Guerra A Ruína - Capítulo: 5

Capítulo: 5

Álex.


Sobre as areias do estádio, uma centena de cargas de diferentes tamanhos e pesos levitavam a variados metros no ar, sob um halo de luz azulada, algumas envoltas por meras alusões à cintilância, outras rodeadas por inúmeras partículas de cor azul, ardendo como se em brasas. Era a aula primária de Controle de Flutuação de Objetos, ou seja, uma das seis matérias indispensáveis a todos os alunos do Grêmio, estas compostas por: Matemática, Línguas, História, Geografia, Controle de Flutuação de Objetos, Criação e Controle de Energias, e Projéteis e Outras Estruturas Físicas Espontâneas. Logo, toda a classe de Álex participava da atividade, que consistia, basicamente, de manipular objetos a distância.

Álex, embora nem de longe fosse o melhor mago de sua classe, saía-se especialmente bem naquela matéria, fazendo a esfera que manipulava, praticamente sem emitir a luz que significava a dispersão de magia no ar, a falta de controle do mago conjurador sobre a própria magia, atravessar bastante rapidamente e quase sem falhas os aros de metal que circundavam todo o estádio no topo da construção, que fora erguida em forma circular, dividida em muitos patamares, com a arena no centro; porém, com exceção do professor, que mostrava-se indiferente a situação, nenhum dos gremistas ali parecia interessado na aula, toda a arena do estádio inundada por murmúrios de conversas paralelas, e todas sobre o mesmo assunto: "A Conferência", como foi noticiada pelos jornais.

— Você parece empolgado. — Comentou Miranda, que saía-se apenas medianamente bem na tarefa.

— E por que eu não deveria estar? Desbravadores não só descobriram uma floresta inteira, composta inteiramente por seres nunca antes vistos, no extremo norte do planeta, como também a Ruína! Ah, eu queria ter estado lá. Deve ter sido uma aventura verdadeiramente incrível, uma aventura de verdade, cheia de ação e gloriosa! — Respondeu o garoto, entusiasmado.  A propósito, quem foi mesmo que me disse que eu estava lendo histórias demais, "viajando demais", quando lhe contei sobre um certo boato, hein?  Continuou, convencido, exibindo um meio sorriso arrogante à garota.

Emburrando-se, desviando de assunto, Miranda disse:

— Mas, sério, o que você acha que vai acontecer daqui para frente? Se Horac estava com todo o monopólio da Ruína até então, ele não vai querer abrir mão de seus privilégios, não é? Mas com Crát e todos esses outros países pondo pressão...

— Relaxe, nesse exato momento, todos os nossos líderes estão negociando. Tudo pacificamente. Tenho certeza que vai dar tudo certo no final. Além disso, imagina se conseguirmos receber cargas de Ruínas aqui! Seria realmente muito legal se eles nos deixassem usar um pouco, não? A sensação de ter uma reserva mágica infinita deve ser incrível, poder conjurara qualquer coisa sem nunca se cansar.

— ...Bem, realmente parece ser muito legal, Léx, mas foi uma expedição patrocinada por Horac que encontrou a Ruína, então ela deveria pertencer, naturalmente, a nós, não é? — Disse Miranda, convencida.

— Olha, eu sei que você nasceu lá, ama sua terra natal e tudo o mais, mas não deve-se ser tão gananciosa, sabe? Isso é um recurso que pode mudar o mundo inteiro, logo deveria pertencer a todos!

Álex vasculhava a estante a sua frente em busca de um novo volume que ainda não lera, ainda pensando no que dissera para irritar tanto Miranda ao ponto dela vir o ignorando desde a última aula.

— Aposto que está choramingando em algum canto. — Comentou baixinho o garoto.  Bem, eu tenho certeza que logo ela vai melhorar.

O garoto estava na biblioteca, um prédio que frequentava com bastante frequência. Aquele era um enorme edifício de seis andares, no formato de um grande "T", tão grande quanto o próprio Palácio Magno, tendo intermináveis estantes apinhadas de todos os tipos de livros, fossem de estudo ou de recreação, contendo também documentos e registros como jornais e panfletos que carregavam das mais insignificantes informações até aquelas que mudaram completamente suas épocas, havendo também, nos níveis existentes abaixo do solo, tomos e grimórios dos mais secretos.

