Guerra A Ruína - Capítulo: 51

Capítulo: 51

Azai.


As ruas e os postes que as ladeavam, os prédios e casas erguidos por todos os lado, as praças e suas fontes e estátuas em louvor aos Deuses e Santas, tudo na capital era lindo, novo, grandioso. Até mesmo as roupas usadas pela população dali eram de melhor qualidade do que as de qualquer outro lugar do qual Azai já vira. Era quase como se a guerra não tivesse os afetado.

A cidade fora construída no centro de um grande campo de colinas, oito grandes muralhas circulares encimavam oito colinas e eram interligadas por uma muralha maior, a cidade assim sendo dividida em nove partes. Os oito círculos externos eram dedicados as Santas, em cada um havendo dezenas de templos dedicados a dezenas delas, e neles também moravam a população mais pobre, trabalhadores, empregados das fábricas, artesãos e mestres de variados ofícios e agricultores que trabalhavam nas plantações que cercavam toda a capital, enquanto a maior das muralhas, aquela que era cercada pelas demais ao mesmo tempo que interligava-as, a moradia de muitos Mestres e do próprio rei e da família real, era dedicada aos Deuses.

Os prédios eram construídos da forma tradicional de Namória, bastante quadrados, feitos todos de tijolos de barro ou granito, com calhas repletas de gravuras e decorações religiosas, as lajes das casas cercadas por parapeitos e encimadas por varais nos quais tremulavam muitos tecidos coloridos, túnicas, turbantes, lençóis e tapetes, e as ruas eram todas lajotadas de paralelepípedos e bastante limpas, os dutos de água e esgotos eram subterrâneos e os quarteirões eram todos organizados. Os tijolos ainda nãos tinham começado a esfarelarem-se, não viam-se remendos nas muralhas ou nas estradas, nem barracos empoleirando-se uns sobre os outros, afinal, aquela cidade, a capital de Namória, Baixo-Lar, havia tido sua construção concluída a apenas quarenta anos, tendo sido planejada antes mesmo de Darco cair, seu projeto tendo saído do papel logo ao fim do Pandemônio, setenta e um anos atrás. O rei da época não apenas achara que seria mais apropriado que a capital de sua nação carregasse a cultura, a face do país e suas tradições centenárias do deserto, como decidira também que residir na antiga capital de Darco, uma cidade que fora marcada por muitas tragédias, não era adequado à sua pessoa e aos Mestres que apoiavam-no. Como resultado, Baixo-Lar erguera-se gloriosa, magnífica... e completamente destoante do cenário verde e vivo da campina na qual assentara-se.

— É realmente linda, não?  Comentou o homem, aproximando-se por trás de Azai.  A antiga capital não chega aos pés de sequer uma das muralhas externas de Jyll. Bem, embora eu entenda o porquê disto. Afinal, ela, a antiga capital, fora construída numa época em que Namória não era mais que um aglomerado de vilarejos pesqueiros beira-mar, uma nação pobre cuja maior parte do território era inóspita, apenas uma enorme extensão de areia.

— Sim, senhor Patrono-Comandante-Mor Daví. — Concordou Azai, batendo continência.

O homem de maior importância do país depois do rei: o senhor Patrono-Comandante-Mor. Ele era um draconiano com um grande par de chifres, como os de um bode, retorcidos e grossos, e embora seus pelos já estivessem mais rosados que vermelhos por conta da idade, alguns fios aqui e ali já bastante brancos, e rugas puxando- lhe os olhos e a testa, ainda era um homem grande e imponente em seu uniforme repleto de estrelas, com uma cumprida barba com três tranças e uma cabeleira arrepiada que caía-lhe até a metade das costas. Azai estava em sua mansão, um casarão rico e enorme, a maior construção depois das muralhas e do castelo real. O Maioral-Mor olhava para a cidade da laje da mansão que era, na verdade, um belo jardim, quando fora surpreendido pelo homem.

— Venha, vamos passear.  Disse Daví, dando meia volta e seguindo jardim adentro. — Não gosto de ficar entre quatro paredes. Por mais espaçoso que seja o cômodo, eu me sinto sufocado, sabe?

— Sim, senhor Patrono-Comandante-Mor Daví.  Respondeu o Maioral-Mor, hesitante.

