Guerra A Ruína - Capítulo: 38

Capítulo: 38

Álex


— Adeus!  Gritou Álex, acenando em despedida com a mão boa para o navio que distanciava-se da praia. — Obrigado por tudo!

— Tchau!- Disse Miranda, também despedindo-se de Gael e sua filha.  Muito obrigada! Vamos nos encontrar de novo qualquer dia desses, caras!  Respondeu Rafaela, acenando da popa, curvada por sobre o parapeito ao lado do pai, a menina então fazendo uma concha com as mãos ao redor da boca e gritando, concluindo:  Até mais!

E assim, em segundos, o navio a todo o vapor, afastou-se da costa, deixando os jovens ali, sozinhos, na praia. Álex voltando-se para o interior do continente e escalando uma duna de areia, comentou para a garota que o acompanhava de perto:

— É, eles se foram mesmo.

— Pois é. Sabe, eu acabei gostando de Rafaela, afinal.

— Que mentira!  Retrucou o garoto, brincalhão.  A todo momento parecia que você estava prestes a saltar no pescoço dela e estrangulá-la!

— Bem, não é como se eu tivesse me dado tão bem com ela quanto você. — Apontou aos resmungos Miranda, franzindo a sobrancelha e corando, envergonhada. — Mas foi mais como se de repente eu tivesse ganhado uma irmã mais nova. Uma bastante irritante, metida e presunçosa, mas ainda assim, uma irmã.

— Hm... Entendo. Bem, de qualquer forma, aqui estamos, graças a Gael: Horac!

— Disse Álex, chegando no topo da alta duna de areia e estendendo seus braços para a imensidão erma adiante, quilômetros e mais quilômetros de campos verdejantes, com bosques de árvores coníferas ilhados pela grama baixa, em todas as direções nenhuma única estrada, casa ou qualquer outro sinal de civilização à vista.  É realmente diferente de Nova Crasíria.

— Linda esta paisagem, não é mesmo? — Disse Miranda, mais como uma afirmação do que uma pergunta, como se falasse para si mesma, olhando saudosista para as terras de seu país de origem.

— Sim. Será que aqui neva?  Perguntou Álex, começando a descer a duna de areia para os campos, seguido de Miranda.

— É claro que não! — Respondeu a garota, sorrindo. — Tão ao sul há, no máximo, geadas noturnas. É preciso seguir ainda muito para o norte para ver neve de verdade, estamos no Estado Sudoeste, afinal.

— Sei, então: nada de neve. É uma pena.

— Sorte nossa, você quis dizer! Nunca conseguiríamos viajar na neve.

— É tão ruim assim?

— É difícil de andar, você se cansa rápido, ficando logo exausto, mas se você parar para descansar, seu suor congela. Tudo fica úmido e é difícil acender uma fogueira (bem, na verdade, isso não é um problema para nós, mas é o que meu pai costumava falar), o alimento torna-se escasso e...

— Certo, certo, eu entendi. — Interrompeu Álex. — Não estaríamos prontos para lidar com neve. Mas, de qualquer forma, ainda teremos de andar muito?

— Eu não sei. Sei que estamos no Estado Sudeste, ainda muito perto da fronteira do sul, muito perto de Namória, mas isso é tudo. Temos de encontrar uma estrada, um vilarejo ou placa para nos orientarmos.

— Tenho certeza de que amanhã teremos mais sorte. — Comentou Miranda, mordiscando o peixe seco à luz da fogueira, comida dada por Gael em troca dos jovens deixarem uma série de exercícios e tarefas e estudos sobre a magia além de um guia repleto de feitiços (nenhum que colocasse a garota em risco, é claro) para a filha do capitão.

— Um dia inteiro de caminhada sem nenhum sinal de pessoas.  Retrucou Álex provando o mesmo peixe. — Bem, pelo menos agora sabemos que de fato ainda estamos longe de nosso objetivo. Ei, Miranda, como era seu vilarejo?

— Normal, eu acho. Apesar da arquitetura das construções, da língua, comida e cultura local, esse é o tipo de coisa que é igual em todo o mundo, sabe: uma dúzia de casas construídas num entroncamento de duas ruas, um punhado de animais, uma pequena plantação, um grande celeiro e um templo religioso era tudo o que constituía minha vila.

 ...Uau. Por um momento, pensei que você estava descrevendo o meu vilarejo!

