Guerra A Ruína - Capítulo: 39

Capítulo: 39

Azai.


— AVANÇAR! — Berrou o Comandante à sua tropa, montado em Milagre à frente de todos, com Camponesa erguida à frente, os soldados urrando, batendo suas armas e clamando de volta, determinados, chamando por Azai.  AVANÇAR!

Os crasirianos tinham duas vezes os números do Comandante, mil soldados cercando o restante da tropa de Noah, composta por pouco mais de duas centenas de homens, mas Azai e sua tropa avançavam campina adentro a toda velocidade, destemidos, ferozes, prontos para exterminarem seus inimigos ou morrerem lutando, motivados pela raiva e pela admiração ao seu líder.

Dos quinhentos soldados de Azai, apenas uma centena possuía uma montaria, fossem cavalos, camelos ou chacais-monarca, estes já preparando-se para o choque contra a fileira da frente dos crasirianos, que já erguiam seus escudos e preparavam suas lanças. Todo o esquadrão da Aliança Azul reorganizava-se para lutar agora dos dois lados, tendo de defender-se das tropas do Comandante, que aproximava-se rapidamente, e simultaneamente do Maioral-Mor gigante, que até um minuto atrás estava encurralado, cercado por todos os lados, seus homens prestes a cederem, mas, de repente, sua posição voltou-se a seu favor, no centro dos crasirianos então divididos, os subordinados do gigante recuperando as forças num último contra-ataque à visão de sua esperança, da inesperada chegada de um aliado.

Logo os projéteis começaram a cair, levando soldados de ambos os lados, uma implacável nuvem de flechas, dardos e munição, soldados montados à esquerda e à direita do Comandante caindo um a um, alvejados, a medida que brechas começavam a surgir na defesa dos inimigos, estes também mortos pelos disparos dos namorianos. Sem pensar duas vezes, Azai guiou Milagre para uma brecha criada por um crasiriano abatido por uma flecha, atiçando o chacal-monarca contra os inimigos, que seguiu atropelando, mordendo e escoiceando ao mesmo tempo que o Comandante brandia Camponesa em meio a círculos, estocadas e golpes ascendentes, abatendo um, dois, três, quatro inimigos de um lado antes de voltar-se para o outro, aparando um golpe de espada dirigido a suas costas graças à sua percepção, Azai decapitando aquele que empunhava a arma que fora empunhada contra si num contra-ataque, num único golpe.

Acompanhado de seus soldados, que abriam espaço entre os crasirianos com seu aço e montarias, Azai continuou seu caminho sangrento, enquanto deixando um rastro de cadáveres, adiante pelas fileiras inimigas, desviando e aparando golpes, atacando e matando, até chegar enfim ao círculo formado pelos subordinados de Noah, libertando seus aliados do anel de inimigos que cercavam-nos. Com a formação de círculo quebrada, o oficial crasirianos berrou uma ordem que rapidamente foi repassada e todo seu esquadrão que logo recuou, reagrupando-se num grande bloco de soldados.

— CINTILANTES! — Berrou o Comandante, indicando com a ponta de sua espada o bloco de soldados inimigo, que começava a recuperar-se, resistindo eficientemente contra os soldados montados que investiam contra si. — FOGO!

E assim as chamas voaram contra a parede de escudos e lanças que vinha abatendo os namorianos e suas montarias, incendiando os cabos de madeira das armas às cinzas e deixando o metal do escudo vermelho, seus portadores soltando-os instintivamente e quase que instantaneamente a ambos a fim de evitar queimaduras. Conseguindo, porém, apenas assegurar a própria morte certa.

— INFANTARIA, AVANÇAR!  Tornou a berrar o Comandante, ordenando, guiando seus subordinados.

Embora os números de inimigos ainda fossem superiores, os crasirianos ainda possuindo vez e meia a tropa dos namorianos, eles já estavam tomados de terror e começavam deixar suas posições, a formação organizada do esquadrão desfazendo-se como um cubo de açúcar na água, logo a quantidade de inimigos pouco importando frente aos soldados, a infantaria, de Azai, que continuava a expandir as aberturas nas fileiras inimigas enquanto a cavalaria, liderada pelo próprio Comandante, fazia investida atrás de investida, trespassando o coração da formação daquele esquadrão da Aliança Azul e logo saindo do outro lado, abatendo dezenas de inimigos a cada nova volta, periodicamente atravessando o bloco e as fileiras de inimigos pelas oportunidades criadas pela infantaria.

Retirando com um puxão Camponesa da garganta de um oponente, passando os olhos pelo campo de batalha, Azai finalmente encontrou, por conta dos berros imponentes que soltava de tempos em tempos e dos gestos indicativos com a espada que o homem fazia, aquele que visava desde o início, o golpe final que poria um fim à resistência dos crasirianos: o oficial inimigo.

