Guerra A Ruína - Capítulo: 52

Capítulo: 52

Octávio.


Haviam duas prisões em Dentre-Flume, uma para cada lado da cidade, sob grandes torres da muralha, nas profundezas do subterrâneo. Octávio estava na prisão da torre norte e observava então, de pernas tremendo, suando frio e com os pelos arrepiados em horror, a câmara de tortura do lugar, uma sala que toda prisão que se prezasse possuía e que ali na capital de Nova Crasíria não era diferente.

A sala era pequena e iluminada por um par de tochas que ladeavam a porta que dava a escada pela qual o vampiro entrara e nela haviam grilhões presos à parede, uma cadeira e um par de mesas no centro, uma delas com algemas nas extremidades, repleta de manchas de sangue, e a outra encimada por uma variedade de equipamentos, facas e lâminas em todos os formatos, pregos, alicates e potes cheios de líquidos e pós. Os equipamentos, diferentemente da mesa e do chão, eram bastante bem cuidados, sem uma mancha de ferrugem ou sangue. Isso, de alguma forma, deixava tudo com um aspecto ainda mais assustador, "significa que é usado com frequência, que o dono destas coisas sabe o que faz".

— Desnudem-no e prendam-no na mesa, por favor, meus bons senhores.  Pediu a voz do homem, um orc que surgia por trás de Octávio, descendo as escadas enquanto colocava um par de luvas e um avental.  Obrigado.  Comentou o orc, uma vez que os soldados fizeram o que lhes foi instruído e saíram da sala, seguindo escadas acima. Tornando sua atenção para o vampiro, concluiu: — Então, uma última chance, meu bom senhor: pulemos toda esta parte e diga logo tudo o que sabe. Economizaremos assim... um tempo.

— Você está mesmo fazendo isto porque quer, meu bom senhor?  Perguntou Octávio, sentindo o desespero embaralhar-lhe a mente, não conseguindo tirar os olhos das lâminas a seu lado. — Eu compreendo que Fernando é influente e poderoso agora, meu bom senhor, mas tudo isso depende apenas do que você fará aqui. Podemos resolver isto de outra forma...

— "Por que eu quero"? É claro que não, oras, estou fazendo isto porque é meu trabalho! — Respondeu o torturador, virando-se a mesa dos instrumentos, passando a mão por sobre eles, escolhendo um dentre tantos. — Quem gosta de trabalhar? Mas, sabe, eu sou bom no que faço. A pergunta que eu lhe fiz antes foi apenas, hm... Sim, uma tradição. Sempre pergunto isso antes de começar. — Comentou, finalmente parando a mão sobre um instrumento e segurando-o pelo cabo: um martelo, pegando na outra mão alguns pregos.  E quanto a suas tentativas de suborno: desista delas. Ouço-as o tempo todo e, acredite, elas nunca funcionam.  Exibindo o prego para Octávio, o torturador continuou a tagarelar: — Eu mesmo fiz estes daqui. Eles têm estas farpas, vê? É uma modificação simples, mas isto já abre um leque de possibilidades inimaginável! Como, por exemplo, quando eu enfio-os sob as unhas das vítimas, a dor da penetração já é excruciante, mas eu posso também girá-los e torcê-los (o que, se não feito com bastante cuidado, pode acabar arrancando a unha, o que é uma pena) maximizando assim a eficiência desta técnica! E eu vou fazer isso com você agora.

O torturador não perdeu tempo ou teve piedade em colocar a ponta do prego sob a unha de Octávio e fincá-la na carne com uma batida do martelo na cabeça do cravo. Realmente era uma dor excruciante. Quase não saiu sangue, a unha continuou praticamente intacta e ainda assim doeu tanto que no mesmo instante que o prego enterrou-se no dedão de seu pé, o vampiro arqueou-se na mesa, jogando todo seu peso na direção oposta as algemas que prendiam-no, soltando o berro mais alto que já dera em toda sua vida. O orc fizera questão de não fincar o prego todo de uma vez, dando apenas leves batidas com o martelo de novo e de novo até o cravo ficar apenas com a cabeça para fora da pele. Quase que no instante seguinte, enquanto Octávio ainda debatia se freneticamente, um rio de vômito jorrou de sua boca, que sufocaria-o, se não fosse pelo torturador, que virou a cabeça do vampiro para o lado, livrando as vias respiratórias de Octávio da secreção.

