Capítulo: 48
Azai.
Após sua afronta ao Mestre, Azai continuou no vilarejo à espera da escolta, que com certeza seria enviada, por tempo suficiente para enterrar os mortos e despedir-se de seus companheiros. Foi somente então, quando Azai viu-se coberto de terra e suor, sentindo um nó apertar-se em sua garganta ao fitar o túmulo que ele mesmo cavara, que ele percebeu que realmente gostava da garota que ali enterra.
A fortaleza Fé havia sido tomada. No começo, Azai perguntou-se por que haviam ignorado Sofia, permitido que ele a levasse consigo para sua provável morte. Descobrira então que a política de Nova Crasiria era um tanto diferente da de seu país, os representantes Provinciais consertavam estradas, recolhiam impostos e construíam coisas, as únicas forças armadas das quais eles tinham controle sendo a guarda de sua respectiva cidade. Em Nova Crasira apenas os Senadores possuíam controle sobre o exército, logo, uma vez que as tropas dos crasirianos reuniram-se no Fé, os portões da fortaleza não seriam abertos apenas por conta de Sofia, independentemente o quanto o pai da garota assim desejasse.
Em Namória, porém, embora todas as terras pertencessem ao rei. Os nobres, os Mestres eram membros de famílias de extrema riqueza e poder ascendidas a grandes status pelo dinheiro ou por grandes conquistas militares, e o rei costumava privilegiá-los com grande estima. Talvez fosse por isso, por ter desrespeitado um Mestre, que então Azai encontrava-se na corte marcial, ou talvez fosse por ter desobedecido as ordens pela segunda vez.
Embora o caminho até o posto avançado, o vilarejo que Azai tomara em sua primeira missão ao início da guerra, fosse de muitos e muitos quilômetros, a viagem enquanto agrilhoado, preso na traseira de uma carroça, tendo parecido durar apenas alguns instantes e logo o Maioral-Mor chegado a seu destino.
De qualquer forma, Noah tinha feito, definitivamente, um excelente trabalho ao fortificar o lugar, o antigo pequeno vilarejo de muro baixo e desprotegido havia sido transformado num verdadeiro posto avançado, cercado por um muro alto e um poço seco, com grandes e grossos portões de madeira e torres de vigia. Mesmo as construções do interior haviam sido modificadas para acomodar os soldados e resistir a investidas inimigas, com os antigos telhados de palha facilmente incendiáveis substituídos por telhas de barro, o estábulo expandido com o espaço necessário para os muitos chacais monarca e os cavalos e, naquele dia, com o hall de entrada da antiga casa do ancião da vila transformado num tribunal completo, com um alto estrado na parede oposta à porta de entrada para o juiz e o escrivão, com muitos bancos em ambos os lados da sala, o réu à direita e os jurados à esquerda e uma cadeira no centro de tudo, à frente do público, para a testemunha.
— ...Por que você fez aquilo? — Perguntou, enfim Caleb, do outro lado das grades da cela de Azai.
Ainda faltavam algumas horas para o julgamento, horas estas que apenas aumentavam o nervosismo do Maioral-Mor, que já podia se ver pendurado numa corda pelo pescoço em alguns dias. Aconchegando-se na palha no canto de sua cela, procurando espantar o frio cortante que o lembrava daquelas altitudes, Azai respondeu ao íncubos, sem qualquer relutância:
— Por que era o certo. — Ele sabia disso. Seu coração em nenhum momento duvidou de sua última ação, afinal. — Por que foi um algo nobre.
— Nós teríamos ficado. Você sabia disso. — Comentou então o íncubos, desviando o olhar, abatido, cansado. — Teríamos o apoiado.
A fim de não arrastar consigo seus subordinados, os tão poucos que sobreviveram, para as consequências de suas próprias ações e ideais, Azai instruiu-os a escoltarem o Mestre no caminho de volta, a obedecerem o sátiro e não insistirem na defesa de Azai, se necessário, até mesmo apoiar o Mestre contra o Maioral-Mor. Azai sabia também, porém, que o que seu amigo, dizia era verdade. No momento em que o Maioral-Mor havia dado aquele última ordem para seus subordinados, ele pôde ver aquela mesma expressão que então Caleb fazia no rosto de todos os seus demais subordinados.
— Eu não podia envolver aqueles que me seguiram até tão longe nisso. Era o mínimo que eu podia fazer por vocês.
— Você ao menos tem um plano?
— Algo assim.
— ...Boa sorte. — Disse Caleb, dando as costas, melancólico, ao seu superior e amigo. — Sobreviva, Azai. — Concluiu aos sussurros.
