Capítulo: 46
Octávio.
Era noite e Octávio havia acabado de retornar para casa da Assembleia. "Eu esqueci aberta?" pensou, aproximando-se do prédio e percebendo a porta da frente destrancada. "Não. Foi arrombada" concluiu observando melhor, prosseguindo então com cautela casa adentro.
Não havia nenhuma luz acesa, mas isso não era realmente um problema para um vampiro. Com o coração acelerado, Octávio seguiu primeiro para a cozinha, já vendo os primeiros sinais da invasão: armários e gavetas abertas, o conteúdo de caixas, sacos e barris despejados de qualquer jeito e todos os móveis e recipientes revirados. "Estavam procurando alguma coisa?!" pensou, subindo apressado as escadas para seu quarto, seguindo direto para o cofre secreto.
O interior daquele cômodo não estava muito diferente da cozinha abaixo, o armário de roupas de Octávio fora esvaziado, sua cama empurrada, o baú aberto... o cofre descoberto. Engolindo em seco e suando frio, Octávio dirigiu-se ao compartimento secreto.
Os tesouros da primeira camada haviam todos desparecidos, não restando um único sinal de qualquer riqueza ali, "os capachos que fizeram isso provavelmente não vão relatar sobre esta parte", mas isso não importava realmente para Octávio, mas sim o conteúdo mais ao fundo. O primeiro fundo falso havia sido descoberto, o perfume e o pente haviam sido também roubados. O segundo fundo falso e o terceiro compartimento do cofre secreto... "intacto!" observou o vampiro, suspirando de alívio ao garantir que os documentos ainda estavam ali.
"Mas isso não pode ficar assim... Devo mudar os documentos de lugar? Ou devo pôr o plano em prática agora mesmo? Ainda não tenho o apoio desejado, mas... Espere: ao menos eu sei quem fez isto? Se foi Fernando, não há mais tempo a perder, mas se não foi ele (o Partido da Irmandade ainda não tem confiança em mim, afinal, e do jeito que as coisas estão, não seria uma surpresa um ataque tão direto), eu estaria arriscando muito apressando meu movimento... Não. Se os documentos não foram descobertos, não há com o que se preocupar, afinal. Sim, está tudo sob controle. Ainda está tudo como eu planejei. Nenhum dos dois lados que pode ter feito isso obter nada, então só preciso me fazer de tolo e continuar a encenar o mesmo papel. "
— Ah, não, não foi um roubo de informações, meu amigo, fui eu que mandei fazer aquilo. — Respondeu Fernando, fitando Octavio de trás de sua mesa, sentado, calmo.
— Bem, de certa forma, foi sim um roubo de informações, não é? Por parte de você, é claro,
— P... Perdão, meu bom senhor, do que você está falando? — Retrucou Octávio, de repente sentindo a força de seus músculos abandoná-lo, empalidecendo instantaneamente. — Roubo de informações?
— Oras, por favor, Octávio! — Disse o Senador, após uma longa gargalhada. — Do que eu estou falando? Estou falando sobre sua traição, é claro!
— Eu... Eu não entendo, meu bom senhor, eu nunca o traí...
— Não? Bem, então deve ter sido eu mesmo que contei para a irmandade o nome de trinta e cinco de nossos agentes infiltrados, não é? E também, provavelmente foi o meu pai que financiou uma série de comerciantes insatisfeitos com meu governo, certo? Sim, com certeza foi isso!
— Eu... eu...
— CALE-SE, SEU VERME IMUNDO! TRAIDOR! — Berrou Fernando, batendo com os punhos em sua mesa, a face fechada numa carranca sinistra. — Você se acha muito esperto, não é? Se acha extraordinário por ser bom nas tarefas que lhe são designadas, que é especial por isso. Aposto que você pensa que, se não fosse por você, eu não teria sido eleito Senador, não é?
— Eu jamais faria isso, meu bom senhor! — Retrucou Octávio, suando frio, a mente entrando em confusão, simplesmente sem compreender o que acontecia então, vendo todos os seus planos irem por água abaixo bem à sua frente sem sequer dar início realmente a eles.
"Como? Como ele descobriu? Como?!" conseguia apenas se perguntar.
— Por todos os deuses, Octávio, se você falar sem que eu permita de novo, eu juro, eu vou mandar arrancarem sua maldita língua de cobra. — Respondeu o Senador, sombrio. — Sabe, a trilha que você deixou, o fedorento rastro da traição, fora bem clara. As informações sobre os donos de indústrias e mercadores não eram muito restritas, e você poderia estar simplesmente tentando conseguir um lucro nisso tudo com seus investimentos, o que eu estava mais do que disposto a deixar passar, mas então nossos espiões foram descobertos um a um, muitos deles. E estas sim eram informações privilegiadas.
