Capítulo: 47
Álex.
Estava escuro, quase um completo breu, mas um leve cintilar conjurado iluminava a brutal batalha, a conjuração de luz sendo o mais fácil dos feitiços, aprendido antes mesmo do conjurar do fogo.
Haviam dois deles, homens, porém sem olhos, nariz ou boca, um completamente vermelho e outro completamente azul. O vermelho empunhava uma espada curta e um escudo, enquanto o azul uma cumprida alabarda, e os dois digladiavam-se fervorosamente.
Com uma estocada visando o estômago do oponente, o azul atacou com o espinho na ponta de sua alabarda, o vermelho em resposta, porém, defendeu-se do movimento do inimigo com seu escudo, desviando a alabarda e, logo em seguida, contra-atacando com um golpe diagonal descendente, visando o pescoço do azul. O azul então, ligeiro, avançou contra seu oponente, deixando a área da lâmina da espada para trás e jogando-se contra o vermelho, derrubando-o.
Não deixando-se derrotar tão facilmente, o vermelho, "vendo" sua espada fora do alcance de sua mão, bateu com a borda do escudo contra a face do azul, tirando-o de cima de si, conseguindo tempo o suficiente para saltar e agarrar o cabo de sua espada, virando-se e defendendo-se então rapidamente do golpe de alabarda do azul.
Ambos recuaram alguns passos, rodeando um ao outro, seus passos ecoando na imensidão colossal de rocha que os cercava, a arena iluminada apenas pelo sol artificial conjurado, pela pequena esfera de luz lá no alto. E, num instante, os dois voltaram a atracarem-se.
Um golpe horizontal, uma esquiva e um contra-golpe, um bloqueio e uma investida, esta respondida com um chute contra o peito do atacante, e finalmente uma estocada, certeira, seguindo veloz contra onde ficaria o coração de uma pessoa normal, chegando a milímetros de seu alvo e... repelida por uma camada de aço que cobriu num instante o peito do azul, uma armadura conjurada que envolveu-lhe todo o corpo. A conjuração não havia sido perfeita, partes do aço ficando para dentro do que seria a pele do homem, o que poderia ser um sério problema para qualquer outro, em qualquer outra situação, mas não ali, não para o azul.
O vermelho não ficando para trás, também fora coberto pelo aço, logo retomando o ataque, sua espada atingindo o cabo da alabarda do azul, desviando a arma de sua trajetória, e deslizando a lâmina rápida e poderosamente até contra o punho do azul, cortando fora os dedos do mesmo. O azul, porém, não largou a alabarda, não demonstrando qualquer sinal de dor, aproveitando-se de sua posição e desferindo um chute contra o peito do vermelho, afastando-o. Com sua mão recuperando-se em instantes num estalido e um relâmpago azul, o azul avançou contra o vermelho, desferindo um golpe vertical descendente que fora facilmente bloqueado pelo vermelho, como ele esperava, e então puxando sua arma de volta com toda a força, a lâmina da alabarda trazendo o escudo do vermelho junto, desequilibrando-o e dando uma chance ao azul, que, mais uma vez, chutou-lhe, dessa vez a face, jogando-o para trás, para o chão.
O resto da luta não fora dos mais gloriosos para nenhum dos dois, o azul subindo e baixando sua alabarda contra o vermelho, decepando-lhe os membros, que eram imediatamente recuperados com magia, até que estivesse decidido que era o bastante. Contudo, a batalha ainda não acabara, mais dois deles haviam surgido, nascidos das chamas azuis, um outro vermelho e um verde, o confronto reiniciando-se.
Eles moviam-se então mais desengonçadamente, os golpes sendo mais fracos, os bloqueios mais lentos e as esquivas mais raras, mas ainda eram relativamente eficientes, a trocação de golpes permanecendo violenta e, embora de forma um tanto arrastada, natural.
— Não é o suficiente. — Comentou aos cochichos Álex, o fantasma observando a batalha do outro lado das grades atentamente.
E mais deles surgiram em pequenas explosões de luz, bonecos de argila vestidos de armadura e empunhando armas, suas cores sendo divididas então em apenas duas: azul e vermelho, três marionetes de cada lado. A batalha entre os azuis e os vermelhos prosseguiu do outro lado das grades da cela de Álex, ainda mais desengonçada, ainda mais lenta e menos natural.
— Não é o suficiente. Não posso vencê-lo assim, não com isso.
O fantasma controlava o tom de sua voz o suficiente para não acordar os demais prisioneiros, que dormiam amontoados no chão da cela, mas não estava realmente preocupado em ser ouvido por alguém, afinal, não parecia haver uma única alma viva ali que sequer conhecesse sua língua, apenas não queria que sua identidade como mago fosse descoberta, uma vez que, já que magos não tornavam-se indefesos mesmo quando agrilhoados ou atrás de grades ou até com membros quebrados, eram o pior tipo de prisioneiro ou escravo possível. O que, muitas vezes, resultava na rápida execução deste.
