Capítulo: 34
Octávio.
Os namorianos não costumavam enterrar ou queimar os cadáveres de seus inimigos, a menos que planejassem estabelecerem-se naquele local. E eles não pareciam ter essa intenção quanto ao vilarejo no qual Octávio então cavalgava, o vampiro remexendo-se em sua sela, querendo apenas sair dali o mais rápido o possível.
De uma forma desagradável, a vila não era muito diferente daquela que o vampiro visitara em Plateus, a semelhança apenas exaltando sua repulsa, seu enjoo, Octávio lutando para manter qualquer coisa no estômago, o desconforto que ele sentia ao passar os olhos por sobre a total devastação e selvageria, por sobre cada um dos corpos mutilados, cadáveres desmembrados aos cantos, deixados aos carniceiros, que já deliciavam-se com seus corpos, mortos de olhos vazios em expressões congeladas em puro terror e dor. Pelos escombros carbonizados de casas ainda fumegantes, continuamente cuspindo fumaça negra. Pela plantação pisoteada e também queimada, destruída. E pelo gado morto, carcaças de porcos, galinhas e vacas empilhadas nos currais e envenenando a água do poço ao centro do vilarejo.
— Pelo menos as mulheres e crianças conseguiram escapar... — Comentou Iandro, visivelmente tão aflito quanto Octávio, a face contorcida em repulsa enquanto observava a carnificina ao seu redor.
Em resposta, porém, os demais companheiros do goblin apenas fecharam ainda mais a carranca ou desviaram seus olhos, apressando seus cavalos, ansiosos por deixar o mais rápido possível o vilarejo saqueado. Todos os demais membros do grupo eram mercenários experientes, porém nenhum deles parecia apreciar tal cena brutal. "Talvez Fernando tenha os escolhido com essa característica em comum de propósito", pensou Octávio, buscando-se distrair-se em seus pensamentos ao invés de passar mais um segundo sequer fitando ou refletindo sobre tamanho horror.
— ...Não fugiram. — Apontou o vampiro, colocando-se ao lado de Iandro. — Os namorianos costumam levá-los como escravos para suas terras, só isso. As mulheres e crianças, eu digo. — Concluiu, sentindo as palavras pesarem estranhamente em sua garganta e estômago, como se proferi-las de alguma forma apenas intensificasse.. alguma coisa, como se apertasse um nó em volta de seu próprio pescoço.
— Há escravos em Namória?! — Perguntou o rapaz, incrédulo.
— Apenas aqueles que não conseguem quitar suas dívidas, criminosos... e prisioneiros de guerra, têm como destino a escravidão em Namória. — Respondeu Octávio, não podendo deixar de perceber as mãos do goblin apertando com todas as forças as rédeas de sua montaria, Iandro cerrando os dentes e uma sombra cobrindo-lhe a face, o típico brilho alegre de seus olhos sumindo. Não, sendo substituído.
"Ódio", percebeu o vampiro. "Ele os odeia agora".
— Sei. — Disse Iandro. — Eu vou matá-los. — Concluiu, esporeando o cavalo e adiantando-se à frente do vampiro.
— Líder, nós também devemos nos apressar. — Chamou Lauro, que continuara na dianteira do grupo mesmo após deixarem a floresta, muitos dias atrás. — Não podemos continuar aqui por muito mais tempo, é arriscado demais.
— Ele tem razão. — Concordou Cirilo, cavalgando ao lado de Octávio, olhando uma última vez para o vilarejo, cuspindo antes de continuar: — Isso é recente, afinal.
