Guerra A Ruína - Capítulo: 40

Capítulo: 40

Octávio.


— Você é uma berserker?  Perguntou Octávio, verdadeiramente surpreso ao perceber as cores dos olhos e dos cabelos da mulher que o acompanhava simplesmente passarem do cinza para o rosa quando ela o olhou de esguelha pela terceira vez.  Seu tipo é bem raro por aqui.

— Na verdade, não. — Respondeu a mulher, sorrindo, embaraçada, o rosa de seus cabelos e olhos intensificando-se ainda mais.  Existem muito mais berserkers do que as pessoas imaginam, mas por sermos tão parecidos com humanos, somos facilmente confundidos. As pessoas só se dão conta do que somos quando veem nossas cores mudando. Alguns de meus colegas só perceberam que eu era uma berserker quase seis meses depois de eu começar a trabalhar com eles, acredita!

— Não foi isso o que eu quis dizer.  Retrucou o vampiro, abrindo as portas e então entrando na sala do Senador, deixando a berserker confusa para trás.

— Octávio, meu amigo. — Disse Fernando, tirando os olhos das pilhas de documentos e sua mesa, sorrindo para o vampiro. — Estive esperando por você. Também estive lendo e assinando esta pilha interminável de papéis, mas estive esperando por você. E então, está feito?

— É claro, meu bom senhor. Aquino não será mais um problema, não depois dos outros descobrirem as provas do claro desvio de verbas públicas que levarão ao homem.

— E quanto tempo você acha que isso levará?

— Um mês. Dois, no máximo. Tomei o cuidado para ocultar os rastros apenas o suficiente.

— Bom, se fosse muito fácil para chegarem ao homem, suspeitariam imediatamente. Já viemos tendo problemas demais com as indústrias, os mercadores e os assuntos de guerra, não podemos de ter também um Alto Membro Associado da Assembleia, uma pessoa de dentro como inimigo. — Comentou o Senador espreguiçando-se ao mesmo tempo que indicava os documentos sobre sua mesa. Octávio notou, porém, os olhos do Senador fixos nos seus, questionadores, cheios de expectativa, avaliadores. "Isso também é um teste", percebeu o vampiro, "uma armadilha. Ele imagina se eu demonstrarei curiosidade, se eu estou à procura de algo, de suas fraquezas. Fernando, você realmente é um homem cauteloso, esperto, mas eu também sou e não vou perguntar". Por fim, fechando os olhos e suspirando, o Senador continuou: — A cada vilarejo, fortaleza e cidade que conquistamos em Namoria, perdemos outra aqui. As coisas estão bastante equilibradas, sabe... e isso é bastante ruim, está começando a incomodar alguns. Além de que os mercadores e donos de indústrias vêm reclamando a todo instante sobre os impostos e taxas... sobre a guerra.

— Se me permite dizer, meu bom senhor, mercadores e donos de indústrias sempre reclamaram sobre impostos e taxas, além de que é sabido que a guerra não é realmente boa para nenhuma indústria ou loja (com exceção dos vendedores de aço e equipamentos e produtos variados relacionados ao exército do Pequeno Continente, talvez). — Retrucou Octávio, dando de ombros.

— É verdade, mas nunca reclamaram tão obstinadamente e tão abertamente assim antes. Talvez você tenha outro trabalho a fazer em breve, meu amigo. Mas, mudando de assunto, o que achou da minha nova secretária? Bastante bonita, não é? Chama-se Maria.

— Sim, e também bastante honesta.  Respondeu Octávio, fazendo o Senador gargalhar.

— É, eu fiz questão de que fosse uma berserker. Pessoal interessante esse. Sabendo o que suas cores significam, você simplesmente pode lê-los como um livro. Honestidade é a melhor qualidade de um subordinado, não é mesmo? A propósito, o que aconteceu com os documentos originais? Aqueles do Alto Membro Associado Aquino, eu digo.

— Foram queimados, meu bom senhor, como o ordenado.

Não era realmente nada demais, não contendo nenhuma anormalidade, por menor que fosse esta, todos os dados corretos e o papel com as devidas assinaturas. Diferente do documento que o substituiu.

"Vinte e quatro mil ligas em lingotes de aço (três mil lingotes), doze mil ligas em talhos de couro (dois mil e quatrocentos talhos), oito mil ligas em potes de óleo para lâminas (mil e seiscentos potes de óleo), e muitas outras milhares de ligas em muitos outros materiais..." pensou Octávio, lendo o documento, sentado à sua mesa em seu quarto, em casa. "Dados relativos às encomendas do Pequeno Continente, os produtos, sua quantidade e o preço a se pagar por eles, os navios nos quais eles virão e seu capitão, e outras informações técnicas... Afinal, talvez demorem três meses para perceberem que no documento que eu usei para substituir a este o valor total de cada um dos produtos comprados está um vírgula cinco por cento acima do preço real".

