Guerra A Ruína - Capítulo: 41

Capítulo: 41

Álex


Encontrar e seguir o rastro dos cratences fora fácil para os jovens. Aproximarem-se, porém, era outra história, afinal, eles não pareciam se importar com discrição, deixando por todo o caminho uma trilha de profundos sulcos deixados pelas rodas das carroças de prisioneiros, pelas botas dos soldados, pelos cascos dos cavalos e pelas patas dos gibões-guerreiros, grandes primatas comumente utilizados como montarias em certas regiões de Crát.

Os combatentes do povo ocidental não eram menos de cinquenta homens, pelo menos quinze deles montados em animais, todos trajando armaduras completas, proteções estas que destacavam-se das orientais por conta das grandes ombreiras e saiotes, tudo feito de múltiplas placas de aço, principalmente por conta do elmo de demômio. Armavam-se com rifles, lanças e espadas. Mantinham sempre as carroças de prisioneiros bem guardadas, seu acampamento sob vigia e mesmo durante a marcha o grupo era cercado por muitos vigias, não deixando aos jovens nenhuma chance de alcançarem os aldeões agrilhoados para sequer confirmarem a presença dos parentes da garota.

E assim os cratences chegaram, após dias rumando para o oeste, numa praia, num vilarejo portuário que servia de base para os ocidentais.

Do topo de uma colina não muito distante, sob o emaranhado de raízes e folhas de um arbusto hirsuto, Álex e Miranda passaram o dia examinando o local, contando os soldados e observando para onde eram levadas as carroças de prisioneiros. O dia seguiu e os jovens descobriram aqueles prédios que serviam de dormitórios, de depósitos, onde ficavam os estábulos, e também que haviam mais de duzentos soldados no vilarejo, e que os prisioneiros eram todos levados para um grande galpão na praia, próximo ao cais do vilarejo. O sol se pôs e o momento de agir finalmente chegara. Ainda assim, porém, Álex não sentia o mínimo de vontade de deixar a proteção daquele arbusto.

Olhando de esguelha para Miranda, o garoto pôde perceber que ela compartilhava de seus sentimentos, mas viu ali também uma determinação implacável, um brilho decidido em seu olhar. Ela não iria recuar agora.

— Não poderemos usar magia antes de estarmos atrás do galpão. — Comentou Álex, arrastando-se para longe das folhas e raízes. — Qualquer feitiço faz muito barulho se conjurado rápido demais e se conjurá-lo lentamente apenas é prolongar o tempo em que há luz.

— Se ao tivéssemos melhor controle de nossas magias... — Disse Miranda, também deixando o abrigo.

— Mas não temos. Ainda deixamos muita magia escapar, o que faz o brilho azul, o que chamaria muita a atenção. De qualquer forma, não é uma boa ideia.

— Nada de magia, certo, você tem razão.

— Bem, fora isso, não há muito mais o que se discutir: nos esgueiramos por trás das dunas, chegamos ao galpão libertamos a todos, os guiamos para fora em silêncio e fugimos! Não podemos nos demorar demais procurando entre as pessoas do galpão, então temos que contar que seus pais vão reconhecê-la, ou os procuramos uma vez que já estivermos muito longe.

As ondas do mar quebravam-se em intervalos regulares contra a costa do continente à direita do garoto, estrondosas, espumantes, mas meros burburinhos se comparados ao pulsar que Álex escutava a cada nova batida de coração, como o ribombar de um tambor. Mesmo que jurasse que todas as pessoas em quilômetros também eram capaz de ouvir seus batimentos cardíacos, Álex forçou-se a continuar em frente, pisando com cuidado na areia da praia, cujo ruído que fazia ao ser amassada era estremecedor. Suando frio, já mal contendo a tensão, Álex chegou a um trecho onde as dunas não serviriam mais de proteção, um espaço de quase quatro metros até o próximo monte de areia.

Respirou profundamente antes de disparar numa rápida corrida, percorrendo o espaço até a proteção da duna adiante. Olhando de esguelha para o vilarejo a sudeste de sua posição enquanto corria, o rapaz pôde ver aqueles montes de soldados, dezenas, centenas deles, a patrulha, andando vagarosamente por todo o limite do vilarejo, olhando de um lado para o outro, virando suas cabeças para lá e para cá. Haviam ainda aqueles dentro das casas, Álex sabia, luzes vinham das janelas e portas dos prédios e o rapaz podia ouvir mesmo ali a algazarra dos soldados. Um súbito terror absoluto instalou-se em seu coração quando viu um soldado patrulhando a cerca de trinta metros à sua esquerda, imaginando instantaneamente as coisas horríveis pelas quais ele e Miranda passariam se fossem capturados, escravidão, tortura e morte passando à sua mente, até suas pernas finalmente deixá-lo novamente escondido dos olhos dos cratenses. Mais uma vez, Álex respirou fundo, espiando pela borda da duna e fazendo um gesto para Miranda segui-lo depressa ao perceber que ninguém olhava para lá.

Os jovens continuaram a esgueirarem-se paralelos aos montes de areia à esquerda, que diminuíam de tamanho a cada passo, Álex rezando, porém, para todos os deuses que conhecia para que a duna nunca deixasse-os expostos novamente. Deveria ter rezado para não deparar-se com nenhum soldado cratense.

