Capítulo: 37
Octávio.
Dizendo que eles deveriam permanecer na mansão, guardando a propriedade do Senador, a amante de Fernando ordenou que seus empregados não acompanhassem-na, Octávio sabendo, porém, que a mulher apenas não queria ser atrasada. Assim, no caminho de volta, o grupo do vampiro juntou-se a uma caravana de refugiados, uma multidão disposta numa cumprida fila que parecia não ter fim, composta por veículos puxados por animais e pessoas, carroças e carros de boi, homens, mulheres, crianças e idosos, muitos deles bastante magros, alguns feridos e doentes, famílias e vilarejos inteiros seguindo a estrada, dirigindo-se ao oeste, à capital.
Foram muitos dias de cavalgada lenta, o grupo do vampiro em meio ao fedor de pessoas que não banhavam-se a semanas, sob os olhares frios direcionados a mulher que recusou-se a desfazer-se das joias ou dos vestidos bonitos para misturar-se melhor a multidão, porém, ainda assim, a viagem de volta a capital fora muito mais segura do que o caminho às montanhas, o único problema sendo uma tentativa de assalto vinda de quatro jovens desesperados, que fugiram, horrorizados, quando um deles perdeu a mão com a qual empunhava uma faca enferrujada frente aos mercenários. Mas, finalmente, cruzaram as províncias e chegaram de volta as terras de Dentre-Flume, então, durante a noite, já aproximando-se das muralhas, acompanhando a estrada do lado sul do rio Largo-Flume.
Quando o vampiro voltara de Plateus, não percebera ou não dera importância às barracas e tendas, os pequenos acampamentos que haviam sido erguidos ao redor da cidade, naquele momento, porém, era impossível de fazer o mesmo, eles então havendo aumentado muitas vezes de dimensão. A outrora campina verdejante encontrada entre a cidade e a floresta adiante havia sido quase que completamente tomada por um mar de barracos, um milhão de abrigos toscos improvisados, feitos com os restos de carroças e uma coleção destoante de tecidos costurados juntos, o lugar já uma grande favela, um lamaçal repleto de valas e poças fétidas, sangue, fezes e moscas, um antro de doenças e pobreza.
— Ah, finalmente! — Comentou a mulher ao cruzar os portões da cidade, respirando fundo e sorrindo. — Por todos os deuses, como eu estive esperando por este momento. Vamos, vamos logo ao Prédio do Senado!
— Eu tenho que fazer uma coisa antes disso. Não esperem por mim, por favor, vão na frente. — Retrucou Octávio, desmontando, já cansado de cavalgar, em resposta a mulher, a amante de Fernando, apenas dando de ombros e prosseguindo em direção à Grande Praça junto dos mercenários. — Certo, era por aqui, eu acho. — Comentou, caminhando pela rua, virando numa esquina e seguindo seu próprio caminho.
— Meu amigo! — Disse Cézar, surpreso com a presença do vampiro ali ao abrir a porta. — Vamos, entre, entre, não fique aí fora! Quer uma xícara de café? Um biscoito? Minha esposa faz um excelente biscoito!
— Obrigado, meu amigo, mas tenho de recusar. Eu trago notícias. — Respondeu o vampiro, sentando-se à mesa do goblin, como o indicado pelo mesmo, sério, fazendo o sorriso na face de Cézar desaparecer imediatamente.
— Devo me retirar? — Perguntou a esposa do goblin, uma ogra, levantando-se da mesa, mas vendo-se contida por um gesto de mão do marido.
— É sobre Iandro? — Perguntou o goblin.
— Sim.
— ...Entendo... — Disse Cézar, baixando os olhos marejados e fechando os punhos, imediatamente compreendendo a situação.
— O que é? O que tem nosso filho?! — Tornou a perguntar a ogra.
— É com pesar que venho lhes informar, mas Iandro veio a falecer. — Respondeu Octávio, desviando os olhos da esposa do amigo.
Surpreendentemente, a mulher não gritou maldições ou descontou sua tristeza em fúria na sua volta, ela apenas sentando-se ao lado de Cézar, segurando a mão do esposo, com olhos distantes e lágrimas correndo-lhe pelas bochechas.
— Como... Como foi que...? — Perguntou o goblin.
"Não me pergunte isso. Não tem como eu te contar a verdade!".
— Ele sacrificou-se para me salvar. — "Ele nem ao menos teve uma chance". — É somente por causa de Iandro que eu estou vivo hoje. — "O garoto não pode sequer sacar a espada, mesmo estando tão empolgado para vingar as pessoas do vilarejo". — Eu estava prestes a ser morto por um disparo de um soldado namoriano, quando ele se colocou entre mim e a flecha. — "Ele morreu enquanto ia dormir".
— Sim, isso é algo que nosso Iandro faria. — Comentou Cézar, enxugando as lágrimas. — Sim, ele era desse tipo, meu filho era uma boa pessoa e morreu como um herói... Você pode nos contar como foi a viagem? Como Iandro participou dela, eu quero dizer.
