignorado os inimigos que cercaram-no.

Quando uma seta de besta, disparada da plataforma de madeira, atingiu o fantasma próximo ao ombro esquerdo, atravessando-o, o impacto arremessara Álex ao chão. Neste momento de dor e agonia, a mente do fantasma vacilou e seu controle sobre as marionetes também. Os gigantes libertaram-se e o tigromem os regenerou-os com sua magia.

Álex arrastou-se então para sob uma mesa, vendo as marionetes do inimigo aproximarem-se, ferido e percebendo somente então o quão exausto já estava. Mas ainda não havia acabado.

O fantasma re-conjurou o grifo e controlou-o não contra os gigantes, mas contra os atiradores no andar superior, na plataforma, cortando-os e dilacerando-os com suas garras da frente e seus bicos, desviando a atenção deles, logo em seguida o próprio Álex em pessoa disparando contra os gigantes. Gritando em desafio, jogou-se no chão e passou por baixo da lâmina da lança de uma das marionetes, levantando-se e retomando a corrida, deparando-se com o segundo gigante, dessa vez rolando para o lado e mais uma vez desviando do golpe, chegando-se então ao terceiro gigante, enquanto os outros dois davam meia volta e perseguiam o fantasma. Álex sabia que não conseguiria manter-e à frente das marionetes, que tinha somente aqueles instantes de surpresa do tigromem, que se não se aproximasse o suficiente daquele mago então morreria. O terceiro gigante baixou sua lâmina diagonalmente e o fantasma desviou-se por centímetros da lâmina... apenas para ver-se impotente contra o enorme punho revestido de ferro da marionete caindo sobre si, a investida com a lança revelando-se uma finta.

Fumaça ergueu-se. Faíscas voaram. E o estridente som do estilhaçar do ferro e da rocha que constituíam o corpo do gigante preencheram a sala uma vez que o braço da marionete fora reduzida a migalhas, um milhão de fragmentos que dissolveram-se quase que imediatamente ao seu estado primitivo de magia pura.

Miranda, envolta numa fina aura azulada, com os cabelos voando desengonçados pelo rápido deslocamento de ar causado pelo impacto e pela aceleração do próprio corpo da garota, surgira disparada por detrás de Álex, no limite de suas habilidades mágicas, forçando seu corpo a um extremo sobrenaturalmente poderoso, indo de encontro ao punho do gigante com o seu próprio num único salto de vários metros de distância, saltando do outro lado daquela batalha, daquela sala, trocando um golpe com a marionete. A mão da lebromem inicialmente enterrou-se no ferro e na rocha como se não encontrasse resistência alguma, explodindo então o braço do gigante do punho ao cotovelo, desequilibrando a marionete e derrubando-a no mesmo golpe.

Álex, pasmo, sentiu uma reconfortante onda de calor preencher seu coração ao rever a amiga. Queria parar tudo ali mesmo, queria falar com ela, queria abraça-la e sentí-la, ficar com ela e não mais deixá-la ir para longe. Mas não era hora para tal, ainda não. O tigromem, o mago cratense estava a apenas alguns passos à sua frente.

Álex aprendera na floresta que raios nunca iam na direção certa, que não eram realmente úteis em prática. Mas o mago cratence estava vestindo uma armadura de aço completa, aquela distância, sem dúvidas, a eletricidade alcançaria-o. Aquilo era perfeito, o fantasma já quase não tinha mais magia, só poderia conjurar mais aquele feitiço antes de entrar num ponto sem volta.

Havia um bom porquê daquele mago ser um oficial do exército cratence, porém.

O aço das manoplas que envolviam as mãos do quarto gigante, que fora conjurado logo ao lado de Álex, era gélido quando o fantasma sentiu-o, aqueles dedos sem calor agarrando suas pernas e arremessando-o contra as estantes de livros.

O corpo do fantasma chocou-se contra uma estante, derrubando-a, porém, ainda em movimento, acertou logo em seguida um par de grandes portas de madeira na parede, arrombando-as. Caindo então ao chão, que, na verdade, era uma íngreme escada que descia as profundezas, Álex rolou, então, muitos degraus abaixo, o mundo tornando-se um borrão indistinto à sua visão enquanto sua cabeça girava, entontecida.

Cada centímetro do corpo do fantasma doía. Álex arquejou de dor ao tentar levantar-se, cuspindo então um dente e muito sangue, sentindo algumas costelas quebradas e hematomas surgindo por todo seu corpo. Estava também exausto, cansado e sentindo ainda apenas uma pequena fração de magia em sua reserva mágica. Com a imagem de Miranda aparecendo para si nos últimos instantes, Álex esforçou-se para voltar à batalha, a ideia de mais uma vez perdê-la, de tudo acabar daquele jeito, sendo apenas inaceitável bem quando ele estava tão perto de de obter sua vingança e reencontrar-se com a lebromem, conseguindo apenas, porém, sentar-se apoiado-se contra a parede, vendo o mundo girar turvado e sombrio à sua frente, o menor dos movimentos causando-lhe uma dor inimaginável ao mesmo tempo que exigia mais energia do que o fantasma realmente tinha, Álex tendo de esforçar-se para ainda manter-se sequer acordado.