O homem, um orc, estava no topo da duna de areia sob a qual os jovens esgueiravam-se as suas sombras. Parecia ter vindo do nada, conjurado, como um feitiço, de repente ele estava ali, olhando-os, fitando-os estático.

Por um segundo, não houve qualquer movimento por parte de nenhuma das três pessoas, todos sem sequer respirar, Álex e Miranda olhando para cima, encarando o homem, que também fitava-os, olhando para baixo, tão pasmo quanto os jovens.

Estampido. Luz. O orc caíra.

— ...Por todos os deuses, você o matou...? — Perguntou Miranda, levando as mãos à cabeça, de repente ofegante.

— Não, não, não, eu não o matei, não posso tê-lo matado, você não está morto, não é?  Balbuciou em resposta o rapaz, virando o corpo do orc, que caíra à sua frente, de barriga para cima e checando a respiração do homem:  Vivo.  Comentou Álex, suspirando, por alguma razão, de alívio.

— A... Ainda bem.  Disse Miranda, gaguejando, enquanto acalmando-se.

— Sim, ainda bem.  Concordou o rapaz.  Mas precisamos dar um jeito nele...

— Conjuramos um cabo?

— Não, chamaria muita atenção.

— Mas você já conjurou um feitiço de qualquer jeito, merda!  Retrucou a garota, esforçando-se para manter o tom de sua voz não muito mais alto do que um sussurro.

— Mas não tive escolha!  Respondeu Álex no mesmo tom.

— Então você tem uma ideia melhor?

— ...Merda, um cabo de aço então. — Concordou enfim o rapaz, conjurando o objeto, usando de seu corpo para esconder a luz azulada.  Pronto.  Comentou uma vez que o orc já estava amarrado e amordaçado, colocado-o recostado numa das dunas.

— Agora, devemos nos apressar, não sabemos quando darão falta desse daí.

O galpão estava logo em frente, apenas alguns metros adiante. Numa área bastante aberta, porém. Álex conferiu da borda da duna, passando seus olhos por sobre todo o lugar, em busca da presença de algum soldado guardando o galpão ou algum cratence vagando em patrulha. Não havia nenhum. Durante o dia fora a mesma coisa, estavam bastante confiantes ali, reunidos, e o grupo do qual os jovens vieram acompanhando também tornou-se mais negligente com a presença dos muitos companheiros.

O rapaz, parte de si não querendo desperdiçar aquela oportunidade, parte apenas querendo acabar com tudo o mais rápido o possível, novamente colocou-se em disparada. Fez questão dessa vez, porém, de não olhar para a sua esquerda, fixando os olhos num ponto à frente.

Sentiu que podia chorar de alegria quando finalmente voltou a encobertar-se por trás do galpão. Pouco depois, Miranda também surgiu e conjurou um feitiço: um gancho de três pontas preso a um cabo de aço. Jogaram o gancho ao telhado (duas ou três vezes antes que, de fato, lá se prendesse) e escalaram pelo cabo.

Já no telhado, protegidos da vista dos cratenses pela inclinação da construção, os jovens começaram a retirar as telhas, chegando as ripa (que, por sorte, ofereciam  espaços grandes o suficiente para uma pessoa passar por entre), nas quais Álex e Miranda prenderam o gancho e deixaram o cabo de aço cair ao chão, os jovens descendo até o interior da construção por este, sob o olhar pasmo e silencioso de centenas de prisioneiros, homens, mulheres e crianças agrilhoados, presos a ganchos nas paredes e nas colunas que sustentavam o teto.

Quando finalmente Álex alcançou o chão, uma onda de sussurros preencheu o galpão, encostando uma canção de pedidos de ajuda numa língua desconhecida ao garoto, que reconheceu, porém, nas vozes de ansiedade, medo e apreensão. Levando um dedo aos lábios, o rapaz pediu para que todos calassem-se, e assim eles fizeram.

— Diga a eles que vamos ajudar a todos.  Sussurrou Álex à garota.

Miranda assentiu com a cabeça e fez como pedido, de repente, suspiros de alívio sendo ouvidos por toda a parte, sorrisos curvando uma centena de lábios, ouvindo-se ainda algumas pessoas chorarem de felicidade.

Aproximando-se de um cadeado que prendia uma criança, uma garotinha humana, Álex conjurou um pequeno bloco de ferro e forçou-o na fechadura, deixando que as partes que impediam a entrada do objeto no buraco simplesmente voltassem a ser magia, dissipando-se em luz azul no ambiente, criando assim uma réplica exata da chave verdadeira, girando-a e abrindo o cadeado. Testou a chave no cadeado seguinte e descobrindo... que não funcionava.

— Não podia ser tão fácil assim, não é?  Comentou o rapaz, sorrindo inquieto, repetindo o processo no cadeado seguinte e no próximo e naquele depois deste, ao mesmo tempo que Miranda fazia o mesmo.

Foi quando as portas do galpão abriram-se e os cratenceses entraram.

Nenhum comentário:

Postar um comentário