Capítulo: 4
Octávio
Já era noite quando Octávio descia a escadaria do Prédio da Assembleia, seguia para casa de seus pais ainda que estivesse cansado depois de mais um longo dia de trabalho.
— Ei, Octávio! — Chamou Cézar, enquanto descendo os degraus rapidamente.
— Que tal você vir conosco para o bar esta noite, hein? O pessoal quer te retribuir de alguma forma, sabe. — Perguntou o goblin, parando ao lado do vampiro com um sorriso simpático.
— Me desculpe, Cézar, hoje não. — Respondeu Octávio. — Meus pais me convidaram para jantar na casa deles, e, como já faz um bom tempo desde que não os vejo, não posso recusar.
— Sei... Mas é mesmo uma pena. Quem sabe na próxima. — Disse o goblin, acompanhando Octávio, ambos cruzando a Grande Praça. — Mas com tudo o que vem acontecendo, todos nós precisamos de um descanso. Com ess'A Conferência, e tudo o mais... Todo mundo vem arrancando os cabelos nesses últimos dias.
Uma vez que os boatos sobre a descoberta de um novo e valiosíssimo recurso no Continente Sem Nome começaram a circular por toda Asatna, com a pressão imposta a Horac por países de todo o mundo, logo veio à público a confirmação oficial dos boatos por parte da própria nação que financiou a expedição, suas palavras sendo as seguintes: "fora descoberto, a aproximadamente cinco meses, no extremo norte de Asatna, no 'Continente Sem Nome, uma pequena quantidade de um material misterioso no qual estavam armazenadas, de alguma forma, grandes reservas de energia mágica". Estas poucas palavras levaram tantos jornais quanto governos inteiros ao redor do mundo à loucura.
Pouco após a confirmação dos boatos ser noticiada, uma nova discussão deu-se início, e esta muito maior e mais séria. Nações dos extremos ocidente e o oriente do planeta questionavam incessantemente Horac, ofereciam incontáveis termos de negociação ao país e tantas outras exigências no que logo transformou-se num acirrado debate entre os países, cada um querendo pôr suas mãos no novo recurso descoberto; afinal, não pela primeira vez na história fora relatado um objeto físico capaz de armazenar energia mágica como também, segundo as palavras que corriam de boca em boca e que, porém, eram evitadas a todo custo por Horac, já possuía-a e em quantidade infinita.
Não demorou para que fosse organizado um debate entre todas as nações e logo uma reunião de líderes mundiais, representantes de vários países (sendo eles: Nova Crasíria, Namória, Horac, Thirlundia, Thir, Crát, Alon, Mun Nhir, Zuul e Qholo) deu-se início a fim de discutir quanto a assuntos referentes à descoberta no Continente Sem Nome que alguns já começavam a chamar de "Ruína". Dia após dia eram divulgadas novas informações, frequentemente sendo mencionados acordos, disputas e conflitos, cobrindo toda "A Conferência", como ficou conhecida aquela reunião.
Os Senadores, a tríade que possuía a autoridade máxima no território de Nova Crasiria, detentores das forças militares da nação, responsáveis pela rejeição ou aprovação de projetos relacionados ao Estado e pela supervisão e gerenciação da Assembleia, cuidavam também de toda a relação do país com o exterior, motivo de sua partida para A Conferência. Logo, enquanto todos os três Senadores estavam fora do país, a Assembleia organizava inúmeras reuniões para discutir e decidir todos os assuntos que normalmente seriam da responsabilidade dos três.
— É verdade. — Concordou Octávio, massageando a parte entre seus olhos, então finalmente sem a necessidade dos óculos. Na verdade, durante a noite, vampiros enxergavam tudo a sua volta por vários quilômetros como se o sol ainda brilhasse em seu auge, ao meio-dia. — Mas não tem jeito, com toda essa comoção quanto a "Ruína", Nova Crasíria não podia ficar de fora. Digo, se essa "Ruína" é tudo o que dizem, é vital para o futuro da nação a adquirirmos.
— Mesmo assim, eu agradeceria uma folga! As eleições estão aí e os partidos, um mais agitado que o outro, disputando os cargos como gladiadores numa arena, os jornais vêm tentando obter até a mínima das informações da gente e ainda temos de resolver os problemas de sempre. Agora, sem os Senadores aqui, temos de trabalhar em dobro, não, em triplo, fazendo horas e mais horas de reuniões atrás de reuniões.