Virando Milagre na direção do homem e incitando-o, o Comandante investiu contra seu oponente, desferindo um golpe descendente assim que esteve perto o suficiente para tal. O homem, porém, mostrou-se muitas vezes mais habilidoso e forte do que que Azai imaginara que seria, somente então, sob o rosnado gutural do oponente, o Comandante dando-se conta do que seu oponente era: um lobisomem.

Diferente da maioria das espécies sapientes de Asatna, aquela em específico era destoante em qualquer multidão, distinto das demais, assim como os ratomens, únicos como as relíquias de longínquas eras passadas ou membros de um povo de uma terra muito, muito distante, na verdade um tipo de pessoa muito incomum em todo o oriente de Asatna. Suas feições eram próximas das de um cão ou lobo, os lobisomens tendo seus corpos completamente cobertos por pelos grossos, as faces alongadas, as pernas arqueadas e possuindo também um rabo eriçado ao final da coluna. Além disso, eram fisicamente naturalmente fortes, podendo facilmente matar alguém de mãos nuas sem sequer utilizar de suas garras e longas presas.

Azai brandiu novamente Camponesa, fazendo seu aço cortar o ar em zunidos agudos, em resposta o lobisomem chocando sua própria lâmina contra a arma em tinidos estridentes e faiscante. O Comandante simplesmente ignorou aqueles que cercavam seu oponente, já sabendo por conta de sua percepção aguçada da aproximação repentina de seus aliados, que logo puseram-se a lutar contra os mesmos antes que eles pudessem sequer apontarem suas armas para Azai.

Um golpe descendente à direita fora defendido, uma estocada visando o peito fora esquivada e um semicírculo com a lâmina direto às costelas fora novamente defendida, nenhum dos golpes parecendo funcionar, o lobisomem resistindo implacável também. Azai era um espadachim mais que habilidoso do raro tipo que fazia jus à própria posição no exército, mas aquele homem não ficava para trás, o próprio Comandante sabendo que um duelo justo arranjado entre ambos teria um fim imprevisível, o vencedor podendo ser qualquer um dos dois. Mas, da mesma forma como os subordinados do lobisomem vieram em seu auxílio ainda há pouco, aquele não era um duelo justo.

O Comandante cansando-se da trocação de golpes, incitara enfim sua montaria, Milagre, contra o oficial inimigo, o chacal-monarca mordendo-lhe a perna e balançando a própria cabeça de um lado para o outro, estraçalhando o membro do homem, que caiu ao chão, sangrando e berrando enquanto tentava inutilmente proteger-se dos dentes afiados do animal que empertigara-se sobre si, enquanto continuando a morder e morder e morder até terminar o que começara, quando finalmente fora guiado para a próxima vítima.

Em pouco tempo, os inimigos já reduzidos a apenas algumas dezenas, separaram-se por completo, cada um daqueles homens abandonando as armas e tentando salvar a própria vida, correndo disparados pela campina apenas para serem mortos pelos soldados montados que os perseguiam, e o campo de batalha transformou-se então apenas num abatedouro, os desertores, aqueles que rendiam-se e os feridos sendo executados um a um sem piedade.

— Pelos Deuses e Santas, jurei que estávamos acabados, senhor Comandante! Comentou Noah, o gigante caminhando até Azai, tão coberto de sangue quanto seu próprio machado longo, arfante.

— E estavam.  Retrucou Tadeo, aproximando-se montado em Cavalo.

— Imagino que sim!  Disse Noah, gargalhando.

— Não, não faz nem ideia.  Tornou a retrucar o tigromem, suspirando.

— O que quer dizer?  Perguntou o gigante.

— Discutiremos mais tarde.  Disse Azai.  Por agora, recolham os feridos e voltemos logo a marchar. Ainda estamos em território inimigo, afinal.

Como ordenado por Azai, ao fim da batalha sequer houve saque ou contagem de mortos, os feridos sendo colocados nos lombos das montarias e as tropas partindo de volta para o leste imediatamente, rumo a Serenia, os soldados sendo tratados no caminho. Não houve reclamações, porém, e Noah pode perceber uma clara admiração, um respeito silencioso da tropa de Azai por seu líder. O gigante pode ver a muitos meses atrás, num vilarejo no meio das montanhas, que os subordinados do Comandante o estimavam já naquela época, porém daquela vez era diferente de alguma forma.

A noite caiu, as fogueiras foram acesas as tendas e barracas erguidas e o acampamento levantado, grupos de soldados reunindo-se ao redor das chamas para descansar, comer e conversar.

