Guerra A Ruína - Capítulo: 43

Capítulo: 43

Octávio


Havia sido difícil arranjar aquele encontro, Octávio tendo de esperar por muito tempo antes do aparecimento de uma oportunidade, esta surgindo somente quando Fernando mandou-o numa missão para fora da cidade, e tendo ainda complicações para enviar o convite ao homem, tendo de pedir para seu pai pedir para uma segunda pessoa (o primeiro dos aliados do vampiro, o dono de um grupo de carruagens de alugar) para entregar o convite, um bilhete de trem, uma cabine com data e horário marcados, para a harpia.

— Horas, quer dizer que não era uma armadilha montada por aquele desgraçado do Fernando? — Perguntou Bértil, surpreso com a entrada de Octávio na cabine. — ...Ou será que é?

— Por que você veio se desconfiava que isto era uma armadilha?  Retrucou o vampiro, sentando-se à frente de Bértil.

— Se eu faltasse cada encontro ou recusasse cada trabalho por causa de suspeitas eu não teria me tornado Senador!

— De qualquer forma, não há nenhuma armadilha nisto. — Respondeu Octávio.

— Ao menos não uma organizada por Fernando.

— Ah, o que quer dizer que você está organizando uma outra guerra? Ou será que estais organizando mais falsas provas incriminatórias para acabar com possíveis ameaças?  Comentou a harpia, sarcástica... porém honestamente.

— ...Você está apenas meio correto. — Retrucou Octávio, franzindo as sobrancelhas, ao mesmo tempo zangado e envergonhado.  A parte que você acertou é sim, eu estou reunindo provas incriminatórias. A parte que você errou é: elas não são falsas, e, na verdade eu planejo pôr um fim a esta guerra.  Respondeu o vampiro, sério.

Bértíl bufou ao retrucá-lo:

— Você diz que isto não é uma armadilha organizada por Fernando, diz: "eu estou reunindo provas incriminatórias" e "Planejo pôr um fim a esta guerra"... Você planeja depô-lo. E quer minha ajuda para isso. O que te fez mudar de ideia tão repentinamente, pirralho? Uma mulher? A perda de alguém importante?

— A própria guerra. Eu a vi, Bértil, eu a senti na pele. Numa das tarefas sob as ordens de Fernando eu fui enviado para o leste e vi a própria desolação.

 Oras, por favor! — Retrucou a harpia, fazendo um gesto desdenhoso com a mão, verdadeiramente zangado. — O que, você viu? Casas queimadas e cadáveres de pessoas? Viu alguém morrer? Foi isso que o fez mudar de ideia? O que você pensava que era a guerra, pirralho, algum tipo de jogo, uma planilha na qual você apenas soma ou subtrai números?! Não se esqueça, Octávio de Pessos, você é tão culpado por estas mortes quanto Fernando, pirralho, não me venha querendo jogar toda a culpa nele agora!

Espantado, sentindo-se realmente apenas uma criança perante a ira da velha harpia, lutando para manter ainda a confiança e compostura com a qual começara a conversar com o ex-Senador, Octávio disse:

— É verdade, eu tenho o peso da morte de milhares em minhas mãos, eu muito bem sei disso assim como o quão hipócrita eu sou por ter desdenhado a guerra, mas, nesse momento, eu sou o único que pode reparar meus próprios erros. Ou você espera que a irmandade, que mal tem voz na Assembleia e muito menos no Senado faça alguma coisa além de lutar para manter, pelo menos, o mísero poder que ainda lhe resta? Ou talvez os comerciantes, que vem empobrecendo mais a cada dia que se passa, tendo de pedir empréstimos ao meu pai?

Após um minuto tenso de silêncio, durante este tempo ambos apenas fitando um ao outro, Bértil enfim cedeu:

— ...E o que você pretende?

— Preciso que você e os seus falem ao meu favor ou, pelo menos, a favor de meus ideais quando a hora chegar. Falar bastante alto.

— Entendido.  Disse a harpia, levantando-se e dirigindo-se a porta da cabine, sorrindo.  E, ah, sim. Eu sei que não tem muito tempo que eu disse algo como "não se deve rejeitar uma oportunidade só porque ela é arriscada", mas... saiba se preparar para o caso de tudo sair do planejado. — Concluiu Bértil puxando a aba do casaco e exibindo um grande revólver carregado.

— Por todos os Deuses, você iria me matar?! — Comentou o vampiro, espantado.

— Eu mataria qualquer um que me ameaçasse do mesmo.

— Isso é bárbaro.

— Você é mesmo só um pirralho na política! — Retrucou a harpia depois de uma longa gargalhada, saindo da cabine logo depois.

— Ora, isso sim é inesperado: o braço direito do Senador Fernando aqui, reunindo-se secretamente comigo, um afiliado do Partido da Irmandade! — Comentou o homem, o ratomem.

"Aí está outro encontro que foi difícil de marcar..." pensou Octávio, relembrando-se do cansativo planejamento, no qual o vampiro esforçara-se para que a reunião não fosse descoberta por ninguém além dos dois.