— As eleições, hein? É mesmo um péssimo momento para isso, termos de lidar com a organização deste evento logo agora. Os partidos já discursam e distribuem panfletos por aí e não demorará para que toda a cidade se reúna aqui, frente as urnas, para votarem.
— Nem me fale, a conta dos votos sempre fica para nós, Membros Júnior...
— De qualquer forma, alguém tem de fazê-lo, não é mesmo? — Retrucou Octávio, parando na esquina na qual os dois tomavam caminhos diferentes. — Então: até amanhã, e boa noite!
— Até! Boa noite! — Despediu-se o goblin.
Continuando, seguindo por uma larga rua num bairro rico da cidade, Octávio, dirigindo-se a casa de seus pais, pensava: "magia infinita, hein? Ao mesmo tempo que isto é maravilhoso, é temível. Sem dúvidas haverão disputas por este recurso dos sonhos, talvez até mesmo guerras. Mas isto é um preço pequeno a se pagar para pôr as mãos em todo este poder: algumas milhares de vidas em troca de um salto de dezenas, não, de centenas de anos tanto na economia, quanto no desenvolvimento tecnológico e mágico do país."
"Os Senadores foram espertos em estarem entre os primeiros na disputa, sem dúvidas, afinal, embora sendo o país mais magicamente avançado do mundo, Nova Crasíria ainda é jovem, os conceitos de igualdade e liberdade empregados aqui são recentes e ainda imperfeitos, e ainda há o problema que é Namória, que também não perdeu tempo em partir para A Conferência."
"As lembranças da guerra, sobre a qual foi fundada nossa nação, ainda queimam recentes nas mentes de alguns. Apesar de que não dá de se saber exatamente o que se passa na cabeça daqueles do outro lado da Cordilheira Gris, posso afirmar que, assim como quanto a todos os demais países que estão nesse exato momento disputando a Ruína, não é nosso bem que eles desejam, mas apenas benefício próprio. Nunca tivemos uma boa relação com Namória depois d'A Traição Branca, afinal; porém, com este novo recurso, finalmente teríamos o necessário para firmarmos nossa soberania ao oeste, sendo um dos poucos a conseguir aproveitar ao máximo esta descoberta. Nossos exércitos seriam os mais fortes, nossos produtos os mais valiosos e nossas cidades as mais belas!"
Finalmente chegando ao casarão de seus pais, um bonito e antigo prédio de três andares, Octávio bateu na larga porta de ébano, esta belamente trabalhada com detalhes em dourado: "toc! Toc!" E esperou paciente até ser atendido por um homem alto, um vampiro com aproximadamente já bastante velho, com as rugas puxando-lhe os cantos dos olhos e criando sulcos profundos em sua testa. Seu pai, Ângelo.
— Bem vindo, filho! — Disse o vampiro idoso, caloroso e sorridente. — Estávamos o esperando. Vamos, entre, entre.
— Obrigado pelo convite, pai. — Respondeu Octávio, após abraçar seu pai por alguns segundos. — Estou entrando.
Passando por uma série de corredores repletos de quadros, tapeçarias e porcelanas, finalmente chegando a uma sala onde havia uma comprida mesa de madeira, já quase toda posta, repleta de panelas, vasilhas e jarras, toda cheia de deliciosas comidas e bebidas, Octávio avistou então sua mãe, terminando de por os pratos, trabalhando junto da empregada. A mãe de Octávio, Ígride, era uma fantasma, numa idade já tão avançada quanto seu esposo.
— Querido, que bom que você veio! — Cumprimentou-o sua mãe, abraçando-o sorridente. — Vamos, sente-se! Estamos quase terminando de por a comida, eu e a Gi.
— Concluiu Ígride, indicando a empregada doméstica que ajudava-a com a comida.
— É claro, mãe. — Respondeu Octávio, sentando-se. Enquanto as mulheres ainda terminavam de colocar a mesa, indo e vindo sem parar da porta no centro da parede norte, da cozinha, Octávio tornou-se a seu pai, perguntando então, ansioso: — Você está acompanhando as notícias?
