Capítulo: 49
Octávio.
O sótão da taverna era escuro, úmido, cheio de poeira e cheirava a mofo, um lugar totalmente desagradável, apertado e quente. Mas seguro.
Aquele era um bairro suspeito de Dentre-Flume, uma região onde poucos forasteiros aventuravam-se, conhecido por trafico de drogas ilícitas ou a venda não licenciada de ópio e tabaco ou armas, munição e itens magicamente imbuídos e outros produtos, mas durante as eleições, Octávio fizera alguns contatos ali, e assim conseguira, pelo preço certo, é claro, um lugar onde podia esconder-se de Fernando e seus homens.
Depois de fugir do Prédio do Senado e ver-se forçado a aterrissar uma vez que não conseguia manter-se mais um segundo sequer em voo, suas asas então inúteis, o vampiro quase esborrachou-se no chão, porém, de alguma forma, conseguiu ainda levantar-se sem mais ferimentos do que os que já possuía antes da queda. Usou de sua gravata e paletó para fazer os primeiros socorros, tentando estancar o sangue, quando cambaleou então por becos e ruelas escuras, esgueirando-se durante quase duas horas até aquela taverna. Foi um milagre realmente que, durante este tempo, não fora capturado pelos homens de Fernando, que vasculharam a cidade freneticamente de ponta a ponta.
Seus ferimentos estavam ruins, a mão doía tanto que o vampiro respirava ofegantemente o tempo todo, as asas haviam sido transformadas em tiras retalhadas de couro, os rasgos na pele tendo piorado após os poucos instantes no qual Octávio manteve-se no ar, e ele começava a sentir-se febril. Ele sabia que sua situação era desesperadora, mas sabia também que não podia fazer nada quanto a isso além de esperar.
"Você está demorando", pensou Octávio enquanto olhava através da pequena janela redonda, para o beco sujo, estreito e mal iluminado lá embaixo, o vampiro frustrado com sua impotência enquanto podia apenas continuar a percorrer os olhos por sobre cada uma das pessoas, o constante fluxo de transeuntes e clientes da taverna, por trás do vidro. "Venha logo, seu desgraçado...!"
Por meio do dono da taverna, Octávio conseguira enviar uma mensagem para fora e então, ao mesmo tempo que atentava-se a ameaças, procurava por um alguém, uma pessoa que serviria de intermediário entre ele e os membros de seu plano, que ele instruiria para dar início ao golpe e daria a localização dos documentos que escondera, mas essa situação já perdurava há dias, dias de ansiedade pela espera, angústia por conta de sua enfermidade e das condições nada confortáveis daquele sótão, tempo o suficiente para o vampiro começar a duvidar se alguém realmente viria.
"Mas que merda, a esta hora a mensagem já deveria ter percorrido todo o país, por que ainda não enviaram ninguém?! Fernando pode ter me descoberto por um deslize, mas ainda assim isso não poderia acontecer com todos os outros, mesmo com seus espiões, mesmo que ele conseguisse pôr as mãos em um de meus apoiadores, afinal, mesmo meu pai não sabe de tudo, então por que de toda esta demora? Estaria Fernando restringindo tanto as ações de todo mundo que de alguma forma eles estejam até agora à espera de uma oportunidade para virem a mim? ...Eles não podem pensar realmente que podem fazer qualquer coisa sem mim e meus documentos, não é...?" pensava o vampiro, sua frustração transformando-se num repentino medo, numa preocupação que arrepiou-lhe todos os pelos do corpo, quando finalmente avistou-o: uma figura em roupas comuns, com uma expressão calma despretensiosa, um simples ratomem que dobrara a esquina adiante, adentrando o beco e entrava na taverna. O ratomem com o qual Octávio encontrara-se na última tarefa que cumprira, aquele que servira de intermediário entre o vampiro e o membro da Assembleia Cleber Roto da última vez.
Octávio adiantou-se para perto da porta uma vez que ouviu os passos subindo as escadas, o ratomem sendo acompanhado pelo gerente da taverna. Logo a porta abriu-se num longo ranger típico de dobradiças enferrujadas e o homem entrou no cômodo, olhando ao redor.
— Pensei que você estaria usando um sobretudo ou um manto com toca. — Comentou o vampiro, contendo o suspiro de alívio quando encontrou-se com o ratomem.
— Você está brincando, não é? Digo, está de noite para se usar uma toca, e neste calor ainda... quem seria o louco a usar um manto? — Retrucou o homem, levantando uma sobrancelha.