Era nove horas da manhã e começava o julgamento. Arrastado até o tribunal, Azai observou a multidão de militares sentando-se aos seus lugares, ali estando, com exceção do processante, o Mestre, e suas testemunhas, seus próprios subordinados e uma mulher que o Maioral-Mor não reconhecera, apenas oficiais de patente igual ou superior a Maioral, o juiz sendo o próprio Comandante-Mor José, o mesmo orc barbudo e careca de tempos atrás. Logo Azai sentou-se, o escrivão assentiu com a cabeça para o juiz e deu-se início oficialmente ao julgamento com o Comandante-Mor dizendo, com a mão direita sobre o coração:
— Eu, Comandante-Mor José Conclios, juro perante os Deuses e as Santas e em nome do rei ouvir atentamente, refletir profundamente e julgar sabiamente, servindo assim a esta corte marcial como juiz. Senhores participantes, de pé. — Uma vez que tanto o processante e suas testemunhas quanto Azai levantaram-se e puseram as mãos sobre seus corações, o juiz continuou: — Vocês juram, perante os os Deuses e as Santas e em nome do rei, falarem aqui somente a verdade? Lembrem-se: toda e cada palavra dita aqui está sendo registrada pelo escrivão ao meu lado e poderá e virá a ser usada contra os senhores se necessário.
— Eu juro. — Responderam todos em uníssono.
O julgamento era dividido em três partes, a primeira parte constituindo-se apenas das longas formalidades políticas costumeiras e as acusações do processante e das testemunhas convocadas por este, enquanto a segunda constituindo-se da defesa do processado e suas próprias testemunhas. Por fim, a terceira na qual era dada a decisão final do júri e juiz, a pena do acusado ou a isenção desta sobre o mesmo.
Durante a primeira parte, o acusado não tinha o direito de defender-se, devendo apenas permanecer calado até o fim das acusações e, consequentemente, daquela parte do julgamento, voltando assim para sua cela ao final desta etapa, sua presença sendo quase meramente simbólica, ressaltando a crença apenas de que as palavras contra uma pessoa deveriam serem ditas na sua frente ou seriam apenas fofocas, porém, na segunda parte, o acusador via-se na mesma condição. Cada uma das partes tomavam um dia para serem encerradas, levando assim três dias para o veredicto final.
— Muito bem, então comecemos com o julgamento. — Disse José, pigarreando ao continuar: — Esta corte marcial fora convocada para tratar das acusações contra o senhor Maioral-Mor Azai dos crimes de insubordinação, roubo e insultou e/ou agressão para contra uma nobre pessoa, um Mestre, acusações estas feitas pelo senhor Mestre Nildo Yandrio, no caso, também a vítima. Correto?
— Correto, senhor Comandante-Mor, senhor juiz José. — Respondeu o sátiro.
— Então, prossigamos com o julgamento e, por favor, senhor Mestre Nildo, aproxime-se e diga suas palavras.
— Obrigado. — Respondeu Nildo, deixando seu lugar ao público e sentando-se na cadeira no centro do tribunal, continuando: — Como o confirmado ao início deste julgamento, eu fiz as acusações contra este traidor perverso e desonrado chamado "Azai", e não sem motivos, ouçam-me bem.
"Há não muito tempo atrás, algumas semanas apenas, foram concedidas a mim, em nome do próprio rei (bendito seja este em toda sua grandeza e sabedoria, anotem o que eu digo) seis arcas de tesouros, coletadas pelos digníssimos senhores Cobradores-de- Guerra durante toda esta discórdia que veem sendo estes tempos negros, como um presente, uma recompensa pela lealdade minha e de minha família por todas as incontáveis gerações nas quais existimos e contribuímos para com a família real. Eu, é claro, as aceitei agradecido ao nosso esplendoroso soberano, o rei. O tesouro, porém fora entregue numa das minhas mansões localizada num dos picos da Cordilheira Gris (ultimamente um lugar bastante perigoso para se guardar estas riquezas, eu acredito que os senhores muito bem saibam), que, na época era o ponto mais próximo para os Cobradores-de-Guerra depositá-lo. Eu então fui pessoalmente buscá-lo para transporte, afinal foram presentes concedidos pelo rei, não podia confiá-lo a mãos desmerecedoras. Foi então que houve, porém, um terrível empecilho: fomos atacados e perseguidos pelos (malditos sejam até o fim dos tempos, quando o Santo Catástrofe nascer e amaldiçoar seus divinos pais e destruir a tudo e todos) crasirianos!"