Já sob a proteção das copas das árvores, o grupo havia levantado acampamento, jantado e os turnos de vigia sido decididos, então todos descansavam, daquela vez sem fogueira, porém. Estavam próximos demais da Cordilheira Cinzenta, o fronte ocidental da guerra, afinal, na província de Serenia. Seguindo o atalho de Lauro, haviam atravessado muitas vezes mais rapidamente do que o normal a floresta da província de Macaria, prosseguindo então por uma longa estrada, cruzando pelas terras de Andarilha e Cérnic, chegando finalmente a Serenia dias atrás, ficando cada vez mais próximos de seu objetivo, e também do perigo, conforme as montanhas cresciam à frente, dia após dia, a cada quilômetro percorrido. Crescia também a curiosidade de Octávio: "o que é? O que o Senador esconde tão longe, o que é esse segredo tão bem guardado? Eu não sei... mas não há dúvidas de que é algo vital para o progresso, para o futuro do país e seu desenvolvimento, porém, uma vez que ele arrisca tanto por isso."
— Eu não entendo: o que eles ganham saqueando vilarejos e atormentando civis assim?! — Comentou o goblin chutando a terra antes de deixar-se cair no chão, sentando-se, sem preocupação, na terra frente a fogueira, rabugento.
De mais distante das chamas e sua luz, com o óculos pendurado no bolso de seu terno, finalmente descansando os olhos, Octávio respondeu:
— Duas coisas: a primeira é atacar a economia das províncias, cujo, embora os centros comerciais destas sejam suas capitais, grande parte de seus rendimentos vem dos impostos e taxas de cidadezinhas e vilarejos, como aquele que vimos ainda hoje cedo, e a segunda coisa é mais simples: eles simplesmente estão, como você mesmo disse, saqueando, roubando e tomando escravos. Fazendo dinheiro.
— Ainda assim, isso é muito cruel! — Retrucou Iandro.
— ...Eu também acho. — Concordou Octávio, pensando porém: "nós estamos fazendo quase a mesma coisa do outro lado, garoto".
— Para começo de conversa, por que essa guerra começou? — Perguntou o
goblin.
— Por conta de injustiças e muitas outras coisas, Iandro. — "Pelo mesmo
motivo que todas as outras guerras, garoto: por dinheiro e poder. Esta é uma disputa que decidirá o futuro das nações, aqueles que conseguirem por as mãos na Ruína tornarão-se os novos donos do mundo, terão o mercado, indústria, tecnologia, magia e poderio militar mais avançados e bem desenvolvidos do mundo, a ascensão a um futuro brilhante ou a queda e submissão, uma guerra à Ruína".
— Mas, tantas pessoas têm morrido...!
— Sim. — Tornou a concordar o vampiro. "Sacrifícios necessários ao progresso", pensou, ao mesmo tempo lembrando-se das cenas que vira no vilarejo anterior, sentindo o jantar querendo sair para fora. "É vital que vençamos esta guerra, qualquer que seja o preço a se pagar. E para isso precisamos de Fernando" — Agora, vamos dormir. Amanhã será um longo dia.
— Sim, você tem razão, meu bom sen... — Disse Iandro, até ser interrompido por uma flecha cuja ponta de aço atravessou-lhe a garganta, saindo quatro bons centímetros para fora de sua carne, cessando qualquer som que poderia ter saído de sua boca.
Gorgolejando uma torrente vermelha, caindo de joelhos e levando as mãos ao ferimento e a seta que saía-lhe do pescoço, sem saber o que realmente se passava, Iandro morreu.
— INIMIGOS! — Berrou Boris, imediatamente todos os outros membros do grupo, mercenários experientes, sem perder um segundo sequer, sacaram suas armas, buscando por abrigo e, ao mesmo tempo, pelo inimigo invisível.
Octávio, porém, simplesmente não conseguiu se mexer, ainda estático na posição na qual estava quando Iandro fora atingido, ali, com o terno manchado por gotas de sangue que voaram longe o suficiente para atingi-lo, naquele momento, o vampiro não conseguindo sequer pensar direito, confuso, pasmo, sentindo como se o que observasse, o que se passava naquele momento, não fosse a realidade, as vozes, os gritos e berros de seus companheiros sendo então apenas sussurros distantes.
— ...Que...? — Perguntou Octávio, finalmente conseguindo se mexer, olhando ao redor e vendo batalhas sendo travadas por todos os lados, aço batendo em aço em tinidos estridentes, faíscas voando, pólvora queimando, cordas sendo retesadas e projéteis sendo disparados.
