Guerra A Ruína - Capítulo: 35

Capítulo: 35

Álex


— Defina os decaídos. — Pediu Álex, sentado à mesa, com um grosso livro aberto na mão boa, frente a Rafaela, que respondeu apoiando a bochecha no punho direito, entediada:

— Teoria criada pelo estudioso, filósofo e mago Hasin, justificada com base em...

— Pule as evidências.  Interrompeu o rapaz.

— Os decaídos são espécies sapientes que, por conta de suas particularidades físicas, não podiam reproduzirem-se com qualquer um que não membros de sua própria espécie, e, isolados na Era da Grande Apartação, assim tendo suas almas degradadas com o passar das gerações por conta das relações consanguíneas, perdendo a capacidade de comunicarem-se ou agirem racionalmente para com as demais pessoas, tornando-se não muito mais do que animais. Podemos citar como exemplos: os centauros, os minotauros e os girtablilus. Outras espécies já também beiraram o "decaimento", como os draconianos de Darco, escravos de alto valor por conta da raridade (uma vez que têm poucos filhos e podem reproduzirem-se apenas em momentos muito específicos de suas vidas) que frequentemente eram forçados a gerarem filhos com seus parentes, ou os lobisomens e ratomens que ainda nos dias atuais podem reproduzirem-se apenas com outros membros de sua própria espécie, salvos deste destino, porém, por conta da imensa quantidade de descendentes que podem ter de uma única vez e por poderem reproduzirem-se durante toda a vida.

— ...Correto. — Apontou Álex, que conferira tudo o que ela dissera com as informações no livro. Teve de esforçar-se, porém, para não demonstrar sua estupefação para com a capacidade inacreditável de aprendizado da garota.

— Ei, cara, você pode me responder uma coisa? — Perguntou Rafaela, de repente mostrando-se interessada.  É verdade que marionetistas podem controlar os mortos?

— ...Chama-se necromancia, e sim, é uma sub-disciplina mágica dentro do Marionetismo.

— Sério, então é verdade?! Caralho, isso é foda! Você pode, tipo, invocar espíritos do além ou zumbis, por acaso?!

— Olha, não é assim que as coisas funcionam, sabe? Diferente do conhecimento comum, há lógica na magia! Necromancia trata-se apenas de usar um corpo morto no lugar da marionete conjurada. Tem suas vantagens, como o baixo gasto de magia, mas também possui desvantagens, como o pequeno fato de que não se encontram cadáveres por aí normalmente (além de ser um tanto mal vista pela sociedade).

— Certo, eu entendi, mas... "lógica"? É verdade que existem muitas regras, classificações, sub-classificações e muitas outras chatices quanto a magia, mas não há realmente uma lógica, né?

"Digo, eu entendo toda a ideia por trás das magias de fantoches, o conhecimento e realismo necessário nos corpos das marionetes, os impulsos dados para mover as criaturas e tals, mas me responda isso: se há realmente uma lógica, como a magia cria matéria e energia do nada? Como nossas mentes podem influenciar fisicamente o mundo a nossa volta? — Álex não conseguiu responder, simplesmente abrindo e fechando a boca estupidamente enquanto um sorriso presunçoso deformava as feições da menina.

— Exatamente, não há lógica nisso! Assim como não há lógica em toda esta enrolação! Escuta, cara, quando vou começar a aprender magia de verdade, hein? — Perguntou enfim a garota, espreguiçando-se, jogando seus braços para cima e a cabeça para trás e finalmente mostrando suas verdadeiras intenções.

— Assim que expandirmos sua reserva mágica o suficiente. — Respondeu Álex, recitando as mesmas palavras que já ouvira tantas vezes quando menor, vindas dos professores do Grêmio, finalmente compreendendo porque eles odiavam tanto ensinar os novatos.

— Mas, por que vocês sequer me ensinam os feitiços previamente, hein? Vocês dois, eu digo.

— Porque você tentaria conjurá-los, horas! — Retrucou o rapaz, fechando o livro.  E, quanto aos feitiços que Miranda usa: você não está pronta para aprendê-los.

— Como assim, cara, é claro que eu posso conjurar aqueles feitiçozinhos... — Resmungou a garota, cruzando os braços e fazendo um biquinho manhoso.