"Estávamos encurralados, sem quaisquer opções se não seguir para o noroeste, até que encontramos uma estreita estrada para um vilarejo qualquer nas montanhas e nos refugiamos neste. Desesperado, temendo pela segurança de meus homens, dos homens do vilarejo e da boa vontade, do presente, do rei, eu enviei um pedido de ajuda, um grito de tormento, tormento pelo futuro próximo e fim, aparentemente, inescapável, uma súplica aos senhores militares...que responderam-no, sim, e enviaram a mim e aos meus uma tropa de quinhentos bons homens, com certeza, é verdade, mas, porém, liderados por um traidor! Pior, um covarde!Um homem que desobedeceu as ordens de seus superiores e fugiu de seu dever, que, pela cega piedade de seus bondosos superiores, fugiu da forca ainda como um líder e veio a mim. Ainda havia mácula em seu coração, porém, não é possível confiar ou perdoar este tipo de gente, nunca!"
"Sim, a tropa lutou, muito bravamente, com suas vidas em jogo, lutou uma batalha de muitos sacrifícios e esforços... e venceu. Mas isso ainda não havia acabado, ah não, um coração podre como o de Azai não pode ser saciado com apenas as glórias da vitória (de uma batalha que ele nem mesmo lutou, ficando o tempo inteiro escondido dentro das casas do povo da vila, comendo de suas comidas, bebendo de suas bebidas e até mesmo violentando suas mulheres! E quem poderia impedi-lo, porém? Seus homens estavam sob as ameaças de execução caso desobedecessem-no e os meus eram muitos poucos...), Azai sentiu-se tentado pelo tesouro, o usurpou de mim, o roubou de mim com a lâmina de sua espada, ameaçando-me e profanando o meu nome e o de minha família e, ouso dizer, até o do rei!"
— Devo adicionar então também traição, senhor Mestre Nildo? — Perguntou o juiz, interrompendo o longo discurso do sátiro, que, sem jeito respondeu-o, dando-se conta somente então do exagero cometido e do, não planejado, acréscimo de mais uma acusação:
— ...Sim, por favor, senhor Comandante-Mor, senhor juiz José. Aconteceu de lembrar-me disto, deste ponto, apenas agora que contava a história aos detalhes, mas esta escória, Azai, cometeu também este crime terrível, mais uma para sua lista já longa, sem dúvidas. — Após um profundo pigarreio, continuou: — Prosseguindo, foi uma vez que a batalha no vilarejo chegou a seu fim, duas semanas após a chegada da tropa de reforço, após incontáveis mortes aliadas e inimigas, quando eu estava prestes a partir na carroça que carregava o tesouro, que Azai de fato cometeu o ato que me forçou a promover esta corte marcial. Ameaçando-me (tendo em mente o quão cansado eu estava por conta das batalhas que lutei) e a todos aqueles que ousassem para-lo com sua lâmina ou a pena de fuzilamento por insubordinação, ele invadiu minha carroça e virou as arcas de tesouro uma a uma no chão, rejubilando-se com a visão da cachoeira do ouro roubado, com o tinir que as moedas usurpadas produziam e com, sem dúvida alguma, o próprio prazer de cometer o crime, sua alma manchada, corrompida pelo mau, maculada pela podridão de sua própria existência, um abismo de escuridão, negra como a noite, como o carvão, um poço de ambições malignas, o reflexo de um assassino sedento de sangue, um criminoso violador e desonesto, felicitando-se com seus atos malignos! Em sua euforia vertiginosa, Azai pôs-se a discursar, cuspindo palavras blasfemas e desconexas, um monólogo de insanidade perversa, uma ideologia pervertida, deturpada, uma exibição de sua própria verdade deformada e distorcida, a fala de um algo que sequer posso considerar como um ser sapiente, palavras que causaram a mim e a todos aqueles que ouviram-nas um desconforto indescritível, uma repulsa, um asco imediato! Expulsou-me e aos seus próprios subordinados do vilarejo sob uma chuva de insultos e ameaças, proclamando-se como seu próprio rei, a nova lei e verdade das montanhas, ousando chamar a si mesmo de (sinto-me até agora pasmo de relatar) Deus!
— Escrivão, adicione também blasfêmia às acusações. — Comentou José, sem tirar os olhos do sátiro.
— Sim senhor juiz. — Respondeu o escrivão, continuando a mover sua caneta de um lado para o outro sobre o papel com um agilidade surpreendente.
— ...Acompanhado então dos bons soldados sobreviventes, segui direto para cá, para relatar este triste incidente. Sinto, porém, que seria impróprio ou mesmo equivocado se eu continuasse meu relato, então creio que seja o momento correto para chamar as testemunhas, homens e mulheres descentes que sofreram nas mãos de Azai, que conheceram os horrores dos quais este homem é capaz, que viram com seus próprios olhos, escutaram com seus próprios ouvidos, e sentiram em suas próprias peles as atrocidades cometidas pelo acusado. Então, por favor, senhor Comandante-Mor, senhor juiz José, retiro-me agora, com seu concentimento. — Concluiu enfim o Mestre, voltando para sua cadeira no público, apenas um pouco nervoso para com os repentinos acréscimos não planejados as acusações, porém, no fim considerando isto mais uma vantagem, mais dificuldade das quais Azai teria de defender-se no dia seguinte.
— Claro, senhor Mestre Nildo. — Respondeu o juiz, voltando-se para o público e continuando: — E que a primeira testemunha aproxime-se. Qual seu nome, senhor testemunha? — Perguntou uma vez que um dos subordinados, como o reconhecera Azai, do Mestre sentou-se na cadeira no centro do tribunal.
— Arão Sanbac, senhor juiz.
— Pois bem, senhor Arão. Por favor, antes de tudo, nos conte-nos qual é sua relação com este caso.
— Eu sou um soldado contratado pela família de Mestres Yandrio, senhor juiz. Eu estava acompanhando o senhor Mestre Nildo durante tudo, servi sob seu comando. O Mestre foi um bom líder, sem dúvida, e um bom guerreiro também, não só nos comandou a todos em defesa do vilarejo, como lutou com as próprias mãos contra os namorianos, seguindo contra os inimigos à frente de todos, bravamente. Sim, bravamente, senhor juiz... diferente de Azai. Como o senhor Mestre Nildo disse, este homem ficou escondido o tempo todo, vagabundeando, e no fim ainda roubou o tesouro concedido ao Mestre pelo rei, desobedecendo o Mestre e insultando-o... — Relatou o homem, quase como se cada palavra sua tivesse sido decorada, um único texto muitas vezes antes já recitado. — Ah, e, como se não bastasse, ele também proclamou-se um Deus e um rei também! — Adicionou rapidamente. — Isso é tudo, senhor juiz.
— Suas palavras foram registradas, senhor Arão. Então, que venha a próxima testemunha, e que esta apresente-se e nos conte sua relação com ao caso.
— Chamo-me Kássia Lun, senhor juiz. — Respondeu a mulher, sentando-se na cadeira à frente do estrado. — Eu sou uma das moradoras do vilarejo, presenciei o roubo, a blasfêmia e a traição, e... eu... fui uma das vítimas da luxúria sem limites do Maioral-Mor Azai! — Respondeu a mulher, então de repente chorando. Azai estranhamente não reconheceu a mulher como sequer uma moradora do vilarejo. Levantando parte de sua camisa e saia, exibindo hematomas arroxeados por todo o corpo, ela continuou: — E eu digo: não fui a única mulher no vilarejo que este... este... este animal violentou! Ele simplesmente nos usou, usou a todas nós e, até mesmo a jovens rapazes, garotos, não muito mais que crianças indefesas! Enquanto nossos maridos e irmãos e os demais homens do vilarejo lutavam lá fora, arriscando suas vidas por nós, ele nos estuprou em sua devassidão voraz incontrolável, a nós, cidadãs (e cidadão no caso dos garotinhos), namorianos! Pensei que tudo o que poderia fazer era implorar ajoelhada, rezar para a Santa Justiça que este monstro recebesse o que merecia, até que o senhor Mestre Nildo veio a mim, com toda sua gentileza, e me contou sobre este julgamento e como minha presença aqui poderia fazer diferença. E foi o que fiz! Venho aqui e afirmo: este homem é um ladrão, insubordinado, um difamador e um estuprador! E também um traidor e blasfemo!
O julgamento prosseguiu-se e mais e mais testemunhas foram à frente reforçar as acusações do Mestre, subordinados de Nildo e supostos moradores do vilarejo, mesmo que muitas delas embasbacassem-se na parte de adicionar traição e blasfêmia, e a primeira parte do julgamento encerrou-se, já passando das três horas da tarde. Todos retiraram-se do hall da antiga casa do ancião, voltando para seus aposentos ou dando continuidade para outras tarefas militares, e Azai fora enviado de volta para sua cela gélida, onde esperava tentando aconchegando-se na palha, que retinha apenas um pouco do calor de seu corpo.
Azai teve de admitir que o sátiro não era um Mestre à toa, que embora ele não possuísse coragem, empatia ou qualquer outra virtude, tinha um grande talento quando se tratando de falar, suas acusações dramáticas e grandiosas soando mais como um épico narrado, uma saga poética. Ainda assim, o Maioral-Mor percebeu, os membros daquele tribunal continuavam impassíveis, não parecendo convencidos ou impressionados com os longos minutos de monólogo do sátiro. Aquilo era uma corte marcial, afinal, não um dos jogos políticos dos quais o Mestre estava acostumado.
Ainda assim, porém, o Maioral-Mor sabia que encontrava-se em apuros. Embora tenha confortado Caleb antes, Azai não possuía realmente um "plano", e ele sabia que, mesmo que Nildo não tivesse conseguido para si a simpatia do tribunal, ele possuía muitas testemunhas para sustentar sua palavra, que era algo contra o qual o Maioral-Mor não podia simplesmente desmentir sozinho. O peso de sua voz, o relato de apenas o acusado, contra as vozes de tantos não era o suficiente independentemente do que Azai dissesse no dia seguinte.
— ...Me pergunto se vão medir corretamente a corda... — Comentou o Maioral- Mor, pensando se faria a tão humilhante e aparentemente dolorosa "dança dos condenados", onde, por conta do comprimento errado da corda, o condenado ficava debatendo-se, balançando as pernas no ar por um longo período antes de de fato morrer, durante este tempo a vítima tendo a face arroxeando-se cada vez mais e, muitas vezes, perdendo o controle dos intestinos e bexiga. — Espero apenas não me cagar se isso não acontecer. — Concluiu Azai, temendo a provável execução, tendo como único conforto em seu coração a certeza de que o que fizera fora o correto, de que partiria para o pós vida sem arrependimentos além de ter demorado tanto para de fato abrir seus olhos. — Mas, bem, mesmo que eu morra, pelo menos eu vou poder me encontrar com eles. — Concluiu, sorrindo ao puxar à memória lembranças de seus antigos companheiros e falecidos amigos próximos.
Tadeo. Benjamim. Miguel. João. Tiago. E mesmo que este sentimento não fosse recíproco, Sofia.
Azai acordou com os olhos vermelhos e inchados pelas lágrimas que dele escorreram a noite inteira.
Daquela vez não houveram grandes delongas, as pessoas entraram no tribunal, sentaram-se aos seus lugares e o Maioral-Mor foi levado a cadeira à frete do estrado do juiz. José fitava-o quando disse:
— Senhor Maioral-Mor Azai Calian, por favor, comece com sua defesa.
— Pois bem. — Respondeu Azai. O silêncio era total no tribunal, todos tinham seus olhos sobre o Maioral-Mor, forçando expressões impassíveis, assombradas, porém, por uma certeza taciturna, esperando por suas palavras. Muitos deles, Azai conhecia a tempos, como o subordinado imediato do Comandante-Mor o Comandante Élson, que fora o líder da tropa na qual Azai juntara-se quando alistou-se no exército, a muitos e muitos anos, lembrando-se do homem quando ele ainda era um Maioral-Mor. Outros, pelo menos, havia reconhecido de vista de seus tempos na base, haviam recebido promoções, aparentemente, já que encontravam-se naquela corte marcial. — Antes de tudo, quanto a acusação de insultou e/ou agressão para contra uma nobre pessoa, um Mestre, eu gostaria de deixar claro que após a tomada da cidade de Serenia eu fui ascendido a Comandante e, mesmo que eu tenha sido rebaixado para à patente de Maioral-Mor, meu status, porém, como uma nobre pessoa, um Mestre não fora também revogado, o que torna esta acusação inválida, uma vez que tanto eu quanto o senhor Mestre Nildo somos ambos Mestres.
O Maioral-Mor estava correto. Era considerado um crime apenas se um plebeu ofendesse um Mestre, mas se fosse um outro Mestre a cometer a ofensa, isto seria considerado apenas um simples caso de má educação. E quanto aos modos que uma pessoa comum podia, tornar-se um Mestre em Namória, existiam dois: o primeiro era se este, de repente, colocasse as mãos numa grande quantia de dinheiro e passasse a se tornar um apoiador do rei e da família real, e o segundo sendo se a pessoa crescesse até, pelo menos, a patente de Comandante no exército... Como Azai fizera.
— Entendido. — Retrucou o juiz, voltando-se ao escrivão e ordenando-o: — Retire a acusação de insultou e/ou agressão para contra uma nobre pessoa, um Mestre, por favor. — Tornando a olhar para Azai, completou: — Continue, por favor, senhor Mestre, senhor Maioral-Mor Azai.
— E também quanto à insubordinação: fui enviado para o vilarejo com a clara missão de protege-lo (o vilarejo) dos ataques dos crasirianos, nunca me foi instruído a seguir as ordens do senhor Mestre Nildo, assim como ele não possuía qualquer documento padrão que assim o identificasse como meu superior.
— Esta acusação então também será retirada. — Disse José, o canto de seus lábios torcendo-se levemente, o Comandante-Mor mal conseguindo conter as risadas para com a expressão retorcida de indignação e incompreensão de Nildo e pelo desempenho de Azai até então, que, sem um décimo de toda a pomposidade do sátiro, conseguiu, num instante, retirar duas acusações. — Prossiga.