Lá dava-se de encontrar livros herbalísticos, bestiários, livros de história e tantos outros dos mais variados tipos, mas naquele momento o rapaz fitava sério uma estante afastada das demais, no primeiro andar, próxima a parede, numa parte onde antes nunca estivera. E logo mostrou-se recompensador explorar aquelas prateleiras, pois, sem demora, nela encontrou uma série de livros que pareceram-lhe interessantíssimos, contos, novelas e sagas, como: Zendrik, o Monta Dragão, Reinos Secretos e Mapas Incompletos, e A Meia Espécie.

Escolhendo Reinos Secretos e Mapas Incompletos, inspirado pelas descobertas no Continente Sem Nome, Álex pôs-se a percorrer o caminho de volta à recepção, onde registraria aquele volume como tomado em seu nome, seguindo próximo a parede, observando aquele interminável mar de livros à sua esquerda, todas aquelas estantes, escadas e lustres e um incomum silêncio a se encontrar dentro Grêmio. Até bater de frente com uma saliência da parede e machucar sua cabeça com a pancada, sua testa inchando quase que na hora.

— Ai! — Gritou Álex, esfregando o ferimento, ainda cambaleando para trás. Quase que na mesma hora, um "shhhh!" veio de longe, da recepção do prédio, uma advertência, um pedido de silêncio.  Desculpe...  Cochichou o garoto em resposta, tornando a olhar a sua frente, à saliência na parede. Nela havia uma estranha porta de madeira entreaberta, na qual Álex batera a cabeça.

Já prosseguia seu caminho, imaginando ter se deparado com mais uma das salas reservadas, onde eram guardados os tomos que exigiam maior cuidado por parte dos Gremistas bibliotecários, quando uma repentina e sibilante rajada de vento carregada do sal do mar alargou a greta da porta, trazendo para dentro da biblioteca a luz do sol e largas folhas verdes, que entraram rodopiantes até pousarem no chão de madeira polida. O rapaz relutou por alguns instantes, passando a pensar se, assim como muitas das misteriosas portas daquele lugar, não precisaria de uma permissão especial para atravessar aquela, mas, por fim, rendeu-se a curiosidade e adiantou-se a porta, transpondo sua soleira. Do outro lado, escondido no espaço dentre a traseira da biblioteca e a muralha,

havia um espaçoso e verdejante campo gramado e, centralizada no centro do terreno, uma única e grande árvore de tronco alto e folhas largas, como aquela que entrara no prédio quando carregada pelo vento.

Sentindo a brisa fresca, a luz quente do sol da tarde e o cheiro agradável da grama, Álex pensou em voz alta:

— Aqui é um excelente lugar para ler!

Esse sentimento morreu quase instantaneamente, deixando-lhe apenas um gélido calafrio na espinha que arrepiou-lhe todos os pelos do corpo quando, ao aproximar-se da árvore, deparou-se com um negro par de lápides. Ambas estavam gravadas, em letras grandes e prateadas, apenas algumas poucas palavras, numa delas estando: AQUI JAZ ÉDRIK. HERÓI, CÔNJUGE E MENTOR, e noutra: AQUI JAZ AGNE. HEROÍNA, CÔNJUGE E MENTORA.

Enquanto ainda fitava inquieto os túmulos, um milhão de pensamentos correndo livres em sua mente, formulando todos os tipos de teorias de quem eram aquelas pessoas e por que foram enterradas ali, uma voz feminina bela porém cheia de sabedoria, complacente, surpreendeu-o, dizendo de repente, fazendo o rapaz saltar quase um metro para trás:

— Ora, é uma surpresa encontrar alguém por aqui!  Numa tentando acalmar o rapaz, concluiu: — Ah, por favor, não era minha intenção assustá-lo, não se incomode comigo, não precisa ir embora.

Afastando-se dos túmulos, agora prestando mais atenção à pessoa dona daquela voz, ainda com o coração batendo rápido, Álex percebeu ali uma mulher. Não parecia ter mais do que trinta anos, tinha seus cabelos cortados na altura dos ombros, rebeldes e vermelhos como sangue, enquanto seu olho, ao menos aquele que não estava encoberto sob o tapa-olho, era de um rosa claro que brilhava placidamente a luz do sol, refletindo uma alma alegre porém experiente. Surpreendeu-se quando viu que a mulher era, na verdade, uma draconiana, ao fitar o longo e negro par de chifres que saía dentre seus cabelos, de logo acima das orelhas, porém o espanto fora ainda maior quando seus olhos perceberam uma fina e quase elegante, delicada, cicatriz na vertical no lado esquerdo do rosto dela, lado cujo o qual o chifre correspondente estava partido no meio, aquela marca sendo também a responsável pela ausência do de um de seus olhos.

— Presidente!?

