Guerra A Ruína - Capítulo: 45

Capítulo: 45

Azai.


— Bem, de qualquer forma, temos que admitir que, ainda que venhamos todos a morrer, é um grande feito termos sobrevivido por tanto tempo. — Comentou Tadeo, virando uma das últimas canecas de cerveja do vilarejo, observando do topo do muro a luz das tochas dos crasirianos aproximando-se, os passos dos soldados e o tinir de suas armaduras ecoando pelas montanhas. — Duas semanas. É, definitivamente, surpreendente. Como você disse, a Santa Glória deve estar orgulhosa de nós.

— Não vamos morrer. — Retrucou Azai, recostando-se no peitoral do muro e re-inspecionando seu rifle e revólveres.  Esta também é a última investida deles.

Durante as duas semanas em que o Maioral-Mor e sua tropa resistiram contra os inimigos, foram travadas batalhas, atrás de batalhas, atrás de batalhas, centenas de pessoas morrendo de ambos os lados, a tropa de Azai sendo reduzida então a apenas pouco mais de noventa soldados, quando, mais uma vez, como quando fizeram em apoio aos poucos homens do Mestre, o povo do vilarejo havia se juntado à luta, aumentado os números do Maioral-Mor para cerca de cem subordinados, embora os novos subordinados de Azai não fossem realmente soldados e muitos estavam exaustos e feridos, de luto e cansados. Ainda assim, o que o Maioral-Mor então falava era verdade.

Os crasirianos também caíam um a um frente à tropa de Azai, seu número que antes era vezes maior do que o do Maioral-Mor então já haviam diminuído, não sendo maior que trezentos. Aquela seria a última batalha naquele vilarejo, ou os soldados namorianos seriam todos mortos e o vilarejo seria tomado, as mulheres estupradas e os tesouros saqueados, ou eles seriam vitoriosos e os crasirianos recuariam, ou cairiam mortos aos seus pés.

— PREPAREM-SE! — Ordenou Azai, berrando para seus subordinados no vilarejo abaixo, que com os olhos vazios de qualquer esperança, dirigiram-se a suas posições, abatidos, suspirantes (incluindo o próprio Tadeo).  Sei muito bem que vocês já lutaram demais, que estão cansados ou mesmo feridos, que perderam pessoas importantes para vocês... — Disse Azai, chamando a atenção dos soldados. — Mas se perdermos aqui, tudo isto terá sido em vão! Dessa forma cada morte, a dor que sentimos e o sangue que derramamos, não terá significado algum, e simplesmente não podemos encarar nossos amigos e família no pós-vida! Não poderemos nunca mais olhar nos olhos deles! ENTÃO, MAIS UMA VEZ, LEVANTE SUAS ARMAS, GRITEM E DESAFIEM SEUS INIMIGOS! MOSTREM A ELES DO QUE SÃO FEITOS OS NAMORIANOS, PROTEJAM SUAS FAMÍLIAS E HONREM AOS FALECIDOS E À SANTA GLÓRIA!

Foi então, quase no mesmo instante em que Azai terminou seu discurso, reinflamando o coração de seus subordinados, motivando-os mais uma vez, sua tropa reavivada, correndo para suas posições preparados para lutar, que os crasirianos chegaram à visão daqueles no muro do vilarejo, seguidos pelo estrondo do disparar de um canhão e pela chuva de estilhaços que antes era o portão do vilarejo.

— Um canhão?!  Comentou João.  Trouxeram um canhão!

— Miguel, pague-os na mesma moeda.  Ordenou o Azai.

— Tem certeza, senhor Maioral-Mor? É um feitiço bastante exigente, e, embora eu possa conjurá-lo até quatro vezes, os demais cintilantes podem conjurar um canhão apenas duas, três no máximo...

— Faça-o. Não há necessidade de se conter agora.

Os disparos foram ensurdecedores, tanto pelo processo de conjurar do feitiço quanto pelos disparos dos canhões. Altas nuvens de terra e sangue levantaram-se metros ao ar uma vez que as balas de canhão atingiram o chão e os soldados inimigos, os crasirinos passando então a correrem disparados para o portão quebrado, visando deixar o perigo conjurado pelos namorianos para trás. Num intervalo curtíssimo de tempo, porém, os canhões foram disparados muitas outras vezes, mais ainda do que o esperado por Miguel, até que os magos, ultrapassando seus limites, perderam todas as forças e, por fim, a consciência um a um.