— Sabe, você deu realmente sorte. — Comentou o orc, puxando a cadeira e sentando-se nela enquanto observava o vampiro debater-se em agonia e dor. — O Senador fez questão de chamar um torturador profissional para tratar de você. Tive de deixar meu esquadrão lá ao norte, nas linhas de frente da guerra, para vir para cá, e no início, eu fiquei um pouco puto, mas quando eu cheguei aqui, eu compreendi o porquê disto e, bem, o que eu posso dizer? Era realmente necessário! Se você visse o estado em que eles deixaram seus pais...

— Vá se foder! — Gritou Octávio, voltando-se ao torturador, seus olhos arregalados, cuspindo a cada palavra, transformando toda a dor em fúria. — Eu vou fazer você sofrer mil vezes o que eu estou passando aqui, você vai ver! Eu vou foder com você, vou foder com todos vocês, com você, Fernando e todo o resto da merda!

O orc, porém, não pareceu se importar com as ameaças e simplesmente levantou-se e dirigiu-se aos pés de Octávio mais uma vez, dizendo:

— Você já pode falar: ótimo. Muitos desmaiam já aqui no começo, sabe. — Comentou, fincando um segundo prego, desta vez no dedão do outro pé. — O segredo é deixar que a vítima agonize por alguns instantes antes de cada passo, fazendo com que ela sinta tudo o mais intensamente possível. Aparentemente, aqueles que trataram de seus pais não sabiam disso. Parecia até que tinham dado uma surra nos velhos com uma estrela-da-manhã! Mas não se preocupe, meu bom senhor, eu sou diferente deles, nunca matei alguém durante a tortura que não me fosse ordenado a matar.  Concluiu, dando tapinhas nos dedos empalados do vampiro, mesmo que este já não mais conseguisse ouvir qualquer coisa, Octávio já imerso em dor e sofrimento, engasgando com o som dos próprios gritos.

Depois de instantes debatendo-se e contorcendo-se na mesa, esganiçando como um porco que não fora abatido num único golpe, Octávio cedeu, arquejante, com nada além da sensação excruciante passando em sua mente, um mundo onde o tempo parara em eterna angústia.

— E então, já está mais disposto a falar o que quer que o Senador queira saber?

— Perguntou o orc mais uma vez.

Fazendo um esforço inacreditável, lutando para ignorar a dor e o medo, principalmente o medo, quase não conseguindo evitar de imaginar o que estava por vir ou por quanto tempo teria de aturar aquilo, o vampiro pensou: "apenas algumas palavras e isto acabará. Só preciso dizer: 'há um segundo fundo falso no meu cofre', e isto porá um fim a tudo".

 ...Diz para o Fernando ir tomar bem no meio do, AH...!

O tapa que o torturador dera nos dedos de Octávio fora quase tão ruim, se não ainda pior do que quando ele fincara os cravos sob suas unhas, um choque agonizante que percorreu todo o seu corpo até seu cérebro, subindo por suas pernas como uma lâmina flamejante que dilacerara seu interior, carne e ossos impiedosamente torturados, e acertando seus miolos como um poderoso golpe de marreta que dilacerara-os num oceano de demência, uma massa negra e vermelha de dor.

Pouco antes de perder a capacidade de raciocinar direito, antes de pôr-se a apenas balbuciar coisas sem sentido, implorando por perdão, para que o torturador parasse ou ameaçando-o e amaldiçoando-o de todas as formas possíveis, Octávio pensara: "é verdade, se eu me render aqui, se eu confessar tudo, isto realmente chegará ao fim... dezenas de milhares de pessoas morrerão e outras centenas de milhares sofrerão em miséria e tristeza, como Cézar, como o povo daquele vilarejo queimado, como os refugiados da guerra que aglomeram-se do outro lado destas muralhas. Sei que da primeira vez que percebi a crueldade e escuridão, a verdade sobre o mundo, eu simplesmente repensei meus atos, sei que vou estar sendo mais uma vez hipócrita, mas acho que isso é da minha natureza, afinal... Não é só porque desta vez o ruim está acontecendo comigo que eu vou de repente me render!"