"Não eram muitos os que tinham acesso às identidades dos nossos agentes, afinal. Ainda assim, isso poderia ser apenas uma coincidência, não é? Poderia... se você tivesse entrado em contato apenas com mercadores e donos de indústrias. — Octávio quase abriu a boca para perguntar "como?" ou "quem lhe falou isto?", quando lembrou-se no último instante então sobre o juramento do Senador, calando-se, apavorado.
"Sou um Senador a quase dois anos, Octávio. E antes disso, ainda, eu fui um excelente Alto Membro Associado da Assembleia. Sou o líder do Partido da Reconquista e líder da merda deste país, não me subestime! Você não é o único que sabe fazer tramas e maquinações, não é o único que é bom no que faz. Ou você realmente pensou que eu não teria homens entre aqueles que mostravam-se contra mim? Pensou que eu considerava apenas a irmandade como um verdadeiro inimigo, que eu ignorei por completo todos os outros? — "Alguém vazou informações. Um agente duplo." — Sabe, eu o mataria agora mesmo, mas você ainda tem algo nas mangas, não é? Os ricos pelo dinheiro, os partidários pela sua estabilidade na política ao fim de tudo e o ex-Senador Bértil pela sua "voz", mas fica a questão: o que esta "voz" falaria? O que você poderia entregar àquela harpia desgraçada para ser usado contra mim? Bem, a resposta para isso é óbvia, afinal, você passou um bom tempo substituindo documentos para mim.
"Então, Octávio, eu vou lhe perguntar somente uma vez e você vai me dizer... ou não, isso não importa realmente, afinal, de um jeito ou de outro, por bem ou por mal, você vai acabar me dando a informação que procuro, enfim: onde estão os documentos?"
Virando-se e correndo disparado para a porta, o vampiro pensou: "Não devo. Não posso lhe contar onde estão, ele não terá mais utilidade para mim e será o meu fim!", quando caiu ao chão aos gritos quando a munição arrancou-lhe metade de sua mão esquerda.
— Oras, meu amigo, por favor, você não pensou realmente que fugiria assim não é? — Comentou o elfo, gargalhando, aproximando-se do vampiro com o revólver na mão, Octávio agonizando sobre a poça do próprio sangue que começava a se formar rapidamente. — Pensei que você fosse mais esperto, Octávio, mas você só vem me decepcionando!
Mesmo chorando de dor, respirando com dificuldades, quase completamente tomado pelo terror, Octávio arrastou-se em direção à porta, apenas para ver seu caminho bloqueado por soldados que começavam a encher a sala do Senador.
— Sinto pena de você, Octávio, mesmo. Digo, agora que você recusou-se a me contar a localização dos documentos, teremos de te torturar até você abrir a boca... Imagino quanto tempo levará para que você comece a cuspir tudo o que sabe.
— Não! — Gritou o vampiro, levantando-se com dificuldades enquanto os soldados do Senador aproximavam-se. — Não! Não, eu não quero isso!
— Desista, não há para onde você fugir, Octávio.
"Há!" pensou o vampiro então, olhando para o Senador, não, para trás dele: para a grande janela da sala. "Ainda há uma saída" concluiu uma parte de sua consciência conseguindo sobrepor a dor.
Quatro metros de ponta a ponta, da direita a esquerda, as veias visíveis entre a pele, cumpridos membros de couro negro e semi-transparentes dos quais, normalmente, Octávio não utilizava como nada além de uma capa natural. Abrindo tais asas, o vampiro pôs-se a voar, disparando numa rápida investida contra a parede de vidro à frente, protegendo a face com os braços.
O vidro, quando estilhaçado, rasgou-lhe a carne e abriu grandes buracos no couro das asas, desestabilizando o voo. Ainda assim, Octávio conseguiu deixar para trás o Prédio do Senado e seus perigos, sobrevoando a Grande Praça sob os olhares de muitos curiosos.
Com o coração batendo rápido, então praticamente sem sentir dor alguma num estado de euforia, o vampiro pensou: "e agora para onde devo ir? Devo resgatar os documentos? Devo..." até ver seu raciocínio ser interrompido pelas altas nuvens negras de fumaça que vinham de adiante. Tendo um mal pressentimento, Octávio esforçou-se para voar naquela direção, os furos no couro de suas asas aumentando ainda mais a instabilidade de sua técnica de controle no ar, já a muito enferrujada, o vampiro praguejando pela negligência que tinha quanto à sua habilidade de voar ao mesmo tempo que inventava desculpas "bem, os não alados podem correr, mas eles não fazem isso todos os dias, então por que eu deveria voar todos os dias?".
À medida que aproximava-se da origem das chamas, porém, o medo voltou a dominar-lhe, Octávio implorando a todo instante para que suas suposições estivessem erradas.
O fogo envolvia a tudo, enormes labaredas erguendo-se a metros no ar e transformando-se em nuvens negras de fumaça, as janelas estourando uma a uma por conta do calor, as paredes ruindo envoltas pelas insaciáveis chamas, que as consumiam às cinzas.
— A casa dos meus pais. — Comentou Octávio, pasmo com a visão do bonito prédio sendo levado pelo incêndio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário