Capítulo: 42
Azai.
— Senhor Maioral-Mor, eu tenho me perguntado: por que os alados não tomaram aquela mansão? — Perguntou Caleb, a quem o silêncio deprimente sob o qual a tropa marchava parecia insuportável. — Digo, o grosso do exército já deve ter chegado há tempos no Forte das Correntes, então não há mais a necessidade dos alados guardarem o local, mas não os vimos em uma batalha sequer. Nem mesmo na tomada de Serenia!
— Entendo, esta é realmente uma dúvida pertinente. Estou surpreso disto vindo de você. — Disse Azai, exagerando em sua expressão de espanto, levantando algumas das gargalhadas tão necessárias naquele momento, estas vindas principalmente de Jéssica, que até viu-se de olhos marejados quando enfim conseguiu conter-se. O próprio Caleb, porém, não achou tão engraçado. — Mas é verdade, não lutamos junto dos alados. Eles têm suas próprias batalhas, sabe? Não são tão limitados à locomoção quanto nós, então suas batalhas são, em geral, ou muito mais para o oeste, ou para o leste, assolando as terras ao centro de Nova Crasíria, ou defendendo as nossas próprias, lutando contra os alados crasirianos. Mesmo agora, vampiros devem estar assolando as terras mais ao oeste ao mesmo tempo que batalham contra outros de sua própria espécie em Namória. Nem preciso dizer que com as harpias e fadas não é diferente, não é?
— Sei, bem, obrigado. — Retrucou o íncubos, de repente olhando para cima. — Mas, voar deve ser legal, não é? Ei, vocês não podem voar? — Perguntou então, voltando-se aos cintilantes.
— Podemos. — Respondeu com a voz abafada pela máscara dourada Miguel, seco como sempre.
Caleb esperou por uma resposta mais concreta por parte do cintilante, mas esta não veio, a resposta de Miguel tendo acabado realmente por ali.
— Não é questão de poder ou não poder, mas é difícil, sabe? — Disse Jéssica enfim, suspirando, tentando esclarecer as dúvidas deixadas pelo companheiro, percebendo que mesmo Azai havia ficado curioso,uma vez que ele próprio nunca havia pensado sobre o assunto. — Gasta muita magia, é difícil de se ficar estável no ar, não somos feitos para voar, afinal. Ficamos desnorteados lá no alto, com o estômago embrulhado, é difícil enxergar ou mesmo respirar quando em movimento. Bem, com muita prática pode ser que consegamos voar bastante bem, mas é simplesmente uma perda de tempo nos treinar para isso, afinal, para que perder tempo nos ensinando a fazer uma coisa que alguém que nasceu com asas pode fazer naturalmente quando podem nos ensinar a derrubar muralhas e queimar exércitos? Existem também muitos magos de espécies aladas.
— Chegamos. Nosso destino. — Comentou então Azai, franzindo as sobrancelhas para o vilarejo açoitado adiante. — Nosso objetivo.
— Nossa punição, você quis dizer... — Corrigiu-o Tadeo, assombrado com o lugar. — Não nos mandaram para a força mas isso daqui não é muito diferente.
— E eu achando que o rebaixamento tinha sido ruim...! — Concordou Caleb, estremecendo.
A tropa apressou-se e subiu os últimos metros até os portões do muro baixo que cercava a vila, estes que foram abertos quase que imediatamente por soldados de aparência abatida que guardavam o vilarejo, e foram logo de encontro com o Mestre do lugar, um sátiro gordo e calvo, que saiu, exaltado, do maior prédio do lugar, dirigindo-se a Azai, o nervosismo evidente em sua voz:
— Ah, finalmente, finalmente, eu estive os esperando! Pelos Deuses e Santas, eu estive os esperando! Creio que não é preciso dizer, mas esta vila está sob ataque, ataques constantes e cada vez mais sérios. Esses crasirianos só não nos esmagaram ainda porque o caminho até aqui é fácil de ser defendido, mas meus homens continuam a diminuir em números a cada nova onda, morrendo, ficando feridos ou exaustos demais para continuar. Vocês precisam assegurar minha segurança até que eu esteja pronto para partir!
Olhando em volta, observando o vilarejo; cerca de duas dúzias de construções simples de madeira próxima ao topo de uma montanha, no único espaço plano da mesma, acessível apenas por uma estrada que ziguezagueava a encosta da rocha até os potões de madeira de um muro de três metros e meio que cercava o vilarejo, tanto as pessoas quanto as construções bastante surradas, marcas de balas nas paredes, os portões de madeira todo lascados, ainda com meia dúzia de flechas nele fincadas, e os homens do Mestre e os habitantes da vila (que vinham trabalhando juntos, resistindo contra os crasirianos) cobertos de fuligem, sangue seco e ferimentos em gaus variados. Azai respondeu, evitando demonstrar incerteza em sua voz, mesmo que seu coração começasse a concordar com as palavras de Tadeo:
— E assim o faremos, senhor Mestre. — Virando Milagre, voltando-se aos seus subordinados, o Maioral-Mor ordenou: — Quero atiradores em cada saliência sobre a estrada em até cento e cinquenta metros daqui para baixo. João, você os lidera. Grupos de lanceiros em cada curva na mesma distância do vilarejo que os atiradores, sob as ordens de Tadeo. Cintilantes amarelos nos muros, as ordens de Miguel, e azuis, juntos dos médicos, tratando dos feridos as ordens de Jéssica. Os demais recolham pedras e as posicionem sobre o muro, imediatamente!
— INIMIGOS NA PRIMEIRA CURVA! — Berrou um soldado ao lado do Maioral-Mor Azai, observando do topo do muro, indicando a flecha flamejante que caía numa curva esfumaçante, disparada pelos arqueiros de João estrada abaixo como um aviso.
Quando chegaram a Serenia, dias atrás, Azai e sua tropa foram recebidos com muitos olhares furtivos e cochichos, além do rebaixamento de uma patente de toda a tropa e a repentina missão de proteger um vilarejo namoriano nas montanhas. Ainda assim, o Maioral-Mor e seus subordinados sabiam, haviam dado sorte.
— INIMIGOS NA SEGUNDA CURVA! — Tornou a avisar o soldado, uma segunda flecha em chamas sendo disparada para o alto, dessa vez mais próxima. Não demorou muito então para um grupo de lanceiros e atiradores feridos subirem a estrada até os portões da vila.
Segundo o Comandante Joel, o Cobrador-de-Guerra havia enviado uma ordem de execução para Azai e todos aqueles que abandonaram seus postos para segui-lo, eles sendo salvos, porém, pela insistência por reconsideração dos superiores vinda do próprio Comandante Joel e do Cintilante-Comandante Adriel, que temeu pela vida de seu filho e sua nora. Isso somado ao relato do Maioral-Mor Mikael quanto à escolta do Cobrador- de-Guerra ter sido excessivamente grande considerando que o caminho seguido de volta à Namoria não fosse particularmente perigoso, a eficiência que Azai demonstrara em todas as suas missões até então, além do grande número de soldados que poderiam ser executados de uma única vez, muitos deles sendo de alta patente, levou a ordem de enforcamento a ser retirada.
— INIMIGOS NA TERCEIRA CURVA! — Tornou a berrar o mesmo soldado, sua voz seguida pelo som dos passos apressados de ainda mais lanceiros e atiradores que recuavam para o vilarejo.
Ainda assim, a desobediência de Azai e sua tropa não poderia passar em branco, sendo um insulto a palavra do rei (mesmo que esta tivesse sido mal aplicada), a tropa chegando então ali, naquele vilarejo assolado, prestes a ruir, eles evitando a morte certa apenas para receberem a chance (ínfima) de lutar por suas vidas na irônica missão para tentarem salvarem namorianos encurralados por crasirianos.
— INIMIGOS AQUI! — Disse o soldado por fim, uma horda de crasirianos subindo rapidamente a estrada, protegidos por uma parede de escudos erguidos.
— PEDRAS! — Ordenou Azai, que observou os pedregulhos empurrados rolarem estrada abaixo numa avalanche imparável e mortal, chocando-se contra os inimigos, derrubando-os, quebrando a barreira de escudos e esmagando qualquer coisa no caminho. — CINTILANTES, DISPARAR! João, reorganize seus homens e preparem-se para assumirem os muros uma vez que os magos se cansarem. — Concluiu Azai voltando-se ao orc, que já voltara ao vilarejo, à frente de seus atiradores, recuando depois de abater um bom número de invasores.
