Guerra A Ruína - Capítulo: 50

Capítulo: 50

Álex.


Os soldados vinham todos os dias, cerca de três vezes por dia, percorriam o corredor de celas, partindo logo em seguida, sempre levando consigo quatro ou cinco prisioneiros. Não parecia haver critério para escolher aqueles que seriam levados. Os cratenses, na verdade, pareciam divertirem-se enquanto apontavam de um prisioneiro para o outro, cuspindo ameaças (como supôs o fantasma), aproximando-se de alguém e, de repente, escolhendo uma pessoa completamente diferente, deixando todos sempre em estado de terror, ninguém atrevendo-se a tirar os olhos do chão quando os soldados começavam a seleção, as risadas dos cratenses, seus passos e as respirações pesadas daqueles que haviam sido capturados pelos ocidentais sendo os únicos sons possíveis de se ouvir nestes momentos. Ninguém dos que foram levados pelos soldados voltara, afinal.

Além disso, os prisioneiros ficavam quase o dia inteiro nas celas, respondendo às necessidades do corpo, os chamados da natureza, em baldes nos cantos, para fugirem do frio, aglomerando-se, aconchegando-se uns aos outros, saindo somente uma vez, para uma refeição ao meio-dia, embora fosse difícil para o fantasma determinar o horário sem janelas próximas ou qualquer sinal do mundo exterior, quando todos os prisioneiros do corredor de celas no qual Álex estava eram organizados em fila indiana e guiados a um amplo espaço quadrado no interior do forte, um lugar repleto de mesas e bancos com um balcão numa das extremidades, onde era servida a comida. Era lá onde Álex estava então.

Não parecia haver mulheres dentre os prisioneiros que ali estavam, mas Álex sabia que haviam outras alas do forte que abrigavam mais celas, e que nelas haviam muitos outros mais prisioneiros. Perguntava-se o porquê disto.

Não eram obrigados a trabalhar, os soldados não usavam-nos para divertirem-se, estavam afastados demais de qualquer cidade, zona rural e da guerra, de qualquer lugar onde pudessem cumprir com alguma função. Também havia o "teste" pelo qual Álex e os demais prisioneiros passaram na cidade em que o navio que os trouxe atracou, quando um homem os tocou rapidamente, e também quando chegaram ali no forte, quando um médico os examinou mais minuciosamente. Tudo parecia muito estranho. E Áex também não fazia ideia de como poderia realmente encontrar-se com Miranda...

Foi quando um dos homens, já com um olho inchado, com um corte sobre uma das sobrancelhas sangrando muito, soltou um berro cheio de desespero e dor, antes de tornar fechar a boca, trincando os dentes que ainda possuía nela e voltando à sua luta.

Álex suou frio, enquanto voltava a fixar sua atenção aqueles dois que brigavam à sua frente, torcendo para que ninguém percebesse o que realmente se passava ali: uma outra parte de seu treinamento... e também uma vingança pessoal, um gostinho do que estava por vir. Álex estava usando de sua magia para controlar os movimentos daqueles dois.

Aquele não era exatamente o tipo de feitiço, o "Marionetismo" no qual o

fantasma se especializara, afinal interferiam com a coordenação, percepção e autocontrole de um ser vivo diretamente, assim sendo classificado como um feitiço de "Sabotagem". Ainda assim, todos os feitiços, a magia em si, independente de sua disciplina ou subdisciplina, baseavam-se nos mesmo princípios e, em especial a Sabotagem e o Marionetismo eram bastante similares quando se se tratando-se de controle de corpos, além de que os feitiços que Álex estava então usando exigiam bastante de sua reserva mágica, ele assim também aumentando sua capacidade de armazenamento de magia, que inicialmente, simplesmente treinara mantendo um objeto conjurado pela maior quantidade de tempo possível, esse método, porém, exigindo tempo demais e rendendo um progresso muito vagaroso, sendo que o fantasma podia vir a ser escolhido pelos soldados a qualquer momento, e, se isso acontecesse enquanto ele ainda não estivesse preparado, podia significar o fim de tudo.

Um dos lutadores desferiu um soco certeiro contra o estômago do outro, fazendo este cambalear para trás, vomitando tudo o que comera até então. O impacto, mais uma vez, fizera Álex quase perder o controle sobre o homem. A cada golpe, esquiva ou bloqueio, a cada movimento que os obrigava a fazer, o fantasma sentia e lutava contra a resistência dos músculos dos homens, suas mentes que resistiam às forças que os empurrava e puxava aqui e ali, além de Álex ter de tomar um cuidado extra para ocultar a luz azulada da dispersão de magia, o mago conjurando os feitiços por baixo das roupas dos homens. Tomava um cuidado especial para manter a boca deles fechadas, evitando que eles reclamassem para os demais sobre sua situação, evitando que fosse descoberto como um mago.

Isso significava também, porém, que Álex tinha, de alguma forma, de impedir que aqueles dois falassem depois do fim da luta que estavam sendo, na verdade, controlados magicamente, forçados a lutarem um contra o outro. Tinha de matá-los.

Uma vez que já havia começado a controlar os lutadores, a usar os feitiços naqueles dois, não havia mais volta, o fantasma sabia. Ainda assim, não sabia se realmente conseguiria matar alguém. E por isso que escolhera aqueles homens em específico, os primeiros a espancarem-no quando ele chegou à cela. Além de um treinamento mágico intensivo, para Álex aquilo era a prova final de que ele estava realmente preparado para o que estava por vir, uma resposta a si mesmo, uma despedida e um novo começo, o marco de um caminho sem volta do qual começara a trilhar desde que deixara o Grêmio.