 Comentou Álex, impressionado, em resposta à garota apenas sorrindo e dando de

ombros. — E quanto a esse negócio de Estados? Se estamos no sudeste, existem também os norte, sul, leste, oeste e ainda outros com os demais nomes dos pontos cardeais?

— Bem, os Estados de Horac são equivalentes as províncias de Nova Crasíria e são comandados por Estadores, porém embora tenha sim um líder, o Coordenador, e os Estados paguem contas a ele, eles são mais independentes do que as províncias, cada um com suas próprias leis e exército. E quanto a quantidade de Estados, são quatro no total: Estado Sudoestes, Estado Sudeste, Estado Noroeste e Estado Nordeste.

— Cada Estado tem o próprio exército e leis?! Nunca houve uma revolta ou revolução?

— Bem, já houveram tentativas, mas independente de qual Estado se rebelasse, este estava cercado de inimigos, entende? Já o motivo da formação destes Estados é...

E assim as horas passaram, Miranda explicando bastante detalhadamente e com fervor e orgulho a história de seu país, a noite aprofundando-se em sua própria escuridão e as pálpebras dos jovens ficando cada vez mais pesadas, até que, por fim, ambos cederam ao sono.

A manhã fora cumprida, os jovens retomando a caminhada logo após o café da manhã e assim continuando por horas seguidas, com então uma pausa ao meio-dia, para o almoço, e logo em seguida mais muitos quilômetros percorridos. Haviam adentrado em dois ou três bosques enquanto rumavam para o leste, mas sempre deixando as árvores para trás em apenas algumas poucas horas de caminhada, daquela vez, porém, logo depois do meio-dia, tinham adentrado numa mata particularmente extensa.

As árvores não eram tão altas quanto as de Nova Crasíria ou tão próximas umas das outras, mesmo o ar não era tão úmido e a temperatura da região era menos quente, o bosque sendo bastante bem iluminado, com muita luz do sol chegando ao chão coberto de folhas mortas. Regatos cristalinos desciam ao mar, seguindo na direção oposta a Álex e Miranda, para o oeste. Os jovens depararam-se com um cadáver.

De olhos arregalados e boca aberta, como se ainda gritasse de dor, o rapaz ali estirado no chão, com uma flecha quebrada fincada nas costas, não era muito mais velho que Álex ou Miranda, um humano, sua pele pálida, úmida e inchada exalando o pútrido fedor de um corpo que já entrava em decomposição.

— Cratenses, provavelmente. — Disse Álex, franzindo o nariz ao cheiro, seu estômago embrulhando-se à cena. — Que coisa horrível, ele era apenas um civil! — Concluiu, observando as roupas do morto e a ausência de armas.

— Temos que nos apressar. — Apontou a lebromem, tão chocada quanto o rapaz, porém ainda mais apreensiva, imaginando de repente como estaria sua vila naquele momento.

— Sim. E vamos tomar cuidado.

Mais dois dias se passaram e, como o esperado, mesmo sendo um grande bosque, a mata logo chegou ao fim, deixando os jovens à beira de uma estrada, na qual, depois de alguns momentos decidindo para qual direção rumar, seguiram o caminho para o norte, porém cautelosos para com os possíveis inimigos com os quais poderiam se deparar, caminhando alguns metros para lá da beirada da estrada, apenas deixando a proteção das árvores, rochas ou arbustos periodicamente para conferirem sua posição.

A medida que avançavam, viam cada vez mais e mais sinais das tropas cratenses de grandes e pequenos grupos, de suas marchas e acampamentos, restos carbonizados de fogueiras, fétidas valas para a evacuação dos soldados, extensas áreas de grama pisoteadas, e sinais de confrontos, deparando-se até mesmo, uma vez, com um campo de batalha, uma grande colina apinhada de corpos tanto dos soldados do ocidente quanto dos horacianos, cadáveres pilhados, vestidos apenas com peças de armaduras e roupas destruídas demais para o saque, deixados a céu aberto para os carniceiros. A julgar pela quantidade de corpos de ambos os lados, os cratences haviam vencido aquela batalha.

Encontrando-se enfim com uma placa numa encruzilhada, os jovens finalmente descobriram exatamente onde estavam, Miranda avisando então que deveriam seguir para o leste e depois de novo para o norte para chegarem ao seu vilarejo, que estava, segundo ela, ainda a algumas semanas de distância. Isto, porém, não melhorou muito seus ânimos, as marcas da guerra presentes também no caminho à terra natal da lebromem, Álex e Miranda cruzando com os destroços arruinados de mais de um vilarejo durante todo o caminho.