Com uma flecha fincando-se atrás de si, passando a apenas alguns poucos centímetros da bochecha do vampiro, agitando seu cabelo, Octávio então, gritando em desespero, correu para a proteção das árvores, apenas para ver-se impedido por um corpo que caíra, aparentemente, do céu, um vampiro, um namoriano, um cadáver com metade da face desfigurada por um disparo de rifle (disparado por Edmundo), o olho que restava em sua cabeça saltado de sua órbita, pendurado por um cordão de sua própria carne e a língua saindo por um buraco sob o queixo (lugar por onde entrara a munição).
Perdendo as forças nas pernas, caindo de joelhos, enquanto vomitando, urinando e chorando, Octávio, gritando qualquer coisa sem nexo algum, rastejou até a entrada de sua barraca, mais uma vez sendo impedido, então por Cirilo, que derrubara um inimigo ao chão bem na frente de Octávio.
O orc, aparentemente sem armas à mão, subiu sobre o corpo do vampiro que derrubara e, simplesmente, começou a desferir-lhe socos, um atrás do outro, repetidamente, de novo e de novo, suas mãos manchando-se cada vez mais de sangue, tanto o seu próprio, da pele que esfolava-se mais a cada golpe, quanto do vampiro, quebrando-lhe o nariz, os dentes, cortando suas sobrancelhas, lábios e bochecha, deixando seus olhos inchados, e, por fim, matando-o afogado no próprio sangue. Cirilo mal encarou Octávio por um segundo, antes de levantar-se e partir à busca de sua próxima vítima, catando a primeira coisa que viu em seu caminho: uma pedra de tamanho médio, como arma.
O vampiro, rastejando ao redor do cadáver namoriano a sua frente, por fim entrou em sua barraca, agarrando os joelhos com suas mãos que não paravam tremer, encostando-os no peito, observando a batalha por meio dos vultos umbrosos de trás da lona, o sangue, os membros decepados e os corpos apenas um teatro de sombra gerado pela luz da fogueira: um homem que segurando uma rocha sendo alvejado por vários disparos de rifle, morrendo, o ataque sendo feito por vampiros lá do alto, que, por sua vez, caíram um a um, num intervalo curtíssimo de tempo, tendo suas cabeças explodidas ou corações perfurados por tiros certeiros de um segundo homem, e, finalmente, com um esguichar seguido pelo burburinho do líquido batendo na lona, uma grande mancha negra surgindo, respingada a parede da barraca, o sangue escorrendo, com o baque do último corpo caindo ao chão, a floresta voltando ao silêncio da noite, sem mais tinidos metálicos ou estrondos dos disparos de rifles. A batalha chegara ao fim.
— Iandro e Cirilo, hein — Comentou Lauro.
— Temos que dar o fora daqui. — Apontou Boris.
— Sim. — Concordou o elfo careca. — Estes aqui podiam estar numa missão ou simplesmente em patrulha, mas de qualquer forma, logo vão dar falta deles. E não queremos estar aqui quando isso acontecer.
Não houve funeral ou qualquer cerimônia para os mortos, Iandro e Cirilo foram deixados para trás a céu aberto, da forma como morreram, os membros sobreviventes do grupo montando, e forçando Octávio ao mesmo, e cavalgando o resto da noite, disparados a toda a velocidade para o leste, nenhum deles atrevendo-se a proferir uma única palavra, mesmo Boris que tinha ficado aparentemente próximo ao goblin e que já havia trabalhado anteriormente com Cirilo, o orc.
Até o sol nascer, uma nova aurora, iluminando a face escarpada da cordilheira, pintando-a de dourado, brilhando também sobre os campos verdejantes aos seus pés, os rios que nasciam nas alturas, e os planaltos e as colinas que erguiam-se até transformarem-se nas montanhas, lembrando com um irritante ardor a Octávio que ele esmagara os próprios óculos na confusão da noite anterior, o vampiro não pensara em nada, não sentira nada, sabendo apenas que deveria continuar a cavalgar, finalmente concluindo: "é vital que vençamos esta guerra, qualquer que seja o preço para isso, os sacrifícios necessários".