— Sim. — Respondeu Ângelo, assumindo uma postura diferente da que mostrara até então. Aquele era seu lado visionário, o lado que o levará a tornar-se o grande comerciante que era. Empertigado na cadeira, de sobrancelhas franzidas e falando num tom mais sério, o pai de Octávio continuou: — "A Conferência", não é? Horac foi muito ingênuo se pensou mesmo que poderia ter um monopólio da "Ruína" uma vez que todos aqueles boatos vazaram.
— De fato, foi uma grande incompetência. — Concordou Octávio, sorrindo. — Quem quer que seja o responsável pelo sigilo desta informação deveria ser executado.
— Não foi o que eu quis dizer, veja bem. Eu sei muito bem o quão é difícil manter qualquer informação em segredo por muito tempo, e eu lido com tecidos e especiarias na maioria das vezes, quem dirá algo tão valioso como a Ruína, não é uma surpresa que os boatos tenham surgido. Na verdade, ter levado cinco meses para começarem já é grande coisa. Horac, porém deveria, imediatamente após a descoberta no norte, ter extraído até a última grama deste recurso em segredo ou montado logo alianças para defendê-lo, não trazê-lo aos poucos enquanto esforça-se para suprimir o vazamento de informações, apenas adiantando o inevitável. Agora que Crát pôs seus olhos em cima do país, exigindo "seu pedaço do bolo", usando esta Conferência como uma desculpa diplomática, e com todos os outros urubus em volta, Horac deve estar se mordendo de raiva.
— O que Horac pensa ou deixa de pensar, agora de nada significa. Com todos os seus vizinhos, além de Crát e outras potências cercando-o, o país cederá. A questão é: como será a divisão do recurso? — Retrucou Octávio, continuando, logo em seguida, esperançoso, quase como se orgulhoso enquanto respondendo a própria pergunta: — Bem, pessoalmente acredito que a parte de Crát já está garantida, e, a menos que os Senadores façam uma grande besteira, a nossa parte também. Talvez nós até mesmo seremos apoiados por Crát, nosso aliado ocidental, afinal cada grama deste recurso é valiosíssima para se desperdiçar com tecnologia meia-boca, logo é bastante proveitoso ter o Grêmio do seu lado.
Suspirando, o pai de Octávio respondeu-o, de repente parecendo com o dobro de sua idade, cansado e triste:
— Não. Embora mantenhamos uma boa relação com nossos vizinhos, esse país tem cicatrizes mais profundas do que você imagina, meu filho.
— Você teme uma guerra? — Retrucou Octávio, incerto quanto ao que seu pai queria lhe dizer. — Não há motivos para isso, não com Crát como uma aliada e, talvez, ainda outros desses "urubus".
Ângelo olhou bem nos olhos de seu filho, fitando-o, olhando direto para seu interior. E percebendo - não, ele já a muito sabia - concluiu então:
— Você é muito inteligente, sabe tanto como lidar com as pessoas quanto com o dinheiro, e não mede esforços nem perdas quando vê o lucro, sempre visando o futuro, fazendo de tudo para o bem de sua organização. Octávio, você não serve para a política, para guiar todo um país.
Boquiaberto, pasmo, Octávio refletia sobre as palavras de seu pai, retribuindo o olhar fixo do vampiro mais velho: "por que não? Ele quer dizer que eu não sirvo para ser um líder? O que falta em mim ou o que eu fiz de errado para não estar apto à liderança? É de se esperar que aquele no topo tome decisões que visem o bem de sua organização, independentemente das perdas, não é?" Quando, com um último baque surdo, Ígride e sua empregada terminaram de pôr a mesa, largando uma grande panela de barro marrom no centro da mesa, a mãe de Octávio dizendo:
— Certo, certo, podem parar de discutir que o jantar está posto! — Voltando-se a empregada, cochichou baixinho, fazendo com que esta, logo em seguida, após uma breve reverência, retirasse-se da sala, seguindo num corredor até desaparecer num canto.
— Muito obrigada, Gi, você já pode ir.
— Tem razão! — Comentou o pai de Octávio, tornando a assumir a postura mais relaxada de antes. — Vamos comer!
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