Guerra A Ruína - Capítulo: 44

Capítulo: 44

Álex.


Havia pouca luz ali. O fedor era insuportável, o odor de dejetos, sangue e suor pairando no ar, o chão era coberto por quase três centímetros de água, os grilhões esfolavam sua pele e limitavam seus movimentos, ao mesmo tempo que cada centímetro do corpo de Álex doía, doía muito, de forma excruciante, a cada novo chacoalhar do navio uma nova onda de agonia percorrendo cada músculo, a pele e ossos, até sua alma. Principalmente sua alma.

Quando os cratences adentraram o galpão, Álex e Miranda sequer tiveram chance. Haviam muitos deles, incluindo um mago, um marionetista assim como o garoto. Porém, muito mais poderoso.

Álex tentara resistir, mas isso mostrara-se simplesmente inútil, ele não tendo a mínima possibilidade de vitória não só contra os soldados inimigos, como também contra o outro mago. Enquanto o garoto conjurava o cavaleiro sem cabeça, uma criatura não real, um centauro sem cabeça que empunhava uma foice, as gargalhadas, o cratence, num instante, conjurou três fantoches, gigantes armadurados com aço e empunhando grandes armas, e manipulou-os com maestria, derrotando Álex antes mesmo que ele pudesse atacar.

No mesmo instante em que um dos gigantes segurou os braços de Álex, um soldado inimigo aproximou-se, segurando um porrete. O homem era o mesmo orc que Álex tinha nocauteado, ele também tendo guiado aqueles soldados, seus companheiros, para dentro do galpão. Simplesmente irado, o orc começara a desferir golpe atrás de golpe contra o garoto, primeiro enchendo-lhe de hematomas, depois deixando o porrete de lado e começando a quebrar-lhe os dedos, parando somente quando Álex já havia quase perdido a consciência. Isso não fora tudo porém. Nem o pior de tudo.

Os cratences fizeram questão de forçar Álex a assistir, assistir enquanto eles machucavam Miranda. O mago que derrotara Álex e aquele que parecia ser o líder ali fora o primeiro, mas houve também um segundo e um terceiro e um quarto. Tantos soldados haviam entrado no galpão. O orc que Álex não matara foi o último.

O rapaz não sabia há quanto tempo já estava naquele navio, naquele porão, mas sabia que já estava lá há muitos e muitos dias, embora ele soubesse que seguiam para Crát. De tempos em tempo os soldados jogavam pedaços de pão embebidos de água pelas grades lá do alto, os prisioneiros tendo de resistir à sede, à tentação de beber a água suja que empoçava-se aos seus pés. Haviam, pelo menos, duzentas pessoas ali, mas Álex não via Miranda em lugar nenhum.

— Deve estar num outro navio.  Comentou o rapaz. Ninguém respondeu, mas isso não era uma surpresa, afinal, com exceção do próprio Álex, não havia nenhuma pessoa ali que falasse crasiriano. Sorrindo, continuou:  E eu pensei que soubesse o que era a ingenuidade, que piada! Depois do que aconteceu, a caravana, a floresta e tudo o mais, eu imaginei que tinha crescido de alguma forma, pensei que havia me tornado um homem, que havia compreendido a realidade do mundo. Bosta nenhuma. Eu apenas... apenas havia me conformado. Apenas aceitei o fato de que pessoas morriam. Nunca estive pronto para nada nem fiz questão de me preparar para nada. É mesmo, eu até senti inveja de Rafaela, de todo o seu talento, mas sequer treinei magia desde que saí do Grêmio...

Fora então que sua atenção foi capturada por uma repentina e breve cintilação azulada. Olhando para cima, para a única fonte de luz daquele porão imundo daquele navio de escravos, para as grades lá em cima, Álex pode vê-lo: o mago cratence que o derrotara. Era um tigromen, alto e forte, trajando uma armadura mais rica em detalhes do que seus demais companheiros. Ele estava treinando, compreendeu o garoto, observando as marionetes surgirem uma a uma ao redor do mago e ele fazendo-as lutar logo em seguida.