Houveram apenas algumas pequenas pausas periódicas para descansarem as montarias, tirando as selas dos cavalos, estes frequentemente arfantes e cobertos de suor, dando-lhes de beber e deixando-os pastar por alguns minutos, antes de serem selados novamente e voltarem a cavalgar por muitas mais horas, subindo uma estrada de terra, aparentemente, interminável, deixando a floresta, cruzando uma campina e subindo e descendo um sem número de colinas cada vez maiores, chegando, ao fim do dia, aos pés das montanhas. Lá, escondidos nas sombras de grandes rochas, o grupo descansou, sem barracas, colchões, travesseiros ou cobertores e lençóis, luxos deixados para trás assim como qualquer coisa que pudesse lhes atrasar, e é claro, sem fogueira, todos dormindo no chão rochoso, duro e desconfortável, cobertos apenas por suas próprias roupas. E, ainda assim, o vampiro dormiu tão profundamente como nunca, percebendo enfim o quão exausto estava.
O descanso fora curto, porém, apenas três horas de sono, antes de levantarem-se e já tornarem a montar, tomando o café da manhã durante a cavalgada. O dia que seguiu a este não fora muito diferente: rápidas pausas para descansarem os cavalos, cavalgadas, refeições a sela, pressa motivada pelo medo e uma noite de sono ao ar livre, sobre o chão. Toda a urgência, porém fora compensada no terceiro dia, quando avistaram enfim, o local onde estava a "coisa" de Fernando: uma luxuosa mansão próxima ao topo de uma das montanhas.
A subida à mansão, nada mais do que uma trilha esculpida na face escarpada da Cordilheira Gris, fora surpreendentemente difícil, um caminho inclinado demais, estreito demais para mesmo dois cavaleiros andarem lado a lado, e cheio de pedras soltas e curvas bruscas, com um abismo de centenas de metros de queda até o chão à esquerda, mas, no meio da tarde, o grupo finalmente chegara aos portões que davam ao terreno da mansão, que era protegida por muros altos e grossos. Um par de guardas visivelmente inquietos abriu o portão sem demora ao ouvir, da boca de Octávio, o motivo de sua vinda e do resto do grupo.
Todos deixaram seus cavalos aos cuidados dos criados da mansão, que era exatamente o esperado do retiro de uma pessoa rica cansada da agitação da cidade: um casarão todo de madeira, com muitas janelas, decorações simples, porém belas e um grande jardim. Antes que se aproximassem da porta da casa, porém, Octávio sentiu todos os olhares apreensivos sob si e seus companheiros vindos dos empregados, mordomos, jardineiros, assistentes, criados e dos guardas, que estavam em número reduzido, muitos cobertos de fuligem, sangue e ferimentos, visivelmente cansados de muitas batalhas em defesa a mansão. As portas do casarão repentinamente abriram-se, uma linda mulher humana de cabelos loiros, curvas avantajadas e olhos azuis, usando um bonito vestido vermelho decotado e muitas joias caras, surgiu frente ao vampiro e aos demais, dizendo:
— Finalmente! Vocês fazem ideia pelo que eu passei?! Vocês demoraram!
— Minha boa senhora, nós viemos buscar... — Começou Octávio, até ser interrompido pela mulher, que completou, agitando a mão e desdenhando-o:
— A mim! Eu sei, eu sei, Fernando deve te-los enviado numa "missão super secreta" e, bla, bla, bla... Enfim, vocês vieram por mim, e aqui estou eu. Agora me levem de volta a Dentre-Flume! Não quero passar um segundo a mais sequer neste inferno.
"Ela é realmente linda. Parece uma obra-prima de um grande escultor ou pintor, a reencarnação da mais bela das deusas em Asatna, uma rainha ou princesa", percebeu Octávio, sem conseguir conter o sorriso, que logo ergueu-se numa estrondosa gargalhada. "Mas essa não é a esposa de Fernando".
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