Azai simplesmente não conseguia parar de suar. Não fazia ideia do porquê fora levado para aquele lugar, ou por que estava conversando com aquela ilustre figura, podendo imaginar apenas, porém: com certeza que era algo sério, afinal, alguém de tão alta posição não perderia tempo com qualquer coisa. O Maioral-Mor não parava de se perguntar se as acusações que aquele Mestre fizera contra ele tinham de alguma forma chegado ali e se aquele sátiro era na verdade alguém realmente importante. Já considerava a morte por enforcamento como um alívio, imaginando a que horrores podia vir a ser condenado quando o draconiano continuou:

— Por agora, me chame apenas de "Daví", por favor. Eu entendo a necessidade da formalidade quando em público, mas aqui é minha casa, o particular, o privado. Motivo também pelo qual eu me permito ter esta conversa com você enquanto passeamos por este belíssimo jardim. Não precisa se preocupar também com o que disser aqui, ignore a presença dos funcionários, que eles não falariam nada que eu não lhes desse permissão para fazê-lo. A propósito, Azai, sente-se com sede? Fome, talvez?

— Não se... Não, Daví.

— Bem, mas eu estou. Uma taça de vinho! — Pediu o draconiano para aparentemente ninguém, simplesmente gritando seu desejo enquanto parava para observar uma flor particularmente bonita.  Vejo que você ainda está nervoso, o que não é realmente uma surpresa, mas a origem deste nervosismo não parece ser apenas a minha presença... Você ao menos tem noção do que está acontecendo a você, Azai? — Perguntou Daví, esticando uma mão ao mordomo que surgiu de trás de um aglomerado de altos arbustos com a bebida, e tomando um bom gole do vinho.

— Posso imaginar, s... Daví.

— Oras, então me diga por que você está aqui!

— ...Por que eu cometi um grave crime contra um Mestre, Daví. Porque eu fiz atos imperdoáveis contra o reino.

— Hm... De fato, sim. Isto, porém, é apenas uma parte do porquê da questão. Além de que, você realmente pensa que só por você ter ensinado um pouco de nobreza àquele babaca teriam o trazido até aqui, cruzando centenas e centenas de quilômetros, à minha presença? E para quê? Para que eu lhe desse uma lição de moral antes de mandar esfolarem-no por completo e pendurarem seu cadáver sobre os portões da cidade?

— Isso... me parece improvável, Daví.

— Sabe, em seu julgamento, você deixou não apenas aquele Mestre numa posição difícil. Era suposto você estar pendurado numa corda agora, afinal, ter sido condenado praticamente sem chance de se defender. Mas você tem aliados poderoso, soldados de todas as patentes respeitam-no e admiram-no, que defenderam-no; os soldados já não guardam bons sentimentos quanto aos Cobradores-de-Guerra ou os Mestres, o que é justificável, muitos deles perderam amigos próximos e companheiros por questões políticas 'fúteis', como você, Azai. Por outro lado, os Mestres são influentes, ricos e próximos ao rei, os próprios financiadores das nossas tropas nesta guerra, anseiam pela Ruína como um cão esfomeado pela carne e nos cedem grandes quantidades de dinheiro visando sua parte no futuro, porém, a guerra não está progredindo bem e isso os deixa impacientes, e o rei se vê forçado a dar-lhes um mimo, que é nada mais que parte dos tesouros arrecadados pelos Cobradores-de-Guerra.

"Então, os soldados são os responsáveis por proteger a nação, são aqueles que lutam esta guerra e (não vamos ser hipócritas aqui) aqueles que ainda mantêm o rei em seu trono, logo o rei não pode perdê-los, enquanto os Mestres são aqueles que possuem as fábricas, as fazendas, as lojas e mercados, são aqueles que fazem com que Namória ainda possa lutar esta guerra, e o rei também não pode perdê-los. Logo, se você for condenado, o exército ficará bastante... chateado, uma vez que sua posição será estabelecida basicamente como capachos mercenários ou subordinados sem valor dos Mestres que os obrigam a dar suas vidas para apenas aumentar sua fortuna. Porém, se você não for condenado, os Mestres ficarão emburrados com o rei e pararão de financiar as "tropas rebeldes" e seu respeito à família real cairá."