Ainda enquanto os canhões eram disparados, João e seus atiradores não perderam tempo em matar o maior número possível de inimigos, a cada novo retesar de corda, a cada novo recarregar do tambor dos rifles e revólveres, um crasiriano juntando-se aos mortos. Azai não esperou dessa vez, porém, pela aproximação dos inimigos, disparando com os demais do topo do muro.

A vantagem dos cintilantes, porém, logo chegou ao fim, os magos exaustos demais para sequer ficarem de pé, com exceção do próprio Miguel, que tremia dos pés à cabeça, ofegante, evidentemente esforçando-se para manter-se consciente, continuando a resistir junto dos atiradores ao catar de um dos mortos um rifle. O Maioral-Mor saltou para o chão, desembainhando Camponesa, ignorando a dor fisgante no ombro direito e ordenando:

— ATIRADORES, NÃO ABANDONEM O MURO, CONTINUEM AÍ ATÉ

O ÚLTIMO PROJÉTIL! — Voltando-se para a infantaria que aguardava frente ao portão destroçado, por trás de uma barricada erguida anteriormente ao redor da abertura, feita de móveis, rochas e qualquer outra coisa que pudesse ser empilhada, continuou: — ESCUDOS ERGUIDOS, AO PORTÃO! LANCEIROS, MANTER POSIÇÃO!

Os soldados, erguendo uma parede de escudos no pequeno espaço de três metros de largura sob o muro, sentiram rapidamente o impacto da tropa crasiriana quando dezenas de homens jogaram-se contra os namorianos, as lâminas chocando-se umas com as outras, disparos de revólveres sendo feitos de ambos os lados, os subordinados de Azai repelindo os inimigos com seus escudos ao mesmo tempo que brandiam suas armas, a cada brecha feita pelos crasirianos na barreira sob o muro, um novo soldado namoriano erguendo o escudo e substituindo o companheiro abatido.

Com os escudos erguidos e as lâminas subindo e descendo incessantemente enquanto os atiradores abatiam ainda mais inimigos, os namorianos conseguiram resistir aos crasirianos por muitos minutos, até que, enfim, como uma enchente repentina, os inimigos jorraram da brecha aberta pelo canhão, por cima dos destroços do portão e dos cadáveres de soldados abatidos, rapidamente espalhando-se em todas as direções. Apenas para verem-se encurralados, cercados por uma barricada.

Os lanceiros por trás dos entulhos empilhados rapidamente começaram a brandir suas armas em estocadas e golpes descendentes, liderados por Tadeo.

— CINTILANTES AZUIS, AS CHAMAS!  Berrou o Maioral-Mor, ordenando os magos a cumprirem com a tarefa que lhes foi designada.

Normalmente, os cintilantes azuis, que eram focados em feitiços de cura e suporte, não envolviam-se diretamente nos combates, mas isso não significava que não eram capazes disto. Assim, do topo do muro, voltados para o interior do vilarejo, para o centro da barricada, os magos conjuraram as labaredas que consumiram o aço e a carne dos crasirianos, levando-os às cinzas, levantando aos ares o cheiro de carne queimada.

Porém, os inimigos eram muitos e, independente do quanto os magos queimassem, do quanto os atiradores disparassem e do quanto os lanceiros cortassem, os crasirianos não tinham fim. A cada minuto passado, a cada novo inimigo abatido, os projéteis a serem disparados e a magia dos magos aproximava-se do inevitável fim, até que este chegou, de repente, e logo os invasores saltavam a barricada com armas a mão.

Junto de todos os seus companheiros, que haviam descido à batalha frente ao portão destroçado, Azai brandiu Camponesa, desferindo golpes contra seus oponentes ascendentemente, seguido por um brandir descendente e um semicírculo horizontal, e em três golpes haviam três cadáveres ao redor do Maioral-Mor. Mas as coisas não iam tão bem para os demais companheiros de Azai, como este viu, quando deslizava sua lâmina contra a garganta de um elfo, a chegada de uma poderosa maça contra a nuca de João, o ataque tendo quebrado-lhe o pescoço e arremessado o corpo morto do orc ao chão.

— JOÃO! — Berrou em fúria Azai, desviando os olhos do corpo do amigo e vendo seu matador: o gigante o qual ele falhara em derrotar (muitas vezes durante o tempo naquele vilarejo) antes, o qual, Azai descobrira, era um oficial da tropa inimiga.