— Sim. Então, sobre as acusações restantes, infelizmente creio que não existam quaisquer provas sobre minha inocência além de minhas próprias palavras. — Isto pareceu levar consigo, num sopro, a sombra do sorriso do juiz, como se relembrasse-o sobre o provável resultado daquilo tudo, que parecia-se mais como um espetáculo ou justificativa do que de fato uma corte marcial, um julgamento propriamente dito, o resultado já estando praticamente determinado uma vez que Azai não possuía testemunhas a seu favor e só podia retirar as acusações anteriores. — Mas eu jurei pelos Deuses e Santas e em nome do rei que falaria aqui somente a verdade. E é o que eu farei. "Primeiramente: eu não sou um covarde, um violador e nem mesmo um ladrão.
Nunca cometi nenhum destes crimes e nunca os cometerei. No vilarejo, eu lutei, liderei não apenas os soldados de minha tropa, como os subordinados do senhor Mestre Nildo, além de muitos homens da própria vila. Lá eu suei, sangrei e matei. Digo isto tudo, não por mesquinhez, por ser tão inseguro a ponto de temer por minha própria reputação por conta deste infantil e tosco insulto do Mestre Nildo quanto a minha honra, mas porque as palavras proferidas por este homem quanto a mim ofendem a todos do exército de Namória, afinal, somente um militar superior a mim poderia ter concedido-me minha promoção, e dizer que eu sou um homem tão sem escrúpulos é como dizer que meus superiores são idiotas cegos, que todo o exército, mesmo o alto escalão, é formado por escória. Neste caso, mesmo os de mais altas patentes, os Mestres."
"Ainda assim, porém, é verdade que eu despejei o conteúdo das arcas de tesouro do Mestre Nildo no chão, não por ganância ou por ter 'uma alma maculada pelo mal', mas porque eu simplesmente não pude tolerar os sacrifícios feitos por conta de um homem avarento que recusou-se a abandonar seu tesouro, por conta de uma pilha de gemas, metais raros e roupas bonitas... não pude tolerar que aqueles que serviram ao meu lado por mais de uma década, que aqueles que foram como irmãos para mim tenham dado suas vidas por esta frivolidade, que até mesmo civis inocentes, homens e jovens rapazes do vilarejo tenham envolvido-se nisto. Não pude tolerar ter sido enganado, traído, imaginando que todas as pessoas que matei, todas as atrocidades que cometi tenham sido em prol de meu país e seu povo, pela paz e prosperidade, quando, na verdade, tudo isto serviu apenas para deixar homens ricos ainda mais ricos".
— Isto é traição! — Gritou Nildo, levantando-se bruscamente, apontando o dedo para Azai e continuando, esganiçado: — Estas palavras são traição!
— SILÊNCIO! — Berrou o juiz enquanto batendo com o punho no estrado, fazendo o sátiro se calar, encolhido. — Você teve seu momento para pronunciar-se, senhor Mestre Nildo... ontem. Hoje apenas permaneça sentado e calado, como é requisito num tribunal, por favor. Então, senhor Mestre, senhor Maioral-Mor Azai, pretende continuar?
— Não, senhor juiz, isto é tudo. Apenas gostaria de ter deixado clara minha perspectiva do que aconteceu, afinal, independente do que eu disser a partir daqui, não possuo provas ou testemu...
— Você possui testemunhas, sim, senhor Maioral-Mor Azai! — Gritou o homem, interrompendo Azai enquanto abrindo as portas do hall de entrada da antiga casa do ancião do vilarejo espalhafatosamente, arregaçando-as, fazendo brilhar um único ponto dourado em sua silhueta negra frente à luz de fora.
— Senhor Cintilante-Comandante Adriel?! — Perguntou José, espantado com a repentina aparição do mago. — O que você está fazendo aqui? E o que você quer dizer com testemunhas?
O tribunal agitou-se numa onda de murmúrios e sussurros, pessoas prenderam a respiração de surpresa com a repentina entrada daquelas figuras exaltadas, olhos se arregalaram e assim desapareceu o clima pesado de melancolia, vergonha e remorso, causado não apenas pela compreensão dos presentes das motivações de Azai e das reações que levaram-o até ali, do entendimento da frustração e raiva que o Maioral-Mor, assim como muitos deles antes também, sentira ao perder seus companheiros, como também pelo rancor compartilhado entre a maioria dos membros do exército sobre não apenas os Cobradores-de-Guerra mas por toda a politica, que frequentemente envolvia- se nos assuntos militares, toda aquela mesquinhez que custava a vida de muitos namorianos, incontáveis sacrifícios sendo realizados todos os dias em prol de um Mestre que queira uma armadura de herói para aumentar seu prestígio, ou que deseje expandir seu território, mesmo que apenas um pouco, para lá ou para cá.