Álex, suspirando, impressionado também com o tamanho da infantilidade que a garota podia demonstrar, respondeu:

— Rafaela, aqueles feitiços exigem um profundo conhecimento do corpo humano, da alquimia e medicina, além de desgastarem muito de seus magos conjuradores. — Notando a falta de convencimento da menina, Álex concluiu: — Se alguma pessoa despreparada como você tentar conjurá-los, tudo o que vai conseguir é explodir o próprio corpo num milhão de pedacinhos, então prometa-me, Rafaela: você não vai tentar conjurá-los até nós a julgarmos como pronta para faze-los.  Finalmente impressionada, de olhos arregalados frente ao aviso, a garota concordou:

— Eu... Eu prometo.

Uma vez que Álex contara ao pai de Rafaela a condição da menina e que ela ficaria bem com um descanso, concluindo que seria melhor levá-la ao Grêmio exaltando seu feito de conjurar uma estrutura tão complexa em seu primeiro contato com a magia, o homem agradeceu-o, parte aliviado, parte nervoso, mas não surpreso, desculpando-se também por qualquer incômodo que sua filha pudesse ter causado, surpreendendo-se ao descobrir que era Álex o homem dos boatos, "um mago poderoso que matara um grifo conjurando uma tempestade de raios e chamas e invocando do inferno um exército de demônios, destruindo o monstro como se não fosse nada e salvando uma princesa e toda a cidade de Lenhir".

O homem então, que chamava-se Gael, perguntara aos jovens qual o destino deles e se eles precisavam de transporte, oferecendo-se para levá-los a Horac gratuitamente em seu navio ao ouvir a história deles, com a condição de que ensinassem sobre magia a sua filha durante a viagem, mesmo uma vez que Álex deixara claro que não era tão poderoso quanto os botas diziam.

Assim, em Troncôco, embarcaram num pequeno bote pertencente a Gael e desceram o rio por um dia inteiro, seguindo sua correnteza até chegarem a sua foz, onde o fluxo de água doce e límpido do rio misturava-se ao salubre e espumeante Mar Ocidental, e onde o grande navio a vapor de Gael estava ancorado. Durante todo o tranquilo trajeto do bote, Gael explicara que era capitão de um navio comercial, que transportava especiarias entre os continentes, e que parara em Troncôco apenas para visitar um velho amigo, o que explicava a ausência de seu navio no porto da cidade (e o linguajar tosco de Rafaela, os marinheiros e o próprio pai sendo sua única companhia que a menina possuía).

Observando então as águas tranquilas do mar como estavam naquele dia e a espuma feita pelo casco do navio ao cortar, flutuante, por sobre aquela imensidão azul, um espelho que refletia o céu sem nuvens acima, impulsionado pelo motor a vapor deslizando em sua superfície, como uma navalha através da carne, e refletindo sobre todo o talento de Rafaela, lembrando-se, inconvenientemente, de sua própria performan-se no Grêmio em todos os anos que passara lá, sua jornada como um gremista não sendo nada mais do que mediana, mesmo em sua especialidade mágica, Álex estava apoiado no parapeito da proa do navio.

— Diferente de sua amiga, você não parece incomodado. — Disse Gael, aproximando-se de Álex e também recostando-se no parapeito. — Com o oscilar do navio, eu digo. Não parece enjoado.

— Bem, eu já fiquei um tempo considerável sobre um convés como este, afinal.

— Respondeu Álex.  Quando eu parti do meu vilarejo para o Grêmio, sabe. Meus pais me levaram para a costa e me arrumaram uma passagem de navio lá... Acabei enchendo três baldes de vômito e não consegui deixar meus aposentos pelos primeiros três dias inteiros, mas depois disso acabei me acostumando. Agora eu já não me incomodo muito.

— Entendo, entendo! — Comentou Gael, sorrindo. — É assim com a maioria das pessoas. Ainda me lembro da primeira vez que pisei num convés: eu não tinha muito mais do que sua idade e estava aborrecido com o mundo, com a vida, e acabei decidindo fugir de casa.

"Roubei o bote do... do meu amigo, e desci o rio, seguindo o mesmo trajeto que fizemos há pouco, deixando Troncôco para trás. Não sei o que estava pensando quando imaginei que com aquele bote poderia navegar em alto-mar! Passei por maus bocados, mas, de alguma forma, consegui chegar a um porto numa vilinha que ficava em... bem, para falar a verdade, eu nem sei se ainda estava em Nova Crasíria. Mas, enfim, está vila estava sendo atacada por bandidos e eu os expulsei. As pessoas que lá viviam então me recompensaram com seu maior navio pesqueiro (que, na verdade, não era grande coisa, uma velharia prestes a afundar), quando eu montei uma pequena tripulação com outros jovens entusiasmados e zarpei. Desde então venho sendo um capitão... Hm? Álex, o que foi?