Disparando contra o gigante, Azai segurou firme o cabo de Camponesa, desviou-e do golpe de um inimigo qualquer, agachou-se por baixo de uma lança arremessada e saltou por sobre o cadáver do amigo. O gigante desferiu um chute contra o Maioral-Mor, que desviou-se deste facilmente, jogando a lâmina de Camponesa com todo o seu peso contra a perna do oponente e... não causando dano algum.

A maça do gigante passou centímetros por cima da cabeça de Azai quando ele abaixou-se e desferiu um segundo golpe, dessa vez contra uma junta da armadura, mas, por conta de sua posição, sem força o suficiente para trespassar a cota de malha e as muitas outras camadas de couro e lã sob esta. Houve um terceiro e quarto golpe vindos do gigante, e Azai desviou-se de ambos, retribuindo-os logo depois, apenas para tirar faíscas contra o grosso aço que encouraçava seu oponente ou ter seus golpes repelidos pelo escudo do mesmo. O Maioral-Mor teve de lidar também com a interferência de, pelo menos, cinco outros inimigos durante a luta contra o gigante, tendo de desviar de dois ou três oponentes ao mesmo tempo, abatendo um a um com o tempo: decepando ambos os braços de um elfo intrometido, atravessando quase trinta centímetros da lâmina de Camponesa através da barriga de um fantasma, cortando os olhos de um tigromem, decapitando um goblin e semi-decapitando um ogro.

A luta prosseguiu e Azai passou a acertar cada vez mais golpes no gigante, dando-lhe ferimentos cada vez mais sérios e profundos, tirando-lhe cada vez mais sangue, quando o Maioral-Mor berrou ao oponente (esquecendo-se de que o gigante sequer falava sua língua):

— AQUI NÃO É LUGAR PARA VOCÊ, DESGRAÇADO! NÃO PENSE QUE É SÓ PORQUE ESTAMOS NUMA MONTANHA QUE VOCÊ PERDEU TODAS AS SUAS FRAQUEZAS!

E, de fato, aquilo era verdade. As espécies viviam todas em equilíbrio e igualdade em todo o mundo quanto a seus atributos físicos naturais, mas algumas delas reuniam-se em ambiente específicos, como os gigantes. Isto, porém, não era à toa.

Com seus grandes corpos e grandes músculos, os gigantes, simplesmente, esquentavam-se demais e muito facilmente, por isso preferindo os ambientes mais gélidos. Ali, porém, embora ainda num ponto bastante alto, estava longe de ser um dos picos nevantes da Cordilheira Gris, e o gigante o qual Azai enfrentava aprendera isso enquanto seus golpes ficavam cada vez mais fracos, seus movimentos cada vez mais lentos e sua respiração ofegante... e sua mente cada vez mais turva de ira para com o pequeno humano ligeiro que enfrentava.

Azai sentiu o golpe do gigante aproximando-se mais pesado que os demais, porém, não mais rápido, e desviou-se facilmente, apenas para ver-se surpreendido por uma nuvem de terra atirada a si pela maça do gigante ao atingir o chão. Mesmo cegado pelo pó, porém, pode sentir a sequência do golpe aproximando-se e saltou para trás... sentindo a lâmina de um alguém penetrar-lhe as costas, muito próxima à coluna e ao coração, tão próxima que quase fora um golpe mortal.

Voltando Camponesa para trás, Azai fincou a espada no inimigo que tentara lhe matar, as lágrimas limpando-lhe a visão do pó e ele podendo ver então o gigante aproximando-se, bufando ensandecido.

— AZAI! — Berrou Tadeo, colocando-se entre o gigante e o amigo, trocando golpes contra o crasiriano enquanto o Maioral-Mor esforçava-se para ficar de pé.

A visão ainda meio embaçada pelas lágrimas e poeira, Azai apoiado-se na espada, pôde ver então: o tigromem desviando-se de um golpe e de outro do brandir da maça do gigante e depois de seu chute, rolando com uma cambalhota por entre as pernas do oponente e, finalmente, fincando o espinho de sua alabarda na nuca do gigante, matando-o. Tadeo sempre fora o segundo melhor guerreiro do quartel, tão bom quanto o próprio Azai, ainda melhor quando tratando-se de armas de médio alcance. O Maioral- Mor estava prestes a gritar um elogio para o amigo, quando uma munição estourou-lhe a cabeça do tigromem, arrancando toda a pele de seu rosto e espalhando seus miolos em todas as direções.

Segurando o revólver, o crasiriano que matara Tadeo, um orc, voltou-se para o Maioral-Mor, apontando a arma para entre seus olhos e sorrindo. Este fora empalado então por uma espécie de estaca parecida com a ponta de uma flecha, conjurada e disparada por Miguel.