João, em resposta assentiu com a cabeça e voltou-se aos berros para aqueles sob suas ordens, organizando-os.
— DARDOS LEVES! — Ordenou Miguel, berrando mais alto do que o Maioral-Mor pensara que ele seria capaz, imediatamente conjurando, com todo o processo mágico chamativo de sempre, algo parecido com a ponta de uma flecha e disparando-o, logo em seguida conjurando um segundo deste objeto e tornando a disparar, repetindo o processo de novo e de novo, todos os demais cintilantes amarelos fazendo o mesmo. — João terá de ser paciente para assumir o muro, senhor Maioral- Mor. — Disse o mago, voltando-se para Azai enquanto ainda disparava. — Podemos conjurar estas coisas por horas.
— E assim espero. — Respondeu Azai, honestamente.
Mesmo sofrendo baixa atrás de baixa, inúmeros soldados caindo mortos enquanto a tropa seguia avançando, o exército inimigo, não parecia diminuir nem em tamanho, sempre mais e mais crasirianos surgindo da curva da estrada adiante, nem em espírito, a tropa nunca recuando. Uma vez que eles finalmente aproximaram-se o suficiente, fizeram seu primeiro ataque, uma grande brecha surgindo na parede de escudos, embora apenas por alguns pouquíssimos segundos, e apenas para dela serem disparado uma nuvem de projéteis, flechas, dardos e munição. No segundo seguinte, aqueles que não conseguiram agacharem-se sob a proteção do parapeito do muro e muitos outros, que foram pegos desprevenidos no interior do vilarejo, caíram para nunca mais levantarem-se, alvejados. Os cintilantes tentaram retomar o ataque logo em seguida, mas apenas conseguiram diminuir a quantidade de projéteis inimigos que chegaram ao chão, os crasirianos voltando a disparar no instante seguinte, seus esquadrões avançando rapidamente.
— ARQUEIROS! — Ordenou Azai, depois de estalar a língua, frustrado.
João, compreendendo e imediatamente repassando a ordem para seus subordinados, os arqueiros e besteiros retesaram as cordas de suas armas, apontaram-nas para o alto e disapraram. A nuvem de flechas e setas no ar não tinha metade do tamanho daquela disparada pelos crasirianos, mas não fora de todo inútil, e, contanto que os atiradores namorianos tivessem flechas, as baixas inimigas continuariam a aumentar.
Enfim, o inimigo aproximando-se preocupantemente dos frágeis portões do vilarejo, o Maioral-Mor tornou a berrar, ordenando, descendo o muro, desembainhando Camponesa e seguindo à estrada:
— INFANTARIA, COMIGO!
Enquanto os portões de madeira rangiam ao serem puxados, os crasirianos começavam a avançar mais rapidamente, motivados pela visão do interior do vilarejo, e aqueles que puseram-se ao lado de Azai rezavam aos Deuses e Santas, suavam frio e tremiam ao encararem os inimigos adiante. O Maioral-Mor também temia, mas ao invés de rezar, ele disse:
— Vocês todos permaneceram ao meu lado. Suamos e lutamos, sangramos e tiramos sangue juntos, e eu não me esquecerei disto, porque nós somos todos irmãos, e, não importa o que aqueles cobradores de impostos chupadores de pinto digam, eu faria o mesmo por cada um de vocês! Então vamos lá, nos banharemos em sangue como fizemos tantas outras vezes, vamos fazer a Santa Glória perder a conta dos cadáveres que ofereceremos a ela!
Batendo as armas, urrando e berrando, os soldados correram estrada abaixo, pelo menos uma centena de namorianos seguindo contra os crasirianos, os demais permanecendo no interior do vilarejo (maior quantidade não faria diferença, afinal, o número de soldados que conseguiam ficar lado a lado era limitado pela queda de centenas de metros à esquerda da estrada).