— Ah, eu fico sem jeito quando me chamam assim... Apesar de eu mesmo ter criado o nome do cargo!  Retrucou Milly, coçando a parte de trás da cabeça, enquanto sorrindo.

— Bem, quer dizer, por favor, me desculpe.  Pediu Álex, seu corpo retesando-se na hora enquanto as coisas que ouvira falar daquela mulher vinham-lhe a mente.

— Não precisa de tanta desconfiança, garoto, eu não mordo! — Respondeu a draconiana, brincalhona, avançando até parar a sombra da árvore, em frente aos túmulos.

— Você veio ler? Imagino que sim. Eu também gosto de ler aqui de vez em quando. Continuou.

— S... Sim. — Concordou Álex, tímido. E não apenas por conta da autoridade ou dos boatos que circundavam a Presidente. A brisa era constante e fraca, porém forte o suficiente para agitar suas mechas de vermelho intenso, que pareciam ofuscar o próprio mundo enquanto dançavam banhadas por solitários raios de sol que trespassavam a copa da árvore aqui e ali.  Eu vi a porta meio aberta e entrou uma brisa forte dentro da biblioteca, o que chamou minha atenção, então eu vim aqui e...

— E se deparou com as lápides.

— Sim.

— Não há motivos para se temer, garoto, como está gravado nas lápides, estas pessoas foram heróis.

— Nunca ouvi falar deles... — Comentou Álex. — Ah, não é como se eu os desprezasse ou qualquer coisa do tipo! — Corrigiu-se, percebendo sua ignorância. Porém, esta, gargalhando, respondeu-o:

— Tudo bem, garoto, não são muitas as pessoas que os conhecem. A propósito, qual seu nome?

— Álex. Mas meus amigos sempre me chamam de Léx.  Respondeu o rapaz, preferindo utilizar "meus amigos" ao invés de "minha única amiga".

             — Léx, hein... Sabe, o nome do melhor amigo desse Édrik aqui também era Álex, e seu apelido também era Léx. — Disse a draconiana, indicando um dos túmulos com a cabeça. — "As pessoas costumam pensar que, contanto que comportem-se, se agirem conforme a norma, o mundo as aceitará e elas terão um lugar só delas. Mas isso não é verdade. O mundo é selvagem, escuro, cruel e renegado, e não existe um lugar o qual todos possam chamar e lar. Por isso deve-se lutar. Sem nunca desistir, até a última gota de sangue... e criar e proteger seu próprio lugar". Palavras deste outro Álex. Elas encheram coração de Édrik de força, e ele as repetiu e passou adiante essa força.

— Isso foi profundo. Mas, como eu posso dizer...

— Incorreto?  Interrompeu a mulher, completando a frase por Álex.

— Isso.

— Bem, eram outros tempos. Tempos difíceis. Mas são em tempos difíceis que surgem os heróis.

Já completamente atento, interessadíssimo na história e agora relaxado, Álex enfim perguntou:

— E quem foram e o que fizeram estes Édrik e Agne?

— Foram pessoas que lutaram contra Namória, durante o Pandemônio. — Explicou a Presidente, voltando-se a Álex, sorrindo. — Édrik era um mestiço, meio humano, meio íncubos. Ele nasceu e cresceu numa cidade a leste daqui, chamada Brak. Na época os dois lados da Cordilheira Gris ainda chamavam-se Darco, e ele passou por maus bocados por ser um "meio-apócrifa", como eles o chamavam.

"Um dia ele foi convocado por uma nobre da época, mas em sua mansão teve apenas mais desgraças: dor e tristeza. Fugindo da mansão ele salvou dois prisioneiros, dois escravos daquela nobre. Duas crianças. E por algum tempo eles três permaneceram juntos. Porém, uma das crianças, que eram gêmeos, a garotinha, machucou-se, então ele viu-se obrigado a ficar para trás para que os gêmeos pudessem fugir. Quando estava próximo da morte, encurralado pelos homens da nobre, Agne uma elfa-negra, ou seja, uma "Apócrifa" para os Darcenses, o salvou a pedido das crianças, que a encontraram por acaso na mata."

"Agne e Édrik seguiram atrás das crianças, criaram laços e amaram-se, então, finalmente, chegando a um porto, onde todos se reencontraram... mas, logo em seguida, foram novamente separados. Édrik teve de ficar para trás mais uma vez e Agne e os gêmeos fugiram num navio, para muito longe, para uma longínqua terra de magia e máquinas futuristas. A elfa-negra cuidou das crianças, que aprenderam várias coisas e tornaram-se grandes. A garotinha então chamou a atenção de pessoas velhas e más, que tentaram tomar-lhe a alma, mas ela conseguiu as derrotar, tornando-se então um tipo de rainha. Mas, embora Agne desse tudo de si para a proteger, a garotinha estava confusa: ela tinha de tomar uma decisão! Foi então que Édrik chegou a ela, mais forte e sábio, e a disse as palavras de Álex, e todos decidiram lutar."