O cintilante, ali perto, já havia claramente usado magia demais ao conjurar um canhão e dispará-lo seis vezes, de forma que quando conjurou o último feitiço, seu corpo não resistiu, o mago levando sua mão ao coração que, após bater insanamente rápido, parou. Suas veias por sob as roupas e armadura estavam tão saltadas à pele, que era como se as raízes de uma árvore ancestral estivessem crescendo em seu interior, seus olhos por detrás da máscara esferas rubras por conta dos vasos sanguíneos inchados. Miguel morrera.

Berrando, tomado pela ira, Azai tentou levantar-se, tentou voltar a brandir sua espada, quis matar todos eles, quis matar todos os crasirianos, quis destruir até o último de seus inimigos, vingar seus amigos e banhar-se em sangue para saciar sua raiva... Mas não conseguiu. O ferimento às suas costas era excruciantemente doloroso e ele descobriu-se também muito exausto por conta da luta contra o gigante. Gritando maldições, Azai rastejou até um revólver próximo e descarregou-o contra os inimigos que finalmente começavam a recuar, até ser arrastado por um subordinado para dentro de uma das casas, para longe da batalha que aproximava-se do fim.

A batalha naquele vilarejo finalmente chegara ao fim. Os crasirianos foram exterminados. Eles haviam vencido.

— Graças aos Deuses e às Santas!  Comemorou o Mestre, saindo da casa na qual hospedara-se pela primeira vez desde o primeiro confronto. — E, é claro, graças ao senhor Maioral-Mor. — Disse ele, sorrindo. — Agora posso finalmente partir, e é isso que eu farei! Não vou perder mais nem um segundo nesse fim de mundo cheio de morte. Creio que você me escoltará, senhor Maioral-Mor?  Concluiu, subindo numa carroça coberta e tirando-a dos estábulos, as gargalhadas.

— Espera.  Pediu Azai, mancando, apoiado por uma muleta, até a traseira da carroça.  Você... Você não é deste vilarejo?

— Uh? É claro que não, como alguém como eu, um nobre de Namória, poderia ter nascido aqui? Eu estava sendo perseguido por estes crasirianos porque eu estava realocando este tesouro. Apenas me escondi aqui à espera de ajuda. — Respondeu o sátiro apontando com o polegar por sobre o ombro para a traseira da carroça.

Na traseira do veículo, Azai confirmou: baús e mais baús apinhados de moedas, e gemas, e joias e outros tesouros.

Cadáveres queimados, cadáveres desmembrados, cadáveres empalados, corpos mortos estendidos por todas as partes. Centenas deles. A tropa de Azai fora reduzida a apenas cinquenta soldados, enquanto do povo da vila somente três homens haviam sobrevivido. Em algum lugar entre a pilha de mortos estavam também João, Miguel, Tadeo... e Sofia, que fora atingida por uma flecha, um projétil perdido, como o Maioral-Mor viera a descobrir ao abrir os olhos algumas horas depois de tudo acabar.

Fora então que aqueles ramos sombrios e espinhosos cultivados em seu coração por uma jovem garota que, apesar de tudo, era mais sábia do que qualquer um que Azai já conhecera, que o pesar em seu coração, que sua dúvida, de uma vez só, floresceu num milhão de flores carregadas de pétalas negras e pesarosas, cheias de angústia, raiva e arrependimento.

— Isso, os tesouros arrecadados pelos Cobradores-de-Guerra, é um tributo coletado para o rei que é visado como um recurso para a reparação dos estragos causados em território namoriano pela guerra.  Comentou o Maioral-Mor, arrastando um dos baús para a beirada da carroça, abrindo-o e despejando seu conteúdo no chão.

— PELOS DEUSES E SANTAS, O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO?! 

Perguntou o Mestre, saltando da frente da carroça e indo ao Maioral-Mor, irado, quase sem acreditar no que via enquanto levando ambas as suas mãos à cabeça.

— Pela comida e bebida consumida pela tropa.  Continuou Azai, despejando o conteúdo de mais um baú ao chão, ignorando as maldições do sátiro. — Pelos móveis e paredes destruídas para erguermos a barricada. — Disse, deixando mais milhares de brilhantes e douradas moedas caírem e rolarem a terra. — E PELA VIDA DE TODOS AQUELES QUE SACRIFICARAM-SE NESTA BATALHA!  Conluiu, aos berros, calando o Mestre, esvaziando mais outros cinco baús, todos os restantes.

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