— Não, é que... eu só estava pensando em como meu bom senhor, Gael, é mesmo incrível.  Respondeu o rapaz, boquiaberto com a história de Gael. Suspirando, continuou: — E sua filha também. Ela tem mais talento do que qualquer um, uma capacidade anormal de aprendizado e mesmo sua reserva mágica expande-se muito rapidamente. Você realmente deveria leva-la para o Grêmio, sabe? Não me surpreenderia se ela ficasse tão famosa quanto Milly, lá.

— Irão transformá-la numa máquina de guerra lá. — Retrucou Gael. — Ao menos atualmente. E, ela só aprende tão rápido porque você é um bom professor! — Concluiu, fazendo Álex ter de olhar para o outro lado para esconder o orgulho que o fazia sorrir sem jeito.

— Mais uma vez, obrigado. Por estar nos levando para Horac, eu digo. Quase não acreditei quando você disse que podia nos levar, e ainda de graça.

— Bem, faço isso por Rafaela, afinal. — Retrucou Gael. — Eu tenho certeza que, de qualquer jeito, ela tentaria aprender magia sozinha, agora que ela sabe que é uma Talentosa. Além disso, é um péssimo negócio vender especiarias para países em guerra. Estávamos indo para o norte de qualquer jeito. Contornaríamos o continente e seguiríamos para o Pequeno Continente. Poucos países de lá foram tolos o suficiente para entrarem nesta confusão e lá o comércio ainda vive... embora ultimamente voltado para artigos militares. Bem, deve-se saber adaptar-se neste ramo. — Concluíu o homem, dando de ombros.

— Hu? Nesse caso, não seria mais rápido seguir para o sul?

— Mais rápido, talvez, mas não mais fácil. A atual rota de navios que tem passado por lá vem atraindo muitos piratas e corsários da Aliança Vermelha. Bem, não é como se o caminho que estamos seguindo fosse cem por cento seguro, também, mas...

— Respondeu Gael, de repente estreitando os olhos e levantando a mão à testa, fazendo sombra para a visão, que direcionava para o horizonte. — Oh, aí está! Nossa última parada antes de seguirmos direto para Horac: Baía Umbrosa! — Anunciou o homem com um sorriso curvando-lhe os lábios, indicando ao jovem, lá ao longe, uma mancha verde e disforme.  Por favor, vá avisar as garotas, e, oh, vamos demorar algumas horas no porto, então você pode sair para se divertir um pouco... Mas, eu tenho um favor a lhe pedir.

— É a primeira vez de vocês aqui, né? Relaxem, a grandessíssima eu aqui vai apresentar a cidade pra vocês! — Disse Rafaela, com as mãos na cintura, com um ar confiante e orgulhoso.  Meu pai atraca aqui direto, sabe? Eu já tive aqui uma renca de vez, sabe, sou a melhor guia que novatos como vocês poderiam ter.

— Bem, contamos com você, Rafaela. — Retrucou Álex, que, como o pedido por Gael, justificando-se dizendo que a filha não costuma ter companhia de idade próxima a sua, trouxe a garota consigo.

Baía Umbrosa era simplesmente a cidade mais bela que Álex jamais vira, acima de todos os rumores. O garoto simplesmente não conseguia tirar os olhos da gigantesca árvore que estendia seus galhos por sobre toda a baía, o porto e a cidade, a sua imensa copa verde deixando apenas alguns raios de sol atingirem o chão como milhares de pequenos pilares de luz ao trespassarem as incontáveis folhas lá no alto.

— Por todos os deuses, é enorme... — Comentou Álex, indicando a árvore colossal.

— É maior do que uma montanha! — Concordou Miranda, agradecida por finalmente ter um descanso em terra firme, sua pele voltando a ganhar cor.

— Todos dizem isso na primeira vêz que vem aqui!  Retrucou Rafaela, gargalhando.  Agora venham, ainda há muitos lugares que eu quero mostrar pra vocês e, de qualquer forma, dá de ver A Árvore de qualquer lugar da cidade mesmo. — Concluiu, seguindo o caminho pelo pier no qual o navio de seu pai estava ancorado, dirigindo-se à parede de casas e prédios muito coloridos adiante.

— Você disse que o bom senhor Gael sempre atraca aqui, não é? Então, quantas vezes você já veio aqui, Rafaela?  Perguntou Álex, virando a cabeça de um lado para o outro, admirando todo o lugar, que simplesmente não parecia ter sido afetado pela guerra, ainda cheio de vida.