"De volta a Darco, Édrik foi para o norte e para o norte da Cordilheira Gris, onde sacrificou-se para salvar a todos do exército do Golem. Nem eu nem Nícolas, que o amávamos como um pai, nem Agne, que o amava como um homem, sabíam da morte de Édrik, mas na batalha final, Agne também sacrificou-se, dando sua vida para me proteger... Então veio a paz. Poucos dos vivos podem saber a importância destes dois, mas nós ainda nos lembramos: se não fosse por eles, Nova-Crasíria não existiria hoje, nem nenhum destes sorrisos de mães e pais e crianças de todas as espécies que vemos hoje nas ruas."

Enquanto ouvia atentamente a história, Álex não pôde tirar os olhos da draconiana, observando o rosto da mulher, que no início mostrava-se impassível, porém, conforme continuava a narrativa começava a deformar-se, mais alegre em alguns pontos, cheio de dor noutros, Milly mal conseguindo conter suas lágrimas no final, relembrando- se. Por fim, após longos minutos de silêncio, somente o vento agitando as folhas da árvore sobre suas cabeças e a grama sob seus pés, assim criando um suave ruído, farfalhante, a Presidente então comentou, pesarosa, cansada, seu olhar distante, como se olhando para dentro de si mesma, o real motivo de estar ali, apenas confundindo o garoto:

— Não mais é preciso dar tudo de si para apenas sobreviver por mais um dia. Não mais é preciso fugir constantemente. Não mais estamos rendidos pelo medo e desespero. Temos um lar. Então, por que devemos lutar agora, Édrik?

— Miranda!  Chamou Álex, ao avistar sua amiga no caminho.  Miranda, eu acho que me apaixonei!

— Que?!  Disse ela, fitando pasma o rapaz.  Q... Que!? — Repetiu.

— Ela é linda! Ela é um pouco mais velha que eu, seu cabelo é vermelho vivo e seus olhos, quer dizer, seu olho é rosa e seus lábios parecem tão macios! Ela parece graciosa, feminina e amorosa, mas ao mesmo tempo forte e sábia! — Descreveu Álex, entusiasmado, sem parar um segundo sequer até ser interrompido por Miranda, que perguntou, boquiaberta:

— E que é ela?

— Milly!

— ...A Presidente?

— Sim!

Entre gargalhadas, com, até mesmo, lágrimas escorrendo por suas bochechas, Miranda retrucou:

— Ela tem, tipo, oito vezes sua idade! Além de que ela é uma das pessoas mais importantes do país, sabe? É a riquíssima Presidente do Gremio! A heroína de setenta anos atrás, aquela que arrasou com Éter, aquela que matou o Golem! É impossível de dar certo! Totalmente impossível! — Suas risadas morreram quando, ao fitar mais atentamente Álex, percebera no amigo sua firme admiração e afeição pela Presidente, o garoto ainda decidido, sério. Com os ombros repentinamente curvando-se, sua voz gaguejante, Miranda corrigiu-se:  Não, desculpe-me. Espero que vocês dois se deem bem. Boa sorte.

— Obrigado. Mas, cara, você precisava mesmo dizer tudo aquilo? Machuca, sabe.

— Bem, eu já pedi desculpas. — Respondeu a lebromem quase a contragosto desviando o olhar. Retomando seu caminho então acompanhada por Álex, comentou: A propósito... eu também amo alguém.

— O que? Serio!? Que legal! — Disse o garoto, feliz pela amiga, torcendo sinceramente por ela. — E que é ele?

Enquanto o silêncio e a expectativa cresciam, Miranda mordeu o lábio inferior, lutando para manter a compostura enquanto seu amigo não compreendia o clima sombrio que pairava entre os dois, a lebromem respondendo por fim, forçando um meio sorriso:

— Nícolas. É o irmão da Presidente. Ao contrário da irmã, que quase nunca aparece em público, ele dá aulas de regeneração e alquimia. Ele também é muito bonito e gentil e inteligente.

— Uau, mas que coincidência, não? Eu me apaixonei pela Presidente e você pelo irmão dela. Bem, de qualquer forma, tchau. Eu também estou torcendo por você.

— Despediu-se Álex, tomando o caminho para o dormitório masculino.

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