— ...É claro, meu amigo. No começo, nos encontramos num lugar combinado, para apresentações, eu quatro mercenários e seu filho. Ninguém conseguiu conter a própria admiração quando ele disse que participava daquela tarefa com o intuito de salvar a todos, que não deixaria ninguém morrer. E assim acabou fazendo. — "Isso é o mínimo que eu posso fazer, afinal". — Depois disso...
De olhos fechados, Octávio rolou em sua cama, já tentando cair no sono há horas, porém sem resultado algum, um turbilhão de pensamentos e sentimentos incompreendidos atormentando-o simplesmente não importando o quanto o vampiro tentasse ignorá-los. Finalmente, ficando de barriga para cima, Octávio pôs-se, encarando o teto, e a ouvir os próprios pensamentos: "a Ruína significa tudo. O futuro de nossa nação e de todo o mundo, o desenvolvimento, o lucro e a influência. Tudo. E para usufruirmos completamente dela, precisamos vencer esta guerra, sacrifícios são necessários em nome do progresso".
— Então, porquê você não sacrificou a merda da sua amante, Fernando?
"Se ela era um fator que poderia vir a manchar sua reputação e diminuir seu poder, você deveria ter se livrado dela desde o começo, seu filho de uma puta...! Como você pode simplesmente decidir sozinho, tão egoisticamente, que poderia matar pessoas, que poderia matar Iandro, por algo fútil como uma amante?"
As imagens de morte e terror presenciadas por Octávio o assombrando, demônios em seu coração, o vampiro pensou: "é assustador. Você não sabe o quão assustador a guerra é, Fernando, não sabe o quão feia é a morte, uma expressão de medo, dor e agonia congelada nas faces sem vida dos cadáveres. Não sabe o quão fedorento o cheiro da carne de pessoas queimadas, do sangue fresco e da decomposição que envenena as águas. Não sabe o quão deturpado é o verdadeiro terror, aquele que lhe embrulha as entranhas, que o faz vomitar, aquele que lhe tira mesmo a dignidade de controlar a própria bexiga, o horror da brutalidade. Não sabe o quão frio e negro é o desespero de não ter mais nada para comer. Não sabe o quão profundo é o vazio deixado pela perda de alguém importante ou o quão carregado de pesar é o choro dos pais que perderam seus filhos. Assim como eu não sabia. É por isso que nós pudemos ter estas coisas, não é? Sacrificar dezenas, centenas de milhares, milhões por (sem mais rodeios, basicamente) um pouco mais de dinheiro".
— Eu entendo agora, pai. Um país não é uma empresa, assim como as vidas das pessoas não são como moedas, peças ou fichas, não é? Isso simplesmente não pode continuar.
"Por todos os deuses, o quão hipócrita eu estou sendo, simplesmente me arrependendo depois de tudo o que eu fiz até agora só porque eu senti na pele, presenciei, a guerra, porque eu percebi que não são 'soldados' que morrem todos os dias mas 'pessoas'? Muito, provavelmente, afinal, mesmo que esta guerra já estivesse de alguma forma 'destinada a acontecer', minha existência foi uma mão na roda para seu início. Mas, sabe, eu sou um político, afinal, hipocrisia faz parte de minha natureza, assim como desonestidade e ambição, então" pensou o vampiro.
"No final, eu continuo sendo o mentiroso, hipócrita e ambicioso que fui até agora, porém com um objetivo final diferente. Não é em redenção que eu devo pensar agora, mas sim como eu devo agir a partir deste ponto" concluiu.
— Octávio, meu amigo! — Disse Fernando, de braços abertos em sua sala, abraçando o vampiro. — Oras, não vejo seus óculos em lugar algum, por acaso você os perdeu? Imagino que devem ter quebrado em algum momento... Essas coisas custam uma fortuna, não é mesmo? Bem, deixe que eu o compre um novo!
— Muito gentil de sua parte, meu bom senhor. — Retrucou Octávio, acompanhando Fernando, que guiou-o até um cadeira frente à sua mesa, o Senador sentando do lado oposto e respondendo-o:
— Imagina, fui eu que o enviei nesta tarefa perigosa, sinto-me responsável. A propósito... Eu ouvi sobre o jovem Iandro. Eu realmente sinto muito, Octávio, isso não deveria acontecer, meus pêsames...
— Realmente, um acontecimento trágico. Fico feliz por sua consideração, mas por favor, demonstre-a também para Cézar, o pai do garoto.
— É claro, é claro, eu o farei. Sabe, quando o grupo que eu enviei com você veio a mim trazendo a "coisa" que eu lhes pedi, sem a sua presença, porém, eu devo admitir que fiquei com medo. Pensei até mesmo que você pudesse ter morrido! Mas, imagino que esta tarefa tenha sido especialmente exigente, então é natural desejar um descanso. O que você acha, hein, de férias eu digo?
— Na verdade, meu bom senhor, é exatamente sobre isso que eu vim discutir com você, Senador. É verdade que minha última tarefa me deixou exausto, mas já me sinto muito melhor, na verdade, e, bem, eu não sou uma pessoa que gosta de ficar parada. Gostaria que um novo dever me fosse atribuído o mais rapidamente possível, meu bom senhor.
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