— É claro que eu estou brincado. — Respondeu Octávio, recordando-se da estupidez com a qual o homem agira da última vez. — Enfim, temos muito o que conversar, então sente-se. — Concluiu Octávio, sentando-se em frente ao ratomem numa caixa empoeirada.
— Temos? Pensei que deveria simplesmente ouvir o que você tem a dizer e repassar as informações para os demais. Bem, ao menos foi isso que me mandaram fazer.
— Antes disso, tem coisas que eu quero saber, como: por que vocês demoraram tanto?
— Demorou para a mensagem chegar a irmandade. Fernando está colocando mais pressão sobre nós do que nunca, afinal. E não apenas na Assembleia, há muitos soldados do exército patrulhando a rua, e eles não estão atrás apenas de você.
— E como estão as coisas com os outros? O Senador prendeu algum dos nossos? Até onde ele chegou, o que ele já descobriu?
— Não há espiões apenas dentro do Partido da Irmandade, meu bom senhor, mas creio que você já saiba disso. — Comentou o ratomem, sorrindo orgulhosa e estupidamente. — Houveram sim alguns que foram pressos sob a acusação de traição, donos de negócios pequenos e médios como o Jonatam dos navios pesqueiros ou o Wesley das tavernas, além de mais um monte de gente da irmandade... E seus pais. — Respondeu enfim, então olhando para os lados, sem jeito, como se sentisse vergonha ou estivesse decepcionado por falhar para com o vampiro.
— O que...? — Perguntou Octávio, incrédulo às palavras do ratomem.
— Seus pais foram presos, meu bom senhor. Sinto muito, Octávio. Mesmo.
— Não pode ser... Digo, ele os prendeu sob que acusação?! Meu pai, assim como todo o povo crasiriano tem o direito de aplicar seu dinheiro onde bem entender, mesmo fazendo isto sob meus conselhos não seria um crime não, importa o que!
— Eu entendo como você deve estar se sentindo, Octávio, mas... A irmandade até opôs-se à prisão deles, mas Fernando não está simplesmente poderoso demais, ele está também muito atrevido neste momento, usando descaradamente da força militar que está na cidade neste momento, ele simplesmente ignorou-nos.
— O que aquele desgraçado pensa que está fazendo?! — Comentou Octávio, levantando-se exaltado.
— Nós também estamos com raiva, meu bom senhor. Também estamos desesperados. É por isso que não devemos perder mais nem um segundo sequer. Temos de dar início ao seu plano imediatamente, como todos concordaram. Devo ouvir suas instruções e cumpri-las, devo ouvir a localização dos documentos que você escondeu e levá-los à irmandade, como me foi ordenado pelos meus superiores, que estão apenas a espera, prontos para agir.
— Sim... Sim, isso mesmo! Vamos acabar com Fernando, depô-lo e jogá-lo no buraco mais escuro e aterrorizante deste país, deixar que ele apodreça numa cela sem nunca mais ver a luz do sol! Escute-me, escute-me bem, porque é perigoso ficar repetindo estas coisas... — Disse o vampiro, andando de um lado para o outro no sótão, ouvindo o rangir da madeira e o som dos próprios passos, "o som de passos", pensou,
parando de repente e voltando-se ao ratomem, perguntando: — Você foi instruído a quê mesmo?
— Hum? Cumprir suas instruções, é claro. — Respondeu o ratomem.
— Você não tinha dito agora há pouco que seus superiores o ordenaram a apenas retransmitir o que eu tinha a dizer? — Tornou a perguntar Octávio, sentindo seu coração acelerar e o suor brotar de sua pele. O ratomem não respondeu-o. — Meu bom senhor, quando você subiu, ouvi os passos de mais uma pessoa acompanhando-o, este que presumi ser o gerente, mas não lembro de ter ouvido os passos descerem as escadas depois de você entrar. Quem está do outro lado da porta agora?
Um instante. Um instante foi todo o tempo que durou o ocorrido.
Num instante, o ratomem levou a mão às costas e, dando continuidade ao mesmo movimento, sacou um revólver, mirou-o e disparou-o duas vezes, o cano da arma cuspindo chamas duas vezes, o cheiro de pólvora queimada e sangue fresco impregnando o ar. As munições acertaram a perna de Octávio, o atirador sem nunca tirar os olhos do vampiro. Um disparo atingiu-lhe o joelho esquerdo, enquanto o outro passou de raspão pela coxa do mesmo lado, fazendo Octávio cair ao chão antes mesmo que percebesse o que se passava, aleijando-o.