Já fazia mais de uma semana que a comida ganha de Gael havia acabado, um suprimento para um mês de viagem se bem policiado, os jovens tendo de caçar e coletar alimento a todo momento, quando então decidiram vasculhar uma casa á beira da estrada em busca de comida.

Álex espiou o interior da construção antes de saltar pela janela casa adentro, gesticulando logo em seguida para que Mirando seguisse-o. Com passos leves, o rapaz explorou cada parte do cômodo no qual entrara: um quarto, verificando o armário num canto da parede, o baú no lado oposto e o espaço sob a cama antes de dirigir-se à porta para a próxima sala, abrindo-a lentamente no começo, mas disparando numa rápida corrida ao avistar um homem ferido apoiando as costas na parede.

— Meu bom senhor, está bem?! — Perguntou Álex ao homem, uma fada, que franziu as sobrancelhas, grunhindo alguma coisa em resposta na própria língua, sangue escorrendo de seu nariz e boca enquanto falava.

Miranda aproximou-se pouco depois, agachando-se ao lado da fada e respondendo-a, ao mesmo tempo que tentava curar os ferimentos do homem (três furos visivelmente feitos por uma afiada lâmina de espada na barriga) colocando as mãos sobre estes e conjurando um feitiço de cura. Voltando-se para o rapaz Miranda o avisou:

— Ele pensou que você era um cratence. Eu disse que somos amigos e que não vamos machucá-lo, que eu posso curá-lo.

A garota voltou a falar com o homem ferido, havendo uma breve conversa entre os dois, Miranda perguntando algo, agitada, que fora respondido pela fada com suas palavras agonizantes entre as, cada vez mais difíceis de se fazer e dolorosas, arfadas e gemidos de dor. Ao final o homem finalmente parou de sofrer, parando de repente de respirar, de olhos ainda abertos porém vazios, ao mesmo tempo que Miranda franzia o rosto, dividida entre a tristeza e apreensão.

— Vamos logo. — Disse a garota por fim, levantando-se e pondo-se a abrir os armários da cozinha, revirando qualquer gaveta, barril ou caixa. — Não temos muito mais tempo.

— O que foi que ele disse? — Perguntou Álex, achando um cesto com pães dormidos, sentindo a tensão no ar e a gravidade da última troca de palavras entre sua amiga e a fada então morta.

— Ele disse que uma tropa de cratences passou por aqui a quase dois dias. — Respondeu a lebromem.  Disse que capturaram a família dele e que vêm fazendo mais prisioneiros em cada vila. Acredito que estejam fazendo estas pessoas de prisioneiros para levá-los para Crat, como escravos... E ele disse também que estavam seguindo para o norte. Para o meu vilarejo.

Mal haviam descansado desde que invadiram a casa da fada, os jovens tendo seguido desde então num ritmo frenético, correndo por quase todo o caminho, com apenas algumas poucas pausas e estas bastante curtas, decididos a chegarem a tempo. Não foram rápidos o suficiente, porém.

Os escombros ainda ardiam fumegantes quando Álex e Miranda chegaram, o sangue ainda fresco empoçado sob os cadáveres daqueles que tentaram lutar e o cheiro dos corpos queimados daqueles que foram considerados inválidos pelos cratences impregnando o ar com sua repugnância.

— Era aqui que eu morava.  Comentou a garota, que observava os restos em brasas de uma casa com olhos tão vazios quanto os dos muitos corpos mortos que os jovens encontraram em sua viagem. — Não era uma casa muito grande, mas era confortável, quente no inverno e fresca no verão.

— ...Você reconhece seus pais? — Perguntou o garoto, parando ao lado de Miranda, sem suportar o estado apático da amiga, seu coração pesado por isso.  Estão entre eles? — Toronou a perguntar, então apenas Miranda balançando a cabeça de um lado para o outro em resposta, em "não". — Então ainda há esperança! — Apontou Álex, ganhando a atenção da garota, cujo brilho dos olhos voltou a si por um segundo.

— Você mesma ouviu o que a fada tinha a dizer: eles vêm passando de vila em vila com o objetivo de fazer prisioneiros, não matar indistintamente, e o ataque dos cratences aqui ainda é recente, então eles não devem estar muito longe e seus pais podem, não, eles definitivamente estão vivos, e ainda estão aqui, em Horac! Nós podemos salvá-los!

— ...Sim!  Concordou Miranda, chorando, porém, ao mesmo tempo, sorrindo.

— Vamos atrás destes cratences e salvar meus pais!

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