No primeiro impacto, Azai desviou-se da ponta de uma lança inimiga e saltou com os dois pés contra um escudo, derrubando seu portador. Entre os inimigos, antes de levantar-se, o Maioral-Mor brandiu Camponesa num semicírculo, decepando alguns pés, deixando alguns outros pendurados apenas por uma fina camada de pele e, ao menos, cortando profundamente mais alguns, levantando-se então cercado por meia dúzia de homens caídos e agonizantes.
Pisando no rosto de um inimigo, o Maioral-Mor avançou, desviando o curso da lâmina de crasiriano, um ogro, e contra-atacando, decepando o braço do homem que empunhava a arma, acabando com o ogro quando cortando sua garganta enquanto ele berrava de dor e voltando-se para o próximo alvo, jogando-se para o lado, porém, quando sentiu a maça se aproximar de suas costas. Voltando-se para seu atacante, Azai avistou o gigante.
Trajando uma armadura completa, coberto de aço, com uma greva particularmente espinhosa, invulnerável à maioria dos ataques do Maioral-Mor, o gigante continuou sua série de golpes, misturando seus chutes com o balançar da maça de espinhos que empunhava. Azai desviou-se de um chute por pouco, abaixou-se e esquivou-se de um brandir da maça, rolou para o lado e desferiu então um golpe contra a parte de trás do joelho do inimigo... e errando. Não, não havia errado, o gigante que desviara-se do golpe, girando e certando um chute em cheio em Azai, arremessando o Maioral-Mor quase para fora da estrada, para a queda e inevitável morte seguida desta. Azai havia conseguido sentir os movimentos do gigante, não fora por falta de sua alta percepção, sua Passiva, que fora acertado, mas por conta da notável habilidade do gigante.
Tentando levantar-se, apoiando-se em sua espada, porém, o Maioral-Mor falhou em evitar mais um ataque: uma estocada contra seu peito, Azai apenas conseguindo fazer com que o dano não fosse mortal, sendo atingido no ombro direito.
Azai reprimiu-se por ter cometido um erro tão amador, esquecendo-se do resto da batalha ao focar-se no gigante. O inimigo que atacara-o, um íncubos, puxou sua espada, retirando-a do ombro do Maioral-Mor e voltou a atacá-lo, Azai desviando de um, dois, três golpes antes de aceitar que não mais conseguia empunhar sua montante e partindo para cima do crasirino com o punho esquerdo fechado enquanto com o direito forçava-se ainda a segurar sua espada.
Aproximando-se do íncubos, Azai chutou-se as genitálias, logo em seguida quebrando-lhe o nariz com um soco e acertando-lhe a têmpora com o cotovelo, visando desmaia-lo e falhando. O Maioral-Mor preparava-se para desviar novamente da lâmina do inimigo, quando uma flecha acertou o olho do íncubos, sua ponta de aço tendo atravessado o elmo do crasiriano numa explosão de faíscas e saindo por trás de sua cabeça numa equivalente explosão de sangue e miolos, matando-o na hora. Decidindo que já era o suficiente, então, o Maioral-Mor ordenou, ainda trocando olhares brevemente com o gigante que o chutara:
— RECUAR!
Observando os crasirianos também recuarem, deixando uma pilha de corpos para trás, a estrada para o vilarejo tingida de vermelho, a terra não conseguindo dar conta de sugar todo o sangue, o líquido empoçando-se e escorrendo estrada abaixo, caindo pelas bordas da montanha, Azai, mesmo que ouvisse as comemorações de seus soldados e dos aldeões, soube que não resistiriam por muito mais tempo. Talvez conseguissem reprimir o próximo ataque e o depois deste e, talvez, ainda o seguinte, mas o vilarejo cairia. Então havia perdido apenas cerca de treze soldados, mais outros quinze feridos, mas seus números continuariam a diminuir a cada nova investida inimiga, ele sabia.
— Tadeo. — Chamou o Maioral-Mor aproximando-se do amigo, sentindo uma pontada de dor no ombro ao andar. — Deixe seus atiradores de prontidão.
— Algum problema, Azai? — Perguntou o tigromem.
— Eles atacaram de novo. — Respondeu o Maioral-Mor, afastando-se, dirigindo- se a infantaria. Tocando o amassado deixado em sua armadura, seu peitoral simples de aço, pelo gigante, concluiu: — E ainda hoje.
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