E então não mais eram simples bonecos humanoides, cada um deles transformando-se num monstrinho diferente e de seis marionetes passaram a haver ser oito, cada uma delas trajando uma armadura completa.
Um cavaleiro sem cabeça, um cérbero, um cão de três cabeças e três caudas, um chupa-cabra, uma górgona, uma mulher com a parte inferior do corpo como a de uma serpente (uma das espécies decaídas), um basilisco, uma aracne, um minotauro e um grifo.
Enquanto o cavaleiro sem cabeça cambaleava até o minotauro, que erguia o escudo numa posição esquisita, e o chupa-cabra errava o salto contra o cérberos, que, na tentativa de desviar-se, caiu de lado, o grifo tentou erguer voo, batendo as asas de forma totalmente dessincronizada. Enquanto isso, os demais fantoches não faziam mais do que cairem ao chão, imóveis.
— Ele consegue conjurar três gigantes de armadura e controlá-los com pró-eficiência. — Disse o fantasma, continuando a guiar a batalha, esforçando-se para movimentar todos os fantoches ao mesmo tempo (e falhando, três, quatro deles ficando constantemente parados enquanto os outros moviam-se de forma tosca).
Conseguiu então fazer com que a aracne se movesse... esquecendo-se de levantar o chupa-cabra e parando de controlar duas das três cabeças do cérbero. A fantoche da aracne, afinal, era bastante complexa em comparação com as demais, muitos membros para se mover, diferente da górgona, por exemplo, que era o fantoche do o qual Álex então tinha o melhor controle (o que não era realmente grande coisa), movendo-a com apenas uma manipulação simples de seu corpo musculoso. Mesmo a aracne, porém, era mais fácil de se controlar do que um monstro voador, porém. O grifo continuava a debater-se debilmente numa tentativa tosca de erguer-se no ar.
— Não é só uma grande reserva mágica que ele possui, mas um grande controle sobre suas marionetes. Ele deve ter passado anos praticando, não vou conseguir derrotá-lo somente com algum pouco tempo de treino, então devo superá-lo em, pelo menos em quantidade. — Continuou, nesse ponto três marionetes estavam paradas enquanto as outras trocavam golpes praticamente sem esquiva ou defesa.
Os brandires das armas empunhadas, as mordidas e os pisoteares dos monstrinhos ainda eram algo deplorável, cinco deles (ausentes então apenas a aracne, o grifo e o cavaleiro sem cabeça, os três fantoches mais difíceis de se controlar) dispostos um frente ao outro, desferindo golpes de competência duvidosa.
— Seria bom se eu tivesse um melhor conhecimento sobre técnicas de combate, isso aumentaria meu controle sobre eles, mas tudo o que eu posso fazer e brandir suas lâminas de um lado para o outro... Bem, não há nada que eu possa fazer quanto a isso agora, mas quando eu voltar para casa vou fazer questão de melhorar neste ponto.
"De qualquer forma, para ter tamanho controle sobre as três marionetes daquela forma, ele deve ter se especializado em controlar corpos humanoides e, como um soldado, em combater outras pessoas. Necromancia esta fora de questão, então. Uma pena, uma vez que, quando eu começar a matança, terei um grande estoque de corpos para usar, o que economizaria muito da minha reserva mágica, afinal eu não precisaria ficar conjurando as marionetes, mas apenas manipulando os cadáveres.
"Minha reserva mágica... Sim, isso também vai ser um problema. Não é realmente difícil treiná-la, mas não é como se ela se expandisse do dia para a noite e não tenho certeza se terei tempo o suficiente para deixar a minha sequer comparável à dele. Agora eu consigo manter um único fantoche por uma hora, dois por meia hora, três por vinte minutos, e assim por diante... Em uma semana ou duas (se eu treinar incessantemente) talvez eu até consiga manter até quatro de meus fantoches por vinte minutos... mas isso seria o suficiente? Não, eu vou precisar também de uma estratégia."
"Não importa o quanto eu me esforce, com sorte eu terei no máximo dois meses antes de ser levado (para onde será?), não posso superar aquele cara nesse tempo, além de que ele não é o único que está nesse forte, há vários outros soldados e magos provavelmente. Meu controle medíocre sobre meus fantoches não é o único problema, hein? Espera... Sim, eu posso fazer isso. Vai funcionar".
E finalmente os monstrinhos digladiavam-se, todos os oito, mesmo que de forma extremamente simplista, ainda pior que uma marionete sob controle de um mago iniciante, mas todas juntas, ao mesmo tempo, o grifo já conseguindo pelo menos bater as assas no mesmo ritmo, o cérberos abrindo e fechando as três mandíbulas, o chupa-cabra não mais caindo de lado de repente, e todas as demais exercendo os movimentos mais duros e simples, mas sem caírem ou ficarem paradas, esquecidas.
— Minhas marionetes não podem sequer alcançarem os pés da leveza dos movimentos das suas, mas vejamos como você se sairá contra minha horda de monstros.
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