— Mas, francamente, meu bom senhor, você poderia ter escolhido um lugar mais confortável do que este galpão velho, não?  Perguntou o ratomem, olhando ao redor.

— Nem mesmo podemos nos sentar aqui!

— Aqui é o único lugar longe de "olhos curiosos" que eu pude conseguir. — Respondeu Octávio, dando de ombros.

— Certo, certo, que seja. E então, o que você quer? Dinheiro para não depor meu chefe? Ou serão provas contra ele? Quer que eu abra o bico para você e "conte todos os segredos da irmandade"? Lamento mas, eu não vou fazer nada disso, afinal, sou apenas um subordinado qualquer, não tenho muito dinheiro ou provas contra o Representante Provincial e nem moral para conhecer segredos do partido.

— Eu não o chamei aqui por isso... — Retrucou Octávio, suspirando, começando a sentir-se cansado por sua reputação.  Simplesmente quero que você leve uma mensagem aos seus superiores. — Disse, levando a mão ao bolso interno de seu paletó. Paralisou-se por um instante ao perceber o terror tomando conta do ratomem e contorcendo-lhe a face, o homem cambaleando para trás enquanto gaguejando:

— P... Por favor, meu bom senhor... Eu nem sou tão importante assim, você não vai ganhar nada me ma....

— Por todos os deuses, eu não vou te matar!

— Como eu saberia disso, vocês da reconquista são malucos afinal!

— Aqui, quero que leve isso para o Alto Membro Associado Cleber Roto. — Disse o vampiro, suspirando ao entregar ao homem um pequeno envelope.  Diga-lhe que é um presente de boa fé, que mais destes virão e que desejo uma longa amizade.

— ...Certo, e por que eu deveria fazer isso? Como eu vou saber que não é uma artimanha de vocês da reconquista?

— Não é. Tudo isto foi organizado exclusivamente por mim... Embora eu não possa provar isto.

— Então..!

— Há o nome de trinta e cinco de nossos espiões infiltrados no Partido da Irmandade aí, além de outras informações que podem provar isto.  Apontou Octávio, interrompendo o homem. — Cabe a você, meu bom senhor, decidir se levará ou não estes nomes a Cleber, mas, mesmo que seja uma trama montada pelo partido rival, mesmo que fosse apenas uma estratagema para impor discórdia entre seus companheiros... se eu fosse você, eu levaria-o mesmo assim. Poderia significar, afinal, quais são aqueles que estão na mira de seus inimigos, quem eles desejam fora do caminho, peças que eles consideram importantes para a concretização de seu plano. E, se for verdadeiro, bem, creio que não é preciso explicar as vantagens de se saber as identidades dos espiões que o cercam.

— É isso então? Você mudou de lado? Não vai mais depor o Representante Provincial daqui?

— Ah, eu vou sim, ele já está acabado, afinal, acredite em mim.

— Ei, qual os significado disso tudo então?! Você está nos ajudando ou nos atrapalhando?! Qual é seu lado, hein?!

— Ei, você pensou que eu o mataria agora há pouco, não é? Disse que nós, da reconquista, somos malucos. Ainda pensa que eu tenho escolha além de cumprir com a tarefa que me foi dada? E quanto ao "lado" em que estou, bem, estou do meu próprio lado.

Finalmente voltando para a capital, observando a paisagem passar veloz pela janela de sua cabine no trem, depois de fazer o que tinha de ser feito, o que fora muito mais fácil do que em Plateus, tanto pelo vampiro já ter se acostumado aquele tipo de serviço, quanto pela menor competência daquele Representante Provincial em questão do que a de Pablo, além do descaramento, da liberdade que Octávio teve para agir, uma vez que as disputas entres os partidos já não eram mais tão mascaradas quanto antes, muitas vezes os políticos atacando uns aos outros com os motivos mais superficiais ou praticamente sem motivos. Octávio pensou: "bem agora eu só preciso de tempo o suficiente para meus aliados prepararem-se. Muitos donos de indústrias e mercadores já reconhecem minha "gratidão", Bértil pode não gostar muito de mim, mas não é um idiota, sabe que sou sua única opção contra Fernando, e vai usar de suas forças para atiçar os incontentes e o povo em geral ao mesmo tempo que aumenta suas vozes, e agora Cleber, o braço direito do Senador Pedro, vai receber minha mensagem."

"Tenho certeza que ele vai saber interpretá-la: 'não estou com Fernando e quero sua ajuda', e, com o que eu disse para o ratomem depois, ele também pode entender também 'vou tentar me tornar um Senador' e isso poderia lhes ser bastante útil. Bem, mesmo que ele não me aceite, não vai mudar o fato de que a irmandade ajudaria a derrubar Fernando. Também não me entregariam, afinal, se eu estivesse sob as ordens de Fernando nada aconteceria comigo, e, se eu estivesse agindo por conta própria eles apenas perderiam um aliado. Sim, está tudo indo bem. Eu vou conseguir!"

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