O tigromem havia conjurado os mesmos três gigantes que haviam derrotado Álex, no início da luta um deles brandindo com toda sua força o machado que empunhava contra os outros dois, num grande semicírculo horizontal. Os outros dois, um deles empunhando uma das espadas de duas mãos, uma lâmina fina e levemente curvada, como típica de Crát, e o outro uma alabarda, ambos esquivaram-se do golpe, cada um deles saltando numa direção diferente, seus passos pesados e estrondosos contra a grade, ecoando por todo o porão do navio.

As três marionetes gigantes continuaram a lutar habilidosamente, naturalmente, pelos movimentos naturais o fato delas não serem de carne e ossos quase imperceptível, o conjurador que as controlava definitivamente tão bom, se não ainda melhor do que o mago professor de Marionetiso do Grêmio, Henrique, um verdadeiro mestre.

— Eu vou matá-lo.  Prometeu Álex, fitando o homem, odiando-o, porém não da mesma forma como odiou Éder quando reencontrou-se o homem, mas de um jeito frio, cruel, perverso, completamente imerso em escuridão. — Eu juro por todos os deuses que vou matá-lo. Vou matar cada um desses desgraçados. Vou fazêlos pagar, Miranda, e vou te encontrar.

Um dia, embora Álex já tivesse perdido a noção de tempo e não mais soubesse que esteve a mais de um mês em mar, o chacoalhar do navio simplesmente parou num solavanco e o fantasma percebeu que haviam atracado. Logo, soldados cratences desceram ao porão, prendendo os grilhões dos prisioneiros uns aos outros, dispondo-os numa cumprida fila indiana e guiando-os para o convés do navio. Ao menos aqueles que tinham sobrevivido à viagem.

A luz do dia, o sol brilhando quente lá no alto, fez os olhos do fantasma arderem, demorando para se acostumarem à superfície, Álex tentando proteger a visão com as mãos mas falhando por conta das correntes que prendiam-no prisioneiro à frente. Finalmente conseguindo observar seus arredores, virando a cabeça de um lado para o outro, o fantasma viu o porto no qual estava e os muitos e muitos mais navios ali atracados, e os tetos dos prédios mais altos da cidade adiante e os filetes de fumaça de um milhão de chaminés.

O porto era enorme, um cais de cumprimento quilometral e de outros sessenta metros de largura, com mais centenas de píeres, onde os navios atracavam, a maioria deles sendo idênticos ao qual Álex então desembarcava, grandes embarcações de escravos das quais saiam centenas e centenas de pessoas agrilhoadas de cada uma. Metros adiante, para lá do cais e dos prédios do porto, os bares e tavernas, as estalagens, galpões e prostíbulos, uma muralha negra de trinta metros circundava a cidade, encimada por muitos soldados, pontilhada de seteiras e janelas para canhões, com uma série de torres quadradas em intervalos regulares.

Aos gritos, algumas dúzias de soldados conduziram os prisioneiros para dentro da cidade, atravessando os grandes e vermelhos portões de madeira da muralha, o mago tigromem liderando a fileira de prisioneiros, montado num gibão-guerreiro de armadura. Mesmo na situação terrível em que estava, Álex não pôde deixar de observar a cidade erguida à sua volta, assim como os demais prisioneiros também, ele pôde perceber.

A maioria dos prédios tinha vários andares de altura, com telhados multicoloridos e arrebitados em cada um deles, como se muitas casas tivessem sido empilhadas, a visão das construções baixas de no máximo três andares, como as comumente vistas em todo o Continente de Gal, era rara ali.

As ruas eram largas e apinhadas de pessoas. Muitas delas. Parecia haver mais pessoas ali, naquela única cidade, do que em toda Nova Crasíria, estas vestidas de forma inacreditável, usando, muitas vezes sob um casaco de pelos (fazia bastante frio ali, como Álex percebia), uma espécie de vestido amarrado à barriga por uma faixa larga, mesmo os homens, e todos usando um grande chapéu de pelos com ou sem abas.