— Cintilante-Comandante-Mor agora. — Retrucou o mago, indicando a quantidade de estrelas em seu uniforme. — E, bem, eu quis dizer que não apenas testemunharei a favor do senhor Maioral-Mor Azai como também trouxe outras testemunhas, é claro! — Disse, adiantando-se ao tribunal, seguido por uma série de outras pessoas que entraram também no edifício, homens, mulheres, soldados e civis, rostos conhecidos pelo Maioral-Mor. Dezenas deles. Pessoas do vilarejo e soldados que Azai salvara.
— Gostaríamos de testemunhar a favor do senhor Maioral-Mor Azai, senhor juiz. — Apontou Noah, o gigante negro colocando-se ao lado do mago, frente ao estrado.
- Francamente, não foi fácil encontrá-los, sabe? Testemunhas verdadeiras, eu digo.
— Adicionou Adriel, dando ênfase à palavra "verdadeiras".
— Isso é um absurdo, senhor juiz, senhor Comandante-Mor, você não pode permitir isto! Eles nem mesmo estavam presentes durante a primeira fase deste julgamento!
— Apenas a presença dos acusadores e do acusado é necessária durante a primeira fase, senhor Mestre Nildo. — Retrucou José, pondo-se à fitar o sátiro. — Contanto que os indivíduos em questão estejam dispostos a testemunhar a favor do acusado e façam o juramento...
— Acreditamos no senhor Maioral-Mor Azai, em suas virtudes e na moralidade de seus atos, estamos sim dispostos a testemunhar a seu favor. — Respondeu Mikael, dando um passo à frente, sério. — Faremos o juramento.
— Que assim seja. Vocês juram, perante os Deuses e as Santas e em nome do rei, falarem aqui somente a verdade? Lembrem-se: toda e cada palavra dita aqui está sendo registrada pelo escrivão ao meu lado e poderá e virá a ser usada contra os senhores se necessário.
— Eu juro. — Responderam todos em uníssono.
— Então, eu vou primeiro. Meu nome é Adriel Vasros, sou um Cintilante-Comandante-Mor, como antes já havia informado, e testemunharei a favor do senhor Maioral-Mor Azai. — Disse Adriel, adiantando-se à cadeira em frente ao estrado e ao juiz, enquanto os demais sentavam-se aos seus lugares no público. — Já adianto que eu não estava presente no vilarejo durante o derradeiro momento, logo eu não posso afirmar a inocência do Maioral-Mor quanto aos atos lá cometidos. Posso, porém, muito bem assegurar a todos de que o caráter e integridade de Azai são louváveis, uma pessoa íntegra e de boa índole, de grande honra mesmo quando comparado aqueles presentes aqui hoje. E um patriota, sem dúvida alguma, disposto a sacrificar qualquer coisa pelo bem de sua nação. Um homem respeitado por todos aqueles ao seu redor. Um homem que fora respeitado por meu filho e pelo qual ele deu sua vida. Não posso simplesmente ignorar isto e permitir que ele seja condenado porque ele recusou-se a cuspir em cima do nome de sua nação, de tudo aquilo no que acreditava e sobre as almas daqueles que sacrificaram-se por aqueles que compartilhavam de seus ideais. Isso é tudo, senhor juiz.
— Suas palavras foram registradas, senhor Comandante-Cintilante-Mor Adriel.
Que venha a próxima testemunha. — Comentou José.
O Comandante-Mor José tinha um ar totalmente diferente, seus olhos tinham um brilho de orgulho e sua voz era imponente. De repente, o homem lembrando-se de um Auxiliar-de-Armas ignorante às entrelinhas e tramas entre o exército e o governo, e que imaginava a si e aos seus companheiros como heróis e protetores do reino. O orc sentiu-se envergonhado, ao mesmo tempo que mal conseguia conter o sorriso enquanto o julgamento desenrolava-se.
— Elí Brantorn... — Disse um jovem vampiro sentando-se na cadeira em frente ao estrado, olhando em volta nervoso. Azai reconhecia aquele rapaz, lembrava-se de um jovem brandindo valentemente uma espada enferrujada catada de um corpo de um inimigo morto contra as hordas de crasirianos que avançavam contra seu vilarejo enquanto gritava mais xingamentos do que o Maioral-Mor imaginava que existiam, lutando lado a lado com a tropa de Azai mesmo não sendo um soldado, o rapaz era um dos poucos homens sobreviventes do vilarejo. — ...senhor juiz! — Corrigiu-se o rapaz imediatamente. — Elí Brantorn, senhor juiz. Eu moro em... Digo, eu morava em Girlir, o vilarejo que foi atacado pelos crasirianos, onde o senhor soldado Azai lutou, então eu vi tudo.