Podia ouvir os sons do confronto, da batalha no andar superior, vindo da escada a seu lado e da porta ao final desta. Perguntava-se se Miranda ainda estava viva, quando seus olhos começaram a acostumarem-se com a escuridão e Álex pôde então ver aquilo que lhe cercava: centenas, milhares de corpos de pessoas de todas as espécies penduradas ao teto por ganchos em suas costas, como as carcaças dos animais nos açougues.

Todos, porém, eram pálidos como porcelana, inexpressivos e sem uma gota de sangue pingando dos ganchos às suas costas ou empoçando-se ao chão ou mesmo correndo por sob suas "peles", sem um fio de cabelo sequer em seus corpos ou órgãos reprodutores ou excretores. Eram bonecos, réplicas de pessoas como as marionetes eram réplicas de monstros, Álex percebeu, observando então seus arredores e vendo equipamentos alquímicos, mágicos e médicos espalhados por todos os cantos, poções, elixires, pós, pílulas, drogas em todas as formas, uma variedade de itens magicamente imbuídos, livros grossos em capas bonitas e novos e pergaminhos tão antigos que pareciam estar prestes a desfazerem-se em pó a qualquer momento. E Álex temeu. Não foram os milhares de bonecos presos a ganchos no teto da cumprida sala subterrânea ou os claros sinais de experimentos mágicos duvidosos que trouxeram o terror ao fantasma, porém, mas sim o colossal, ancião e poderoso ao mesmo tempo terrível e belo, demoníaco e angelical, o crânio de proporções inimagináveis que repousava no centro da sala.

A coisa tinha pelo menos vinte e cinco metros de altura, sua fronte estava voltada para a escada e a entrada da sala, e, apesar da aparência comparável com o crânio de um humano comum, possuía três órbitas de olhos vazias, uma delas no centro da testa, e não havia qualquer orifício onde normalmente ficaria o nariz ou boca, sem mandíbula ou dentes, além de ter um queixo bastante mais proeminente do que qualquer humano. Fitando a coisa, por um segundo conseguindo ignorar a dor, o cansaço e a confusão, Álex, recuperando seus sentidos, percebeu então a esmagadora e opressora atmosfera, não, a pressão mágica que aquilo impunha.

— A Ruína...

A Ruína. Uma fonte misteriosa de energia mágica infinita, se dizia, uma ferramenta praticamente onipotente, um meio para se atingir qualquer objetivo, a própria materialização da ambição de todo o mundo, um sonho utópico que jogara todas as grandes nações num inferno caótico de guerra e morte. Não havia como um mago confundi-la mesmo que nunca antes tivesse avistado-a, afinal, não havia um mago que não desejasse-a.

Escutando uma série de passos apressados descendo as escadas, Álex fora trazido de volta à realidade, arrancado de seus devaneios e pasmidade que quase o fizeram esquecer-se de onde estava e o que o levara até ali. Suportando toda dor o melhor que podia ainda que trincasse os dentes e ofegasse, ainda que sentisse que a cada novo movimento desta vez definitivamente morreria ou perderia a consciência, esta que permanecia naquele corpo surrado apenas por uma inabalável força de vontade, a recusa de deixar-se perder, de deixar que Miranda mais uma vez sofresse, de perder sua vingança, o fantasma arrastou-se até o gigantesco crânio, a Ruína.

Enquanto aproximava-se, sentia estar indo em direção ao sol, não propriamente por conta do calor, mas a intensidade da magia ao redor e impregnada na Ruína era tanta que estimulava toda a existência ao seu redor, fazia cada célula do corpo de Álex dançar agitada, manifestava-se no ar, as vezes, de forma visível toda a magia que constituía-o e a todo o resto. Quanto ainda mais próxima ao fantasma, passara a reagir de estranhas formas, manter-se são tão perto da Ruína sendo quase impossível, estranhas plantas surgindo, brotando do chão, levantando o piso com suas grossas raízes e desabrochando em flores brilhantes e multicoloridas, do ar nascendo criaturas deformadas e totalmente alienígenas. Quando tocou o crânio, porém, a sensação que percorreu todo o corpo de Álex, trespassando sua carne, consciência e alma, fora quase indescritível, como se renascesse, refeito do cosmos, como se tivesse compartilhado o mesmo ventre que o universo. Um mar de luz sem fim estendia-se à sua frente e sua mão tocava apenas uma fração de tamanha grandiosidade incompreensível.