— Teria sido melhor se você simplesmente não tivesse percebido nada, Octávio.
— Comentou o ratomem aproximando-se enquanto um outro homem adentrava a sala, com um revólver engatilhado, olhando para todos os lados. Ouviam-se mais pessoas subindo as escadas e logo uma enxurrada de homens adentraram o cômodo, todos armados, aparentemente cada cliente da taverna naquele momento, todos homens de Fernando. — Teria sido melhor para todo mundo, inclusive para você. Você me diria onde estavam os documentos, eu daria-lhe um tiro bem no meio da testa e tudo isso acabaria. Mas, não, você tinha de insistir em não baixar a guarda ou será que foi apenas um estalo repentino? Intuição, talvez? Bem, de qualquer forma, você não pensou realmente que cometeríamos o mesmo erro pela segunda vez, não é? Deixar um morceguinho fugir pela janela, eu digo.
— Era você? — Perguntou Octávio, lutando contra a dor, agonizando ofegante, vendo seu próprio sangue jorrar da carne rasgada e perfurada pela munição. — Você era o espião...?
— Hm? Fui eu, sim, quem vazou a informação de que você estava entregando-nos à irmandade, mas existiam muitos outros, sabe? Por toda a parte. Inclusive, ironicamente, Jonatam e Wesley eram dos nossos, na verdade. — Respondeu o ratomem, sorrindo. — Ah, mas é verdade que seus pais foram presos.
— Como... Como foi que vocês me acharam?
— Você fez contato com o gerente deste lugar pela primeira vez como um membro da reconquista, não é? Se lembra que foram as regiões mais pobres que mais assimilaram as ideias? Bem, para não dizer que ele nunca esteve do seu lado, por dois ou três dias ele preferiu pôr seu dinheiro ao invés da lealdade para com o partido, um erro do qual ele se arrependeu agora à pouco, enquanto levava as mãos ao bucho ensanguentado, debatendo-se no chão como o porco que era. — Recarregando a arma, agachando-se em frente ao vampiro, o homem continuou: — Deve estar sendo realmente difícil para você, não? Imagino que esteja surpreso que este ratomem medroso e idiota aqui seja, na verdade, um dos homens infiltrados de Fernando. Caramba, você vem apenas se fodendo ultimamente, não é mesmo? Mas sabe, você pode ser um arrogantezinho hipócrita de merda, que se acha superior a todo mundo, sempre um passo à frente e tudo o mais, mas eu tenho um coração mole! Simplesmente me aflige saber que agora, por um deslize meu, vão arrancar cada nome, cada localização e parte de seu "magnífico" plano de você à força, então, eu vou lhe dar mais uma chance: diga-me, Octávio, onde estão os documentos?
— Seu eu te responder, você vai me deixar ir? — Retrucou o vampiro, forçando um sorriso enquanto as lágrimas de dor já turvavam-lhe a visão.
— Que? — Disse o ratomem, após uma longa gargalhada. — É claro que não! Eu apenas vou lhe poupar de toda a dor que está por vir. Se você me disser tudo aqui e agora, eu juro que, num único disparo, te mando para o pós-vida. — Quando o vampiro não respondeu, continuou: — Eu garanto também a proteção de seus pais. Tenho certeza de que Fernando não vai se importar de libertar os velhos se assim conseguir o que ele quer, se é com isso que você está preocupado.
— Me matar rapidamente? Libertar meus pais? Vai à merda! — Gritou em resposta Octávio. — Eu não vou desistir agora, porra, não tem como eu fazer isso! Eu ainda não perdi para aquele filho da puta do Senador! Só algumas poucas palavras, isso é tudo o que eu preciso para acabar com ele, vocês vão ver! Eu ainda estou um passo à frente, seus cuzões, vocês estão acabados, todos vocês!
— Quantas vezes você acha que eu já passei por isso em todos estes anos que eu venho trabalhando neste ramo, hein? Você não é diferente de todos os outros que vieram antes de agora e de todos os que virão a seguir, aqueles que quase conseguiram o que planejavam mas no fim falharam. Você está gritando agora, mas sua voz não possui nada além de desespero, não é mesmo? — Comentou o ratomem. — Eu lhe fiz uma excelente oferta que, mesmo que a parte de seus pais provavelmente não fosse vir a ser cumprida na realidade, pelo menos você partiria em paz, mas você a rejeitou. Vai se arrepender disto, meu bom senhor. E muito. — Concluiu, suspirando.
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