Depois do terceiro prego, o vampiro quase arrependera-se da decisão que tomara, mas ainda assim não contou ao torturador a localização dos documentos.

O torturador seguiu empalando dedo a dedo de Octávio com os cravos, parando somente quando todos os dedos de seus pés já haviam sido perfurados, depois do que pareceu uma eternidade. Durante todo este tempo, Octávio rezou para todas as entidades divinas que conhecia para que aquilo chegasse ao fim logo... esqueceu-se de que os pregos teriam de sair, e esta foi a pior parte. O orc não fora sutil em retirar os cravos enquanto rosqueava-os, como se retirasse um parafuso, as farpas dos pregos dilacerando e cortando o interior dos dedos ao saírem. Ao fim de tudo, Octávio tendo perdido quatro unhas.

Depois ainda houve um tratamento nada sensível para impedir que os dedos do vampiro infeccionassem, o orc jogando os pós e líquidos dos potes nos ferimentos, que arderam como se em chamas.

Finalmente, com a consciência ainda presa à realidade por apenas uma linha fina, o vampiro fora desalgemado da mesa e carregado escada acima pelos guardas, que não deram-se o trabalho de evitar que os dedos de Octávio batessem nos degraus. Enquanto o vampiro era carregado de volta à sua cela, o orc despedira-se com um alegre "até amanhã", que apenas encheu o coração de Octávio de terror que, junto da dor agonizante, impediu-o de cair no sono e sua consciência escapasse para um breve descanso.

Sua cela era um apertado cubículo onde ele sequer podia esticar as pernas, as paredes eram úmidas e o teto gotejava constantemente e a única fonte de luz eram as tochas do corredor por trás da grossa porta de madeira, que prendia-o ali, sua luz adentrando levamento por sob a porta, pela estreita brecha entre a madeira e o chão de rocha. A comida chegava por uma portinhola no centro da porta uma vez por dia, apenas um mingau de aveia muito aguado e um pedaço de pão. Era uma quantia insignificante de alimento e com o gosto simplesmente horrível, mas Octávio esperava-o ansiosamente, faminto como nunca antes estivera, atento ao som das rodas de madeira do carrinho que trazia os pratos e dos passos da pessoa que o empurrava. Foi uma longa espera.

Durante este tempo, Octávio pensou sobre o que poderia e deveria fazer, tentou pensar de que forma seus aliados poderiam lhe ajudar, tentando ser positivo, imaginando se, uma vez que ele fora então capturado, Fernando baixaria a guarda sobre os demais, sabendo que Octávio não conseguira dizê-los a localização dos documentos:

"Como eles não agiram até agora, mesmo que eu tenha sido pego, Fernando pode facilmente presumir que eles simplesmente não podem agir, ou seja, eles não têm o necessário para agir, os documentos. Seu interesse agora deve ser apenas uma precaução, na verdade ele já deve ter voltado sua atenção para outro lugar agora, assim a irmandade, Bértil e os outros podem ou tentar procurar pelos documentos ou tentar depor o Senador mesmo sem eles... As chances ainda não são zero. Mas... Se ao menos eu conseguisse contato com o lado de fora de alguma forma..."

O silêncio, ou quase isto, procedeu este pensamento, apenas gotas d'água caindo ao chão e lamúrias distantes de prisioneiros podendo serem ouvidas, mas nada do som da comida aproximando-se. Octávio chorou bastante antes de então seus pensamentos voltaram-se aos seus pais:

"Ele disse que parecia que tinham os surrado com uma estrela-da-manhã. Será que estão bem... Será que estão vivos? Será que já perceberam que eles quase não sabem de nada? Se sim, será que os deixariam partir depois disso?"

Click, click, clik! girava a roda do carrinho, aproximando-se cada vez mais da cela de Octávio, parando em intervalos regulares para dar comida aos outros prisioneiros.

— O... Obrigado... — Disse o vampiro, esticando-se para agarrar sua comida, tomando cuidado para mover seus pés o mínimo  possível, uma vez que o mais ínfimo dos movimentos fazia-o sentir-se como se ainda estivesse preso à mesa de madeira, com os pregos ainda sob as unhas.

— ...Meu bom senhor Octávio...? — Perguntou a voz do outro lado da porta, aguda, feminina, de alguma forma inquietantemente familiar.  É você?

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