Guerra A Ruína - Capítulo: 36

Capítulo: 36

Azai.


Felizmente não houveram baixas dentre os amigos próximos de Azai, porém a última performance do Comandante na batalha anterior, a tomada da mansão, acabara mostrando-se custosa, além da morte de aproximadamente cem soldados namorianos, o próprio Comandante acabara com ferimentos mais sérios do que imaginava que realmente eram, ficando totalmente exausto, desgastado e com febre. Sua percepção aguçada devia-se, muito provavelmente, a algum tipo de feitiço conjurado inconscientemente, explicou Jéssica enquanto tratava de Azai, algo muito comum em artistas marciais, esportistas, marinheiros e muitos outros, uma habilidade chamada de "Passiva", um fenômeno misterioso até para os maiores magos estudiosos uma vez que aqueles que desenvolviam as Passivas geralmente sequer tinham o menor dos conhecimentos mágicos ou sabiam o que estavam fazendo. De qualquer forma, pelo Comandante ter exagerado no uso de sua percepção sobrenatural, acabara consumira muita da própria reserva mágica, desgastando-se, enfraquecendo seu corpo.

Após apenas alguns dias de cama, um tranquilo e bem-vindo descanso, porém, o Comandante recuperou-se da fadiga quase dolorosa que afligiu-o ao fim da batalha e também dos demais ferimentos que recebera em seu último combate, então com algumas novas cicatrizes, já vagando pelos corredores da mansão, e constantemente sendo reverenciado pelos soldados, que cobriam-no de elogios enquanto batiam continência. Os subordinados de Mikael e este próprio pareciam também ter, de repente, surgido com grande admiração para com Azai.

— Acho que estou me acostumando com isso, digo, já é a segunda vez. — Comentou Azai antes de tomar mais um gole da caneca de cerveja, sentado a mesa posta na varanda da mansão, com visão para o jardim destruído.

— Isso se você sobreviver da próxima vez.  Apontou Tadeo, então seu único companheiro de bebida, ambos observando os soldados retirarem baús e mais baús, caixotes e mais caixotes e barris e mais barris apinhados de tesouros, moedas, quadros, taças e talheres de ouro e prata, anéis, colares, brincos e outros ornatos, joias, espadas, armaduras e roupas pomposas.

Uma vez que os soldados souberam que podiam saquear qualquer coisa que não o cofre, ficaram animados, porém esse sentimento voltou-se contra eles quando descobriram que tudo o de valor da casa (e aparentemente de muitos outros lugares), estava no tesouro trancado.

— Ou se eu continuar inteiro. Posso viver sem dois ou três dedos, mas sem um braço ou uma perna, ou mesmo uma mão, estou acabado.  Disse Azai, indicando suas mãos mutiladas, a direita ausentada do dedo médio e a esquerda do dedo mínimo, lembranças de seu último e desafiador confronto.  Lutar é só o que eu sei fazer, afinal.

— Você é um comandante, merda, um Mestre, um dos queridinhos de Namória, mesmo se você ficar inválido, diferente destes fodidos de patente baixa, vai ficar numa boa, então não se preocupe com isso, meu amigo. Seu verdadeiro problema é: quem vai cuidar de você uma vez que isso tudo acabar? Se você ficar inválido ou velho, eu digo. Você tem de arrumar uma esposa, Azai.

— Quem precisa de uma esposa?! Eu não sou um desses coitados que aceitam de bom grado pôr uma coleira no pescoço, não, no próprio pau, enquanto atura ouvir mais berros de ordens do que eu já dei em toda minha vida, como: "pare de beber tanto!" ou "não quero mais ver você falando com Fulana!". Pois eu lhe digo, Tadeo, meu amigo, eu beberei o quanto quiser e dormirei com a mulher que eu quiser!

— Ou seja, você se contenta com uma vida inteira em que as únicas parceiras que esquentarão sua cama nos dias frios sejam putas que já deitaram-se com outros incontáveis homens e ainda o fazem apenas por dinheiro? Mulheres que, ao mesmo tempo que podem roubar-lhe sua bolsa de moedas, podem lhe passar qualquer necrose pro pau? Não, Azai, você não precisa uma mulher qualquer, mas de uma esposa! É diferente! ...O que me lembra: você tem conversado bastante com a Princesa, não é? Por que você não a reivindica depois de tomarmos o Fé?

— Chega disso.  Retrucou Azai, batendo com a caneca na mesa, zangado. Ela é uma inimiga, uma crasiriana, não é confiável e ponto final.  Disse, estranhamente sentindo o espinho sombrio espetar seu coração a cada palavra.

— ...É claro, é claro, me desculpe, certo? Então vamos mudar de assunto, algo mais tranquilo...

— Que velhice ou invalidez o que, eu não vou ficar velho ou inválido, vou morrer a serviço do rei! — Resmungou Azai, cambaleando meio bêbado ao descer as escadas, apoiando-se na parede.  Sim, como um verdadeiro patriota, morto em campo de batalha! Vou matar todos esses bostas gananciosos, esses crasirianos, defender meu país e o rei e pôr um fim a esta guerra, sendo levado honrosamente ao paraíso pela própria Santa Glória ao fim de minha vida!

— Que conversa macabra.  Apontou Sofia.

Após um longo suspiro, massageando a parte entre os olhos, Azai retrucou-a, zangado:

— Mas que merda você está fazendo aqui, hein? Tentando me assustar de novo, mulher?!

— Hu? Mas... aqui são as masmorras.