Não tinha os conhecimentos médicos e alquímicos suficientes para curar-se por completo, mas o cansaço desapareceu por completo instantaneamente, o suficiente para a mente do fantasma desanuviar-se e ele conseguir resistir à dor de seu corpo linchado, enquanto os primeiros socorros foram feitos num instante, Álex sem precisar se preocupar com o desperdício de magia durante a conjuração dos feitiços. Por um segundo hesitante pelo sacrilégio que estava prestes a cometer, só então percebendo que o crânio já havia sido muitas outras vezes antes vandalizado, cheio de furos, Álex conjurou um simples feitiço de força e arrancou uma porção da Ruína, um cilindro maciço do esqueleto. Segurou-o firmemente contra o peito, quando os cratenses chegaram ao último degrau da escada e àquela sala.

Embora a reserva mágica de Álex então fosse simplesmente ilimitada, sua área de conjuração, seu conhecimento e capacidade imaginativa e de manipulação permaneciam inalterados, de qualquer forma os cratences estavam longe demais quando apontaram seus rifles para Álex, exaltados, visivelmente apavorados com a visão de um mago inimigo com a Ruína em mãos. Infelizmente para os cratences, eles não apenas demoraram demais para puxarem os gatilhos, como Álex já não se importava mais ou precisava se importar com sutileza ou feitiços demais elaborados, e uma poderosa tempestade de rochas atirada contra os soldados esmagou-os e triturou-os até não serem mais do que um par de montes de geleia sangrenta e ferro amassado.

Voar, mesmo que Álex estivesse apenas levitando a alguns centímetros do chão, era no mínimo desconfortável, mas tão ferido como estava, o fantasma não tinha escolha. Vendo por quantos degraus havia caído, o quão distante estavam as portas duplas que arrombara, o fantasma não se surpreendeu por estar tão machucado, assim como agradeceu internamente por saber como flutuar daquele jeito.

Miranda estava apoiada num dos joelhos, ofegante, coberta de ferimentos, sangue escorrendo por todo o corpo, já alvejada por dois dardos de besta e uma munição. Ela era forte e ficara ainda mais forte, como o próprio fantasma, e conseguira lidar com os gigantes pelos momentos que Álex esteve no andar inferior, ainda destruindo mais um deles antes do fantasma subir de volta à batalha, mas o tigromem tinha uma grande reserva mágica e podia recriar suas marionetes muitas vezes, todas as três. Os rebeldes já haviam sido quase completamente exterminados, os cratences transformando aquele confronto num massacre, estando prestes a derrotar a todos os seus inimigos, que organizavam-se então em pequenos grupos nos cantos, tentando resistir.

— Miranda... — Disse Álex, olhando a lebromem. Passou os olhos pelo resto daquele lugar, vendo as chamas consumirem os móveis, insaciáveis, e os cadáveres empilharem-se aos montes, sem vida, e o caos, que transformava o cenário, a sala, numa confusão de dor e destruição. E Viu também o mago cratence fitá-lo, apreensivo. — ARREPENDAM-SE! — Berrou o fantasma, fechando sua face numa carranca assustadora e conjurando, imediatamente, atrás de si uma marionete.

Aquela, porém, o fantasma jamais vira em nenhum de seus livros didáticos ou de aventura, era uma que não aprendera a conjurar em nenhuma de suas aulas no Grêmio, um monstro criado espontaneamente naquele momento de ódio e vingança, um reflexo de seus sentimentos e experiências. Um feitiço original.

As chamas apagaram-se e a luz das lâmpadas vacilou, ventos gélidos inundaram a sala e campo de batalha à medida que um vórtice de escuridão tomava forma, enorme, atrás de Álex, espalhando-se, inconstante, em sombras, uma fumaça negra de seis metros de altura, como um grande manto escuro com dois pares de asas escuras que estendiam-se sombrias por mais de dez metros. Encimando esta escuridão, quatro crânios cinzentos de bodes fundidos em um só, cada face voltada para uma direção, coroado por uma coroa de ouro e gemas negras, fitavam os inimigos do fantasma. Nas mãos esqueléticas desta marionete, estava empunho uma grande foice.

O tigromem tentou manipular seus gigantes contra a marionete de Álex, mas num único brandir de sua foice, a pálida lâmina curva separou numa nuvem de faíscas as partes superiores e inferiores dos gigantes. Num segundo golpe, antes que tivesse qualquer chance de reagir, o mago cratence fora dividido exatamente ao meio, em vertical, cada uma das metades de seu corpo caindo para um lado enquanto explodindo em intensos jorros de sangue. Os rebeldes, então, de repente, recobraram as forças, motivados pela macabra aparição que exterminara o mais poderoso dos inimigos em apenas dois golpes, enquanto os demais cratenses recuavam.

A foice continuou a subir e descer, girando em semicírculos e caindo imponente e certeira sobre seus alvos, enquanto os rebeldes ensandecidos brandiram suas lâminas e dispararam seus projéteis. O forte quadrado nas montanhas de Crát caíra. Não foram feitos prisioneiros naquela batalha.

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