Álex ficou pasmo ao ver um trem cruzando a cidade, seus trilhos construídos como se sobre uma ponte. Percebeu que haviam pelo menos mais três daquelas pontes com trilhos de trem espalhadas pela cidade, usadas por pessoas comuns como algo do cotidiano, apenas para irem de um ponto ao outro naquele exótico mar de construções. Observando as barracas de comida nas esquinas que vendiam desde carne de cachorro (o que causou certa náusea no fantasma) até pasteis estranhos e peixe cru, Álex percebeu que muitas destas usavam fogões mágicos, notando a partir de então que itens magicamente imbuídos estavam por toda a parte ali, num nível que ele sempre pensara ser possível apenas dentro do próprio Grêmio.

O enorme castelo no centro da cidade, porém, era o mais fantástico: cercado por uma muralha tão alta quanto a que circundava a cidade, a construção era composta por dezenas de enormes torres octogonais com telhados a cada andar terminando cada um numa abóbada, todas saindo de um cumprido prédio quadrado central, tudo tão colorido quanto as casas de Bahia Umbrosa, as paredes e telhados repletos de formas geométricas, espirais e traços aleatórios. Foi perto da muralha do castelo que os prisioneiros foram estranhamente examinados por um soldado, evidentemente um mago, separados e colocados a tapas e pontapés dentro de carroças, cada uma destas seguindo em direções opostas, Álex sendo levado para fora da cidade por um portão ao oeste, continente adentro.

O forte quadrado, baixo, sombrio e feio nas montanhas no qual Álex e os demais prisioneiros chegaram após semanas de uma exigente viagem cheia de maus tratos, entre surras constantes, má alimentação e estupros frequentes, era completamente diferente da beleza exótica da cidade portuária de antes, a capital de Crát, Cur. Isso, é claro, não importava e os prisioneiros (aqueles que sobreviveram) foram levados para a fortaleza sombria.

O trajeto de treze dias até ali fora marcado por, além da tortura, muitas florestas, extensas campinas, uma série de esquisitas montanhas que erguiam-se como torres, escarpadas e quase linhas completamente retas na vertical, e fazendas e vilarejos, paisagens completamente diferentes da grande capital, casas baixas de taipa ou rocha e argamassa ou madeira, pequenas criações de animais e plantações, vilas como as vistas em qualquer outro lugar do mundo apesar da arquitetura distinta estar mesmo ali, os telhados arrebitados e muitas vezes sobrepostos.

Não havia uma muralha ao redor do forte, afinal, o único caminho até ele sendo uma trilha estreita e muito íngrime pela montanha a qual ele encimava, cercado naturalmente por rocha de três lados. Haviam, porém, muitos soldados lá, estes que receberam os prisioneiros e a escolta de Álex, parte levando os soldados para uma porta próxima, para o refeitório para enfim descansarem, enquanto parte analisava os recém-chegados prisioneiros.

Crát em si já era um país gélido, mesmo no verão (e não era verão), a temperatura ainda mais torturante ali, no topo de uma montanha, mas mesmo assim, os soldados fizeram os prisioneiros todos tirarem todas as roupas. Um mago então, usando um pesado manto negro de pelos e uma máscara de médico (que ali, em Crát, era feita na forma do rosto de uma raposa, diferente de Nova Crasíria, onde era uma ave de bico estreito e cumprido ou Namoria onde era um leão, a máscara de médico variando de um país para o outro), examinou cada parte do corpo, contou cada cicatriz, dente e caries, unhas, dedos e membros. Uma vez que o cratence terminou, ele disse qualquer coisa para os demais soldados e estes levaram o fantasma e os demais prisioneiros para o interior do forte e para as celas, devolvendo-lhes as roupas.

Ainda assim, mesmo em sua cela, o rapaz não encontrou paz, sendo assediado por um lebromem brutamontes, que grunhiu para Álex alguma coisa em horaciano.

— Desculpe, eu não falo sua língua, meu bom senhor.  Respondeu Álex.

Houveram mais alguns grunhidos e resmungos por toda a cela superlotada na qual o fantasma estava antes de um urro de raiva erguer-se e o rapaz ser espancado por uma dúzia de pessoas.

Álex não conseguiu se mexer depois da surra, mas aquilo não era nada se comparado ao que ele já havia passado até então. Não, ele não gritou, ou chorou, ou se urinou como das outras vezes. Estava humilhado, quebrado, coberto pelo próprio sangue, mas não estava sem nada. Álex tinha uma decisão. O fantasma tinha uma  promessa. O homem tinha um dever.

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