— Eu enviei mensageiros com pedidos de ajuda para todos os cantos, mas não houve resposta.  Disse Noah enquanto começando a contar a própria história, dentro da tenda do Comandante junto do próprio e do Maioral-Mor, Tadeo.  Nós levantamos cerco no Fé e esperamos vocês, como havíamos sido instruídos, mas ninguém veio e logo esses desgraçados caíram sobre nós, num número muito maior que o nosso. Aqueles que nos cercaram hoje cedo eram apenas uma fração deles, um esquadrão enviado para nos perseguir e exterminar. Consegui salvar e guiar cerca de setecentos soldados da tropa original, guiei-os e recuamos imediatamente, mas os inimigos continuaram a investir e nós continuamos a cair, até sermos reduzidos a apenas cento e setenta e nove e sermos encurralados naquela campina.  Finalmente não conseguindo mais segurar-se, evitando demonstrar rancor para com Azai apesar de definitivamente senti-lo, perguntou: — O que aconteceu, senhor Comandante? Por que não nos encontramos aos pés do Fé como o combinado?

— Você deveria estar agradecendo-o por ter salvado seu rabo hoje, não o questionando por que da demora.  Retrucou Tadeo, de sobrancelhas franzidas para o gigante, que também não gostou nem um pouco da forma como fora tratado.

— E eu estou grato. — Respondeu Noah, não demonstrando ao tigromem à mesma cortesia que demonstrara a Azai.  Mas é um fato que nós dois deveríamos ter unido forças e tomado o forte, senhor Maioral-Mor.

— Recebi uma ordem urgente. — Respondeu Azai, antes que o tigromem pudesse falar qualquer coisa, interrompendo a discussão dos dois.  Uma missão para invadir uma mansão ao leste, na cordilheira. Nos desviamos do caminho original, o caminho da Fé, e seguimos para a mansão, mas isso não nos atrasou mais do que alguns poucos dias. Logo que chegamos, cumprimos a missão, mas houve... um imprevisto.

— Que seria...?  Perguntou Noah, franzindo as sobrancelhas, curioso.

— Toneladas de tesouro e política.  Respondeu Tadeo, intrometendo-se.

— O Cobrador-de-Guerra de lá tinha um documento que dava-lhe autoridade sobre nós e ele usou-o para me ordenar a escoltá-lo de volta para Namoria, mesmo eu tendo lhe avisado de minha tarefa no forte e do risco que você e sua tropa corriam. Dias depois de partirmos, um cavaleiro exausto, coberto de suor, sujeira e sangue e tão arfante quanto o cavalo que ele mesmo montava chegou a nós com um pedido de socorro, que, é claro, foi ignorado pelo Cobrador-de-Guerra.

— Pelos Deuses e Santas, Azai, você não...?!  Comentou o gigante, arregalando os olhos em compreensão e levantando-se da cadeira que sentava-se num salto.

— Eu desobedeci às ordens do homem, do Cobrador-de-Guerra, abertamente e disse que viria em seu auxílio. Eu sabia das consequências e não queria forçar meus subordinados a isto, então lhes dei uma escolha e, bem, o resultado desta é evidente agora.

— Francamente, ele na frente de todo mundo simplesmente disse "não", aquele elfo arrogante, um homenzinho de nariz deformado, e continuou: "eu vou partir ao auxílio deles, afinal, eles são meus companheiros e eu nunca os deixaria morrer em vão!". Tenho certeza de que se o Nariz Maldito fosse apenas um pouco mais popular com os soldados, ele seria executado ali mesmo. — Apontou Tadeo, fazendo-se de zangado apesar do leve sorriso que contorcia-lhe o canto da boca.

— E ainda assim você foi o primeiro a colocar-se do meu lado. Bem, felizmente todos odiavam o Nariz Maldito, se não seriam dois a serem executados imediatamente, não é?  Retrucou Azai, retribuindo a amizade de Tadeo com um largo sorriso.

— Como eu disse, estou grato por terem salvo a mim e aos meus homens, mas vocês têm consciência de que o que fizeram é um ato de insubordinação, que é punível pelo pelotão de fuzilamento, certo?

— Traição, e é punível com a forca. O documento era assinado pelo rei, afinal.

— Corrigiu-o o Maioral-Mor, deixando o gigante boquiaberto, pasmo.

— Azai... por que? — Perguntou Noah.

— Por que era algo nobre. — Respondeu o Comandante, sem relutância, lembrando-se exatamente do instantes em que negara a ordem do Cobrador-de-Guerra dias atrás, um dos poucos momentos desde que sentira pela primeira vez o ponto negro em seu coração, os espinhos da dúvida, não afligiram-no.  O correto a se fazer.

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