Enquanto A Árvore se erguia-se ao centro da baía, surgindo mesmo de dentro da água cristalina que banhava as praias da região, suas raízes nodosas e compridas, cada uma tão grossa quanto uma árvore em si, perfurando o leito do mar, a areia da praia e os pés dos morros que cercavam Baía Umbrosa, a cidade fora construída por toda a extensão da região, voltada para A Árvore, das praias até o alto dos morros cheia de escadas, com edifícios engraçados, prédios circulares e de tetos abobadados, ou em forma de semi-esferas baixas ou cumpridos cilindros, pintados em todos os padrões e em todas as cores imagináveis.

— Hm... Umas três vezes, eu acho.  Respondeu Rafaela.

— O que? Seu pai não atracava aqui direto? Você não disse que já esteve aqui "uma renca" de vezes?!  Retrucou Miranda, que continuava a não gostar da menina.

— Do que tu tá falando? Ele atraca bastante frequentemente aqui se comparado aos outros lugar. Na maioria das vez eu só vejo os portos uma vez. Nóis vem pro porto daqui pelo menos uma vez a cada dois anos, três. As viagem são longa, afinal.

— ...Rafaela, me desculpe por perguntar isso, mas: quantos anos você tem? — Perguntou enfim Álex, fazendo cálculos em sua mente que apenas deixaram-no ainda mais confuso.

— Nove. — Respondeu a menina, sem relutância, encarando-o nos olhos com um ar confuso.

— É mentira.  Retrucou Miranda, fechando a cara.

— É verdade.  Insistiu Rafaela, sem qualquer mudança em sua expressão. Ela falava a verdade.

— E seu pai, qual a idade dele?  Tornou a perguntar o rapaz, de repente ainda mais curioso.

— Setenta e tantos, se eu não me engano.  Tornou a responder ela, mais uma vez tão tranquila como sempre, deixando os jovens pasmos, eles lembrando-se do homem grande e forte que não parecia ter mais de trinta anos que era Gael.

Nenhuma das espécies sapientes (com exceção dos draconianos, cujos mais velhos alcançavam os trezentos anos de idade) viviam muito mais que cem anos em Asatna, e nenhuma espécie alcançava tamanha maturidade em apenas nove anos de vida, afinal.

— Ah, aqui estamos: essa loja tem, a melhor sopa de frutos do mar que eu já comi, sérião! — Disse ela, guiando-os pelas mãos para o interior do restaurante a todo sorriso.  Vamos lá, caras, ainda tem um monte de lugar loucos que quero mostra pra vocês!

— Você não vai fazer essa mancha em sua face que você chama de barba nunca?

— Perguntou Miranda, balançando os pés livres enquanto sentada na beirada do cais, ao lado do garoto, os dois finalmente tendo um tempo a sós, uma vez que, já no fim do dia, Rafaela voltara ao navio enquanto os jovens esperavam do lado de fora.

— É que já faz tantos meses desde que me barbeei... Acho que eu vou deixar crescer mesmo. E, também, a propósito, eu não te agradeci pelas roupas que você conseguiu para mim lá em Lenhir. Eu gosto delas. Obrigado  Disse Álex, segurando o colete negro que vestia. — E, eu... tenho uma coisa para você.  Continuou, enfiando uma mão no bolso da calça e tirando uma série de pequenas pedrinhas de madreperolada presas por um cordão e entregando-as à sua amiga. Uma pulseira. Corando, Álex concluiu:  Sabe, do seu aniversário. Eu disse que te compraria algo, não é? Aqui. Claro, eu não sabia se você gostaria, então, se você não quiser...

— Eu quero! — Interrompeu-o Miranda, segurando a pulseira e a mão do garoto, também corando. Imediatamente prendendo o presente ao redor do pulso, a lebromem retrucou: — Na verdade, eu também me lembrei dessa promessa, sabe... Embora, coincidentemente, acabamos tendo a mesma ideia!  Concluiu, entregando-lhe também uma pulseira, esta de tiras de couro e corda, decorada com pedacinhos esculpidos de madeira, que o rapaz também colocou imediatamente.

— Ei caras, está na hora! — Gritou Rafaela do convés do navio, curvando-se sobre o parapeito do navio. — Embarquem logo!

— Ei, Rafaela, você não deve interromper esse tipo de coisas!  Apontou Gael, surgindo ao lado de sua filha e puxando-a de volta.

Vamos logo. — Disse Álex, levantando-se, suspirando, logo em seguida sorrindo sem jeito para amiga.  É falta de educação fazer alguém que está nos ajudando tanto esperar assim.

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