"Vi o senhor soldado Azai nos coordenando e lutando à frente de todos. Vi a batalha (eu lutei nela, inclusive). Vi muitos homens morrendo de ambos os lados, muitos soldados, os homens do meu vilarejo... meus familiares e amigos... amigos do próprio senhor soldado Azai. E vi também quando Azai virou os baús de tesouro. Ele disse algo como: 'os tesouros coletados pelos Cobradores-de-Guerra são para ajudar o povo quando justamente em situações como estas!', enquanto despejava tudo no chão. Depois disso, Azai disse para nós pegarmos o dinheiro e seguirmos para um lugar seguro ao leste à procura de um novo lar até, pelo menos, a guerra chegar ao fim, usando para isso do ouro dos baús. Foi enquanto nós rumávamos por uma estrada, já deixando a Cordilheira Gris para trás, que os senhores soldados Adriel, Noah e Mikael nos encontraram e contaram sobre esta corte marcial e o que estava se passando que eu me voluntariei para vir."
— Senhor Eli, você diz que morava neste vilarejo e que viu tudo, certo? — Perguntou José, coçando a barba enquanto via ali uma oportunidade. — Então você pode responder algumas perguntas para nós, membros desta corte marcial?
— É claro, senhor juiz.
— Então, primeiramente: o senhor Maioral-Mor Azai cometeu algum estupro em sua vila?
— Não, senhor juiz, ele não fez esse tipo de coisa, não! — Respondeu o vampiro, sem entender o que acontecia, franzindo as sobrancelhas, confuso.
— Ele, em algum momento, se proclamou um rei ou mesmo um Deus?
— Pelos Deuses e Santas, senhor juiz, que homem faria isso?! — Retrucou o jovem, incrédulo, arrancando algumas gargalhadas abafadas do público. — Não, o senhor soldado Azai não fez nada disso!
— Mentira! — Gritou Nildo ao levantar-se, apontando o dedo para o vampiro, o sátiro com a face contorcida em ódio. — Você é um mentiroso, nem mesmo é um morador do vilarejo de certo!
— Não pedirei por silêncio uma terceira vez, senhor Mestre Nildo. — Apontou José, voltando-se ao sátiro, impassível. Tornando sua atenção para o vampiro que não compreendia realmente o que se passava ali, continuou: — Uma última pergunta: você reconhece mais algum dos moradores de Girlir nesta sala, senhor Elí?
— Senhor Mestre José, tenho certeza de que você compreende a gravidade desta situação e sabe muito bem a repercussão que isto causará... um soldado roubando um presente concedido a um Mestre pelo próprio rei... creio que esta segunda parte do julgamento já prosseguiu por tempo mais do que o suficiente e já podemos nos retirar para pensarmos melhor, não é mesmo. — Disse o sátiro, sério, deixando a mensagem pairar pesada e negra no ar, uma ameaça ou aviso... que apenas atiçou ainda mais as chamas dentro daqueles homens, chamas de ira e não apenas para com aquele Mestre, aumentando ainda mais o abismo entre o exército e a política.
— Responda, por favor, senhor Elí. — Comentou o Comandante-Mor, ignorando as palavras de Nildo.
— Não, senhor juiz, só eu vim para cá. Não há mais nenhuma pessoa do meu vilarejo aqui... — Respondeu o jovem, erguendo uma sobrancelha.
Depois do testemunho de Elí, foi a vez de Noah, o gigante sendo seguido por Mikael, e depois uma dezena de subordinados de Azai, incluindo até mesmo Caleb e Jéssica. As palavras foram ditas, o tribunal desfeito e todos, mais uma vez, retiraram-se, desaparecendo da vista do Maioral-Mor como a neblina que dissipa-se com a chegada da manhã, enquanto Azai era arrastado de volta para sua sela fria.
Antes Azai estava certo de seu fim, temia a morte, mas não estava realmente desesperado, afinal, aquilo era inevitável. Então, porém, com aquela centelha de esperança acendida em seu peito, um turbilhão de possibilidades e pensamentos correram sua mente, uma infinidade de "e se's" ocorreram-lhe e, de repente, a ansiedade, a vontade de saber qual seria então o veredicto final, transformou-se num terror insuportável que não permitiu que ele pregasse os olhos. E assim a noite veio e foi-se e logo era manhã e depois tarde e mais uma vez noite, mas não acontecera uma terceira chamada ao tribunal e o Maioral-Mor não soube do veredicto final.
Depois disso, muitas mais outras noites chegaram e partiram do lado de fora daquela cela fria, até que, com o rangir de uma porta sendo aberta, uma pessoa aproximou-se, suando, nervosa:
— Azai. — Disse Caleb, acompanhado por outros dois soldados. — Vamos para a capital.
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