Levantando-se de sua mesa, com o documento à mão, o vampiro dirigiu-se para o baú no canto do quarto, arrastando o móvel, apertando uma área numa das tábuas de madeira da parede, abrindo um compartimento secreto ali acoplado e exibindo o interior recheado por gemas, sacos de dinheiro e um pequeno lingote de ouro. "A maioria das pessoas pararia de procurar por aqui", pensou o vampiro, tirando uma tampa do fundo do compartimento, chegando a outro espaço, este onde descansavam apenas um pente feminino e um perfume, concluiu: "e a esse ponto mesmo os mais obstinados desistiriam". Atrás, porém, do segundo fundo falso do cofre secreto, no terceiro compartimento, estavam os verdadeiros tesouros, segredos de maior valor do que qualquer quantia em dinheiro: pastas organizadas com datas e nomes contendo cartas, contratos, registros e outros documentos de todos os tipos.

A maioria deles havia sido substituída por cópias incriminatórias, como aquele que Octávio então depositava numa das pastas, forjando casos de corrupção, vazamento de informações e outras atitudes condenáveis, a mando do Senador Fernando, oprimindo ainda mais os poderes do Partido da Irmandade e a imprensa, e livrando-se mesmo também de membros problemáticos do próprio partido.

"Já tenho minhas armas, mas elas de nada adiantarão se eu não possuir aliados poderosos", pensou Octávio, fechando o cofre e tornando a arrastar o baú. "Por sorte, como o próprio Senador disse, existem aqueles que estão incomodados com o rumo da guerra, provavelmente incertos quanto ao futuro a este ponto, e aqueles que ultimamente vêm erguendo suas vozes mais do que deveriam, além de, é claro, aquele terceiro grupo que vinha sendo contra tudo isto desde o começo."

"Aqueles, os 'incomodados', não estão numa condição muito diferente do povo meses atrás, quando precisavam de apenas um estopim, um empurrãozinho para levantarem-se em apoio ao Partido da Reconquista, agora, porém, levantarão-se em oposição. E quanto aos afiliados à irmandade, embora eu queira uma conexão ao grupo, algo que permita minha estabilidade na Assembleia mesmo uma vez que tudo isto acabar, eles já, de fato, estão contra a reconquista e aproveitarão-se da brecha que eu criarei sem pensar duas vezes, logo não são prioridade. Sobram então os comerciantes e donos de indústrias", Octávio não pode deixar de sorrir ao pensar: "é curioso que, de fato, depor um senador exige do mesmo processo para eleger a um".

— Faz um tempo que você não conversa com seu velho pai, Octávio. — Disse Ângelo. — Sentiu saudades de repente, é?

— Pode se dizer que sim.  Respondeu Octávio, sorrindo, sentado-se à mesa do escritório na casa de seu pai, frente ao velho vampiro.

— Alegra-me ouvir isto. Mas e agora, o que você realmente deseja, meu filho?

— Dinheiro.

— Você tem bastante dinheiro, se me lembro bem, muito mais do que certas pessoas consideradas ricas até. — Retrucou Ângelo, franzindo as sobrancelhas, curioso.

— Não me diga que você conseguiu gastar tudo?!

— É claro que não, pai, você me conhece, sou bastante cuidadoso quanto a estas coisas. E, não se preocupe, eu vou lhe devolver cada liga que o senhor gastar por mim.

— Respondeu o vampiro.

Ângelo, em resposta, apenas abanando a mão em desdém, não querendo deixar seu filho em dívida com seu próprio pai, perguntou:

— E para que você precisa do meu dinheiro se você mesmo diz ser cuidadoso com o seu próprio, que não está realmente falido?

— É porque não posso gastar meu próprio dinheiro nisso, pai. Não diretamente.

— Respondeu Octávio, seu pai começando a compreender.

— Política?

— Política.

— O que você pretende?

— Vou mudar o lado para o qual a balança pende atualmente.

— Oras, seja mais específico para com seu velho pai, Octávio: o que você planeja conseguir com esse dinheiro e quais suas intenções com este algo?

— Planejo conseguir aliados dentro do mercado, e com apoio deles e de outros, irei depor Fernando da posição de Senador (e, claro, também o Senador fantoche Murilo). Minhas intenções com isso são de pôr um fim à guerra. — Respondeu o vampiro, seu pai arregalando os olhos cada vez mais os olhos, espantado, a cada palavra dita.

— Você sabe que não pode acabar com esta guerra simplesmente depondo estes homens. Vai seguir os ideais da irmandade agora?

— Eu sei, pai, e também sei que não podemos simplesmente "trabalhar duro" para superarmos esta situação, reviver o comércio e vivermos felizes para sempre. Eu planejo negociar com Crat novos termos quanto à Ruína.

— Já estamos em guerra e eles, ao que parece, estão em vantagem. Por que aceitariam esta negociação? Por que seriam tão generosos assim?

— Pelo mesmo motivo que eles foram "generosos" com Namória: porque, se ao final de tudo eles vão sair no lucro, seja nos vencendo com seus exércitos ou aceitando um contrato conosco, então por que deveriam desperdiçar tantos recursos a mais numa guerra desnecessária?

— ...O que você precisa que eu faça?  Perguntou seu pai, por fim, após alguns instantes de reflexão.

— Tenho uma série de bons senhores... necessitados, que apreciariam ajuda financeira e comercial de um grande homem de negócios como você, meu pai. Não anote nada, porém, notas são facilmente perdidas, roubadas ou adulteradas, apenas memorize tudo o que eu disser a seguir; que eu gostaria que eles soubessem que eu o influenciei a isso: comece por...

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