— Eu sou apenas um Maioral-Mor que cometeu o crime de insubordinação, meu caso deveria ser mais isolado que isto. — Retrucou Azai, incrédulo. — Tenho certeza que, pelo menos, meia dúzia de soldados de patente igual ou próxima à minha foram executados pelo mesmo motivo durante esta guerra.

— Sem dúvidas, e você seria sim apenas mais um. Se você não tivesse sido apoiado por tantos outros de patente igual ou superior à sua, se não fosse tão popular entre os seus, se os soldados não tivessem tanta antipatia para contra os assuntos políticos, e tantos outros "se's". Então, Azai, o que você acha que deveríamos fazer com você?

— Eu... Eu não sei, Daví.

— É claro que não. Aposto que as consequências de seus atos nem se passaram por sua cabeça quando você fez toda a merda que fez.

— Tem razão, eu não imaginei que chegaria a este ponto. — Comentou o Maioral-Mor, sério, em resposta a face do draconiano se fechando numa careta de desdém. — Eu apenas agi conforme eu pensei que seria o correto, como um soldado deveria agir. Em prol da minha nação, eu segui a vontade de meu coração. Para mim, estava e ainda está claro que o que fiz foi o melhor. — Concluiu, sem qualquer relutância.

Surpreendido com a firmeza do Maioral-Mor, Daví pôs-se a gargalhar, respondendo-o em seguida:

— Sim, sim, isto é perfeito, o esperado de você! E também a resposta para o que faremos quanto a sua posição, Azai. Sabe, se independente da resposta que dermos vamos ser prejudicados, é óbvio que escolheremos a que menos nos afetará. E eu lhe digo, Azai, a resposta que menos nos afetará não é condená-lo a morte ou perdoá-lo para mimar qualquer um dos lados, mas sim exaltar você, o elevar, te fazer assentir a algo superior a qualquer um: transformá-lo num herói.

"Na verdade, você mesmo já nos deu a resposta ainda durante o julgamento. Não houve realmente grandes problemas quanto a decisão que teríamos de tomar. Assim que eu ouvi a história toda, eu soube imediatamente o que fazer (sou muito mais velho que qualquer um neste reino, afinal, não é a primeira vez que eu vejo este tipo de situação), eu apenas fiz todo este discurso para ver que tipo de herói você seria, o idiota sortudo e facilmente manipulável ou o realmente nobre cavaleiro de armadura branca? Alguns diriam que o primeiro tipo seria o melhor, aquele idiota que não morreu, que chegou onde chegou apenas por um acaso do destino e faz tudo o que lhe é dito sem nem pensar no porquê disto, mas eu discordo, este tipo não cativa ninguém! Não há realidade nisso tudo! Eu, e boa parte do povo comum, prefiro muito mais aqueles como você, aqueles cheios de virtude e de bom coração, um verdadeiro marco para a nação. Sim, é o seu tipo que levanta milhares, milhões às armas!"

— Daví, me desculpe, eu não estou entendendo, o que você quer dizer com tudo isso? Herói? Levantar armas?

— Sim, herói. Você, o nobre soldado Mestre, que lutou contra as injustiças na guerra e cativou seus companheiros, agora partirá em defesa do território do reino como um salvador, um símbolo de glória e poder e ao mesmo tempo nobreza e dignidade, um herói que fará com que muitos queiram levantar também suas armas contra Nova Crasíria. O exército se orgulhará e os Mestres verão utilidade em você.

"Eu, Patrono-Comandante-Mor Daví, retiro a ordem de rebaixamento imposta a você, senhor Comandante Azai Calian, e concedo-lhe também a promoção a Comandante-Mor. E ordeno-lhe agora que parta a reconquista das cidades e vilarejos namorianas que caíram nas mãos dos crasirianos, que liberte nosso povo e traga justiça aos invasores, rechace-os e ensine-os a verdadeira força de Namória, desejo-lhe todas as bênçãos em sua missão. Agora, de forma que ninguém fique chateado, organize sua tropa, vá matar alguns invasores e, de brinde, nos render alguma boa propaganda. E é melhor que possa disfarçar esta perna manca melhor do que está fazendo agora."

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