Finalmente percebendo para onde descera, o Comandante, olhando ao redor e vendo apenas escuridão pairante sobre o corredor à frente, celas trancadas à esquerda e à direita, e em uma delas a harpia sentada em sua cama de palha ao chão, presa, iluminada pela única tocha que ali ardia, descansando em seu suporte ao lado da escada, o único caminho para cima. Estalando a língua, Azai disse:

— ...Devo ter bebido demais.

— Por favor, fique! — Pediu Sofia, estendendo a mão ao Comandante, que já subia as escadas.

— Não vou conversar com você dessa vez, Princesa. Você não vai me enganar fácil assim!

— "Todas as espécies são filhas dos Deuses irmãos Merin e Murin e de todas as Santas, nossas almas iguais perantes o celeste"!  Gritou a harpia, fazendo sua voz subir os degraus e chegar a Azai, que, como num déjà vú, estancou ao ouvi-las enquanto ainda nos primeiros degraus da escada.  Palavras do rei Josias II.

— E?

— São reais? Você acredita que elas são sábias?

— É claro.

— Então, as almas dos crasirianos não são diferentes dos namorianos, não é? — Perguntou Sofia. Sem obter qualquer resposta além de um olhar duro, continuo a falar:

— Nosso povo não é diferente, mas há morte, estupro e escravidão entre nós, e por quê? E então, por que há guerra? Será mesmo nobre, será mesmo a vontade da Santa Glória a carnificina e selvageria desenfreada? Há ao menos uma boa razão para lutarmos, alguma verdade?

Levando a mão ao coração, sentindo o espinho crescer, enraizar-se, ramos ao mesmo tempo negros e invisíveis penetrando-o ainda mais profundamente, fixando-se ali, causando-lhes mesmo náuseas, Azai seguiu escada acima, em silêncio.

Finalmente, tudo o que havia de valor tinha sido carregado e a caravana do Cobrador-de-Guerra, cinco carroções cobertos abarrotados de tesouros, estava pronta para partir. Deixando para trás a mansão depredada, marcada pela guerra, repleta de buracos de bala, manchas de sangue que não haviam sido limpas, e com uma pilha de cadáveres em suas adegas vazias, Azai frente a sua tropa, pusera-se a acompanhar o elfo narigudo, carinhosamente apelidado pelos soldados de "Nariz Maldito" por conta de sua característica física tão marcante e de sua falta de criatividade quanto aos xingamentos e ofensas, e o Maioral-Mor Mikael e seus subordinados até uma bifurcação na estrada, quando o Comandante dirigiu-se até o Cobrador-de-Guerra:

— Senhor Cobrador-de-Guerra.  Disse Azai.

— Senhor Comandante. — Retrucou o elfo, franzindo as sobrancelhas e continuando, curioso: — Há algum problema?

— Não, senhor...

— Então, porque você veio falar comigo? — Interrompeu o elfo narigudo. — Olhe em volta, seu maldito, toda a caravana parou por culpa sua!

— Por favor, me perdoe.  Pediu o Comandante, tentando suprimir a raiva, ignorando o desdém presente na resposta do elfo e continuando:  Senhor Cobrador-de-Guerra, vim apenas para me despedir, agora que completei para com minha missão e dever. Devo voltar o mais rapidamente possível para meu antigo objetivo, o forte Fé, antes que as tropas inimigas reúnam-se, mas creio que o caminho que o senhor Cobrador-de-Guerra percorrerá não virá a ser marcado por perigos, e, embora reduzida, a tropa do senhor Maioral-Mor que o escolta é composta por soldados eficientes, logo, as chances que qualquer infortúnio são baixas... Senhor Cobrador-de-Guerra?  Perguntou Azai enfim , notando a confusão na expressão do elfo narigudo.

— Que maldição você pensa que está falando? Eu ainda tenho autoridade sobre você, senhor Comandante, e você, como minha escolta, me acompanhará no resto do trajeto de volta à nossa grandiosa nação.

— S... Senhor Cobrador-de-Guerra, faz parte das instruções militares voltar à sua missão original uma vez que se é encerrada a urgência. — Retrucou o Comandante, incrédulo.

— Contrariar as minhas ordens é contrariar a palavra do rei, e contrariar a palavra do rei é traição, senhor Comandante!  Gritou o elfo narigudo, empertigando-se em sua sela. — E creio que, como um militar, você conhece muito bem a punição para traidores.

— Mas, Senhor Cobrador-de-Guerra, uma de nossas tropas já nos espera lá. — Insistiu Azai, apertando as rédeas de seu chacal-monarca, irado. — Eles vão todos morrer se eu e os meus não nos apressarmos!

— Se morrerem, morrerão em nome do rei e do reino, e isso é apenas glorioso e honrado, senhor Comandante, agora então: volte ao seu posto e continue a escolta, senhor Comandante. Isso é uma ordem.

Passando os olhos pelos carroções carregados de tesouro, guiando sua montaria de volta à sua posição original, Azai levou a mão ao peito e finalmente compreendeu aquela aflição, que tornou a crescer, espinhosa, a sombra que vinha pairando em seu coração desde o momento em que falara pela primeira vez com Rafaela, não, ela já estava ali há muito tempo, presente quando ele fechava os próprios olhos a detalhes à sua frente e forçava-se a ignorar, a não pensar sobre, as coisas que por outros eram decididas, inicialmente minúscula, um sussurro, apenas uma pequena mancha em sua própria fé: dúvida.

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