O elfo, um dos que eram manipulados por Álex e forçado a lutar, aquele que levara o soco no estômago, esticou a mão para uma mesa próxima, agarrou um prato e atirou-o contra o humano, seu oponente, que bloqueou o projétil com os braços, fazendo os estilhaços do barro do qual era feito o prato voarem para todos os lados. Lascas do prato cortaram a pele de seus braços, e Álex pôde sentir o homem tentando gritar de dor, mas continuou a impulsioná-lo contra o elfo.

Os lutadores, aproximando-se um do outro, logo recomeçaram a trocação de golpes, o humano agachando-se e assim esquivando-se do soco do elfo, e atingindo a virilha do mesmo, que, mesmo agonizando de dor, contra-atacou com um chute certeiro contra o nariz do humano, quebrando-o.

Com um rio de sangue escorrendo do nariz, o humano recuou alguns passos, mas o elfo desferiu-lhe um segundo chute, atingindo-lhe a parte de trás das pernas, derrubando-o. Os dois continuaram a rolar no chão trocando socos por alguns bons momentos até o humano ficar por cima, segurando as orelhas do elfo enquanto dava-lhe cabeçadas, devolvendo o nariz quebrado ao elfo já no primeiro golpe. Haviam soldados cratences naquele refeitório, porém não pareciam se importar muito com a briga, embora pequenos grupos deles parassem para assistir a tudo. Quanto aos demais prisioneiros, muitos aglomeravam-se ao redor da briga, parte gritando insultos ou palavras de apoio, parte simplesmente fitando tudo calada de forma inexpressiva.

Uma vez que o homem já estava quase inconsciente, Álex controlava o elfo com maior facilidade, fazendo-o desviar-se e defender os golpes com uma perícia elogiável, conseguindo tira-lo de baixo do humano, arremessando o homem que golpeava o elfo metros para trás com um chute. O humano, porém, era o completo oposto.

A cada novo movimento, o homem apresentava maior resistência aos feitiços de Álex, logo conseguindo desviar os punhos em alguns centímetros e fazendo suas pernas tremerem enquanto lutava contra a força que guiava-as. Álex tentou focar-se mais no humano e rapidamente conseguiu ter controle quase que total do corpo dele, mas não deixou de sentir em momento algum sua resistência, que parecia somente aumentar. Para conseguir opor-se tanto contra aqueles feitiços, porém, mesmo que o indivíduo não fosse propriamente dito um mago, era necessária alguma habilidade mágica, no mínimo um talento natural à magia para adaptar-se tão rapidamente aquilo tudo. Não era nada com que o fantasma não pudesse lidar, mas deveria tomar cuidado com o huma... com os dois homens!

Recusando-se a desmaiar ou ceder a Álex, o elfo, de repente, num último impulso ensandecido, enquanto o fantasma focava-se em manter o humano sob controle, conseguiu libertar-se em parte dos feitiços. Ele já movia-se, quanto Álex percebeu-o, saindo de seu raio de conjuração (agora de cinco metros), gritando em desespero enquanto corria aparentemente sem rumo. Apenas uma frase e logo todos saberiam da existência de um mago entre os prisioneiros e, depois disso, com certeza, não demorariam a chegar em Álex. Apenas uma frase e ele estaria acabado. O fantasma não podia conjurar os feitiços de qualquer jeito no elfo, porém, ou a magia seria visível para todos e o resultado seria o mesmo de que se deixasse-o gritar por ajuda, de que estava sob controle de alguém, além de Álex que não podia se dar o luxo de perder também o controle sobre o humano. E o elfo afastou-se demais. Álex já não podia mais controlá-lo, nem mesmo enviar o humano atrás dele. Suor frio brotou de sua pele, seus pelos arrepiaram-se e o fantasma mergulhou em terror vendo-se impotente, tudo indo por água abaixo. Claro, mesmo que os soldados começassem a vasculhar dentre os prisioneiros por um mago, não o encontrariam imediatamente, mas ele já havia gastado uma quantidade bastante considerável de sua reserva mágica durante aquele arriscado treino, e, estando cercado de todos os lados por tantos soldados, mesmo o mais habilidoso dos magos estaria fadado à morte.

Álex seria descoberto e imediatamente morto. Tudo estava acabado. No final, sua promessa, sua decisão e esforço foram nada mais que inutilidades, não conseguiria vingar-se, não conseguiria salvar a si mesmo ou a Miranda. Mais uma vez não conseguiria fazer o necessário. Do início ao fim, seria apenas um garoto ingênuo?

— Não. — Disse Álex, respondendo a si mesmo, voltando então toda sua concentração ao humano, colocando sobre o homem tamanha força que sentiu e ouviu o ombro do humano deslocar-se como resultado quando o controlou de forma que tomasse a espada de um dos soldados cratenses próximos e atirasse-a contra as costas do elfo, fincando-a bem entre as omoplatas do alvo.

Os cratenses não puderam então mais ignorar a luta, afinal. No instante seguinte, assim que o cadáver do elfo tocou o chão, meia dúzia de lâminas atravessaram o corpo do humano e ele também fora morto.

Álex, não percebeu o tempo passando enquanto fitava os cadáveres caídos sobre poças do próprio sangue. Não fora o humano que matara o elfo, assim como não foram os cratences que mataram o humano, Álex sabia. Havia sido ele o único responsável por aquelas mortes. Suas mãos estavam manchadas de sangue. Tinha planejado aquele final desde o início. E recusou-se a permitir-se sentir remorso.

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